quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

FINALMENTE, O HOSPITAL DA TAMARINEIRA (Hoje estive lá)

Gustavo Maia Gomes

Nos anos 1958-64, quando estudei no Colégio Marista do Recife (o “verdadeiro”, da Boa Vista, hoje fechado), a Avenida Rosa e Silva tinha mão dupla. Portanto, eu passava não uma, mas duas vezes por dia à frente do Hospital Psiquiátrico da Tamarineira. No seu amplo terreno, segregados por muros e portões, sempre havia internos observando o movimento. Alguns, com aspecto esquisito, me metiam medo.
Deve ter sido por isso que, até hoje, eu não havia transposto aquele portão, embora sempre tivesse a vontade. Sobretudo, depois de descobrir que Manoel Sebastião de Araújo Pedrosa (1853-1906), meu bisavô, ali morreu, longe da mulher e dos filhos — todos pequenos —, os quais, à época, moravam na Paraíba. A mãe deles, Maria Margarida Kuhn, tinha de tocar o Engenho Velho, de onde tirava seu sustento e o das crianças.
Mas, essas são histórias passadas. A história presente é que visitei hoje o Ulysses Pernambucano, atual nome do Hospital da Tamarineira. Trata-se (leio no site da Secretaria de Saúde) de “um patrimônio vivo e histórico da psiquiatria de Pernambuco”. Foi inaugurado em 1883. Até 2010, pertencia à Santa Casa de Misericórdia, embora fosse, desde 1924, administrado pelo governo estadual.
Informa a Secretaria de Saúde que, em 1930, o Hospital da Tamarineira “passou por um processo de restauração, nas mãos do médico Ulysses Pernambucano. A importância do doutor Ulysses para a saúde mental foi tanta que [entre 1979 e 1983] o antigo Hospital de Alienados ganhou o [seu] nome”. Em 1992, o estabelecimento foi tombado pelo Patrimônio Histórico do Estado.
Dezoito anos depois, em 2010, a Santa Casa de Misericórdia anunciou que iria vender o terreno do Hospital Ulysses Pernambucano a uma empresa privada, para que ali fosse construído um shopping center.
A reação popular que se seguiu inviabilizou a iniciativa, até que o assunto foi “resolvido” com a desapropriação do imóvel pela Prefeitura do Recife. Nada aconteceu, desde então: houve denúncias de que o hospital funciona precariamente e, qualquer um pode ver isso, se entrar ali, a manutenção dos terrenos em volta do hospital propriamente dito é péssima.
Seria bom se toda aquela área fosse tornada acessível ao público, com a instalação de um parque. Sem prejuízo do atendimento aos doentes que continuam a ter no Hospital Ulysses Pernambucano um precioso refúgio.
Havia muitos deles lá, hoje, descansando em um pátio interno. Evitei fotografá-los, em reconhecimento ao seu direito de privacidade. Mas, não por medo. Para o bem ou para o mal, os “doidinhos da Tamarineira”, como os chamávamos em nossas brincadeiras de meninos, já não me amedrontam. Que vivam em paz.

(Publicado em Facebook em 8/12/2017)

Procurando Stella, encontrei Gilberto

Gustavo Maia Gomes
A fim de dar continuidade à série "100 Anos em 50 Fotos", fui à cata de informações sobre a viagem que minha mãe (Stella Pedrosa) fez a São Paulo e ao Rio de Janeiro, em 1940-41, na companhia de sua prima Maria do Carmo Cardoso Burle.
Tenho fotos mostrando as duas a bordo do Comandante Ripper, em 11 e 12/12/1940. Pelo Diário de Pernambuco, fiquei sabendo que aquele navio havia partido do Recife para a Bahia (uma escala no caminho até Santos) em 9/12/1940.
No dia seguinte (10/12), Stella e Carmita desembarcaram em Salvador. Conservou-se uma foto das duas lá, em companhia de outras pessoas que não pude identificar. Publicá-la-ei, com mesóclise e tudo, logo em seguida.
As primas, provavelmente, tinham planejado voltar ao Recife pela mesma via marítima. Mas não puderam. As razões têm a ver com a restrição das viagens pelo mar impostas pelo governo Getúlio Vargas depois dos primeiros incidentes de guerra com navios brasileiros na Europa.
Ainda não tinham começado os afundamentos, mas navios brasileiros (no Mediterrâneo, por exemplo) já haviam sido detidos em pleno mar e revistados pela marinha inglesa, sob o pretexto de estarem transportando cidadãos alemães ou cargas, em última instância, destinadas àquele país.
As restrições às viagens marítimas afetaram Stella e Carmita (elas tiveram de buscar outra forma de retornarem ao Nordeste -- conto isso em outra postagem) mas não atingiram Gilberto Freyre que, em 7/2/1941, regressou do Rio Grande do Sul no mesmo navio que havia transportado minha mãe até Santos.
Isso foi antes do planejado regresso das primas. A viagem que trouxe Gilberto Freyre pode ter sido a última do navio Comandante Ripper, até o fim da Segunda Guerra.


