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"Uma mentira seguidamente repetida vira verdade" (Goebbels) Alguma semelhança com o Brasil de hoje? |
Após perder a guerra dos anos 1939-45, o fascismo ficou órfão; ninguém
mais proclama seu amor por ele. Ao contrário dos tempos de Mussolini e Hitler quando, na Itália e Alemanha, difícil era encontrar quem não se dissesse fascista, hoje, as coisas estão mudadas. Até mesmo a pergunta
do título pode parecer ofensiva.
Não foi minha intenção, mas mantenho o título, por um motivo
principal: no mundo de hoje, os fascistas nunca se reconhecem como tais. Escondem
seus objetivos; mistificam os métodos empregados para alcançá-los; difundem a
ideia de ter sido o fascismo um movimento “de direita” e que, portanto, as entidades
“de esquerda” não podem ser fascistas. Meia verdade. Falta dizer que o fascismo
foi, também, um conjunto de práticas políticas bem características, algumas das
quais, com as adaptações inevitáveis de grau e estilo, estão sendo repetidas pelo
PT e seus governos.
INGREDIENTES DO FASCISMO
Inspirado na lista de Lawrence Britt, citado nas referências (A), mas
eliminando as características que refletem, apenas, os casos específicos da
Alemanha e da Itália, relaciono abaixo nove elementos que, a meu ver, são definidores
do fascismo, não apenas na sua forma clássica, mas também na contemporânea. Em
nenhum país vamos encontrá-los todos, mas em muitos eles estão presentes e são
facilmente reconhecidos pelos seus adeptos – ou vítimas.
1. Nacionalismo
como principal bandeira política
2. Poder
pessoal ilimitado do Líder Máximo
3. Desprezo
pelas instituições democráticas
4. Adesão
à Lei de Goebbels
5. Controle
da mídia de massa e do pensamento livre em geral
6. Uso
indiscriminado da estratégia de exacerbar conflitos, criar vilões e vítimas
7. O
partido como organização que prevalece sobre os indivíduos
8. Economia
dirigida pelo Estado
9. Aliança
com as corporações, inclusive, empresariais
Onde fica o PT, na Lista de Britt modificada acima? Comento item
por item.
1. Nacionalismo como principal bandeira política.
Esta não é uma característica da política brasileira atual (2003-14). Penso haver
duas razões para isso. Uma é a ligação sentimental de vários líderes petistas
com o “internacionalismo proletário”. A outra tem a ver com as conveniências do
momento: Hitler usou o nacionalismo (e o racismo) como meio de unir os alemães sob
sua liderança; os petistas acreditam que podem alcançar o mesmo resultado com
menos esforço e mais economia, distribuindo dinheiro público de graça ou
altamente subsidiado para pobres (Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida,
Prouni...) e ricos (via BNDES, sobretudo).
2. Poder pessoal ilimitado do
Líder Máximo. No Brasil, não temos ninguém com poder
ilimitado sobre toda a nação. Mas, certamente, já existe um “Líder Máximo” do
PT, cujos desejos e vontades prevalecem, inclusive, sobre o próprio partido. É a
única pessoa com poder para tanto. No fundo, sua força se baseia na inegável popularidade,
em cuja sombra uma multidão de acólitos se beneficia com prestigiosos e bem
remunerados empregos e com o correspondente acesso a fundos públicos.
Mas se não existe o poder absoluto sobre a nação, existe, com
certeza, o desejo do Líder Máximo de alcançá-lo, seja diretamente, seja por
meio de prepostos obedientes. Nesta luta, a imprensa é taxada de golpista; o
Legislativo é submetido ao poder do dinheiro; o Judiciário é afrontado pela tentativa
de deslegitimizar as sentenças exaradas por sua mais alta corte e por nomeações de ministros que, sempre se soube, iriam revertê-las.
3. Desprezo pelas instituições
democráticas. Embora tente fazer parecer o contrário (por
exemplo, ao seguir um ritual de escolha pelo voto dos seus candidatos às
eleições sem importância), a prática política do PT põe às claras o desprezo
pelas instituições essenciais à democracia. Três exemplos:
(i) a explícita, continuada e oficial solidariedade do partido (em
certa medida, do governo) aos petistas condenados por corrupção, atitude que
afronta e desmoraliza o Poder Judiciário;
(ii) o apoio total, demonstrado das mais variadas formas (por
exemplo, a importação de médicos escravos cubanos) a ditaduras internacionais
declaradas (Cuba) ou disfarçadas (Venezuela);
(iii) a criação e preenchimento com petistas de um número
extravagante de cargos públicos, a maioria deles desnecessários, sendo que os possivelmente
úteis tampouco o são, na prática, já que entregues a pessoas, via de regra,
desqualificadas.
