terça-feira, 2 de abril de 2019

ACHADOS E PERDIDOS

Gustavo Maia Gomes
Serra do Pirauá, PE e PB, 23-2-2019
Terminada a sessão, um corpo sem cabeça e uma cabeça sem corpo foram achados. Perdido para sempre, o último pensamento de Luís 16 deve ter sido: “sei não, mas alguma coisa parece ter acontecido ao meu pescoço“.
Em frangalhos, Benito Mussolini foi achado pelos seus perseguidores. A caminho da execução, perguntou à amante Clara Petacci: “sabes onde deixei meu gel para o cabelo? Está perdido.”
— Achou a corda? perguntou um. — Achei, disse o outro. Foi quando Saddam Hussein compreendeu que iriam enforcá-lo. Sua última esperança, a corda perdida, estava agora ali, à sua frente.
Nicolae e Helena Ceauşescu achavam tudo o que queriam. Na crise, eles reuniram o povo para mostrar que mandavam. Um dia depois, foram mortos por balas perdidas, que nem perdidas eram.
Consta que a mãe de Nicolás Maduro chamou-o à sua presença. Perguntou-lhe se ele já tinha achado uma rota de fuga. — Não irei fugir, retrucou. — Estás perdido, disse-lhe a mulher.

(Publicado no Facebook, 23-2-2019)

DOIS NA SERRA

Gustavo Maia Gomes
Entre os Alpes suíços e a Serra do Pirauá (a 130 km do Recife), Lourdes Barbosa e eu preferimos a segunda. Pelo menos, no fim de semana terminado hoje. Já tínhamos estado lá duas vezes. Esta não será a última.
Na região nasceu ou morou a ancestral mais antiga que pude identificar: Maria Madalena da Silva (1811-99). Ela e o filho (o marido, se existiu, desapareceu pelas brechas da história) Manoel Sebastião de Araújo Pedrosa (1853-1906), meu bisavô.
Além do padre Francisco Raimundo da Cunha Pedrosa e seu irmão Pedro, que viria a ser senador federal pela Paraíba. Este último, pai de Mario Pedrosa (nascido em Timbaúba, cidade pernambucana próxima), crítico de artes de renome internacional. Comunista e inspirador do PT, imaginem.
O arruado de Pirauá tem dupla estadualidade. Divide-o uma rua. De um lado, Macaparana (PE), de outro, Natuba (PB). Há um restaurante bom, afastado do centro, e um hotel satisfatório, embora (pela sua arquitetura urbana) em desarmonia com o potencial turístico do lugar, atrativo como serra (650 metros de altitude, mais do que em Gravatá, no Agreste pernambucano), não como cidade.
A altitude garante cinco ou seis graus a menos de temperatura em relação ao tórrido Recife. À noite, faz frio. Desfrutamos de seus vinte graus — dezoito, com a brisa. A serra também cria amplidão de vistas: adoramos contemplar as paisagens deslumbrantes.
Ainda não existe movimento turístico apreciável em Pirauá. O restaurante enorme teve apenas dois clientes (adivinha quem) no jantar da sexta-feira e no almoço do sábado. O hotel de bom tamanho, da mesma forma, só teve nós dois como hóspedes no fim de semana.
A fábrica de queijos estava fechada, a feira terminou antes de percebermos que ela havia começado, a belíssima formação rochosa conhecida como Pedra do Bico tem acesso difícil e mal sinalizado. Em matéria de transformar aquelas paragens em ponto turístico, tudo está por fazer.
Em resumo: foi ótimo!
(Publicado no Facebook, 24-2-2019)

SERRA DAS FLORES

Gustavo Maia Gomes
Se estiver no campo ou na montanha, desça do carro. Ande a pé. Descalço. Pergunte a quem passar... (cruzou a estrada um calango): Faz frio? Vai chover? Uma cachacinha? Um tô-fraco pra vender? Um ganso? Galinhas? Respire a bosta cheirosa de bois e vacas. Olhe as montanhas. Veja as flores. Sobretudo, as miudinhas, invisíveis de longe. De volta pra casa, ponha na vitrola aquele disco de Luiz Gonzaga.
Quem é rico anda em burrico
Quem é pobre anda a pé
Mas o pobre vê nas estradas
O orvalho beijando a flor
Vê de perto o galo campina
Que quando canta muda de cor
Vai molhando os pés no riacho
Que água fresca, nosso Senhor
Vai olhando coisas a granel
Coisas que, "pra mode" ver
O cristão tem que andar a pé

