Se um dia eu vier a escrever um livro de memórias, ele se chamará O Trem para Branquinha. Que trem? Que Branquinha?
 |
A estação de Branquinha em 2007. Foto Claudio Vitoriano, em www.estacoesferroviarias.com.br |
 |
Ivan espera o trem que não virá na estação que já não existe. Foto Gustavo Maia Gomes (8/2/2014) |
Originalmente,
um distrito de Murici, na região canavieira de Alagoas, Branquinha tornou-se
município em 1962. Era para onde eu ia, viajando de trem, passar as férias, na minha
infância. Hoje, quem mora ali tem apenas vagas lembranças das fazendas que
ficavam ao redor: Monte Verde, do avô Nominando; Campo Verde, do tio Jovino; Três
Paus; Guanabara; Cocho d’Água...
Inexpressiva,
a cidade só é lembrada nas ocasiões em que alguma coisa muito ruim acontece. Como
em 2010, quando uma parte dela sucumbiu à fúria do Mundaú. Foi a maior cheia
que o rio já teve. As águas derrubaram a estação de trens, construção mais importante
que havia em Branquinha.
Importância
histórica, diga-se, pois o lugar deve sua existência ao trem. Devia. Já nada resta
da estação; nem das duas ruas que faziam o vilarejo, nas cercanias de onde os
vagões paravam. Estive lá, este fim de semana, com meu irmão, Ivan. Constatamos
o óbvio: o que o trem havia trazido, a cheia levara. Mas havia coisa pior.
Diálogos branquinhenses
No antigo
coração de Branquinha, naquela manhã de sábado, sete jovens estavam reunidos fazendo
nada.
– “Vocês trabalham
na cana?”, perguntei-lhes.
– “Não há
mais cana aqui”, respondeu um deles.
– Então, o
que fazem?
– Nada.
Quando aparece algum serviço, a gente faz, mas é raro.
O que nos
pareceu um escândalo, a Ivan e a mim, não preocupava os jovens. Por quê?
– “Tem Bolsa
Família?”, indaguei ao mais velho.
– Não.
– Mas,
alguém em sua casa tem?
– Tem, sim.
Fiz a mesma
pergunta a cada um dos outros seis. Só um deles não tinha a bolsa. Estava um
pouco mais bem vestido. Talvez fosse filho do prefeito ou de um vereador. Conclui
que, para os branquinhenses, o Bolsa Família tornou-se um projeto de vida. Pelo
menos, para os que não podem sonhar em disputar a eleição.
Lembranças de uma cidade
Não nasci em
Branquinha, mas foi por pouco. Meu irmão mais velho, Ivan, sim. 1943. Algum
tempo depois, nossos pais, Mauro e Stella, mudaram-se para o Recife. Ao perder
a esperança na possibilidade de criar sua família plantando cana-de-açúcar e,
uma coisa levando à outra, ao trocar o campo pela cidade – onde buscaria um
emprego público, a prática da advocacia ou, como acabou acontecendo, ambas as
coisas –, Mauro escrevia sua versão particular de uma história comum a tantos
contemporâneos.
Eram
demasiados os herdeiros de terras na região do açúcar, não apenas de Alagoas,
mas do Nordeste, e a cana não sustentaria a todos. Por isso, muitos saíam. Os
que ficavam – os proprietários maiores e os usineiros – iam levando a vida,
ricos, alguns, em termos relativos; endividados, todos, muito além das
possibilidades reais de seus negócios. Felizmente, para uns e para outros,
havia o governo, com os empregos; a Faculdade de Direito do Recife, com os
diplomas; e o Banco do Brasil, com os financiamentos, frequentemente,
renegociados.
Tendo perdido a oportunidade de nascer em Branquinha, vim a
fazê-lo no Recife, em 1947. Deste ano até, pelo menos, à primeira metade dos
anos 1960, passar férias em
Monte Verde tornou-se minha rotina. Em regra, viajávamos –
Mauro, Stella, Ivan e eu – no trem da Great Western, depois Rede Ferroviária do
Nordeste; mas, às vezes, íamos de avião até Maceió, onde viviam o avô paterno Nominando
e minha avó materna, Olga, além de tios e primos, e de lá, depois de alguns
dias, embarcávamos no trem para Branquinha. Quando viajava em dezembro, eu, no
caminho, sonhava com os cajus da fazenda. Ainda hoje sonho com cajus, embora
tenha experimentado coisas muito mais gostosas, desde que deixei de ser
criança. Essa era a Branquinha.
E o trem?
Até 1954, as locomotivas eram marias-fumaças, movidas a lenha e vapor;
depois desse ano, apareceram as máquinas diesel. A duração da viagem do Recife
a Maceió, quando não havia atrasos, encurtou-se de doze para dez horas; do
Recife a Branquinha, passamos a gastar já não dez, porém oito horas. Viajávamos
na única parte do trem onde se podia reservar assentos, um vagão exclusivo. Primeira
classe. Não era grande coisa, claro, mas, para os trens, também vale o que alguém
disse sobre os aviões: neles, só há duas classes. A primeira e a última.
As estações tinham nomes marcantes: Boa Viagem, Pontezinha,
Escada, Paquevira, Catende, Maraial, São José da Lage, Branquinha, Nicho, Murici,
União dos Palmares, Bebedouro. Nelas, podíamos comprar laranjas, doces, alfenins,
cavacos, rodelas de cana. Em Branquinha, o trem descarregava diariamente sacos
de sururu e pacotes de jornais vindos de Maceió. Mas o melhor da viagem era
quando íamos ao vagão-restaurante tomar um guaraná Champagne e comer alguma
coisa. Também me lembro do banheiro – quero dizer, da latrina – que se
comunicava diretamente com o mundo exterior, pois era aberta embaixo do assento
e não devia ser usada quando os trens estivessem parados nas estações. (Eu
ficava pensando nos sobressaltos que as pessoas em terra sentiriam, se os
aviões adotassem o mesmo sistema.) Esse era o trem.
Tenho, certamente, muitas outras lembranças, boas e más, de outras
épocas e lugares. Mas, por alguma razão, o trem para Branquinha ganhou um lugar
especial em minha memória. Pode ter sido por causa do guaraná Champagne, dos
cajus de Monte Verde, das laranjas de Maraial, ou da impressão que me causava
ir deixando o cocô ao longo do caminho. Às vezes, espalhado em quilômetros.
Gustavo Maia Gomes
(10/2/14)
(Uma
parte deste texto foi publicada em 2010, na revista Nordeste Econômico. O autor, Mauro Bahia, cedeu-me os direitos da republicação.
Na verdade, tratou-se de uma transação interna, se é que me entendem.)