segunda-feira, 24 de março de 2014

Em política, seis meses são uma eternidade

-- Quem vai ganhar a eleição de outubro? 
Tenho duas respostas. Uma simples (“não sei”); outra, ainda mais simples (“nem eu, nem ninguém”). Neste universo de não-sapiência, salvam-se, apenas, os socráticos. Eles sabem o que ignoram, mas não ignoram o que sabem: a governanta não está, em absoluto, “eleita”.
-- Por quê?
-- Porque, em política, seis meses são uma eternidade. E, nesta eternidade...
1. Pode acontecer o racionamento de energia elétrica, com o consequente racionamento dos votos da governanta. Onze anos de incompetência e corrupção generalizada levaram o país à beira do abismo. É só um passo à frente e tchumm!
2. Pode acontecer que o mar de lama onde chafurda a Petrobras experimente convulsões inenarráveis, fazendo todo mundo perceber que ninguém compra refinarias superfaturadas, com o dinheiro dos outros, sem botar uma grana no bolso.
3. Pode acontecer uma derrota humilhante do Brasil na Copa, abalando o triunfalismo do PT. Não é improvável: onze idiotas escolhidos em negociatas e somente preocupados em ganhar dinheiro vendendo sapatos vão ganhar de quem?
4. Pode acontecer que a organização da Copa se revele um desastre, fornecendo petardos para a Oposição lançar contra o governo. Quem freqüenta os aeroportos brasileiros em épocas normais sabe do que estou falando.
5. Pode acontecer uma onda de protestos irrefreável. As manifestações já foram um divertimento de jovens idealistas; hoje são atividade financiada por partidos políticos irresponsáveis, que não perdem a oportunidade de quebrar uma vidraça.
6. Pode acontecer que a inflação, até agora contida na marra pelo governo, dispare, levando junto a Petrobras, a Eletrobrás e o setor sucroalcooleiro, fazendo o povo lembrar das Organizações Tabajaras: “seus problemas começaram”.
7. Pode acontecer que os 60 por cento do eleitorado desejosos de mudanças (segundo o Ibope), finalmente, percebam o óbvio: é mais fácil a governanta botar a pasta de dente no dentifrício do que ela mudar qualquer coisa, a não ser para pior.
8. Pode acontecer que um dos candidatos oposicionistas caia no gosto do povo, devido à sua aparência jovial. No passado, um alagoano ganhou a eleição porque fazia a barba e escovava os dentes, ao contrário do seu antagonista.
Gustavo Maia Gomes
(Publicado no Facebook em 22 mar 2014)

domingo, 9 de março de 2014

É o PT um partido fascista?