(Publicada no Facebook, 25-2-2019)

LAURENTINO TREME-TERRA

Gustavo Maia Gomes

Ano provável, 1850, pouco mais, pouco menos. O local, Maragogi, belíssima praia, hoje um ponto turístico no Litoral Norte de Alagoas. Ali aparece um homem estranho, que desconhece o próprio nome, ignora de onde veio, não tem ideia de para onde estava indo.
Se tem parentes, ninguém sabe, nem os viu. “Provavelmente seria português” – relata o tetraneto Arnoldo Gomes de Barros, “pois dizia-se jocosamente que ele chegara à praia dentro de uma barrica de bacalhau e bacalhau é coisa de português”.
Cedo, o amnésico evidencia que veio para ficar. O povo de Maragogi inventa-lhe o nome de Laurentino Gomes de Barros. Aos poucos, ele vai se recuperando. Mostra-se tão brabo que ganha a alcunha de Treme-Terra. Laurentino Treme-Terra. Apesar disso, passados alguns meses, ainda sem confessar ou saber quem era ou tinha sido, ou como e porque chegara ali, já vivia uma vida normal.
“Fico pensando que tipo de homem seria meu tetravô e porque escondeu a sua identidade”, reflete o médico Arnoldo Gomes de Barros, que mora e trabalha em Maceió. “Não seria um bandido, pois não há história que desabone a sua conduta. Certamente fugia de alguém, de algo ou de si mesmo”.
De qualquer modo, Laurentino Treme-Terra ganhou aceitação local, tanto que se casou com a filha de um fazendeiro da terra, cujos nomes – o do fazendeiro e o da filha – parece terem sido perdidos na memória familiar. Desse casamento nasceu Carlinda Gomes de Barros, que viria a ser a mulher de Luís Ferreira da Silva Rego. Carlinda e Luís ficaram conhecidos entre seus descendentes como Mãe Nenê e Pai Lulu.
“Mãe Nenê era brava; Pai Lulu, suave. Os filhos do casal receberam o sobrenome Gomes da Silva Rego, com exceção do meu avô que, por se parecer com o avô dele, foi chamado Laurentino Gomes de Barros. Era branco sanguíneo, os olhos de um azul intenso; tinha vasta cabeleira branca, altura mediana e porte esguio”, diz Arnoldo Gomes de Barros.
Prossegue o médico: “Meu avô Laurentino Gomes de Barros [1881-1958] casou-se com Amália Maia Gomes e, juntamente com o sogro, Manoel Gomes dos Santos, e com os cunhados, fundou a Usina Campo Verde [em Branquinha, 1920]".
Por desavenças com os cunhados, Laurentino desligou-se da sociedade [c.1934]. "Morou em Matriz de Camaragibe, estabeleceu-se no Engenho Amapá, em Colônia de Leopoldina. Então, mudou-se para a Fazenda Riachão, na atual Joaquim Gomes, onde fundou a Usina Santa Amália [em 1943]”.
Branquinha, Matriz do Camaragibe, Colônia Leopoldina e Joaquim Gomes, são todas cidades alagoanas da mesma região canavieira ao Norte do Estado. Além de empresário, Laurentino Gomes de Barros foi vereador em Passo do Camaragibe (AL) e prefeito da cidade alagoana de Leopoldina (1936).
Muitos descendentes seus e de Amália Maia Gomes se destacariam na política alagoana, como os filhos Antônio, Mario e Carlos, deputados estaduais e federais, e o neto Manoel (deputado estadual, prefeito de União dos Palmares, 1977-82, e governador, 1997-99). E também nas áreas empresarial (Geraldo), médica (Arnoldo), jornalística (Luís Alípio) e jurídica (Humberto, que chegou a ser presidente do Superior Tribunal de Justiça, em 2008). Todos, com o sobrenome Gomes de Barros.
Se pudesse saber disso tudo em seu tempo de vida, talvez Laurentino Treme-Terra tivesse chegado a Maragogi uns dois anos antes.

