sexta-feira, 16 de agosto de 2019

PROXIMIDADE LONGÍNQUA

Gustavo Maia Gomes
Alagoanos, ambos. Conhecidos, sim; amigos, não. Nem poderiam. Graciliano Ramos (1892-1953) odiava a classe à qual Benon Maia Gomes (1901-48), filho de usineiro, dono de terras, pertencia ("Memórias do Cárcere", v. 1, pág. 32).
Duplamente primo de meu pai, Benon, além de agricultor e sócio da Usina Campo Verde, foi engenheiro agrônomo, chefe do "Serviço do Algodão" em Alagoas, depois renomeado “Serviço das Plantas Têxteis”.
Graciliano, até 1933, escrevia romances secretos e relatórios públicos. Para viver, foi comerciante, prefeito de Palmeira dos Índios, diretor da Imprensa Oficial e da Instrução Pública de Alagoas. Isso tudo antes de se mudar para o Rio de Janeiro.
Descobri evidências – duas delas, na imprensa; a terceira, nas memórias do escritor – de que Benon e Graciliano se encontraram (ou estiveram programados para se encontrar), em Maceió, algumas vezes. Dentre elas:
(1) Em setembro de 1931, na despedida ao poeta Aloísio Branco, que ia morar no Rio de Janeiro. Não sei se o jantar (“de caráter íntimo”), efetivamente, aconteceu, mas, um dia antes, os organizadores contavam com as presenças de Jorge de Lima, José Lins do Rego, Aurélio Buarque de Holanda, Rui Palmeira e Valdemar Cavalcanti, além de Graciliano e Benon e outros.
(2) Em janeiro de 1935, quando os dois foram nomeados pelo interventor federal em Alagoas para, em comissão, “estudarem a aplicação das conclusões [do Congresso de Ensino Regional, realizado na Bahia] na organização do ensino em Alagoas”. Tampouco posso garantir que a comissão tenha mesmo chegado a se reunir, embora isso seja provável.
(3) Em março de 1936, quando Graciliano, preso por razões políticas, era conduzido no trem da Great Western de Maceió para o Recife. Este encontro, registrado em três passagens das “Memórias do Cárcere” (págs. 31-32, 61 e 67-68, vol. 1) não foi amistoso.
Ao relatar o desagradável episódio, Graciliano recorda que Benon o visitava na Imprensa Oficial, onde ele (o escritor) "bocejava a olhar, sob um telheiro próximo, um homem que enchia dornas e uma mulher que lavava garrafas" (pág. 31).
Os textos e respectivas legendas reproduzidos em anexo contam um pouco mais dessas histórias.
Referência: Graciliano Ramos, “Memórias do Cárcere”, Rio de Janeiro, Livraria Martins Fontes, 4ª. Edição, 2 vols. 1960.