"Uma mentira seguidamente repetida vira verdade" (Goebbels)
Alguma semelhança com o Brasil de hoje?
Após perder a guerra dos anos 1939-45, o fascismo ficou órfão; ninguém mais proclama seu amor por ele. Ao contrário dos tempos de Mussolini e Hitler quando, na Itália e Alemanha, difícil era encontrar quem não se dissesse fascista, hoje, as coisas estão mudadas. Até mesmo a pergunta do título pode parecer ofensiva.
Não foi minha intenção, mas mantenho o título, por um motivo principal: no mundo de hoje, os fascistas nunca se reconhecem como tais. Escondem seus objetivos; mistificam os métodos empregados para alcançá-los; difundem a ideia de ter sido o fascismo um movimento “de direita” e que, portanto, as entidades “de esquerda” não podem ser fascistas. Meia verdade. Falta dizer que o fascismo foi, também, um conjunto de práticas políticas bem características, algumas das quais, com as adaptações inevitáveis de grau e estilo, estão sendo repetidas pelo PT e seus governos.
INGREDIENTES DO FASCISMO
Inspirado na lista de Lawrence Britt, citado nas referências (A), mas eliminando as características que refletem, apenas, os casos específicos da Alemanha e da Itália, relaciono abaixo nove elementos que, a meu ver, são definidores do fascismo, não apenas na sua forma clássica, mas também na contemporânea. Em nenhum país vamos encontrá-los todos, mas em muitos eles estão presentes e são facilmente reconhecidos pelos seus adeptos – ou vítimas.
1.   Nacionalismo como principal bandeira política
2.   Poder pessoal ilimitado do Líder Máximo
3.   Desprezo pelas instituições democráticas
4.   Adesão à Lei de Goebbels
5.   Controle da mídia de massa e do pensamento livre em geral
6.   Uso indiscriminado da estratégia de exacerbar conflitos, criar vilões e vítimas
7.   O partido como organização que prevalece sobre os indivíduos
8.   Economia dirigida pelo Estado
9.   Aliança com as corporações, inclusive, empresariais
Onde fica o PT, na Lista de Britt modificada acima? Comento item por item.
1. Nacionalismo como principal bandeira política. Esta não é uma característica da política brasileira atual (2003-14). Penso haver duas razões para isso. Uma é a ligação sentimental de vários líderes petistas com o “internacionalismo proletário”. A outra tem a ver com as conveniências do momento: Hitler usou o nacionalismo (e o racismo) como meio de unir os alemães sob sua liderança; os petistas acreditam que podem alcançar o mesmo resultado com menos esforço e mais economia, distribuindo dinheiro público de graça ou altamente subsidiado para pobres (Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, Prouni...) e ricos (via BNDES, sobretudo).
2. Poder pessoal ilimitado do Líder Máximo. No Brasil, não temos ninguém com poder ilimitado sobre toda a nação. Mas, certamente, já existe um “Líder Máximo” do PT, cujos desejos e vontades prevalecem, inclusive, sobre o próprio partido. É a única pessoa com poder para tanto. No fundo, sua força se baseia na inegável popularidade, em cuja sombra uma multidão de acólitos se beneficia com prestigiosos e bem remunerados empregos e com o correspondente acesso a fundos públicos.
Mas se não existe o poder absoluto sobre a nação, existe, com certeza, o desejo do Líder Máximo de alcançá-lo, seja diretamente, seja por meio de prepostos obedientes. Nesta luta, a imprensa é taxada de golpista; o Legislativo é submetido ao poder do dinheiro; o Judiciário é afrontado pela tentativa de deslegitimizar as sentenças exaradas por sua mais alta corte e por nomeações de ministros que, sempre se soube, iriam revertê-las.
3. Desprezo pelas instituições democráticas. Embora tente fazer parecer o contrário (por exemplo, ao seguir um ritual de escolha pelo voto dos seus candidatos às eleições sem importância), a prática política do PT põe às claras o desprezo pelas instituições essenciais à democracia. Três exemplos:
(i) a explícita, continuada e oficial solidariedade do partido (em certa medida, do governo) aos petistas condenados por corrupção, atitude que afronta e desmoraliza o Poder Judiciário;
(ii) o apoio total, demonstrado das mais variadas formas (por exemplo, a importação de médicos escravos cubanos) a ditaduras internacionais declaradas (Cuba) ou disfarçadas (Venezuela);
(iii) a criação e preenchimento com petistas de um número extravagante de cargos públicos, a maioria deles desnecessários, sendo que os possivelmente úteis tampouco o são, na prática, já que entregues a pessoas, via de regra, desqualificadas.
4. Adesão à Lei de Goebbels. O ministro da Propaganda de Hitler era, reconhecidamente, um gênio. Sua máxima “a mentira insistentemente repetida vira verdade” desempenhou um papel de enorme relevância na consolidação do poder dos nacional-socialistas. O PT não tem um ministro da Propaganda (talvez o Sr. Gilberto Carvalho?), mas segue fielmente a Lei de Goebbels. Três exemplos:
(i) A suposta “herança maldita”, deixada por Fernando Henrique.
Ao contrário da versão insistentemente repetida, os problemas no início do primeiro governo petista se deveram ao medo sentido em todo o mundo de que o PT pusesse em prática (como vivia anunciando que faria) aberrações tipo suspender o pagamento da dívida externa ou adotar políticas fiscal e monetária frouxas, que trariam a inflação de volta. Ao contrário de maldita, a herança de FHC foi tão boa que Luís Inácio nada fez senão dar continuidade ao que vinha sendo feito, até se sentir suficientemente seguro (ele e sua sucessora) para, a partir de 2009, impor ao país suas próprias idéias, com os resultados – estes, sim, malditos – hoje visíveis.
(ii) A posição do partido e do governo petista de nunca reconhecer seus próprios erros, mas, diante de uma realidade desfavorável, escamotear os problemas ou jogar a culpa nos outros.
Sobre “escamotear”, remeto o leitor ao depoimento citado nas referências. (B)
Sobre “jogar a culpa nos outros”, a história da “herança maldita” é um caso, mas há outros, mais atuais. Por exemplo: segundo o governo petista, até 2011, as dificuldades da economia brasileira se deviam à política monetária frouxa dos Estados Unidos, que mantinha o dólar em baixa; depois de 2011, as dificuldades da economia brasileira se devem à política monetária apertada dos Estados Unidos, que mantém o dólar em alta. Nem uma palavra sobre as desastrosas políticas macro e microeconômicas pós-2009, capazes de gerar crises até no melhor dos mundos.
(iii) A tese de que o julgamento do Mensalão foi ilegítimo, ou “político”, no sentido de parcial, juridicamente frouxo, influenciado pela opinião pública.