(Publicado no Facebook, 
27-2-2019)

ASSASSINATOS DE CEM BOIS

Gustavo Maia Gomes
Impressiona a quantidade de matanças registradas na crônica política pernambucana dos últimos anos imperiais e primeiros republicanos. Sem contar as menores, identifiquei seis, cujos nomes correspondem ao local onde ocorreram. São as “hecatombes” da Vitória (1880), de São José (1884), da Inveja (1884), de Jatobá (1886), de Garanhuns (1917) e de Belmonte (1922).
Das matanças, apenas uma ocorreu no Recife (a de São José, nome da igreja em que houve o tiroteio). Todas as demais se deram no Interior, onde as diferenças políticas eram mais frequentemente resolvidas a bala. Com raras exceções, as disputas, nessa época, contrapunham proprietários a proprietários, barões a barões, coronéis a coronéis, a gente comum delas participando apenas como pistoleiros, capangas, jagunços ou forças policiais regulares.
Hecatombe, informa o Dicionário Online de Português, é um substantivo feminino com os significados de “massacre de muitas pessoas, chacina ou matança; desastre ou catástrofe em proporções gigantescas; calamidade; assassinato de cem bois (na Antiguidade)”. Em somente um dos casos acima se disse que os mortos chegaram a cem. E não foram bois, mas gente. Para os matadores, essa distinção tinha pouca importância.
(Publicado no Facebbok, 2-3-2019)

A HECATOMBE DA VITÓRIA (1880)

Gustavo Maia Gomes
“A 27 de junho último (1880), na cidade da Vitória, Comarca de Santo Antão, deu-se um fato horroroso. Nunca a história das campanhas eleitorais de Pernambuco se manchou de tanto sangue”, escreveu Félix Cavalcanti, em seu diário comentado por Gilberto Freyre (“O velho Félix e as ‘Memórias de um Cavalcanti’”, Rio de Janeiro, 1959, pág. 58).
Aconteceu o seguinte: “após ter subido ao poder do Império em 1878 [tendo o alagoano João Visconde de Sinimbu, como chefe do Conselho de Ministros], o Partido Liberal [em Pernambuco] dividiu-se em dois grupos. Um, composto dos membros da família Souza Leão, tinha por chefe o bacharel Luís Felipe; o outro era dirigido pelo bacharel Antônio Epaminondas de Mello” (pág. 59).
Esses últimos foram chamados democratas, os primeiros, leões. Seus chefes em Vitória eram, respectivamente, Ambrósio Machado da Cunha Cavalcanti e José Felipe Souza Leão. Na votação para juízes da paz e vereadores, os democratas se uniram aos conservadores e alcançaram a vitória, despertando o ódio dos leões.
Assim, na próxima eleição, estava estabelecido o clima para um confronto armado. Os dois lados arregimentaram forças. “Os chefes governistas [leões], entre os soldados de polícia e os capangas que puderam reunir contavam 300 homens, suficientes [para] resistir a um exército” (pág. 60).
Essas forças ocuparam a igreja do Rosário, onde se realizaria a eleição. “Diziam então os leões mais arrogantes que não haveriam de deixar que os democratas entrassem para votar” (pág. 60). Seus oponentes também arregimentaram um bando armado e foram para a igreja.
Acompanhava as tropas democratas o Barão da Escada, Belmiro da Silveira Lins. Foi o primeiro a morrer fuzilado. Ao final do tiroteio ocorrido na igreja – que não seria o único do dia – um relato da época contou 17 mortos.
Dentre os gravemente feridos, estava Ambrósio Machado. Diante dessas baixas importantes, os homens se dispersaram após, mas foram perseguidos. O Diário da Manhã (Recife), 62 anos depois (28-5-1942) afirmou que, no total, mais de cem pessoas haviam morrido, a maioria do lado democrata.
A crise repercutiu no Recife. Em discurso inflamado, o deputado José Maria de Albuquerque Melo atribuiu toda a culpa pelos incidentes e mortes à família Souza Leão, a quem chamou de “ladrões de estrada”, salteadores” e “passadores de cédulas falsas”.
No mesmo tom falou José Mariano Carneiro da Cunha, veemente abolicionista e democrata. Além disso, “saiu um boletim pregando o extermínio de tudo o que fosse Souza Leão: homem, menino, mulher. Todos deviam desaparecer. Parecia um episódio da Revolução Francesa” (pág. 62).
Foi assim, nos traços essenciais, que se deu a Hecatombe da Vitória, primeira de uma série de muitas ocorridas em Pernambuco entre os anos 1880 e 1922.

