quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

A Carta de Stella Pedrosa para sua irmã Heloisa

Gustavo Maia Gomes
(6/12/2017)


Em 26/10/ 1987, minha mãe, Maria Stella de Araújo Pedrosa (Pedrosa Bahia Maia Gomes, após casar-se com Mauro, em 1942) visitou a casa do Engenho Velho, em Santa Rita, Paraíba, onde havia passado a infância, desde o nascimento, em 1917, até 1925, quando ela, seus pais e irmãos se mudaram para a Usina Uruba, em Atalaia, AL.

Stella e eu trocamos cartas por vários anos (ainda não existiam os recursos modernos de e-mails, Skypes, WhatsApps, Messengers, etc), durante os períodos em que morei em São Paulo (1971-76), nos Estados Unidos (1979-83) e na Inglaterra (1987-88). Conservo comigo essa correspondência, mas minha mãe sempre foi muito econômica e reservada no que escrevia.

A mensagem parcialmente transcrita a seguir, enviada por Stella à sua irmã Heloisa (que morava em Belo Horizonte) em 8/4/1988, quebrou esse padrão. É inusitadamente prolixa e, sobretudo, reveladora de sentimentos que minha mãe não externava com facilidade. Agradeço a Martha, filha de Heloisa, ter presenteado a Ivan e a mim com o original daquela carta. Nela, além de falar sobre a visita à casa de sua infância, Stella detalha informações sobre os ancestrais Kuhn, Quanz, Kruss e Cardoso, que muito ajudaram Heloisa a redigir a memória da família.

Transcrevo o trecho que desejo deixar registrado aqui. Stella com a palavra:

No dia 26 de outubro do ano passado [1987, portanto], estive em “nossa” casa na atual Usina Santana, antigo Engenho Velho (ou Usina Pedrosa). Naquele dia, eu estava com Mauro acampando no Camping Clube João Pessoa. Pedi a Mauro que me levasse lá e ele concordou.

Aquela casa está ligada à minha primeira infância: todas as minhas recordações estão lá, salvo alguma lembrança da casa “da cidade”, onde mamãe esteve para ter seu sétimo filho, que morreu ao nascer. De lá, lembro alguns passeios no Parque Solón de Lucena, por exemplo, e a outra propriedade (não sei qual) que tinha um banho maravilhoso, num riacho de águas límpidas, entre árvores. Lembro também de meu primeiro balão de ar, que era roxo e lindo e que me deixou frustrada ao estourar.

As outras lembranças de minha infância até os sete anos estão naquela casa [do Engenho Velho]. Chegar lá, reconhecê-la e relembrá-la foi a volta a um mundo que está definitivamente no passado. As pessoas que habitavam ali comigo, inclusive eu mesma, são fantasmas, queridos fantasmas de minha infância feliz.


A emoção de reencontrar aquela casa, visitá-la e reconhecer seus recantos, suas salas, foi altamente emocionante e me deu a impressão de estar visitando um palco onde se representou uma peça infantil muitos anos atrás, [uma peça] cujas lembranças continuam vivas e presentes. Foi emocionante.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

O encontro de Groucho Marx com o Barão de Itararé

Gustavo Maia Gomes
(7/11/2017)

(Achei isso e resolvi republicar. Saiu há mais de dois anos, portanto, todos já o terão esquecido. As frases citadas foram, realmente, escritas ou pronunciadas pelos dois personagens da história.)