Se a decisão da mais alta corte de um país, em plena vigência do Estado de Direito, é “ilegítima”, o que poderia ser uma sentença “legítima”? Apenas aquela que conviesse ao partido no poder? Se as sentenças proferidas por onze ministros – oito deles nomeados por Luís Inácio ou Dilma Rousseff – tivessem sido “políticas”, para que lado teriam elas pendido? Se o processo do Mensalão foi juridicamente frouxo, influenciado pela opinião pública, então os ministros que o conduziram são incompetentes, ou corruptos, ou ambos. Quem é responsável por isso? A “imprensa golpista”? Ou os presidentes petistas que os nomearam?
5. Controle da mídia de massa e do pensamento livre em geral. O PT ainda não consegue, mas tenta controlar a livre circulação de informações difundindo por todos os meios uma visão caluniosa sobre o que chama de “imprensa golpista”. A expressão se aplica a qualquer meio de comunicação que não se limite a subscrever e repetir mecanicamente a versão petista dos acontecimentos. Além disso, não há provas, mas rumores circulam de que “o PT tem uma rede de blogueiros em seu bolso” e também que se dedica com afinco a criar e manter nas redes sociais falsos perfis ocupados em difamar todos os internautas que demonstrem uma posição crítica ou antagônica ao partido. (C)
Quanto às tentativas de controlar o pensamento livre, os nazistas promoviam queimas públicas de livros; nossos governantes atuais querem reescrever Monteiro Lobato, de modo a desnegrizar Tia Nastácia e repor a perna faltante do Saci Pererê. Há enorme diferença de grau, mas a essência é a mesma.
6. Uso indiscriminado da estratégia de exacerbar conflitos, criar vilões e vítimas. Esta estratégia atingiu a perfeição com Hitler, que fez da perseguição aos judeus a razão principal de seu regime político personalista. Felizmente, apesar dos esforços da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial, um dos 39 ministérios do governo petista, não temos ainda nenhum exemplo comparável à caça aos judeus no Brasil de hoje. Mas chegaremos lá. As vítimas já estão escolhidas: são os negros (se é que se pode, ainda, usar esta palavra); os vilões, também: somos nós, os brancos (ou melhor, cinzentos) que ganhamos mais de um salário mínimo e, sobretudo, não votamos no PT.
7. O partido como organização que prevalece sobre os indivíduos. De novo, não temos nada parecido com o que houve nos casos clássicos de fascismo, mas algumas ocorrências nessa área merecem registro. Por exemplo, embora a prática seja ilegal, o PT exige que seus filiados eleitos ou nomeados para cargos públicos paguem ao partido 10% dos respectivos vencimentos. No caso dos indicados a cargos de confiança, o pedágio é cobrado até mesmo de não filiados. (D)
Estabelece-se, portanto, um canal direto -- e à margem da lei -- de apropriação de dinheiro público pelo Partido dos Trabalhadores, com a nefasta consequencia de que, quanto mais cargos sejam criados e quanto mais alta seja a remuneração correspondente, maior o volume de recursos públicos canalizados para o PT.
8. Economia dirigida pelo Estado. Não, não temos, ainda, uma economia dirigida pelo Estado. Mas os governos do PT estão movendo o país nesta direção. Devido à sua herança ideológica, o intervencionismo estatal na economia aprofundou-se no governo Dilma Rousseff. As empresas estatais – cabides de emprego para petistas desde a época de Luís Inácio -- voltaram a ser abertamente usadas como instrumentos de política econômica, quase sempre, em detrimento de seus próprios interesses.
Um resultado disso, entre outros, tem sido a situação pré-falimentar da Petrobrás, obrigada a operar com preços defasados para ajudar o governo a controlar a inflação que ele mesmo cria. Como resultado, de 2011 até hoje, a Petrobras perdeu R$ 229 bilhões em valor de mercado. (E)
9. Aliança com as corporações, inclusive, empresariais. Há alianças com as corporações, sim, mas isso não parece ser um elemento essencial da estratégia do partido e respectivos governos. O segredo da longevidade petista é outro. No país do PT, a vida é boa para: (i) os muito pobres (relativamente à sua situação anterior, claro), (ii) os pobres, e (iii) os muito ricos. Que essa bondade toda não pode durar para sempre, porque cria inflação, destroi o crescimento econômico, e desmoraliza os que trabalham para ganhar a vida é algo que irá ficar inteiramente evidente depois das eleições deste ano. 
Por outro lado, no mesmo país do PT, a vida é muito ruim (relativamente falando) para: (iv) a classe média – profissionais liberais, empregados com educação de terceiro grau, comerciantes e industriais de porte médio, entre outros – que paga boa parte da farra dos grupos privilegiados. Explico:
(i) Os muito pobres, pela primeira vez na escala observada após 2003, recebem dinheiro de graça. Isso lhes melhora a vida, mas os obriga a continuar muito pobres, para não perder a Bolsa Família. Em troca, eles ficam satisfeitos, agradecidos, e se tornam eleitores incondicionais de Luís Inácio e de seus amigos.
(ii) Os pobres recebem aumentos reais de salário mínimo e benefícios variados que vão desde a possibilidade de estudar de graça em faculdades privadas (via Prouni) até comprar uma casa modesta em condições de prazos e juros altamente favorecidas.
(iii) Os muito ricos também não têm do que se queixar: “no fim de setembro deste ano (2013), o saldo dos empréstimos do Tesouro ao BNDES estava em R$ 383 bilhões, o equivalente a 8,2% do Produto Interno Bruto.” (F). Todo esse dinheiro, resultante da arrecadação de impostos ou de operações de empréstimos do governo, se transformou em crédito subsidiado, predominantemente, para grandes empresas privadas.
Quem paga tudo isso? Em grande parte, (iv) a classe média. Igual a todo mundo, ela tem sua pesada carga de impostos; diferentemente de todo mundo, quase nada recebe em troca.
É O PT UM PARTIDO FASCISTA?
Os otimistas diriam que ainda falta muito para o PT se tornar um partido fascista. Mas alguns dos traços de comportamento que levam ao fascismo estão, claramente, presentes no partido. A intolerância com a oposição é o mais destacado deles. Há um grande perigo aí, pois, em havendo espaço, a intolerância evoluirá para o autoritarismo. Se a parcela da população brasileira que preza as liberdades individuais e a diversidade de opiniões não reagir em tempo, é para o fascismo que o PT nos levará a todos.
E aí aqueles de nós que detestávamos ser governados por ditadores militares incultos vamos ter de nos acostumar a ser governados por ditadores civis analfabetos.