(Publicado no Facebook, 3-3-2019)

SINAL AMARELO

Gustavo Maia Gomes
Quando a Revolução (ou, menos pomposamente, um movimento político que altera de algum modo o curso da História) começa a devorar seus líderes ou aqueles que a ajudaram a acontecer, é tempo de levantar o sinal amarelo.
Isso ocorreu agora, durante o carnaval. Refiro-me à exoneração do diplomata Paulo Roberto de Almeida da direção do IPRI (lnstituto de Pesquisa em Relações Internacionais). Sobre ela, escrevi o seguinte em comentário que transcrevo aqui para lhe dar maior visibilidade.
“Paulo: tenho acompanhado há bastante tempo sua trajetória de intelectual erudito, independente, combativo, aberto ao debate de ideias. Sua crítica pertinente e persistente do descalabro petista representou contribuição importantíssima à superação desse período triste de nossa história. É lastimável que o governo eleito pelos que combateram o petismo o tenha tratado com tamanha deselegância.
Não estou contestando o direito de o ministro preencher os cargos de confiança com as pessoas de sua preferência. Estou chocado com o fato de você ter recebido uma “reprimenda” (cf. Carmen Lícia Palazzo) por ter publicado em seu blog pessoal três artigos com opiniões diferentes sobre a Venezuela. Isso, infelizmente, não passa de macartismo.”
PS. O próprio PRA, li depois, identifica um comentário crítico seu ao Sofista da Virgínia, o semi-filósofo Olavo Pornográfico de Carvalho, como um possível detonador de sua exoneração. Mais um motivo para que acendamos todos a luz amarela.

(Publicado no Facebook, 5-3-2019)

A INTRIGA DE PINGA FOGO

Gustavo Maia Gomes
Na cidade alagoana de Viçosa, terra de meus ancestrais Bahia, nem todo mundo era amigo de todo mundo. Não no século 19, pelo menos. Prova disso é que, em um certo dia, alguém assinando-se Pinga Fogo publicou no jornal Gutenberg, de Maceió, a seguinte nota:
“CONSELHO. Aconselho ao Sr. JB que entregue as chaves do cofre ao Sr. LS, comerciante nesta cidade, pois não é lícito este meio de adquirir fortuna. Este conselho é de teu amigo, pois bem conheço o Sr. LS e ele não se sujeitará ao que se sujeitou a Sra. Lulu, negociante em Pindoba. Viçosa, 20 de agosto de 1896. Pinga Fogo”.
O “Conselho” do Pinga Fogo saiu em várias edições do jornal. Uma semana depois, apareceram duas notas, parcialmente transcritas abaixo:
“REPTO AO PINGA FOGO. Peço ao autor de uma publicação da Viçosa inserta no Gutenberg de ontem que, sob pena de passar por vilão covarde e sofrer a imputação só a si mesmo cabível, queira declarar se entende comigo as iniciais JB em relação ao negócio da chave do cofre. Conforme sua resposta, tomarei a atitude conveniente para salvaguardar minha reputação, para o que já constitui advogado. Maceió, 22 de agosto de 1896. Joaquim Menandro Batista”.
“CHAVES PERDIDAS. Sob a desagradável impressão que a todo homem de bem causa a leitura do conselho do Sr. Pinga Fogo, venho declarar ao público que as chaves de que trata aquela publicação, as quais desde anteontem me foram entregues, não estiveram em poder de pessoa alguma com intenções funestas e é uma prova disso o estado em que elas me vieram às mãos – cobertas de ferrugem, estando uma delas amassada – bem como o lugar em que foram apanhadas, por onde passei no dia de domingo em que caíram do bolso de minha calça que verifiquei estar dilacerado. Não cabem, pois, as alusões do Sr. Pinga Fogo, em cujas faces ficam gravadas as setas da calúnia. Viçosa, 21 de agosto de 1896, Luiz Sá”.
Não quero fazer intriga, ainda menos depois de tanto tempo, mas acho que Luiz Sá teve, mesmo, as chaves do cofre surrupiadas quando visitava Joaquim Menandro. Ao se dar conta disso, procurou este último que, entretanto, não admitiu nada. Foi quando o comerciante resolveu dar pelo jornal um “conselho” a Joaquim, lembrando-lhe que ele – Luiz – não era nenhuma Dona Lulu de Pindoba.
Diante da ameaça velada, Joaquim Menandro Batista pensou duas vezes e se entendeu com Luiz Sá, devolvendo-lhe as chaves. Desta forma, as notas assinadas por cada um dos dois, no Gutenberg de 28 de agosto de 1896, foram apenas uma encenação. Um pingou fogo, dois apagaram o incêndio e a paz voltou à Viçosa alagoana.