Apparício Torelly (1895-1971), o Barão de Itararé, foi um humorista brasileiro; Groucho Marx (1890-1977), um comediante norte-americano. Além de viver na mesma época, tinham outras afinidades. Faziam graça inteligente. Não é para qualquer um.
"Entre sem bater", escreveu o Barão na entrada de seu jornal, depois de três ou quatro invasões e depredações promovidas pela polícia de Getúlio Vargas. Já Groucho, saindo de um casamento para entrar em outro, descobriu que "o matrimônio é a principal causa do divórcio".
Imaginei um diálogo entre os dois. Eles conversam um pouco, prometem se ver no dia seguinte. O Barão propõe que se encontrem numa famosa agremiação social de Nova York. Groucho recusa o convite:
– Não frequento clubes que me aceitam como sócio.
"De onde menos se espera, é que não vem nada, mesmo", pensa Torelly, contrariado. Groucho ameniza:
– Estes são meus princípios. Se não gosta deles, tenho outros.
O Barão aceita as desculpas e diz não se sentir muito preso a princípios.
– Vivo cada dia como se fosse o último; um dia, acerto.
– Poderíamos almoçar juntos, sugere Groucho. Há um bom restaurante vegetariano logo ali.
– Você é vegetariano? – quis saber o Barão.
– Não. Eu não sou vegetariano, mas como animais que são.
Enquanto caminham, o comediante confessa que queria muito morar no Brasil. "Mas, como fazer, se meu trabalho é aqui?", pergunta. Torelly o aconselha a continuar lutando:
– Nunca desista do seu sonho. Se acabou numa padaria, procure em outra!
– Pois é, responde Groucho. Eu gostaria de relaxar o dia todo em Copacabana, mas o problema de não fazer nada é você nunca saber quando acabou.
– Eu gosto muito –, diz o Barão. – Na praia, as pessoas cavam buracos. Eu cavo, tu cavas, ele cava, nós cavamos, vós cavais, eles cavam. Não é bonito, nem rima, mas é profundo.
– Inclua-me fora disso –, fala Groucho. – Estou-lhe achando um tanto egoísta.
– Não é o que eu penso –, retruca o Barão.
Groucho Marx trata de explicar:
– Egoísta é toda pessoa que pensa mais nela do que em mim.
Foi a gota d'água. Cancelam o almoço. A mudança para o Brasil fica para nunca. Torelly está decepcionado. Fala baixinho, consigo mesmo:
– O tambor faz muito barulho, mas é vazio por dentro.

(Publicado pela primeira vez no Facebook em 9/9/2015)

Histórias de peixes na Batalha da Borracha

Gustavo Maia Gomes
(9/11/2017)

Samuel Benchimol (1923-2002) foi um empresário, economista, professor emérito da Universidade Federal do Amazonas e escritor. Nasceu e morreu em Manaus, embora também tenha morado, quando criança, em seringais no interior do Acre e do território federal de Guaporé (hoje, Rondônia) – e em Belém.
Escreveu muitos livros. O que estou lendo (“Amazônia: Um pouco-antes e além-depois”, Manaus, 1977) tem um subtítulo estranho, mas, entre outras coisas, traz relatos preciosos sobre a participação dos nordestinos na chamada Batalha da Borracha, durante a Guerra Mundial de 1939-45.
A segunda "Transumância Amazônica"
Essa história é conhecida: para atender as necessidades bélicas e comerciais dos EUA (que já não podiam mais ser supridos de borracha pela Malásia, em face da ocupação japonesa), Getúlio Vargas promoveu, em 1942, em acordo com Franklin Roosevelt, presidente dos Estados Unidos, a reativação dos seringais da Amazônia.
Dava-se como certo que a mão de obra necessária para aumentar a produção sairia, em grande parte, do Nordeste, então sofrendo uma de suas habituais secas. De fato, subsidiados pelo governo brasileiro (mas com aporte financeiro de empresas americanas), os nordestinos viajaram em grande número, desembarcando nos portos do Norte.
Entre 1941 e 1945, teriam entrado em Manaus cerca de 75.000 pessoas vindas de outros Estados, predominantemente, os do Nordeste. (Benchimol, págs. 249-250.) Era a segunda "Transumância Amazônica". A primeira, de que Celso Furtado se ocupa no Cap. 23 da "Formação Econômica do Brasil", teria levado para aquela região, apenas no último quartel do século XIX, cerca de 260 mil nordestinos.
Dos portos, durante a Batalha da Borracha, os imigrantes eram encaminhados a uma “hospedaria”, onde permaneciam alojados, enquanto negociavam a alocação em algum seringal. Muitos, entretanto, preferiram ficar nas cidades.
Foi no porto de Manaus que Benchimol entrevistou dezenas de recém-chegados. Ele manteve detalhados registros dessas conversas que, mais tarde, iriam subsidiar alguns de seus trabalhos acadêmicos. E divulgou suas anotações completas no livro a que fiz referência. Das muitas histórias que conta, selecionei o curioso episódio de uma disputa sobre peixes. Ela está na página 262 do livro citado.
Quem tem mais peixes?
Francisco Silvério vinha de Mossoró (RN), informa o autor de "Amazônia". “Conhece alguma coisa de gado. (...) Diz-se, também, notável pescador. Gabou-se um bocado de suas qualidades e das riquezas inigualáveis que sua terra possui em peixe”. Ouvindo isso, Benchimol resolveu desafiar o imigrante: “Entrei numa discussão com ele dizendo que o Amazonas era muito mais rico nisso e que ele não poderia competir conosco”.
O homem aceitou o desafio: “propôs-me logo que fizéssemos uma prova para ver quem saía ganhando no fim. Cada vez que ele dissesse um peixe do mar eu diria um que eu conhecesse do Amazonas”. O embate começou com Silvério dando os nomes dos peixes de sua terra e Benchimol respondendo em seguida:
– Cavala / Jaraqui; – Camurupim. / Tambaqui; – Carabaiana / Pirarucu; – Cioba / Matrinchão; – Enchova/ Acará.
Neste ponto, o futuro professor reconheceu que estava se “enrascando, pois os nomes não me vinham no momento, ao passo que ele sabia na ponta da língua". Benchimol continua: "Vendo [Silvério] essa superioridade, desfiou logo uma lista: cação de escama, xaréu, jarabebeu, garacimbora, garajuba, crumai, cirigado, ferrero, parum, dentão, pitambu, sargo, sanhoá, vacora, pampo, bicudo...”
Benchimol continua: “Eu estaria desmoralizado e teria perdido a aposta, quando um rapaz que estava ao meu lado socorreu-me; desenfiou também uma numerosa lista de peixes regionais: sardinha, pescada, tainha, curimatã, cascudo, matrinchão, pacu, dourado, pirapitinga, surubim, tamatuá, tucunaré, acaru, acará, jatuarana, peixe-agulha...”
O rapaz que salvou a situação do entrevistador estava entre os imigrantes nordestinos, mas era natural de Javari, Amazonas. Tinha ido para o Ceará, não se acostumara ao local e agora voltava, aproveitando a passagem grátis dada pelo governo. Justificou assim a intervenção:
– Fui em seu auxílio, porque não podia ver a minha terra perder com tanta riqueza.
Na verdade, “a Amazônia reúne cerca de 3.000 espécies de peixes, mas (...) algumas são pouco aproveitadas, por excesso de espinhas, baixa proporção de carne, dificuldade de pesca ou até por falta de hábito da população”. (Site da UOL.)