Gustavo Maia Gomes
Recife, 8 de março de 2014
REFERÊNCIAS
(A) Lawrence Britt. “Fourteen Defining Characteristics of Fascism”, Free Inquiry, 5/28/13, em http://www.rense.com/general37/char.htm
(|B) Gustavo Maia Gomes, “A seca nordestina, segundo o Dr. Pangloss”, (23/7/2013), em http://gustavomaiagomes.blogspot.com.br/2013/07/a-seca-nordestina-segundo-o-dr-pangloss.html
(C) “PT e PSDB declaram guerra virtual”, (2/2/14) em http://www.cearaagora.com.br/site/2014/02/pt-e-psdb-declaram-guerra-virtual/  (Contém a declaração de Xico Graziano citada no texto.)
(D) Alice Maciel, “Partidos abocanham parte dos salários de servidores comissionados” (4/3/2013), em http://www.em.com.br/app/noticia/politica/2013/03/04/interna_politica,354356/partidos-abocanham-parte-dos-salarios-de-servidores-comissionados.shtml
(E) “Petrobras vale em bolsa apenas 53,9% de seu patrimônio” (30/1/2014), em http://exame.abril.com.br/mercados/noticias/petrobras-vale-em-bolsa-53-9-de-seu-patrimonio

(F) Ribamar Oliveira. “Subsídio do Tesouro ao BNDES sobe 52%”, Valor Econômico, 07/11/2013. Em http://www.canaldoprodutor.com.br/comunicacao/noticias/subsidio-do-tesouro-ao-bndes-sobe-52

terça-feira, 4 de março de 2014

“Se Deus não existisse, seria preciso inventá-lo”