CARLOS RELEMBRA

Gustavo Maia Gomes
Quatro décadas depois de deixar União (desde 1943, União dos Palmares, AL), o advogado, jornalista e escritor Carlos Povina Cavalcanti (1898-1974) foi, em 1969, rever a cidade onde nascera. Depois, relembrou a infância num livro precioso para quem, como eu, gosta das histórias dos primeiros anos 1900 (e de outras épocas, também) nos rincões canavieiros.
Ainda mais quando essas histórias envolvem personagens de livros meus. É o caso: em Maceió, Povina foi recebido por Antonio Gomes de Barros (1915-76); em União, ele circulou guiado por Mariá Sarmento (1898-1974). De ambos, em “Uma Noite em Anhumas”, contarei episódios da vida, embora apenas Antonio seja meu parente.
Carlos relembra nomes de ruas palmarinas aos quais a gente se afeiçoava – como os das ruas recifenses antigas, que encantaram poetas. Em União, “a Rua do Comércio [hoje] tem outro nome: Correia de Oliveira, cronologicamente, o primeiro poeta [local]” (pág. 11); “a Rua da Fábrica era assim chamada porque uma companhia inglesa explorava o fabrico de óleo extraído do caroço de algodão” (pág. 24).
“A casinha ficava além da Rua do Carvão, numa elevação sombreada por altos castanheiros” (30). “Meu pai, (...) adquirira a casa da Rua do Virador” (32). Corria “a notícia de que a Chiquinha Máximo era mula-de-padre: [à] meia-noite, abandonava sua palhoça da Apertada Hora e demandava o caminho do cemitério, chocalhando guizos” (36). Havia a Rua do Cangote Liso (37); a das Cordas, em que moravam as mulheres da vida (52); a do Boi, próxima de onde um bando de ciganos acampou (54).
Ciganos, sim: “Tendas de lona, mulheres vestidas de pano multicor, argolas, brincos, colares de várias voltas envolvendo o pescoço, um lenço de seda na cabeça” (55). Espíritos também havia, em União. Os Cavalcanti foram morar em “um casarão de esquina, com grande quintal. (...) Meus pais ouviram que [a casa] era mal-assombrada, mas não não deram a menor atenção aos boatos”. Exceto por mandar “cortar o enorme pé de maracujá [pois] aquela planta (...) atraía maus olhados” (16). Na dúvida, duvide.
Superstições: “uma ave agourenta, [a] rasga-mortalha, quando, em noite escura, desferia seu canto, imitando o rasgar de um pano, até os adultos se benziam” (36). E o corcunda Vilela? “Meu pai me aconselhou que o evitasse: – É o sujeito mais azarento do mundo. Seu olhar fulmina como um raio; seus fluidos magnéticos têm um poder de morte irresistível” (37). Coitado do Vilela: ninguém lhe devia dar sossego. E o “preto velho, cachaceiro inveterado, mas inofensivo, que bebia até cair na rua”? (39) Era o Casemiro.
A feira, as comidas, as festas, os banhos de rio, os meses de Maio, as festas da padroeira, os pássaros, os poucos ricos, os muitos remediados, os pobres, as cavalhadas, quilombos e paus-de-sebo, a escola primária, a palmatória, o peru do Natal embebedado com aguardente, o “costurar-pra-fora”, o cavar botija, o primeiro palmarino padre... Tudo isso União tinha.
Chega! Em uma página, não posso fazer jus a 180 outras, bem escritas e ricas em conteúdo. Para quem quiser desfrutar de mais histórias da velha União, o livro de Povina Cavalcanti ainda pode ser adquirido num sebo virtual – essa oitava maravilha do mundo. Foi o que eu fiz, sem arrependimentos.
(Referência: Povina Cavalcanti, “Volta à Infância: Memórias”. Rio de Janeiro, Editora José Olympio / Instituto Nacional do Livro, 1972.)

IGARASSU

Gustavo Maia Gomes
Fomos, ontem, Lourdes e eu, a Igarassu (Litoral Norte, PE) admirar mais uma vez a beleza do seu acervo arquitetônico. Anotamos o estado de conservação (em geral, bom) dos prédios históricos. Também louvável é a limpeza das ruas. Digo isso com satisfação, tantos são os exemplos negativos que temos visto por aí.
Por outro lado, tivemos que lidar com potenciais ameaças à segurança. Num caso, um sujeito com cara de mau dirigiu-se para onde havíamos estacionado o nosso carro. (Achamos prudente tirar o veículo dali.) Mais à frente, lemos no muro de uma casa que o seu proprietário já tinha sido assaltado cinco vezes.
Somando tudo, surge um paradoxo. A despeito da história multissecular, do acervo arquitetônico invejável, da localização tão próxima ao Recife, Igarassu não recebe um número compatível de visitantes. Para ser sincero, Lourdes e eu não vimos um só turista transitando pelo centro histórico, ontem. E era um domingo ensolarado.
Igarassu “é considerado o primeiro núcleo de povoamento do país” (IBGE). Foi onde Duarte Coelho (1485-1554), escolhido dono do lugar pelo Rei João III (1502-57), de Portugal, iniciou seus trabalhos de colonizador, em 1535.

A área era habitada por índios caetés que, nem um pouco satisfeitos com a chegada dos europeus, opuseram-lhes forte resistência. Foram vencidos. Em 1537, Duarte Coelho fundou a Vila de Igarassu, cujo nome significa “canoa grande” (IBGE).
Fundar uma vila significava erigir o prédio da cadeia pública e construir conventos e igrejas. Uma, duas, três, quatro, cinco... quantas igrejas suportassem os parcos orçamentos locais, aplicados quase exclusivamente nesses projetos.
Nos seus 482 anos de existência, Igarassu viveu episódios eletrizantes. Seus moradores foram, em alguns casos, perseguidos pelos holandeses, que puseram fogo na então Câmara e Cadeia (1632), hoje Sobrado do Imperador. Seu convento franciscano de Santo Antônio abrigou os líderes da Revolução Praieira (1848). Sua igreja matriz, dedicada aos santos Cosme e Damião, carrega a fama (subscrita pelo IBGE, embora alguns contestem isso) de ser a mais antiga do Brasil.
Todos esses prédios ainda estão lá, para o desfrute de quem valoriza a História e a Arquitetura. E, no entanto, os mesmos pernambucanos que se atropelam nas filas do Consulado Americano mendigando permissão para uma viagem demorada, cara e insensata à Disneyworld, muitas vezes, nem sequer sabem que Igarassu existe, embora a cidade fique meros 30 km distante do Recife.