(Publicado em Facebook em 9/12/2017)

DUAS PRIMAS, UMA VIAGEM (100 Anos em 50 Fotos, IV)

Gustavo Maia Gomes

No último mês de 1940, Stella Pedrosa e sua prima Maria do Carmo Cardoso Burle (Carmita) foram juntas ao Rio de Janeiro e São Paulo. Minha mãe tinha 23 anos. No futuro eu iria ouvir muitos relatos saudosos dessa viagem.
Ambas tinham parentes a encontrar. No Rio, os Pedrosa (Pedro, ex-senador, e filhos), os Kuhn (filhos e netos de Cornelio Otto, general reformado); os Burle-Marx (Cecília, mãe de Roberto, era pernambucana). Os Burle de São Paulo.
A viagem de ida foi feita pelo navio Comandante Ripper (de 1907 a 1927 chamado Ceará). O percurso do Recife a Santos (SP) durava, calculo, entre três e quatro dias, com direito a desembarque em Salvador, para uma visita rápida à cidade.
Tenho comigo registros fotográficos mostrando as primas: na Bahia (Salvador); em São Paulo (praias de Santos e Guarujá, Museu do Ipiranga, um certo Parque da Indústria Animal); no Rio de Janeiro (Pão de Açúcar, Urca, Quinta da Boa Vista, entre outros lugares).
Stella e Carmita foram amigas até à morte de minha mãe, em 2001. A prima lhe sobreviveria por nove anos, tendo falecido em 2010. (Agradeço a Antonio Lins a informação.) O acontecimento de ela ter sido minha sogra durante quase três décadas não foi independente daquela amizade, fundada em bases familiares e fortalecida na viagem ao Rio e São Paulo.
As fotos seguintes, resgatadas do acervo de Ivan Pedrosa Maia Gomes e Elisa Fernandes, mostram uns poucos momentos desse passeio turístico inesquecível para as duas primas, mocinhas namoradeiras que eram, com todo o direito.

(Publicado em Facebook em 10/12/2017)

Pétain Henrique Cardoso

Gustavo Maia Gomes

De todos os nossos ex-presidentes ainda vivos, somente um poderia ser a consciência da Nação. É um papel raramente preenchido, mas importante. O do homem ou mulher cheio de sabedoria, moralmente íntegro, respeitado pelos cidadãos. Alguém que fala pouco, durante quase todo o tempo, mas fala o essencial, quando necessário. E é ouvido.
Quem se candidata? – José Sarney? – Perguntem aos maranhenses. – Fernando Collor? – Contenham a indignação. – Lula? – O condenado pela Justiça? – Dilma? A que estoca vento? – Não. Não. Não. Não. Só uma pergunta não soa ridícula: – Fernando Henrique Cardoso? – Sim, poderia ser Fernando Henrique Cardoso.
Mas, não é. O príncipe dos sociólogos perdeu essa oportunidade muitos anos atrás, quando abandonou o candidato de seu partido à própria sorte, ansioso que estava por entregar o país a um ex-operário que (já se sabia, à época) não tinha escrúpulos morais. Às favas a moral, deve ter pensado Fernando: um (ex) operário na presidência combina tão bem com a minha sociologia! E, assim, o príncipe amou a quem lhe odiava.
Nos quinze anos seguintes, esse enredo se repetiria inúmeras vezes: Lula ataca Fernando (de maneira injusta, caluniosa) e Fernando defende Lula (de maneira submissa, acovardada). Na semana passada mais um capítulo: Fernando declara que não queria ver Lula preso, preferia que ele fosse derrotado nas urnas.
Será isso mesmo o que Fernando aspira? Que o personagem sociológico perfeito seja "derrotado nas urnas"? Ou não seria seu desejo secreto ver o ex-operário de novo na Presidência, para comprovar as teses antigas, terminar a Grande Destruição e nos brindar com o socialismo (ainda que "bolivariano")?
Não sei, nem quero saber. Os desejos íntimos daquele senhor não têm importância. Não para mim. Agora, uma coisa, sim, escandaliza: testemunhar um ex-presidente defender (implicitamente, ao menos) a desobediência à lei, com a implicação de que os "líderes populares" não precisam responder à Justiça, apenas às urnas, é grave. Gravíssimo.
Phillippe Pétain (1856-1951), o marechal francês, era chamado "O Leão de Verdum" pelo seu heroísmo na Primeira Guerra Mundial. Na Segunda, desonrou-se, concordando em ser um títere de Hitler, à frente da chamada República de Vichy. Em agosto de 1945, com a derrrota dos alemães, foi condenado à morte por traição. Teve a pena comutada, mas ninguém jamais pensou em considerá-lo a consciência da Nação.
O posto, porém, não ficou vago. Charles de Gaulle (1890-1970), que se recusou a negociar com Hitler, e se tornou o líder da França Livre foi, sim, durante muitos anos, a consciência da sua pátria. Como seria bom ter alguém assim entre nós.