Voltaire me lembra o "irmão"
marista José, que mantinha
uma disputa pessoal com o francês
Respeitados os limites de tempo e de lugar, acho que tive ótimos professores no curso de graduação em economia (Universidade Católica de Pernambuco, 1967-70). Em ordem alfabética, destaco alguns que já eram ou vieram a se tornar profissionais de primeira linha, nas suas respectivas especializações: Carlos Osório, Clóvis Cavalcanti, Cristóvam Buarque, Fernando Antonio Gonçalves, Jorge Jatobá, José Jorge Vasconcelos, Olímpio Galvão, Telmo Maciel, Vernon Walmsley e Vicente de Paulo Soares.
Esses eram ótimos, mas havia os não tão bons. O de História, por exemplo, de cujo nome não me recordo, nem citaria, deixava a desejar. Lembro de uma aula em que ele escreveu no quadro verde (ou “lousa”, como preferem os paulistas): “Causas da Revolução Francesa: Montesquieu, Voltaire e Rousseau”. Devo confessar que o desdobramento do assunto não nos levou muito além da desastrada introdução.
Eu já era um leitor razoavelmente assíduo, nessa época, de modo que as três “causas” da Revolução Francesa faziam parte de minha biblioteca particular. Voltaire, especialmente, era um conhecido de longa data, pois o “irmão” José, um de meus professores no Colégio Marista (Recife, 1958-64), não deixava seus alunos esquecerem o gênio francês que havia cometido o sacrilégio de chamar a Igreja Católica de “A Infame”.
Meio gago, José era revoltado com Voltaire e sempre se atrapalhava ao falar nele. Sua indignação o fazia ruborizar e tropeçar nas palavras, mais ainda do que sempre. Mas ele tinha uma arma fatal contra o autor de Cândido ou o Otimismo: “Voltaire, o maior inimigo da Igreja, disse que se Deus não existisse, seria preciso inventá-lo”.

Não ocorria ao “irmão” que bem pode ter sido o caso.

Gustavo Maia Gomes
Recife, 4 de março de 2014
(Treze anos, hoje, irrestritamente felizes com a mulher de minha vida: Maria de Lourdes de Azevedo Barbosa)

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Do padre Manuel da Nóbrega à Teoria Geral de Tudo

NÓBREGA ENFRENTA TUPÃ
Os índios brasileiros tinham uma divindade – Tupã, o trovão – porém o padre Manoel da Nóbrega [que chegou ao Brasil em 1549] achou que eles não tinham nenhuma, pois, que absurdo, trovão não é deus. Por outro lado, o jesuíta punha muita fé nos santos óleos.
– “E não há óleos para ungir, nem para batizar”, reclama ele, em carta enviada do Brasil ao seu superior em Lisboa. “Faça Vossa Reverendíssima vir no primeiro navio.”
Nóbrega jamais concordaria com isso, mas qualquer pessoa sensata instada a escolher entre um deus-trovão e um inócuo óleo para ungir ou batizar ficaria, sem dúvida, com o primeiro que, pelo menos, faz um barulho enorme.
Ou seja, se a batalha entre os sacerdotes católicos e os feiticeiros tupis, travada nos primórdios da colonização, tivesse sido decidida por argumentos racionais, não tenho dúvidas de que Tupã, o deus brasileiro, teria sido o vencedor.
– Trummmmmm!!!
VIVA O POLITEÍSMO !
É curioso, embora facilmente compreensível, que a história oficial das religiões, dominada em nosso meio pelos preconceitos cristãos, apresente o monoteísmo como uma espécie de ápice da compreensão humana, da mesma forma que o imperialismo seria o estágio superior do capitalismo, para Lênin; ou a teoria geral de tudo, atualmente buscada pelos cientistas, a culminância da Física. (A analogia não é minha; está num livro recente sobre a evolução da Matemática.)
A história de Afrodite  [assim como a de Héstia e Priapo] e muitas outras mais desmentem a alegada superioridade da crença em um deus único. Na verdade, o que o advento do monoteísmo fez foi substituir a riqueza dos enredos de intrigas, ciúmes, amores e paixões que mantinham os deuses em intensa atividade por uma história monótona de obediência ou desobediência a um ditador universal. Os desvios a esta mensagem são poucos e incapazes de rivalizar com a beleza e a profundidade das histórias que compõem a mitologia grega, para dar apenas o exemplo mais conhecido.
Gustavo Maia Gomes
(12/2/2014)
 NOTA: Textos retirados de Gustavo Maia Gomes, “O deus brasileiro e seus colegas do Velho Mundo: Uma viagem intelectual”, Revista Insight Inteligência, Rio de Janeiro, jul-ago-set 2012, disponível em http://www.insightinteligencia.com.br/58/PDFs/pdf10.pdf  

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

A cidade que o trem trouxe e o rio levou

     Se um dia eu vier a escrever um livro de memórias, ele se chamará O Trem para Branquinha. Que trem? Que Branquinha?