DORIS DAY NO AMAPÁ

Gustavo Maia Gomes
Em meados dos anos setenta, morando em São Paulo, eu trabalhava na Copersucar, a cooperativa dos usineiros. A empresa chegou a ser a maior do Brasil, em faturamento, entre 1972 e 1974.
Formávamos um time maravilhoso, de gente competente e amiga como Julio Maria Borges, Norberto Antônio Batista, Akio Tanaka, José Santana, Diogo Galhardo, Reinaldo Alcântara, Roberto Moura Campos e outros, comandados por Marcio Diniz Gotlib. (Claudio Peçanha entrou pouco depois.)
O que me fez lembrar disso agora? A morte de Doris Day.
Explico.
Um dia, fomos surpreendidos pela presença de Fernando (Coutinho, se bem me lembro) entre nós. Tinha sido advogado da Icomi, empresa mineradora de manganês no Amapá. Acho que foi contratado para agradar algum poderoso em Brasília. Na Assessoria Econômica, não teria muito a fazer. Ou nada. Nem estava ali para isso. Grande contador de histórias, com frequência, tomava horas de nosso tempo relembrando casos como este de Doris Day no Amapá.
Certa manhã, estando na sua sala da Icomi, ele foi chamado com urgência ao cartório da cidadezinha próxima, pois um trabalhador da mineradora estava no local, perturbadíssimo, ameaçando agredir o homem que o atendera.
— Qual é o problema? — falou Fernando, ao chegar.
— Pergunte ao seu funcionário — respondeu o tabelião.
Foi o que fez. O operário humilde, semianalfabeto, logo reconhecido pelo advogado, parecia outra pessoa de tão irado:
— Eu quero registrar minha filha como Doris Day e eles não deixam.
Absurdo, pensou Fernando: se ele quer que a filha se chame Doris Day, como pode o cartório impedi-lo? E foi ter com o tabelião, de quem ouviu uma explicação simples:
— O homem já tem uma filha Doris Day registrada aqui mesmo.
Fernando retornou, então, ao pai indignado, na esperança de convencê-lo a escolher outro nome para a menina.
— Mentira dele, dotô, minha primeira filha é Doris Dái. Esta, eu quero que seja Doris Dei!

BURRICE TEM LIMITE?

Gustavo Maia Gomes
O presidente faz declarações desastradas, uma após a outra; submete-se a um pseudo-filósofo, cujo linguajar remete ao baixo meretrício. Um ministro da Educação idiota sucede outro retardado mental e vai à Câmara agredir os deputados, de quem o governo precisa para aprovar suas propostas.
Filhos do presidente, promovidos a eminências pardas, agem como sabotadores. Sem qualquer necessidade, abrem-se, ao mesmo tempo, várias frentes de luta, aglutinando os inimigos. Criando inimigos! Promove-se agressão indiscriminada à Universidade, onde há pessoas de todas as posições políticas e variados méritos acadêmicos.
Com tudo isso (e mais o que me dispensei de relembrar), o governo conseguiu, entre outras coisas, provocar protestos de multidões vermelhas -- não quero dizer que tenham sido apenas petistas --, até ontem, silenciadas pelo repúdio nacional às práticas corruptas e administração desastrosa de seu principal partido.
Rotular de idiotas todos os manifestantes -- como fez o presidente --, além de ser ofensivo, tira a legitimidade das multidões anteriores, cujos protestos foram um dos elementos que levaram à eleição do Sr. Bolsonaro.
Se permanecer assim, ele pode dar adeus à reforma da Previdência, ou a qualquer outra. E, como não parece ter nada mais a propor (o pacote anti-crime morreu antes do parto), apenas lhe restará assistir à caminhada de seu governo para um fim prematuro e melancólico. O triste fim de Policarpo Quaresma.
Há o real perigo -- seria, realmente, uma tragédia -- de que isso tudo nos traga de volta a quadrilha petista. Aí eu me pergunto: burrice tem limite?

POR QUE VIÇOSA FOI ESPECIAL?