(Publicado no Facebook em 11/12/2017)

STELLA EM SANTA RITA E ATALAIA (100 Anos em 50 Fotos, VI)

Gustavo Maia Gomes

Uma vida é uma vida é uma vida, diria Gertrude Stein Stein Stein. Eu conto um pouco da que minha mãe Maria Stella de Araújo Pedrosa Pedrosa Pedrosa viveu, em vários lugares lugares lugares. Ela teria feito cem anos no dia 4 deste mês. Pode estar agora com Gertrude Gertrude Gertrude, tentando convencê-la de que eu sou boa gente e não tenho a intenção de ridicularizá-la escrevendo assim assim assim.
Vamos aos fatos. Em períodos distintos, Stella Pedrosa teve cinco residências: (a) 1917-25: Engenho Velho, depois Usina Pedrosa (Santa Rita, PB). (b) 1925-30: Usina Uruba (Atalaia, AL). (c) 1930-37: Garanhuns (PE) durante as aulas; Atalaia nas férias escolares. (d) 1937-42: novamente, a Usina Uruba, Atalaia. (e) 1942-44: Fazenda Monte Verde, em Branquinha (então distrito de Murici, AL). (f) 1944-2001: Recife, PE.
Cada etapa e lugar se explicam da seguinte forma:
(a) Manoel Sebastião de Araújo Pedrosa (1889-1936), pai de Stella, nasceu no Recife, mas se mudou para Santa Rita (PB) ainda criança. Ali, em 1914, casou-se com Olga Dias Cardoso (1895-1978). Em Santa Rita, nasceu Stella, que viria a ser minha mãe; naquele município, ela viveria até os sete anos.
(b) Em Santa Rita, possivelmente, entre 1920 e 1922, Manoel Sebastião transformou o Engenho Velho (adquirido em 1899 por seu pai) na Usina Pedrosa. Alguns anos à frente (1925), vendeu esta fábrica e comprou a Usina Uruba, em Atalaia (AL), para onde transferiu residência com a família. Stella, inclusive.
(c) Até poucos dias, eu acreditava que minha mãe tinha ido estudar no Colégio Santa Sofia (Garanhuns, PE) em 1934. Evidências obtidas hoje me fizeram rever essa crença: parece-me agora altamente provável que Stella tenha se mudado para esta cidade em 1930. Explico isso nos comentários às fotos da postagem futura, que cobrirá os anos vividos por minha mãe em Garanhuns, Branquinha e no Recife.
(d) Com a morte de Manoel Sebastião, em 1936, Stella retornaria dois anos depois a Atalaia, para ajudar na administração da usina. Ela ficaria morando ali até se casar com Mauro Bahia de Maia Gomes, em 1942.
(e) Mauro formou-se em Direito, no Recife (1939), mas, segundo me confessou, em nenhum momento durante o curso havia pensado em usar o título profissionalmente. Quando se casou com Stella foi morar na fazenda Monte Verde, de seu pai, em Branquinha (que ainda pertencia a Muricy. O desmembramento ocorreu em 1962). Ali nasceu o primeiro filho do casal, Ivan (1943).
(f) Não demorou muito para Mauro perceber que os rendimentos da fazenda não o sustentariam. Em 1944, portanto, ele decidiu mudar-se para o Recife, para viver como advogado ou funcionário público de formação superior. Terminou fazendo as duas coisas. Stella e Ivan o acompanharam. Nos primeiros meses, viveram em pensões, como eram chamadas a época. De uma delas, o prédio ainda existe: é o velho casarão que fica na Avenida Rui Barbosa, n. 24, ao lado do Colégio Vera Cruz. No Recife ela viveria até falecer, em 2001.
Nesta matéria trato de Santa Rita (Engenho Velho, Usina Pedrosa) e de Atalaia (Usina Uruba). A seguinte cuida das residências de Stella em Garanhuns, Branquinha e o Recife.