(Com exceção dessa última, todas as citações foram tiradas de Samuel Benchimol, “Amazônia”. )

Apoio a William Waack

Gustavo Maia Gomes
(10/11/2017)

Todos nós já dissemos privadamente frases que não diríamos em público. Repetimos piadas de português. Imitamos trejeitos de homossexuais. Debochamos da pátria. Desejamos que notórios corruptos ainda não condenados em segunda instância sejam mortos em praça pública.
Nelson Ferreira era negro. No carnaval de 1959, sua música de maior sucesso tinha este refrão: "Dizem que em sessenta nego vai virar macaco". E não parava aí: "Ah, meu deus, que grande confusão. Se for verdade o que diz o profeta, penca de banana vai custar um milhão".
Não, leitor, o grande maestro e compositor pernambucano não tinha preconceito contra sua própria raça. Não, leitor, nem você, nem eu, apenas por termos pronunciado frases inconvenientes, em conversas reservadas, merecemos ser execrados. Não somos xenófobos, nem homofóbicos, nem traidores da Nação, nem nazistas.
William Waack é, acima de tudo, um grande profissional da mídia. Tem livros valiosos publicados. Conduz com rara maestria um programa de debates na TV por assinatura. Não se furta a emitir opinião política forte, quando considera tal manifestação necessária.
Se ele disse, em ambiente fechado, algo que não corresponde às suas convicções, que lhe fosse dada a oportunidade de desculpar-se. O assunto estaria encerrado e continuaríamos todos a desfrutar de sua atuação impecável como entrevistador na TV ou articulista nos jornais.
Tirá-lo de circulação, como se anuncia ter sido feito por seus empregadores, é uma violência incomparavelmente mais condenável do que o pecadilho que ele possa ter cometido. Além de que, para piorar as coisas, a probabilidade maior é que seu substituto (cujo nome desconheço, se já foi escolhido) venha a ser um idiota bem comportado.

Quando todas as posições, não apenas na TV, mas na política, nos esportes, na cultura, nas igrejas, nas agências de viagem, na puta que o pariu, estiverem preenchidas por idiotas bem comportados, alguns de nós lembrarão com saudade de William Waack. Outros, satisfeitos com a própria vitória, trarão de volta Dilma Rousseff e seus discursos à Presidência da República.

