Uma rua chamada Olímpio (VIII)
Gustavo Maia Gomes
(16/2/2018)
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Um anúncio em inglês (para atrair inquilinos estrangeiros) das casas da então rua Moura Esteves, futura Olímpio Tavares (Diário de Pernambuco, 1927) |
Tal qual M. Jourdain, o burguês fidalgo de Molière que falava em prosa
e não sabia, eu morei anos na Mangabeira de Cima, Recife, sem ter a menor suspeita
disso. Era onde ficava a rua Moura Esteves. Esses nomes antigos já tinham caído em desuso, no meu tempo: Mangabeira de Cima se chamava, então, Casa Amarela; Moura Esteves passara a ser Olímpio Tavares. Como
eram aquelas casas, a minha e as de meus amigos, urbanística e arquitetonicamente falando? O que havia dentro delas,
de móveis e utensílios?
Muros
e paredes
Achei notável este anúncio, publicado no Diário de Pernambuco em 7 de outubro de 1952: “Vende-se [residência]
com três quartos, salas de jantar, de visitas e terraço, entrada para
automóvel, por preço de ocasião. Sita à Rua Olímpio Tavares, 37, junto à
Estrada do Arraial”. Ele descreve uma casa típica da rua em que morei quando
criança e adolescente. Ressaltar a “entrada para automóveis” em 1952, pensei, indicava
certo pioneirismo. Ainda, pouca gente tinha carro, naquele ano.
Só que, recuando a pesquisa, encontrei este outro, publicado 25 anos
antes: “Alugam-se casas modernas, com boas acomodações, saneadas, luz, água,
entrada para automóveis, na linha de Casa Amarela, rua Moura Esteves. Ótima
ocasião para estrangeiros” (Diário de
Pernambuco, 5/1/1927). Moura Esteves era como se chamava a rua que, em
1929, ganhou o nome Olímpio Tavares. Muitos conheciam o bairro como Mangabeira
de Cima. O anúncio de 1927 já fala em “entrada para automóveis”! O pioneirismo
vinha de longe.
Foram Olímpio e seus filhos (certamente, os donos das terras) que,
em 1926, edificaram as 20 ou 21 casas iguais, dos dois lados da rua, se é que
existia, mesmo, uma rua ali, antes disso. Tinham em mente, como potenciais
inquilinos, preferencialmente, os estrangeiros. E, pelo jeito, em alguns
aspectos, eram dotados de uma concepção arquitetônica avançada para a época.
Com o tempo, as casas foram sendo modificadas. Meu pai comprou a
dele em 1950. Reformou-a diversas vezes. Em 1964, fez as mudanças mais
extensas. Oito anos antes disso, uma delas foi assim descrita no mesmo jornal
(5/3/1958): “Aluga-se a casa n. 77 da rua Olímpio Tavares, Casa Amarela, com
três quartos, duas salas com mosaicos e tacos, dois terraços, cozinha com
balcão, dois saneamentos [banheiros, suponho] com instalação de água quente [quase
certamente, fios e tomada para chuveiro elétrico], estucada com lustre nas
salas, quarto externo para empregado, jardim e grande quintal arborizado”.
Grandes quintais – que coisa boa! – eram comuns a todas as casas,
com apenas duas ou três exceções. Continuam assim, ainda hoje. Em 1959, um
proprietário pôs sua casa para alugar e se lembrou de dizer que a rua era
calçada (13/2/1959). Acho que o calçamento foi feito em 1954, como parte das comemorações
pelos 300 anos desde a expulsão dos holandeses. A rua Olímpio Tavares fica ao
lado do Sítio Trindade, ou Arraial do Bom Jesus, um local histórico da guerra
contra os invasores batavos.
A despeito de seus aspectos pioneiros, as casas da rua Olímpio
Tavares tinham defeitos arquitetônicos graves, quando avaliadas pelos padrões
que viriam a predominar décadas mais tarde. Aproveitavam mal a ventilação, a
ponto de as duas salas serem quase de nenhuma utilidade, pelo excesso de calor.