4. Adesão à Lei de Goebbels. O ministro
da Propaganda de Hitler era, reconhecidamente, um gênio. Sua máxima “a mentira
insistentemente repetida vira verdade” desempenhou um papel de enorme
relevância na consolidação do poder dos nacional-socialistas. O PT não tem um
ministro da Propaganda (talvez o Sr. Gilberto Carvalho?), mas segue fielmente a
Lei de Goebbels. Três exemplos:
(i) A suposta “herança
maldita”, deixada por Fernando Henrique.
Ao contrário da versão insistentemente repetida, os problemas no
início do primeiro governo petista se deveram ao medo sentido em todo o mundo
de que o PT pusesse em prática (como vivia anunciando que faria) aberrações
tipo suspender o pagamento da dívida externa ou adotar políticas fiscal e
monetária frouxas, que trariam a inflação de volta. Ao contrário de maldita, a
herança de FHC foi tão boa que Luís Inácio nada fez senão dar continuidade ao
que vinha sendo feito, até se sentir suficientemente seguro (ele e sua
sucessora) para, a partir de 2009, impor ao país suas próprias idéias, com os resultados
– estes, sim, malditos – hoje visíveis.
(ii) A posição do partido e
do governo petista de nunca reconhecer seus próprios erros, mas, diante de uma
realidade desfavorável, escamotear os problemas ou jogar a culpa nos outros.
Sobre “escamotear”, remeto o leitor ao depoimento citado nas
referências. (B)
Sobre “jogar a culpa nos outros”, a história da “herança maldita”
é um caso, mas há outros, mais atuais. Por exemplo: segundo o governo petista,
até 2011, as dificuldades da economia brasileira se deviam à política monetária
frouxa dos Estados Unidos, que
mantinha o dólar em baixa; depois de
2011, as dificuldades da economia brasileira se devem à política monetária apertada dos Estados Unidos, que mantém
o dólar em alta. Nem uma palavra
sobre as desastrosas políticas macro e microeconômicas pós-2009, capazes de
gerar crises até no melhor dos mundos.
(iii) A tese de que o
julgamento do Mensalão foi ilegítimo, ou “político”, no sentido de parcial,
juridicamente frouxo, influenciado pela opinião pública.
Se a decisão da mais alta corte de um país, em plena vigência do
Estado de Direito, é “ilegítima”, o que poderia ser uma sentença “legítima”? Apenas
aquela que conviesse ao partido no poder? Se as sentenças proferidas por onze
ministros – oito deles nomeados por Luís Inácio ou Dilma Rousseff – tivessem
sido “políticas”, para que lado teriam elas pendido? Se o processo do Mensalão foi
juridicamente frouxo, influenciado pela opinião pública, então os ministros que
o conduziram são incompetentes, ou corruptos, ou ambos. Quem é responsável por
isso? A “imprensa golpista”? Ou os presidentes petistas que os nomearam?
5. Controle da mídia de massa e
do pensamento livre em geral. O PT ainda não consegue, mas
tenta controlar a livre circulação de informações difundindo por todos os meios
uma visão caluniosa sobre o que chama de “imprensa golpista”. A expressão se
aplica a qualquer meio de comunicação que não se limite a subscrever e repetir
mecanicamente a versão petista dos acontecimentos. Além disso, não há provas,
mas rumores circulam de que “o PT tem uma rede de blogueiros em seu bolso” e também
que se dedica com afinco a criar e manter nas redes sociais falsos perfis ocupados
em difamar todos os internautas que demonstrem uma posição crítica ou
antagônica ao partido. (C)
Quanto às tentativas de controlar o pensamento livre, os nazistas
promoviam queimas públicas de livros; nossos governantes atuais querem reescrever
Monteiro Lobato, de modo a desnegrizar Tia Nastácia e repor a perna faltante do
Saci Pererê. Há enorme diferença de grau, mas a essência é a mesma.
6. Uso indiscriminado da
estratégia de exacerbar conflitos, criar vilões e vítimas. Esta
estratégia atingiu a perfeição com Hitler, que fez da perseguição aos judeus a
razão principal de seu regime político personalista. Felizmente, apesar dos
esforços da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial, um dos 39 ministérios
do governo petista, não temos ainda nenhum exemplo comparável à caça aos judeus
no Brasil de hoje. Mas chegaremos lá. As vítimas já estão escolhidas: são os
negros (se é que se pode, ainda, usar esta palavra); os vilões, também: somos
nós, os brancos (ou melhor, cinzentos) que ganhamos mais de um salário mínimo
e, sobretudo, não votamos no PT.