A pedra

Gustavo Maia Gomes
(16/11/2017)

– É impossível – disse o ministro de qualquer coisa, após ouvir o presidente expor sua ideia. – Mover o Pão de Açúcar dois metros para o Norte? Impossível.
Foi demitido ali mesmo e obrigado a se retirar. A reunião continuou.
– Uma obra como nenhuma outra, desde a muralha da China ou as pirâmides do Egito. Será a glória. Não a Marina da Glória; a glória! E tem custo incalculável. Ninguém vai poder dizer que houve superfaturamento – justificou o chefe.
Um sussurro geral de concordância se ouviu na sala.
– Sabe quantos estádios poderemos construir para a Copa, no país todo, dizendo terem sido ordens da Fifa? No máximo, doze. E viadutos, elevados, avenidas...? Dez, vinte, trinta? Junte tudo isso e não chega à metade do que gastaremos para mover o Pão de Açúcar.
– Mas, Excelência, como vamos justificar a obra? – arriscou-se a perguntar um ministro remanescente.
– Ainda nem pensei nisso. É problema do marqueteiro. Deve dizer que ela beneficia o povo humilde, sempre esquecido pelos governos da elite.
Outro ministro, desapegado ao cargo, resolveu bater na mesma tecla do que fora demitido meia hora antes:
– Mover uma pedra daquele tamanho não deve ser tarefa fácil, nem para os melhores engenheiros.
Ao invés de trucidar o segundo Tomé, o presidente explicou.
– Não vamos mover Pão de Açúcar nenhum. Vamos fazer o povo acreditar que o deslocamos dois metros para a esquerda. Isso basta. As empreiteiras adorarão. Nós ficaremos mais ricos.
Desta vez, a reação dos outros ministros foi de perplexidade. Como assim? Como assim? O chefe prosseguiu:
– Começaremos construindo um grande tapume em volta da pedra, deixando espaço suficiente para estacionar, dentro do cercado, cinquenta caminhões. Toda madrugada, esses caminhões, carregados de detritos, serão discretamente levados para o local da obra. Durante o dia, com cobertura da imprensa, sairão dali, um a cada quinze minutos. Toda gente vai pensar que uma grande obra está sendo feita no local.
O ministro descrente, porém, àquela altura, seguro de que não perderia o cargo, levantou outra dúvida:
– Mas, o povo verá que a montanha não se moveu coisa nenhuma.
– Engano seu – continuou o presidente. – Uma vez por semana, o tapume será movido dez centímetros para a direita. Antes de seis meses, a viagem da pedra se terá completado. Publicaremos as fotos do tapume com a montanha por trás, antes e depois, mostrando que o Pão de Açúcar andou mesmo.

Era um plano perfeito. Desconheço por que não vingou. Ao invés, construíram-se os doze estádios, viadutos, avenidas. De qualquer modo, a ideia foi a mesma. Os resultados, também.

Tarde demais

Gustavo Maia Gomes
(21/11/2017)

Descobri isso no jornal O Estado do Pará (10/1/1916). Lourdes Barbosa, seus irmãos e outros parentes reconhecerão os nomes citados no recorte. Francelino foi bisavô (na ascendência materna) de minha mulher.

Se eu tivesse sabido em tempo, teria comparecido ao funeral.


Descobrindo parentes pela Internet

Gustavo Maia Gomes
(27/11/17)

No meu livro “O Trem para Branquinha” há um capítulo sobre Leonardo Kuhn (1830-1903), suíço imigrado para o Recife em ano próximo a 1850 e que residiria o resto da vida nesta cidade, embora, provavelmente, tenha morrido em Santa Rita (PB), onde sua filha Maria Margarida, minha bisavó, possuía um engenho – depois, usina – de açúcar.
Leonardo e sua mulher, também chamada Maria Margarida, tiveram dois filhos: minha bisavó (1864-1947), que se casou com o primeiro Manoel Sebastião de Araújo Pedrosa (1853-1906), e Cornelio Otto Kuhn (1872-1946), que estudou engenharia no Rio de Janeiro e seguiu carreira militar. Na então Capital da República, Cornelio viveu toda a vida adulta, embora tenha tido passagens (a trabalho) pela Paraíba na década de 1920.
Como engenheiro, Cornelio foi um dos responsáveis pela construção do Forte de Copacabana, conforme comprovam inúmeras notícias dos jornais da época, como a que anexei à presente postagem. A foto e respectiva matéria saíram na “Gazeta de Notícias” (RJ), em 3/3/1916, pág. 1.
Eu não tinha sequer pistas dos Kuhn das gerações mais novas, até ser contatado por um deles, neto de Cornelio, na semana passada. Guilherme Otto Kuhn é engenheiro e (não tenho certeza disso, mas é prováavel) mora no Rio de Janeiro. Ele me descobriu pelo artigo sobre seu bisavô Leonardo Kuhn, que publiquei em meu blog em 6/3/2016. Mais um motivo para o meu agradecimento aos modernos meios de comunicação.
Guilherme me passou as informações seguintes, apenas poucas das quais eu já sabia. Cornelio Otto Kuhn casou-se com Maria Luiza. Tiveram quatro filhos: (1) Edith, que se casou com Clovis Pedrosa (meu parente, pelo lado de meu bisavô materno Manoel Sebastião); (2) Leonardo, engenheiro, que se casou com Isaura; (3) Maria Luíza, que permaneceu solteira; e (4) Dagoberto, arquiteto, que se casou com Neusa, bibliotecária. Esses dois foram os pais de Guilherme Otto.