(Publicado no Facebook, 6-3-2019)

PASSARINHO NO LAÇO

Gustavo Maia Gomes
Nelson Rodrigues (1912-80), nascido no Recife, mas com a carreira feita no Rio de Janeiro, teve predecessores. Fui descobrir em Maceió, mais precisamente, no jornal Gutenberg (1881-1911), notícias e crônicas narrando crimes, perversões sexuais e adultérios. Embora os autores desses textos raramente sejam identificados, o gostinho de “A vida como ela é” (coluna que consagrou o pernambucano na imprensa carioca) está bem presente. Dou um exemplo, de 1905, em transcrição literal.
DEFLORAMENTO
Daniel Antônio de Oliveira há oito anos passados amasiara-se com Domingas de Jesus, que levara para a companhia desse indivíduo uma filha de sete anos chamada Maria.
Das relações de Daniel e de sua amásia houve seis filhos, correndo tudo na paz do senhor. Mas Daniel, manhoso como Plutão, trazia oculto no peito uma extraordinária paixão por Maria, filha de sua amásia.
À proporção que ela foi tomando a forma de mulher, o Tartufo cada vez mais se apaixonava.
– Que belos olhos os seus Hia!
– Mas o que é que têm os meus olhos, Sr. Daniel?, respondia-lhe sempre a mocinha, desconfiando de suas lábias.
Mas... a mulher é parte fraca e como [era tal a pressão] de Daniel, o passarinho de lindas plumagens caiu no laço, isto é, cedeu aos desejos libidinosos do amásio de sua mãe.
O fato verificou-se na terça-feira desta semana e a autoridade policial recebeu queixas de Domingas e procedeu o exame para apurar a verdade.
(Gutenberg, Maceió, 25-11-1905, sem autor identificado. Fiz pequeníssimas edições, além de atualizar a grafia.)

(Publicado no Facebook, 7-3-2019)

CIÚME QUE MATA

Gustavo Maia Gomes

O tenente Bernardo da Câmara Sampaio era médico da Marinha. Nascido em Pernambuco, ali serviu até ser transferido para Maceió, onde estabeleceu clínica oftalmológica, sendo o único médico que no Estado se dedicava a esta especialidade.
Solteiro, arredado da família, Câmara Sampaio incumbira a uma pobre senhora de nome Rita Francina de cuidar de sua roupa. Desse comércio, nasceu o seu conhecimento com uma das filhas dessa senhora, chamada Maria da Conceição.
Tomou-se o médico de violenta paixão por essa criatura, a ponto de fazê-la sua amásia, vivendo com ela maritalmente e sem vislumbre de escândalo. Houve dessas relações uma filha, Maria Eulália, que Câmara Sampaio legitimou.
Um dia, o militar foi mandado de volta para Pernambuco. Maria da Conceição, acompanhou-o, mas ia muito a Alagoas visitar os parentes residiam. No carnaval, viera o médico a Maceió, quando soube que a mulher entretivera palestra com um mascarado em sua casa.
Caráter impetuoso, Câmara Sampaio retornou ao Recife, conduzindo amásia e filha. Em seu espírito, contudo, combalido por uma paixão doentia e ardente, penetrara a dúvida cruel, a dúvida que tortura, a dúvida que arma o braço ao ímpeto insensato, ao ditame de um cérebro que desvaira.
Desde então, a paz deixou de reinar na sua casa, a ponto de ele mandar a mulher e a filha de volta para Maceió. Não se continha, porém, muito tempo longe das prendas de seu coração. Agora mesmo, achava-se aqui, desde domingo.
Anteontem, às 10 horas da noite, a população da cidade se surpreendeu com a notícia de que um médico matara, para os lados do Liceu de Artes e Ofícios, uma pobre mulher, de nome Maria da Conceição. Seu cadáver está no Necrotério Público, para onde foi transportado, numa rede, à meia-noite.
(Recife, 8-3-2019. Adaptado de Gutenberg, 2-11-1905.)

(Publicado no Facebook, 8-3-2019)