Lênin foi o ídolo de vários Maia Gomes e Cardoso-Pedrosa, meus troncos familiares paterno e materno |
Gustavo
Maia Gomes
(20/4/2018)
A
existência de pessoas declaradamente comunistas ou socialistas nas famílias
Maia Gomes e Cardoso-Pedrosa (as minhas, paterna e materna) é um tema de que
tratarei em Uma Noite em Anhumas,
livro que continua O Trem para Branquinha,
em vias de ser lançado. Ambos são histórias sociais do Nordeste Oriental contadas
em fragmentadas biografias de parentes.
Por que o
tema me atraiu? Primeiro, por eu ter descoberto que
houve comunistas notórios nas duas famílias. Depois, por ser curioso que tais preferências
tenham aparecido em ambiências de latifundiários, senhores de engenho e
usineiros, a “classe dominante”, capitalista, por excelência nessa região, nos anos (c.1850-c.1950),
de que tratam os dois livros.
Conservadores
A maioria
dos meus parentes políticos se alinhou, é verdade, com os conservadores. Muitos
descendentes de Laurentino Gomes de Barros (1881-1958) e Amália Maia Gomes foram
ou ainda são deputados, prefeitos e governador de Alagoas (Manoel Gomes de Barros, 1997-99). Dos filhos e netos
de José Gomes de Freitas (c.1900-47) e Edila Omena, muitos fizeram carreira
política. Nenhum deles como contestador da ordem vigente. José de Freitas era
filho de Manoel de Freitas e de Eulália (Sinhá) Maia Gomes.
O mesmo traço
conservador esteve presente em Pedro da Cunha Pedrosa (1853-1947), proprietário
de engenhos e senador pela Paraíba (1912-22). Ele presidia o Senado Federal quando
eclodiu a revolta tenentista de 1922, no Rio de Janeiro. Teve a coragem de
defender o presidente Epitácio Pessoa num momento em que a sobrevivência deste e
de seu governo parecia seriamente ameaçada. A maioria dos senadores nem sequer
foi trabalhar naquele dia, aguardando a definição dos acontecimentos para se
juntar ao lado vencedor, qualquer que fosse ele.
Houve até
um militante integralista, Raul Dias Cardoso (1894-1979), irmão de minha avó
materna Olga Cardoso Pedrosa. Esse (em 1936) participou de uma conspiração para
derrubar o governo de Getúlio Vargas. Fez isso nas terras da usina Uruba, em
Atalaia (AL), que pertencia ao seu cunhado e meu avô Manoel Sebastião de Araújo
Pedrosa (1889-1936). Ser integralista em 1936, devo ressalvar, pareceu uma opção
política válida para muitos brasileiros sérios e honestos, que se tornariam
personalidades importantes nos anos seguintes. Eles desconheciam em detalhes o que os
fascistas e nazistas já estavam aprontando na Europa.
Contestadores
Tudo isso correspondia
às expectativas. Inesperado foi o aparecimento de comunistas. O mais notório deles,
Mario Pedrosa (1900-81), crítico de artes de prestígio internacional e ativista
político, era filho de Pedro da Cunha Pedrosa, o senador. Ao longo
da vida, Mario filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro; contestou a orientação
stalinista que, então, dominava o PCB; aproximou-se dos trotskistas, mas também
rompeu com eles; filiou-se ao Partido Socialista. Nos anos 1979-80, foi um dos
inspiradores do Partido dos Trabalhadores, tendo morrido pouco depois de sua
fundação. (Talvez eu deva dizer: ainda bem!)
Outro político
na família, Manuel Rodrigues Calheiros (1902-87), foi o primeiro prefeito
comunista eleito no Brasil (Jaboatão dos Guararapes, PE, 1947). Veio daí o
apelido “Moscouzinho”, que se grudou à cidade durante muitos anos. Manuel (seu pai
também era dono de engenho) casou-se com Luíza, filha de José Maia Gomes,
usineiro em Branquinha, AL. Nos meses subsequentes à Intentona Comunista
(1935), ele se escondeu nas propriedades do sogro. Tanto Marília como Wladimir,
seus dois filhos, escreveram livros de memórias em que descrevem o pai como um
idealista fiel às suas crenças até o fim da vida.
Um terceiro
comunista (ou, talvez, mais precisamente, socialista?) nas duas famílias foi José
Maurício Pedrosa Gondim (1923-?), sobrinho do já referido Manoel Sebastião de
Araújo Pedrosa, meu avô. O pai de Maurício, Elpídio Gondim, assumiu o controle
da Usina Uruba após o falecimento de Manoel, em 1936. O jovem Gondim viveu um
tempo em Paris, onde fazia proselitismo das ideias de Marx, enquanto era sustentado
pelas remessas vindas de Alagoas. Dinheiro da usina, claro. Ser socialista em
Paris, nos anos 1940, devia ser mesmo um charme.
Antônio
Maia Gomes Lins (c.1905-c.1980), filho de Diogo Lins Carneiro de Albuquerque e
de Amélia Maia Gomes c.1879-1910) – Amélia, Sinhá, Amália e José eram irmãos de
Nominando Maia Gomes, meu avô; todos proprietários rurais – também foi
comunista. Não satisfeito, arranjou de se casar com Marinette Affonso de Mello,
que tinha feito a mesma opção política. Talvez, ainda mais radical. Tudo isso
se passou no seio de famílias proprietárias tradicionais de Alagoas: o “Mello”
de Marinette, por exemplo, é o mesmo de Fernando Collor (de Mello).
O casal viveu
parte do tempo na clandestinidade, segundo me informou o sobrinho de Antônio, Murilo
Lins Marinho. Por isso, os dois cuidaram pouco dos filhos. Antônio Lins, numa
de suas frequentes fugas da polícia, terminou indo bater em Itabuna, Bahia,
onde dois irmãos dele (do segundo casamento do pai) eram donos de terras. Aproveitou
a oportunidade para doutrinar os trabalhadores da fazenda, incitando-os a lutar
pela reforma agrária. Foi expulso pelos irmãos José e Onair Lins quando eles descobriram
o que o refugiado alagoano estava aprontando contra eles.
Constitui
um desafio fascinante tentar compreender as razões pelas quais, nas décadas iniciais
ou intermediárias do século XX, as ideias comunistas foram assimiladas com
tanto ardor por essas pessoas Maia Gomes e Cardoso-Pedrosa, cuja situação de
classe era completamente antagônica, segundo os teóricos marxistas, à do “proletariado”
ou dos camponeses. É o que tento fazer em Uma
Note em Anhumas.
Boa tarde Gustavo, sou de Maceió e sou Gomes Pedrosa. Sobrenomes herdados das minhas avós materna e paterna: Luzinete Gomes e Lídia Pedrosa, casadas com Manoel de Lima e Hermes Calheiros, respectivamente. Certamente temos algum parentesco.
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