Neusa, de acordo com seu filho, faleceu recentemente, aos 97 anos. Era bibliotecária e inteligentíssima. Falava cinco idiomas. Dos quatro descendentes diretos de Cornelio Otto Kuhn, somente Dagoberto teve filhos (Judith, Guilherme Otto, Inês e Luciano). Os netos de Dagoberto são seis e, até onde pude saber, moram todos no Rio de Janeiro.

Fazenda Mariangá, cinquenta anos depois

Gustavo Maia Gomes
(28/11/2017)

Encontrei fotografias (precariamente feitas e mal conservadas) de uma tarde na Fazenda Mariangá, em Barra de Santo Antonio, AL, à época, propriedade de Álvaro Batinga da Rocha Cavalcante. Era janeiro de 1968, quase meio século atrás, portanto. Álvaro -- grande, embora controversa, figura -- foi casado com Valentina Pedrosa, irmã de mamãe.
Aparecem nas fotos STELLA (minha mãe), LEA (casada com Francisco de Araújo Pedrosa, irmão de Stella) e, de costas, OLGA, minha avó, mãe de Stella, Francisco, Valentina e de mais três filhos. Todas as três já faleceram. Uma quarta pessoa, também de costas, poderia ser NOÊMIA, casada com Hermano, outro irmão de mamãe. Mas, não posso garantir.
Da geração mais jovem, aparecem SALETE, ALFREDO (filhos de Maria, irmã mais velha de mamãe), MARIA APARECIDA (então, cunhada de Salete) e BERNADETE, filha de Francisco e Lea. Eu também estava lá, mas era o fotógrafo, de modo que não fui retratado.
Bons tempos aqueles, concordarão Maria Salete PedrosaMarcus Antonio Pedrosa Ferreira, Alfredo Pedrosa, Ivan Pedrosa Maia GomesMaria Bernadete Pedrosa Pereira e (embora, se já tivesse nascido, ainda fosse um bebê) Demetrio Neto.


Casa sede da Fazenda Mariangá, de Álvaro Batinga da Rocha Cavalcante. Barra de Santo Antônio, Alagoas, janeiro de 1968. (Foto Gustavo Maia Gomes)
Lea Prazeres Pedrosa (de frente), Stela Pedrosa (vestida de branco, sentada no banco de cimento) e Olga Cardoso Pedrosa (de costas, sentada na poltrona à esquerda da foto). A outra pessoa, no centro da foto, poderia ser Noêmia, primeira mulher de meu tio Hermano. Fazenda Mariangá, Barra de Santo Antônio, Alagoas, janeiro de 1968. (Foto Gustavo Maia Gomes)
Bernadete Pedrosa. (Ao fundo, Alfredo.) Fazenda Mariangá, Barra de Santo Antônio, Alagoas, janeiro de 1968. (Foto Gustavo Maia Gomes)
Alfredo e Salete Pedrosa. Fazenda Mariangá, Barra de Santo Antônio, Alagoas, janeiro de 1968. (Foto Gustavo Maia Gomes)


Maria Aparecida Rodrigues (cunhada de Salete). Fazenda Mariangá, Barra de Santo Antônio, Alagoas, janeiro de 1968. (Foto Gustavo Maia Gomes)

O velho Manoel Sebastião (Caminhando pelo bairro da Boa Vista, Recife)

Gustavo Maia Gomes
(28/11/2017)

Manoel Sebastião de Araújo Pedrosa (1853-1906), 
meu bisavô.