A estação de Branquinha em 2007.
Foto Claudio Vitoriano, em www.estacoesferroviarias.com.br

Ivan espera o trem que não virá na estação que já não existe.
Foto Gustavo Maia Gomes (8/2/2014)





















Originalmente, um distrito de Murici, na região canavieira de Alagoas, Branquinha tornou-se município em 1962. Era para onde eu ia, viajando de trem, passar as férias, na minha infância. Hoje, quem mora ali tem apenas vagas lembranças das fazendas que ficavam ao redor: Monte Verde, do avô Nominando; Campo Verde, do tio Jovino; Três Paus; Guanabara; Cocho d’Água...
Inexpressiva, a cidade só é lembrada nas ocasiões em que alguma coisa muito ruim acontece. Como em 2010, quando uma parte dela sucumbiu à fúria do Mundaú. Foi a maior cheia que o rio já teve. As águas derrubaram a estação de trens, construção mais importante que havia em Branquinha.
Importância histórica, diga-se, pois o lugar deve sua existência ao trem. Devia. Já nada resta da estação; nem das duas ruas que faziam o vilarejo, nas cercanias de onde os vagões paravam. Estive lá, este fim de semana, com meu irmão, Ivan. Constatamos o óbvio: o que o trem havia trazido, a cheia levara. Mas havia coisa pior.
Diálogos branquinhenses
No antigo coração de Branquinha, naquela manhã de sábado, sete jovens estavam reunidos fazendo nada.
– “Vocês trabalham na cana?”, perguntei-lhes.
– “Não há mais cana aqui”, respondeu um deles.
– Então, o que fazem?
– Nada. Quando aparece algum serviço, a gente faz, mas é raro.
O que nos pareceu um escândalo, a Ivan e a mim, não preocupava os jovens. Por quê?
– “Tem Bolsa Família?”, indaguei ao mais velho.
– Não.
– Mas, alguém em sua casa tem?
– Tem, sim.
Fiz a mesma pergunta a cada um dos outros seis. Só um deles não tinha a bolsa. Estava um pouco mais bem vestido. Talvez fosse filho do prefeito ou de um vereador. Conclui que, para os branquinhenses, o Bolsa Família tornou-se um projeto de vida. Pelo menos, para os que não podem sonhar em disputar a eleição.
Lembranças de uma cidade
Não nasci em Branquinha, mas foi por pouco. Meu irmão mais velho, Ivan, sim. 1943. Algum tempo depois, nossos pais, Mauro e Stella, mudaram-se para o Recife. Ao perder a esperança na possibilidade de criar sua família plantando cana-de-açúcar e, uma coisa levando à outra, ao trocar o campo pela cidade – onde buscaria um emprego público, a prática da advocacia ou, como acabou acontecendo, ambas as coisas –, Mauro escrevia sua versão particular de uma história comum a tantos contemporâneos.
Eram demasiados os herdeiros de terras na região do açúcar, não apenas de Alagoas, mas do Nordeste, e a cana não sustentaria a todos. Por isso, muitos saíam. Os que ficavam – os proprietários maiores e os usineiros – iam levando a vida, ricos, alguns, em termos relativos; endividados, todos, muito além das possibilidades reais de seus negócios. Felizmente, para uns e para outros, havia o governo, com os empregos; a Faculdade de Direito do Recife, com os diplomas; e o Banco do Brasil, com os financiamentos, frequentemente, renegociados.
Tendo perdido a oportunidade de nascer em Branquinha, vim a fazê-lo no Recife, em 1947. Deste ano até, pelo menos, à primeira metade dos anos 1960, passar férias em Monte Verde tornou-se minha rotina. Em regra, viajávamos – Mauro, Stella, Ivan e eu – no trem da Great Western, depois Rede Ferroviária do Nordeste; mas, às vezes, íamos de avião até Maceió, onde viviam o avô paterno Nominando e minha avó materna, Olga, além de tios e primos, e de lá, depois de alguns dias, embarcávamos no trem para Branquinha. Quando viajava em dezembro, eu, no caminho, sonhava com os cajus da fazenda. Ainda hoje sonho com cajus, embora tenha experimentado coisas muito mais gostosas, desde que deixei de ser criança. Essa era a Branquinha.
E o trem?
Até 1954, as locomotivas eram marias-fumaças, movidas a lenha e vapor; depois desse ano, apareceram as máquinas diesel. A duração da viagem do Recife a Maceió, quando não havia atrasos, encurtou-se de doze para dez horas; do Recife a Branquinha, passamos a gastar já não dez, porém oito horas. Viajávamos na única parte do trem onde se podia reservar assentos, um vagão exclusivo. Primeira classe. Não era grande coisa, claro, mas, para os trens, também vale o que alguém disse sobre os aviões: neles, só há duas classes. A primeira e a última.
As estações tinham nomes marcantes: Boa Viagem, Pontezinha, Escada, Paquevira, Catende, Maraial, São José da Lage, Branquinha, Nicho, Murici, União dos Palmares, Bebedouro. Nelas, podíamos comprar laranjas, doces, alfenins, cavacos, rodelas de cana. Em Branquinha, o trem descarregava diariamente sacos de sururu e pacotes de jornais vindos de Maceió. Mas o melhor da viagem era quando íamos ao vagão-restaurante tomar um guaraná Champagne e comer alguma coisa. Também me lembro do banheiro – quero dizer, da latrina – que se comunicava diretamente com o mundo exterior, pois era aberta embaixo do assento e não devia ser usada quando os trens estivessem parados nas estações. (Eu ficava pensando nos sobressaltos que as pessoas em terra sentiriam, se os aviões adotassem o mesmo sistema.) Esse era o trem.
Tenho, certamente, muitas outras lembranças, boas e más, de outras épocas e lugares. Mas, por alguma razão, o trem para Branquinha ganhou um lugar especial em minha memória. Pode ter sido por causa do guaraná Champagne, dos cajus de Monte Verde, das laranjas de Maraial, ou da impressão que me causava ir deixando o cocô ao longo do caminho. Às vezes, espalhado em quilômetros.
Gustavo Maia Gomes
(10/2/14)