Gustavo Maia Gomes
Uma vez, lancei aos meus alunos de História do Pensamento Econômico – deve ter sido em 2007, ou 2008 – o seguinte desafio:
– Por que a Grécia Clássica, na verdade, a civilização helênica, produziu tantos filósofos?
As razões não foram econômicas: se Atenas foi rica, Roma foi mais. Nem geográficas: se havia algo especial naquelas terras de Tales, Pitágoras e Aristóteles, teria deixado de haver, desde então? O mar continuou o mesmo, as costas escarpadas, o calor e o frio, as terras áridas ou férteis... Os filósofos, contudo, desapareceram.
Teriam sido razões culturais? Talvez, mas a hipótese não nos leva muito longe. Apenas troca a pergunta: por que, então, essa cultura especialíssima, incubadora de gênios, desenvolveu-se na Grécia e em seu mundo e somente lá? Não em Roma, no Egito, Japão, China.
Arrisco-me a dizer que a melhor resposta está num fator não-econômico, não-geográfico, não-cultural. Os gregos antigos tinham uma genética única, uma propensão à genialidade inscrita no sangue, nos nervos, nos ossos, nalguma parte do corpo. Só pode ter sido isso. (É claro que se poderia perguntar: por que eles, não os vizinhos? Mas, neste ponto, passo a bola para biólogos, fisiologistas, neuro-cientistas ou quem mais entenda do assunto.)
Ao redigir o capítulo sobre Viçosa (AL) de “Uma Noite em Anhumas”, meu próximo livro, experimentei o choque de descobrir naquela cidade, na primeira metade do século XX, uma quantidade enorme de homens intelectualmente brilhantes. (Muitas mulheres devem ter sido tão ou mais inteligentes do que seus maridos e irmãos, mas deixaram poucos registros públicos disso. Tributo a uma cultura que as oprimia.)
– Por que Viçosa foi especial?
Porque aquela gente tinha um parafuso a mais. Manuel Neném – analfabeto, maior cantador do Nordeste –; os josés Pimentel de Amorim e Maria de Melo, médicos, escritores; os Brandão: Manuel, Alfredo, Aloísio, Théo, folcloristas; Octavio, quase um Lênin brasileiro; Teotônio, senador, Avelar, padre.
Filhos de uma cidade canavieira igual a tantas outras, eles atingiram níveis intelectuais, políticos, religiosos superiores. Alcançaram reconhecimento nacional. Ganharam prêmios em São Paulo, no Rio de Janeiro. Publicaram livros, fundaram museus, academias, venceram eleições, comandaram a redemocratização. Um virou o cardeal primaz do Brasil.
Em Viçosa – como em nenhum outro lugar – a civilização do açúcar descolou-se do engenho, do localismo imbecilizante, para alçar voos impensáveis. Nem Gilberto Freyre acreditaria que isso pudesse acontecer. Ter acontecido.

THÉO ENCONTRA ÉLIDE

Gustavo Maia Gomes
A forte atração pelos folguedos populares, principalmente os encenados nas casas-grandes das fazendas, levava o menino Théo Brandão a deixar Maceió nas férias escolares para ficar com o tio, Olegário Vilela, no engenho Boa Sorte, em Viçosa (AL).
Foi numa dessas férias que ele conheceu Élide Bahia de Almeida. Era o carnaval de 1921 e Théo estava com o amigo Djalma Loureiro quando avistou uma moça fantasiada de Pierrô Negro prestes a entrar no único cinema da cidade. Perguntou:
– Djalma, quem é aquela menina?
– Por que você quer saber?
– Estou achando-a tão bonita.
– Eu também acho, mas ela é danada –, disse o amigo, revelando ciúmes.
Théo fingiu não entender e começou a namorar Élide, filha de Olímpio Almeida, comerciante, e de Aládia Bahia de Almeida, a quem meu pai, Mauro Bahia de Maia Gomes, sempre se referia como “Tia Mocinha”. Os primeiros encontros ocorreram na pracinha de Viçosa. Mas, as férias terminaram e o rapaz retornou a Maceió, enquanto Élide foi enviada para o Recife, a fim de estudar em regime de internato.
Restou-lhes trocar cartas e se verem muito pouco, no longo período (1924-29) em que Théo esteve na Bahia e no Rio de Janeiro cursando e se formando em Farmácia e em Medicina. Terminado o curso médico (1929), o agora doutor estava de novo em Alagoas. Foi procurar o pai da namorada, que então morava na Praça Sinimbu (região central de Maceió), numa casa ainda existente que eu visitei mais de uma vez. Queria tratar do casamento. Mas, ouviu isso:
– Meu jovem, quando uma filha minha entra nos estudos, só sai depois de formada.
E então, sem confrontar o futuro sogro, mas para ficar perto da noiva nos fins de semana, Théo montou consultório no Recife e aqui trabalhou (1930-32), até que Élide concluiu sua instrução formal no Colégio Nossa Senhora do Carmo. O casamento foi realizado na Igreja do Livramento, em Maceió (1935).
Tiveram quatro filhos: Walter, Vólia, Vera e Válnia. Theotonio Vilela Brandão faleceu no dia 29 de setembro de 1981. (Tinha nascido em 1907.) Élide viveu mais alguns anos (ainda não consegui saber quantos), continuando a morar no sítio do casal na praia de Jatiúca, Maceió.
PS. Élide faleceu em 1992, segundo me informou nos comentários sua neta Vólia Brandão de Lavanère Machado.
Referência:
“A forte atração pelo folclore o levou a conhecer a esposa Élide”, Tribuna de Alagoas (Especial Théo Brandão), Maceió, 26/1/1982. Em Arquivo Digital do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular.