Maria Margarida Kuhn (Pedrosa por casamento) 
e seu marido Manoel Sebastião de 
Araújo Pedrosa, anos 1890

Praça Maciel Pinheiro, bairro da Boa Vista, Recife. 
(Foto Gustavo Maia Gomes, 28/11/2017)


Sobrado onde residiu a escritora Clarice Lispector. 
Embora esteja deteriorado, a Prefeitura do Recife anunciou, 
recentemente, que irá recuperá-lo. 
Praça Maciel Pinheiro, bairro da Boa Vista, 
Recife. (Foto Gustavo Maia Gomes, 28/11/2017)

Praça Maciel Pinheiro, bairro da Boa Vista, Recife. 
(Foto Gustavo Maia Gomes, 28/11/2017). 
Ao fundo, a igreja matriz da Boa Vista.
 Manoel Sebastião de Araújo Pedrosa (1853-1906) foi meu bisavô. De origem muito pobre, conseguiu superar os obstáculos com esforço próprio e a ajuda, nos primeiros tempos, dos seus parentes Cunha Pedrosa, de São Vicente Ferrer (PE). Morreu, se não rico, em boa situação patrimonial e de renda. Feliz? Não sei. Era introspectivo ao extremo; no fim da vida, teve problemas mentais graves.
Os Cunha Pedrosa de São Vicente, tampouco, eram ricos, mas tinham condição financeira muito melhor que a de Manoel Sebastião. Além disso, eram aplicados e deviam ser inteligentes; alguns deles se destacaram, como Francisco Raimundo (1847-1936, o "monsenhor Pedrosa", de Escada, PE), Pedro (1863-1947), que viria a ser senador da República, e o filho deste, Mario Pedrosa (1900-81). Sim, Mario Pedrosa, o próprio, intelectual e militante político de nome internacional.
Manoel no Recife
Meu bisavô veio para o Recife em 1872. Estudou na Escola Normal (1872-74), fundou o renomado Colégio Onze de Agosto (1880) e, num feito notável, considerando suas condições financeiras, formou-se em Direito (1883). Mas, mesmo bacharel, continuou como professor e dono de colégio. Em 1888, casou-se com Maria Margarida Kuhn (1864-1947), filha do suíço emigrado Leonardo Kuhn (c.1853-c.1906).
No final de 1899, Manoel Sebastião -- com sua mulher e dois filhos (meu avô, de nome igual ao do pai, e Antonio Leonardo) -- deu uma guinada: vendeu o Onze de Agosto e comprou o Engenho Velho, em Santa Rita, Paraíba. De professor, transformou-se em agricultor e industrial.
Morreria menos de sete anos depois, em 1906, internado no Hospital de Alienados da Tamarineira (Recife). Ao longo da vida, de todo modo, havia feito uma importante travessia, que lhe permitiu legar aos filhos, netos e bisnetos, condições iniciais muito melhores que as dele próprio.
Na Boa Vista, o bairro
Nos seus anos recifenses (1872-1899), Manoel Sebastião viveu sempre na Boa Vista. Frequentava a igreja do bairro, era membro da Irmandade do Santíssimo Sacramento da Boa Vista. Seu Colégio, onde ele também residia com a família, ficava na Rua da Glória, n. 125. No mesmo bairro.
Ontem (28/11), eu procurei refazer os caminhos do velho Manoel Sebastião. Entrei na igreja da Boa Vista (1874), passei pela praça Maciel Pinheiro (com outro nome, inaugurada em 1876), pelo Pátio e Igreja de Santa Cruz (1732), Mercado da Boa Vista (1822) e, naturalmente, pela rua onde ele morou e teve seu negócio educacional.
Igreja e Pátio de Santa Cruz, bairro da Boa Vista, Recife. 
(Foto Gustavo Maia Gomes, 28/11/2017)
Não existe mais um número 125 na Rua da Glória. A numeração deve ter sido alterada. Tirei fotos de casarões próximos àquela altura. Um deles pode ter sido o lugar onde Manoel Sebastião viveu e ensinou. Também fotografei o casarão em que residiu, por um tempo, a escritora Clarice Lispector (1920-77). Mas isso foi muitos anos depois de meu bisavô ter passado por lá.
Mercado da Boa Vista, Recife. 
(Foto Gustavo Maia Gomes, 28/11/2017)
Rua da Glória, vista parcial. 
Bairro da Boa Vista, Recife. 
(Foto Gustavo Maia Gomes, 28/11/2017)
Um dos casarões (na Rua da Glória, com numeração ímpar e próxima a 125) que poderiam ter sido a sede do Colégio Onze de Agosto, assim como a residência de Manoel Sebastião de Araújo Pedrosa, de sua mulher, Maria Margarida Kuhn, e de seus dois filhos homens, Manoel Sebastião e Antonio Leonardo. (Foto Gustavo Maia Gomes, 28/11/2017)