(Publicado no Facebook em 14/12/2017)

Irineu Franco Perpetuo (Taí um cabra bom de serviço!)

Gustavo Maia Gomes
Levado por Ivan, meu irmão, e por nosso amigo Jorge Reynaldo, assisti (14 e 15/12, no Porto Digital, Recife) quatro horas de aulas ou palestras sobre o piano e as obras musicais compostas para este instrumento, desde as suas origens, no início do século XVIII, até os dias atuais.
Alguém aí se lembra das Pílulas de Vida do Dr. Ross? ("Pequeninas, mas resolvem!") Pois essas aulas de ontem e anteontem foram pílulas de vida para o espírito. Sonatas, prelúdios, concertos, fantasias, noturnos, polonaises nascidos de Bach, Haydn, Mozart, Beethoven, Schubert, Schumann, Chopin, Lizt, Debussy, Villa-Lobos, Ernesto Nazareth, John Cage... (Believe it or not, John Cage!)
O palestrante? Irineu Franco Perpetuo, jornalista especializado em música clássica. Uma combinação difícil de encontrar: a sumidade completamente não pedante. Tem tanta bagagem que não consegue subir num avião sem pagar pelo excesso. E, no entanto, jamais arrota sabedoria. Maravilha de minicurso. Daqueles que a gente fica pedindo para não terminar.
É a quarta vez que Irineu vem ao Recife, trazido pelo Virtuosi (leia-se maestro Rafael Garcia, seu idealizador e promotor), um festival anual de música clássica, ora em sua XX edição. Por desaviso, não acompanhei as palestras do jornalista nos anos anteriores. Uma pena.
E ainda tem economista francês (como um que nos visitou seis meses atrás) dizendo que bom mesmo é ser índio selvagem na Amazônia ou nativo africano no deserto. Eu prefiro a sonata de Beethoven, o noturno de Chopin, a ensurdecedora 4' 33'' de Cage.

(Publicado no Facebook em 16/12/2017)

STELLA EM GARANHUNS, 1930-37 (100 Anos em 50 Fotos, VII)

Gustavo Maia Gomes

Descobri na semana passada quatro fotografias antigas que me fizeram mudar algumas convicções sobre o tempo de Stella Pedrosa em Garanhuns, cidade do Agreste Meridional de Pernambuco. Elas estavam no Blog de Tiago Valença, neto de Anita da Mota Valença, colega de minha mãe no Colégio Santa Sofia. (Eu ignorava isso, mas fiquei sabendo.)
Acontece que Anita fez 101 anos em 2013 e Tiago lhe prestou uma homenagem, postando na internet velhas fotografias. Dentre as de 1932 e 1934, em Garanhuns, aparecem identificadas as colegas de Anita Valença, dentre as quais, minha mãe, Stella.
Foi isso que me fez mudar o que eu pensava antes. Acontece que, na coleção de fotos de Garanhuns deixadas por Stella Pedrosa, as mais antigas são de 1934; apenas uma é de 1938. Ao todo, são cerca de 50 fotos, distribuídas (com aquela única exceção) pelos anos de 1934 a 1937.
Agora sei que Stella estava no Colégio Santa Sofia em 1932. Como não tenho notícias de que ela tenha começado a fazer o curso normal em outro lugar que não Garanhuns, deduzo que ela chegou àquela cidade em 1930. Tinha, apenas, 13 anos.
Nos anos 1930, Garanhuns era um município economicamente pujante. Grande produtor (em termos estaduais) de café, algodão, feijão e possuidor de importante rebanho bovino, sediava, além de estabelecimentos menores, os colégios XV de Novembro (presbiteriano, fundado em 1899), Diocesano (católico, 1915) e Santa Sofia (católico, 1912). Situado a uma altitude média de 896 m, tem clima ameno.
(Publicado no Facebook em 17 dez 2017)