(Uma parte deste texto foi publicada em 2010, na revista Nordeste Econômico. O autor, Mauro Bahia, cedeu-me os direitos da republicação. Na verdade, tratou-se de uma transação interna, se é que me entendem.)

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Penedo, Alagoas, no alvorecer do século XX: dez jornais e uma receita de mulher

Gustavo Maia Gomes
Penedo (possivelmente) em 1869. Foto de A. Coutinho;
acervo da Biblioteca Nacional
Quem duvidar, consulte o acervo da Biblioteca Nacional na internet: entre 1902 e 1912, Penedo, a cidade alagoana do Baixo São Francisco, chegou a ter dez jornais em circulação. Não todos ao mesmo tempo; a maioria não sobreviveu ao primeiro ano. Abria um, fechava outro. Relaciono os que encontrei em uma breve pesquisa no site http://bndigital.bn.br/acervo-digital/. (Nas citações, mantenho a grafia original.)
O mais antigo (1902) dos velhos jornais de Penedo, dentre os digitalizados pela Biblioteca Nacional, foi “A Fé Christã”, que se apresentava como “hebdomadario dedicado aos interesses da religiao catholica”. Circulou até 1907. Não era feito para debiloides mentais, como o título poderia sugerir. Ali se discutia filosofia – o positivismo, por exemplo; e política – o jornal se congratulou, em seu primeiro número, com a rejeição de um projeto de lei que instituía o divórcio no Brasil. Vamos lembrar que a República, dominada, na origem, pelos positivistas, tinha apenas doze anos de vida, quando “A Fé Christã” apareceu.
Em 1909, quatro jornais nasceram e morreram na cidade: “A Flor: orgam dedicado ao bello sexo”, “O Cruzeiro”, “O Monitor” e o “Germinal: orgao litterario e noticioso”. Um ano depois, foi a vez do “Alvorada: orgam dedicado a defesa e educacao da mulher”, “A Escola: litterario e recreativo”, órgão do Externato José Batinga, “A Thesoura: orgao critico e noticioso” e “O Vadio: orgam popular”. Este último aguentou dois anos, vindo a fechar apenas em 1911. Finalmente, o “Jornal do Penedo: orgam do Partido Republicano Conservador” existiu entre 1912 e 1914.
Dos dez jornais mencionados acima, dois tinham a mulher como centro de atenção: “A Flor”, dedicado ao “belo sexo”, e o “Alvorada”, que se propunha defender e educar a mulher. O Germinal, por sua vez, se subintitulava um "órgão literário e noticioso". Nem um pouco especialmente preocupado com a mulher, aparentemente. Apesar disso, no seu primeiro número (25 de julho de 1909), apareceu a matéria seguinte, sem assinatura de autor. Mais uma vez, mantenho a grafia (nem sempre coerente, ao longo do texto) e os lapsos de concordância tais como os encontrei no original.
Concelhos para escolher esposa
Não sejam as leitoras egoísta, e permita-nos que insiramos aqui, um conselho para os homens que segundo nos parece é muito aproveitável.
– Quando uma mulher te agradar, leitor benévolo e houver de tua parte disposição para o casamento, procura primeiro que tudo, se possível for, surprehender uma mulher na cosinha – o que já é de muito bom agoiro. Se ella se não desculpar, se não se envergonha de ser surprehendida em trabalhos grosseiros, fica certo que possue um juízo são e um raciocínio bem orientado.
– Procura depois vêl-a sahir em dia de mau tempo: se se emvolve cuidadosamente n’um simples casaco de abafo ou de borracha, levando na cabeça um chapéu do inverno passado, evidentemente para não innutilisar com o aguaceiro o chapéu de que ultimamente fez acquisição, essa mulher não te arruinará, com certeza, em vestidos espaventosos e chapeos caros.
– Se a vires arranjar carinhosamente as flores n’um vaso, compor a prega mal feita de uma cortina, dispor as cadeiras e os moveis d’um modo cômodo e gracioso; essa mulher ama infalivelmente o lar domestico, o interior da sua casa simples e modesta; não correrá a bailes, não gostará de festas, será o anjo da família, a tua felicidade em suma; desposa-a se te agrada e não procures indagar se é rica ou pobre.
O ponto está em que assim a encontres.