Entrevista

Gustavo Maia Gomes
(29/11/2017)

A Radio CBN, que toca notícias nos quinze minutos diários não dedicados ao futebol, apresentou no programa Futebol & Futebol, entrevista com Roscofe Tropofe, técnico de futebol, cuja equipe vai enfrentar a seleção de futebol da Coreia do Norte daqui a dezoito lançamentos de foguetes.
Roscofe disse ter uma estratégia estratégica para vencer o jogo: "escalei os esquerdistas pela esquerda, os direitistas pela direita e o goleiro no centro." Se isso tudo não for suficiente, o clube comprará o juiz, os bandeirinhas e o moço que mexe no placar. "Estou confiante", completou.

Eu gosto muito de ouvir a Radio CBN, aquela que toca notícias nos quinze minutos diários não dedicados ao futebol.

A maldição da cigana


Gustavo Maia Gomes
(30/11/2017)

Capa do livro de Marília Calheiros Guerra, 
neta de José Maia Gomes.
Nas suas memórias, Marília Calheiros Guerra conta que, em 1932, um bando de ciganos se chegou à principal fazenda do coronel e usineiro José Maia Gomes (1874-1946), em Alagoas. Não era a primeira vez, nem seria a última.
O velho não gostava daquela gente. Deu ordens para que os ciganos fossem expulsos. Foi afrontado pela mulher mais velha do grupo: “Homem orgulhoso, desalmado, um dia verá tudo isso ir por água abaixo. Perderá tudo, não ficará com um punhado dessa terra, um dia isso há de acontecer”.
José Maia Gomes, de quem Marília Maia Gomes Calheiros (o nome de solteira da memorialista) era neta, foi meu tio-avô.
"Coincidência ou não [foi o que aconteceu]. As terras foram saindo das mãos dos descendentes do coronel. Após sua morte, os filhos levaram, por algum tempo, a usina [Campo Verde] adiante. [O tio Manuel Maia Gomes] tentou evitar a falência, mas, não o conseguindo, concordou em entregar a usina ao Banco do Brasil para pagar as dívidas”.
No auge de sua vida econômica, José Maia Gomes chegou a possuir terras que se estendiam pelos municípios de Branquinha, Murici e União dos Palmares, na zona canavieira de Alagoas. Ao morrer, deixou três propriedades para cada um dos sete filhos. Marília continua:
“Uns preferiram vendê-las, outros nelas trabalharam por algum tempo (plantando cana para outras usinas). A última delas, a “Guanabara”, que coubera a tia Nadir e seu esposo Luís Gomes, foi dividida entre os irmãos Beroaldo [Maia Gomes Rego] e Amauri, após o falecimento dos pais. A do primeiro foi vendida para saldar compromissos; a do segundo, após sua morte e da esposa, ficou com a família desta, por falta de filhos do casal”.
“E assim”, concluiu Marília Guerra, que morava no Recife, mas cujas férias de criança e adolescente eram sempre passadas nas propriedades do avô, “o último palmo de terra, da boa e generosa terra da [usina] Campo Verde deixou de pertencer aos Maia Gomes”.
A maldição da cigana havia se realizado.

(Citações de Marília Calheiros Guerra, Retalhos do Passado. Recife, Ed. Autor, 2007, págs. 172-74.)
A velha estação ferroviária de Branquinha. 
Já desativada, à época da foto, desapareceu 
completamente em 2010, destruída 
pela enchente do Rio Mundaú. 
(Foto colhida na internet, site Estações Ferroviárias.)

O Rio de Janeiro no memorável ano de 1922

Gustavo Maia Gomes
(1/12/2017)

A foto célebre da marcha dos “18 do Forte” pela Avenida Atlântica, Copacabana, Rio de Janeiro, 6/7/1922. Aparecem os tenentes Eduardo Gomes, Siqueira Campos e Newton Prado, acompanhados do civil Otávio Correia. Foto trazida de O Globo. Em https://oglobo.globo.com/cultura/livros/tenentes-em-marcha-movimento-que-sacudiu-brasil-nos-anos-1920-19860860#ixzz50269cTCt