A sorte de viver neste mundo

Gustavo Maia Gomes

Nosso mundo, acho eu, é melhor do que o de nossos pais e avôs e bisavôs e trisavôs por muitos motivos, mas, aqui, selecionarei apenas um deles: a extraordinária redução do custo de obter informações que nos está sendo proporcionada pelas modernas tecnologias.
Nunca agradecerei suficientemente aos que inventaram a internet e as redes sociais pelo anteriormente INIMAGINÁVEL alargamento de possibilidades de contatos humanos e de aquisição de conhecimentos a baixo custo que elas nos tem garantido.
Graças ao Facebook, por exemplo, localizei e entrei em comunicação instantânea -- sempre que o deseje -- com mais de 1.500 pessoas, um grupo que inclui:
(1) amigos de longa data que se haviam extraviado de meus caminhos. -- Quanto vale restabelecer contato com um amigo a quem não víamos desde trinta, quarenta, cinquenta anos?;
(2) parentes de quem, em alguns casos, sequer a existência eu sabia (mas que passei a conhecer, em todos os casos, com enorme satisfação);
(3) colegas de profissão que eu cumprimentaria (e vice versa) se os encontrasse em alguma esquina da vida, mas que, provavelmente, jamais encontraria, pois as esquinas são tantas e a vida dos deslocamentos materiais, tão pouca;
(4) muita gente que continuo a conhecer apenas "virtualmente", mas com quem sempre aprendo alguma coisa nova, ao ler seus textos. Que privilégio não é conversar com pessoas inteligentes, todas elas ao alcance de um clique?;
(5) aqueles que habitam esferas intelectuais diferentes das minhas, mas de quem, não obstante, me agrada saber notícias, do mesmo jeito, espero, que eles também gostem de conhecer minhas andanças, paranças e voltanças.
Fora do universo específico das redes sociais, mas ainda na internet, hoje, posso ouvir a música que quiser, executada por quem eu achar melhor; visitar na tela de meu computador os melhores museus do mundo; ler os jornais e revistas do século passado -- ou outros, ainda mais antigos; descobrir retratos de 1932 de minha mãe junto às suas colegas do Colégio Santa Sofia, em Garanhuns (PE) -- retratos que eu desconhecia e que me fizeram revisar a cronologia da passagem de Stella Pedrosa por aquela cidade.
Se fosse apenas isso, já seria uma fortuna disponível para desfrute diário, a custo (quase) zero. E sabemos que há mais, muito mais.

(Publicado no Facebook em 16/12/2017)

Morrendo de morte matada

Gustavo Maia Gomes

Sabe quantos assassinatos já houve em Pernambuco neste ano? Mais de cinco mil. Em 1932, foi zero. Zerinho da Silva. Zerinho da Silva Xavier. Zerinho da Silva Xavier de Orleans e Bragança. O primeiro número está nos jornais; o segundo, no Anuário Estatístico de 1935-36.
1932 foi atípico, tá bom: aconteceram 59 homicídios em 1933; 26 no ano seguinte; 53, em 1935; 32, em 1936. Combinando as informações, o número médio anual de assassinatos em Pernambuco, em 1932-36, foi 34. Trinta e quatro. Dá dois dias e meio, na velocidade de 2017. Guenta aí, já explico.
Sim, a população era muito menor: nos 1930, o Estado tinha 2,5 milhões de habitantes; hoje, são 8,8 milhões. Não resolve. Em 1932-36, houve 0,0136 assassinatos por cada mil habitantes; em 2017, o número é 0,5682. Quarenta e duas vezes maior.
Se a intensidade da violência em Pernambuco tivesse sido, em 1932-36, a mesma dos dias atuais, teria havido 1.420 assassinatos em cada um daqueles anos. Não 34. Inversamente, se fôssemos, hoje, tão pouco violentos quanto éramos nos anos 1930, o número de homicídios no Estado, em 2017, teria sido 120, não cinco mil.
Pernambuco à parte, o panorama do país não difere muito desse. Causas? Em minha opinião:
(i) o afrouxamento dos freios morais típicos da sociedade rural – patriarcal, coronelista, sim; formada por pequenas comunidades quase independentes umas das outras, também –, que não resistiram, os laços, à vida nas grandes cidades.
(ii) A ideologia dos coitadinhos lascadinhos excluidinhos, que faz dos criminosos vítimas e das vítimas criminosos, condenando a Polícia, banalizando o crime, como os nazistas banalizaram o Holocausto, diria Hannah Arendt.
(iii) O fato social mais importante dos tempos atuais: a enorme difusão das drogas pesadas. Difusão devida não apenas a uma legislação contraproducente, mas também às inovações tecnológicas que têm reduzido muito o custo dos alucinógenos.
Nos últimos cem anos, como argumentei aqui mesmo, outro dia, melhoramos em muitas coisas. Nisso aí, não.