ALOÍSIO

Gustavo Maia Gomes
José Aloísio Brandão Vilela (1903-76) – um dos quatro folcloristas da “Escola de Viçosa” (AL) que deram fama à cidade, em meados do século XX – foi um intelectual diferente. Pesquisou muito; publicou pouco. Mas foi amplamente considerado profundo conhecedor dos assuntos que lhe interessavam.
Morreu na madrugada de 4 de setembro de 1976, em acidente de carro nas imediações de Arapiraca (AL). Seu irmão Teotônio Vilela (1917-83), senador de Alagoas, líder da luta pela redemocratização, escreveu: “[Aloísio] tinha pela cultura popular uma obsessão quase mística”. E disse mais, no mesmo “Boletim Alagoano de Folclore” (1977-1, edição em memória de José Aloísio Vilela):
“Caçava as manifestações de inteligência por toda a parte. Nas festas de rua, nos pagodes, nos desafios à viola entre cantadores, nos reisados, cheganças, guerreiros, nos pastoris, no coco das Alagoas, nas cavalhadas, na roda de Zé Rubina, no cego cantando toada, no aleijado tocando reco-reco, nas narrativas dos ex-cabras de Lampião e Antônio Silvino, na fé dos romeiros do padre Cícero, na admiração popular aos oradores políticos”.
Dentre os poucos livros que José Aloísio publicou em vida, o mais conhecido é "O Coco das Alagoas: Origem, evolução, dança e modalidades" (1961). No respectivo prefácio, assim falou Luís da Câmara Cascudo (1898-1986): "Alagoas, (...) pode apresentar um autêntico recriador da ciência coletiva, alma clara e ampla para onde convergem, bramindo e sonhando, as águas vivas do folclore alagoano, um José Aloísio Vilela, meu compadre pela graça de Deus e unânime aclamação dos povos".
Incluo nesta postagem dois conjuntos de fotos. O primeiro é do acervo familiar preservado desde o tempo de meus avós Nominando Maia Gomes e Josefa (Maninha) Bahia. Este contém fotos com dedicatórias de José Aloísio, de Laura Bahia (sua mulher, irmã de Josefa) e de três de seus filhos. O segundo, copiado do “Boletim Alagoano de Folclore”, inclui flagrantes da vida pública de José Aloísio.