Recebi há três dias, e a li com enorme interesse, a memória familiar escrita em 2011 pela prima distante Judith, bisneta de Leonardo Kuhn (1830-1903, meu trisavô), neta de Cornelio Otto, filha de Dagoberto.
Todos, inclusive Judith – que mora no Rio de Janeiro, como o fizeram seu pai e seu avô –, conservaram o sobrenome Kuhn, trazido da Suíça para o Recife por Leonardo, em ano próximo a 1850. Um documento precioso, o da prima carioca, cuja leitura me estimulou a escrever o texto abaixo.
Em 1922, um ano para não ser esquecido, aconteceram a revolta tenentista (ou “Os 18 do Forte de Copacabana”), a Semana de Arte Moderna (em São Paulo), as fundações do Partido Comunista Brasileiro e do Centro Dom Vital (influente associação de pensadores católicos), o centenário da Independência, e a tumultuada sucessão de Epitácio Pessoa (presidente da República de 28/7/1919 a 15/11/1922) por Arthur Bernardes (15/11/1922 a 15/11/1926).
Quatro personagens dos livros “Um Trem para Branquinha” (já entregue à editora, com publicação prevista para o primeiro trimestre de 2018) e “Uma Noite em Anhumas” (ainda sendo escrito), todos parentes meus, cruzaram suas histórias com os acontecimentos de 1922, no Brasil e, especialmente, no Rio de Janeiro. Foram eles:
(1) O padre Francisco Raimundo da Cunha Pedrosa (1847-1936), vigário de Escada (PE), cuja carta (tornada pública, com ampla repercussão) ao seu amigo e presidente Epitácio Pessoa reclamando contra a interferência do governo federal na sucessão do governo de Pernambuco foi um dos fatores que deflagaram a punição do marechal Hermes da Fonseca (então presidente do Clube Militar) e a subsequente revolta tenentista de 1922.
(2) O seu irmão senador Pedro da Cunha Pedrosa (1863-1947), apoiador incondicional de Epitácio, de quem era uma espécie de líder informal, e que presidiu o Senado Federal naqueles dois dias fatídicos (5 e 6/7/1922) da Revolta Tenentista, quando a maioria dos senadores preferiu ficar em casa aguardando quem sairia vitorioso do confronto, se o governo ou os tenentes sublevados, para, então, se alinhar com o lado vencedor.
(3) O engenheiro militar Cornélio Otto Kuhn (1872-1946). Sua participação foi indireta: ele havia sido um dos responsáveis pela construção do Forte de Copacabana (inaugurado em 1914), em cujas dependências, ainda hoje, há uma placa com o seu nome e o dos outros quatro integrantes da comissão responsável pelas obras.
(4) O também engenheiro militar Antonio Leonardo de Araújo Pedrosa (1895-1965), sobrinho de Cornélio, que participou do levante tenentista (permaneceu no Forte de Copacabana, durante a revolta), tendo sido, inclusive, preso após o malogro do movimento.
O episódio dos 18 do Forte de Copacabana marcou o clímax da revolta tenentista de 1922. Outras revoltas se seguiriam: a de 1924, em São Paulo e no Rio Grande do Sul; a Coluna Prestes de 1925-27, e, finalmente, a Revolução de 1930, que derrubou a Primeira República e levou Getúlio Vargas ao poder.

As fotos anexas dão uma ideia de como era o Rio de Janeiro (mais precisamente, Copacabana) nos anos próximos a 1922. Dos quatro personagens referidos acima, somente o padre Francisco Raimundo não residia na então Capital Federal, na época dos acontecimentos aqui focados.
Fachada do Forte de Copacabana nos anos 1920. Em Portal Duo, http://portalduo.com/forte-de-copacabana-reserva-visita-a-historia-e-vista-privilegiada-das-praias/ .

Banhistas em Copacabana, 1924. Foto colhida no Blog Copacabana em Foco. https://ama2345decopacabana.wordpress.com/planejamento-urbano/processo-de-urbanizacao-em-copacabana/
Anos 1920: o Hotel Copacabana Palace (erigido entre 1919 e 1923, a pedido do presidente Epitácio Pessoa) era, quase, a única construção naquele trecho da praia. Fotografia trazida das memórias de Judith Kuhn (2011).

Hotel Copacabana Palace na década de vinte. Note-se a existência de um pequeno morro ao lado direito do hotel. Ele viria a ser posto abaixo alguns anos depois, para a construção da piscina. (Foto colhida no Blog Um Postal por Dia, https://umpostalpordia.wordpress.com/tag/anos-20/)