7. O partido como organização
que prevalece sobre os indivíduos. De novo, não temos nada
parecido com o que houve nos casos clássicos de fascismo, mas algumas
ocorrências nessa área merecem registro. Por exemplo, embora a prática seja
ilegal, o PT exige que seus filiados eleitos ou nomeados para cargos públicos
paguem ao partido 10% dos respectivos vencimentos. No caso dos indicados a
cargos de confiança, o pedágio é cobrado até mesmo de não filiados. (D)
Estabelece-se, portanto, um canal direto -- e à margem da lei -- de apropriação de
dinheiro público pelo Partido dos Trabalhadores, com a nefasta consequencia de
que, quanto mais cargos sejam criados e quanto mais alta seja a remuneração correspondente, maior
o volume de recursos públicos canalizados para o PT.
8. Economia dirigida pelo
Estado. Não, não temos, ainda, uma economia dirigida pelo Estado. Mas os
governos do PT estão movendo o país nesta direção. Devido à sua herança
ideológica, o intervencionismo estatal na economia aprofundou-se no governo
Dilma Rousseff. As empresas estatais – cabides de emprego para petistas desde a
época de Luís Inácio -- voltaram a ser abertamente usadas como instrumentos de
política econômica, quase sempre, em detrimento de seus próprios interesses.
Um resultado disso, entre outros, tem sido a situação pré-falimentar
da Petrobrás, obrigada a operar com preços defasados para ajudar o
governo a controlar a inflação que ele mesmo cria. Como resultado, de 2011 até hoje, a
Petrobras perdeu R$ 229 bilhões em valor de mercado. (E)
9. Aliança com as corporações,
inclusive, empresariais. Há alianças com as
corporações, sim, mas isso não parece ser um elemento essencial da estratégia
do partido e respectivos governos. O segredo da longevidade petista é
outro. No país do PT, a vida é boa para: (i) os muito pobres (relativamente à
sua situação anterior, claro), (ii) os pobres, e (iii) os muito ricos. Que essa
bondade toda não pode durar para sempre, porque cria inflação, destroi o crescimento econômico, e desmoraliza os que trabalham para ganhar a vida é algo que irá ficar inteiramente evidente depois das eleições deste ano.
Por outro lado, no mesmo país do PT, a vida é muito ruim (relativamente
falando) para: (iv) a classe média – profissionais liberais, empregados com
educação de terceiro grau, comerciantes e industriais de porte médio, entre
outros – que paga boa parte da farra dos grupos privilegiados. Explico:
(i) Os muito pobres, pela primeira vez na escala observada após
2003, recebem dinheiro de graça. Isso lhes melhora a vida, mas os obriga a
continuar muito pobres, para não perder a Bolsa Família. Em troca, eles ficam
satisfeitos, agradecidos, e se tornam eleitores incondicionais de Luís Inácio e
de seus amigos.
(ii) Os pobres recebem aumentos reais de salário mínimo e
benefícios variados que vão desde a possibilidade de estudar de graça em
faculdades privadas (via Prouni) até comprar uma casa modesta em condições de
prazos e juros altamente favorecidas.
(iii) Os muito ricos também não têm do que se queixar: “no fim de
setembro deste ano (2013), o saldo dos empréstimos do Tesouro ao BNDES estava
em R$ 383 bilhões, o equivalente a 8,2% do Produto Interno Bruto.” (F). Todo esse dinheiro, resultante da
arrecadação de impostos ou de operações de empréstimos do governo, se
transformou em crédito subsidiado, predominantemente, para grandes empresas privadas.
Quem paga tudo isso? Em grande parte, (iv) a classe média. Igual a todo mundo,
ela tem sua pesada carga de impostos; diferentemente de todo mundo, quase nada recebe em troca.
É O PT UM PARTIDO FASCISTA?
Os otimistas diriam que ainda falta muito para o PT se tornar um partido
fascista. Mas alguns dos traços de comportamento que levam ao fascismo estão, claramente,
presentes no partido. A intolerância com a oposição é o mais destacado deles. Há um grande perigo aí, pois, em
havendo espaço, a intolerância evoluirá
para o autoritarismo. Se a parcela da população brasileira que preza as
liberdades individuais e a diversidade de opiniões não reagir em tempo, é para
o fascismo que o PT nos levará a todos.
E aí aqueles de nós que detestávamos ser governados por ditadores
militares incultos vamos ter de nos acostumar a ser governados por ditadores
civis analfabetos.
Gustavo Maia Gomes
Recife, 8 de março de 2014
REFERÊNCIAS
(D) Alice Maciel, “Partidos
abocanham parte dos salários de servidores comissionados” (4/3/2013), em
http://www.em.com.br/app/noticia/politica/2013/03/04/interna_politica,354356/partidos-abocanham-parte-dos-salarios-de-servidores-comissionados.shtml