(Publicado no Facebook em18/12/2017)

Morrendo de morte morrida (Pernambuco, 1932)

Gustavo Maia Gomes

De que se morria em Pernambuco, em 1932? De morte matada, ninguém. (Se houve homicídios, então mataram quem fazia a contagem naquele ano.) De morte morrida, os adultos, de tuberculose do aparelho respiratório, principalmente. Os meninos menores de dois anos, de diarreia e enterite, debilidade congênita, vícios de conformação e nascimento prematuro, sobretudo. Outras doenças do aparelho circulatório também matavam muito.
Aprendi isso no Anuário Estatístico de Pernambuco, 1935-36. Eram causas de morte, também, em ordem decrescente de importância numérica, nefrites, pneumonias, gripe, sífilis, doenças do fígado e biliares, câncer e outros tumores malignos. Também ocorriam as mortes violentas ou acidentais, contadas separadamente dos suicídios e homicídios. A hemorragia cerebral, embolia ou trombose cerebral. As doenças infecciosas e parasitárias. A infecção purulenta e septicemia não puerperal. Outras doenças do aparelho digestivo. Doenças do coração.
Senilidade (“vovô tá caduco!”) e doenças do aparelho respiratório, exceto tuberculose, pegavam pesado. Outras doenças gerais e envenenamentos crônicos aconteciam. Paludismo, ou malária, igualmente. Doenças da pele e do tecido celular, dos ossos e dos órgãos de locomoção. Outras doenças do aparelho urinário e do aparelho genital. Bronquites. Febre tifoide e paratifoide. Erisipela. Suicídios. Outras doenças da gravidez, do parto e do estado puerperal. Tétano. Disenterias. Septicemia e infecções puerperais. Septicemia e infecções puerperais. Lepra. Meningite. Apendicite. Coqueluche. Sarampo. Febre amarela.
Podia-se morrer de muitas doenças, no Pernambuco de 1932. Não havia falta de opções. Aliás, ainda hoje, não há. A lista abaixo dá nomes (quero dizer, números) aos bois.

Mortalidade geral, no Recife, segundo as causas de morte, 1932 (Número de mortes)
Tuberculose do aparelho respiratório, 1.769
Diarreia e enterite (abaixo de dois anos), 1.434
Outras doenças do aparelho circulatório, 762
Debilidade congênita, vícios de conformação congênitos, nascimento prematuro, 598
Nefrites, 576
Pneumonias, 507
Outras doenças infecciosas e parasitárias, 291
Diarreia e enterite (dois anos e mais), 276
Gripe ou influenza, 269
Sífilis, 267
Doenças do fígado e das vias biliares, 214
Câncer e outros tumores malignos, 208
Mortes violentas ou acidentais, exceto suicídios e homicídios, 204
Hemorragia cerebral, embolia ou trombose cerebral, 187
Infecção purulenta e septicemia não puerperal, 183
Outras doenças do aparelho digestivo, 177
Doenças do coração, 173
Outras doenças do sistema nervoso e dos órgãos dos sentidos, 164
Senilidade, 147
Outras doenças do aparelho respiratório, exceto tuberculose, 114
Outras doenças gerais e envenenamentos crônicos, 94
Paludismo (malária), 81
Doenças da pele e do tecido celular, dos ossos e dos órgãos de locomoção, 70
Outras doenças do aparelho urinário e do aparelho genital 64
Bronquites, 51
Febre tifoide e paratifoide, 47
Erisipela, 44
Outras doenças da gravidez, do parto e do estado puerperal, 41
Tétano, 36
Suicídios, 35
Causas não especificadas ou mal definidas, 35
Disenterias, 34
Septicemia e infecções puerperais, 29
Outras tuberculoses, 28
Lepra, 23
Meningite, 18
Difteria, 17
Apendicite, 17
Coqueluche, 14
Tumores não malignos ou cujo caráter maligno não foi especificado, 7
Sarampo, 2
Febre amarela 1
Homicídios, 0

Fonte: Anuário Estatístico de Pernambuco, 1935-36

(Publicado no Facebook, 19/12/2017)