Os quartos se abriam para a área social, ficando longe do único banheiro
interno existente. (Não sei se as dependências de empregadas foram uma adição
posterior ao projeto original. Elas tinham seu próprio banheiro.)
A planta única não diferenciava as casas voltadas para o nascente
das que encaravam de frente, com a mesma disposição de cômodos, o insuportável
sol da tarde. Antes da vulgarização do ar condicionado, um fenômeno dos anos
1990, o inevitável incômodo causado pelo calor nordestino naquelas casas era
aumentado por esses defeitos em sua concepção. Sim, as casas da Olímpio Tavares
tinham problemas. Mas, eram boas assim mesmo.
Recheio
Como Gilberto Freyre mostrou há quase cem anos, os jornais são uma
rica fonte de informações econômicas e sociológicas. Vejam o caso dos anúncios
das coisas que as famílias punham à venda por motivo de viagem ou quando
trocavam um item antigo por outro mais novo. (Todas as citações são do Diário de Pernambuco.)
Na rua Olímpio Tavares, 97, a família queria vender “um fogão
Dako, seminovo, com duas bocas, um ótimo forno a carvão” (26/4/1957). Em 1958,
aparecem anúncios de venda de “um refrigerador da marca Frigidaire seis e meio
pés, perfeito funcionamento” (7/3); de uma máquina de costura Singer (17/10) e
de “uma radiola Philips seminova, motivo viagem” (6/11).
No ano seguinte (1959), alguma melhoria se observa: a máquina de
costura posta à venda tinha “motor e farol, último modelo” (6/1), enquanto a
radiola Philips era dotada de “três rotações e de um rádio com quatro faixas”
(7/1). Apareceu, também, o anúncio de venda de “sala de jantar, um guarda-roupa,
um penteador com pedra-mármore, e um quarto de Sucupira. Ver e tratar na rua
Olímpio Tavares, 47” (12/9).
Mas, reveladoras mesmo eram as vendas que se deviam a mudanças da
família para outra cidade, pois, nessas ocasiões, podíamos ter uma ideia mais
completa do que havia de bens móveis naquelas casas, de seu recheio. Um
exemplo: “vende-se um bom piano, geladeira Hotpoint perfeita, fogão a gás com
forno, duas camas americanas Simmons, máquina de lavar roupa Maytag americana
com novo motor, talheres para 12 inoxidáveis, rádio, telefone novo, outros
móveis” (2/6/1963).
Ou ainda, a mesma família, poucos dias depois, complementando o
anúncio acima: “vendem-se duas cadeiras, sofá-cama Drago, um relógio de parede,
talheres inoxidáveis americano para 12, jogo de louça americana, uma
cristaleira” (19/6/1963).
Ou seja, nos primeiros anos 1960, uma família de classe
média-média, como eram, tipicamente, as que moravam na rua Olímpio Tavares,
podia, perfeitamente, possuir piano, geladeira, fogão a gás com forno e, até
mesmo, uma máquina de lavar roupa.
Também tinha automóvel: importado da Inglaterra, França e Estados
Unidos, nos anos 1950; fabricado no Brasil, na década seguinte: “Vendo. Em
ótimo estado de conservação, Volkswagen 1963, todo equipado, rádio, forro de
napa, cilibrine, jante 67, cor pérola, pneus novos, etc. Motivo viagem”. O que
era, mesmo, “cilibrine”? (16/3/1969)
Dos carros, já falei, em capítulos anteriores. Nos anos 1960, sobretudo,
em sua segunda metade, praticamente, todas as famílias residentes na rua Olímpio
Tavares possuíam automóveis. Mais velhos do que novos, em sua maioria. Alguns,
como o de um certo vizinho meu, de tão danificados, parecendo andar por um
milagre.