CASAMENTOS NA COZINHA

Gustavo Maia Gomes
“Comes e bebes no Nordeste”, do pernambucano Mario Souto Maior (1920-2001), vai muito além de um dicionário de alimentos legitimamente regionais. Relaciona em ordem alfabética as comidas destas bandas do Brasil, sim, e nisto parece um dicionário, mas também dá muitos outros detalhes e explicações a respeito de cada prato ou copo, qualificando-se, portanto, como uma obra de sociologia.
Até meados do século XX, nas famílias proprietárias de terra, assim como naquelas de classe alta ou média urbana (chefiadas, talvez, por um bacharel em Direito) da sociedade canavieiro-açucareira nordestina, uma moça tinha três modelos de vida adulta dentre os quais escolher, ou ser forçada a seguir: (1) casar-se, (2) virar a tia solteira que acompanhava os pais na velhice e ajudava as irmãs casadas a criar os filhos, e (3) entrar num convento.
Algumas moças, é verdade, decidiam seguir carreiras profissionais – Nise da Silveira (1905-99) e Lily Lages (1907-2003), alagoanas, foram médicas. Mas eram uma ínfima minoria. A opção preferencial era mesmo casar. E, uma vez casadas, manter o casamento. Para tanto, havia receitas culinárias que podiam ajudar, como a do doce Amarra Marido.
“Batem-se as claras de seis ovos até o ponto de suspiro. Juntam-se, então, as gemas, dois pires de batatas doce cozidas e machucadas, um pires raso de farinha de trigo, uma colher de sopa de manteiga, um copo de leite de vaca, uma pitada de canela em pó e açúcar até adoçar. A forma [de ágata, para o doce não ficar preto] deve ser untada com manteiga e levada ao forno regular” (pág. 25 da 2ª edição, 1985).
Explica Souto Maior: “uma mulher que, além das qualidades próprias de seu sexo, soubesse fazer pratos gostosos tinha maiores possibilidades de segurar seu marido” (idem).
Havia também o bolo Engorda Marido, uma receita já antes recolhida por Gilberto Freyre: “Doze ovos batidos como para pão-de-ló, 500 gramas de farinha de trigo, 500 gramas de manteiga, leite de dois cocos espremidos em um pouco de água morna e uma colher de chá de canela em pó. Vai ao forno em forma untada de manteiga” (Souto Maior, pág. 39).
“Há umas três décadas atrás”, acrescenta o autor, “quando a mulher nordestina era exclusivamente de prendas domésticas (...) procurava (...) enfeitar a mesa com pratos diferentes, guloseimas tentadoras, verdadeiros pecados de gula para o marido e os filhos” (idem).
E tome bolos (Iaiá, milho seco, Cabano, de amor, de bacia, à moda de Pernambuco, de batata doce, de caroço de jaca, de castanha de caju, de coco, de coco Sinhá-Dona, de fruta-pão, de macaxeira, de mandioca, de mel de engenho, de milho verde, de milho seco, de nata, de Rolo Pernambucano, de São João, de um ovo só, do Diabo, de massa de mandioca, Manuê, ouro e prata, pão-de-ló, Padre João, paraibano, Pé de Moleque, Pé de Moleque com rapadura, Perna de Moça, Souza Leão, Tia Sinhá, 13 de Maio... (págs. 34-42)
As mulheres não paravam por aí. Depois dos bolos, tratavam de manter filhos e maridos felizes e gordos com os doces: de abacaxi, abacaxi em calda, abacaxi cristalizado, araçá, banana em rodinhas, batata doce, caju, carambola, coco, gergelim, goiaba em lata, goiaba em calda, guabiraba, jaca-dura, jaca-mole, jerimum, laranja da terra, de leite, de leite com ovos, limão, mamão à moda sertaneja, manga, mangaba de Pernambuco, maracujá, sapoti, umbu, japonês, quebra queixos... (págs. 55-62)
Se eu ainda tivesse espaço aqui, diria para vocês de quantos desses bolos e doces já experimentei na vida. Não foram poucos.

"ME INCLUAM FORA DISSO"

Gustavo Maia Gomes
Estou farto de expressões pedantes, muitas delas mal traduzidas do inglês, cada vez mais repetidas. Deus me livre de "pensar fora do quadrado"; ninguém espere de mim "dar o meu melhor"; nem me ouvir falar em "zona de conforto".
Quem está louco para "pensar fora do quadrado" é Lula; quem todo dia "dava o seu melhor" se batendo contra a polícia era Lolita, tipo popular pernambucano; de "zona de conforto", quem entende é marinheiro desembarcado.
Não sou contra a assimilação no linguajar formal ou informal de palavras ou expressões estrangeiras. Só que nem todo estrangeirismo se justifica. Alguns são, realmente, insuportáveis. Deveríamos evitá-los.
Sim, "futebol" é melhor do que "ludopédio"; "show", mais simples do que "exposição". Quem tem uma palavra para substituir "feedback"? Enquanto você escreve "correio eletrônico", seu concorrente já enviou três "e-mails".
Aborrece-me o pedantismo macaqueado por gente que não pensa, nem com caixa, nem sem caixa. O último jogador de futebol que disse ter "dado o seu melhor" na partida tinha acabado de fazer um gol contra. Na "zona de conforto" estava o técnico do mesmo time, dois minutos antes de ser demitido.
Eita, esqueci do tal "núcleo duro". Mas, já escrevi aqui mesmo, faz um ano, talvez: núcleo duro é caroço!