(“Germinal”, ano 1, número 1. Penedo, Alagoas, 25/7/1909)

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

O dia em que minha mãe viajou no Penedinho

Este é o Comendador Peixoto, vapor contemporâneo, porém maior que o Penedinho. Afundou no início da década de 1960, quando já não fazia mais a linha regular Piranhas-Penedo.

Há um episódio que me diz respeito pessoalmente e tem a ver com a velha navegação a vapor (1867-1979) no Baixo São Francisco, entre Piranhas e Penedo, Alagoas. Envolve o navio Penedinho, sobre o qual minha mãe contava muitas histórias. Ela foi passageira daquela embarcação -- uma única vez, e por razões as mais imprevisíveis. (Como informa Etevaldo Amorim, historiador, em seu blog, “o vapor Penedo -– também conhecido por Penedinho -– operou até finais da década de 1950”.)
Minha mãe se impressionou, sobretudo, com os milagres de aproveitamento de espaço nos minúsculos camarotes do Penedinho. Também falava muito da informalidade da viagem, que incluía, com frequência, paradas não programadas, para compartilhar intermináveis almoços oferecidos aos viajantes pelos habitantes dos lugarejos ou das fazendas ribeirinhas. Nessas ocasiões, parecia que o tempo parava, ninguém tinha pressa. Nem mesmo o comandante do navio.
-– Mas como, afinal, minha mãe foi parar no Penedinho?
Provavelmente, no final de 1941 ou início de 1942, Stella Cardoso Pedrosa, que viria a ser minha mãe, viajou em férias ao Rio de Janeiro, na companhia de sua prima Carmita. Ambas, à época, solteiras, com idades próximas a 24 anos. Do Recife ao Rio de Janeiro, elas podem ter ido de avião ou de navio. Desconheço qual tenha sido a escolha.
Pouco depois de chegarem à capital da República, entretanto, foram surpreendidas com o início, em fevereiro de 1942, do torpedeamento sistemático de navios brasileiros pelos submarinos da Alemanha e da Itália. (Ao todo, 33 navios brasileiros foram afundados, parte nas costas do Brasil, parte nas dos Estados Unidos e em outros mares.) Como medida de precaução, as viagens de navios pela costa brasileira foram suspensas ou, pelo menos, grandemente limitadas. Lembro-me de Stella haver feito referência a estes fatos, como prelúdio às suas histórias sobre o Penedinho.
A suspensão das viagens de navios criou um problema para o retorno ao Recife de Stella e Carmita. Por causa da guerra, não havia vagas para civis na aviação comercial: os assentos eram sempre requisitados pelos militares. Tampouco existia a possibilidade de se vir, exclusivamente, por terra, pois as estradas de rodagem ou de ferro que havia não conectavam o Sul (hoje diríamos Sudeste) ao Norte (ou seja, ao Nordeste). Não ao Recife, com certeza.
Como, então, as duas conseguiram chegar a Piranhas, para, dali, embarcar no Penedinho? Não sei. Podem ter ido por terra do Rio a Pirapora, Minas, e dali ter tomado um vapor que as levaria a Jatobá (hoje, Petrolândia), em Pernambuco. De Jatobá a Piranhas, se podia ir de trem, usando a ferrovia de Paulo Afonso (1883-1964). Uma alternativa, que me parece, levemente, mais provável, seria elas terem ido de trem do Rio de Janeiro a Salvador e, desta cidade, seguido até Juazeiro, também de trem. De Juazeiro a Jatobá, de onde poderiam continuar em ferrovia até Piranhas, é uma distância, relativamente, curta.
Pode ter sido de um jeito ou de outro. Não tenho lembrança de Stella falar sobre esta parte de sua viagem. Em contraste, os dias que ela passou embarcada no Baixo São Francisco, fugindo dos submarinos alemães, foram marcantes. A ponto de o Penedinho ter-se tornado, em casa, quase uma pessoa da família.
Gustavo Maia Gomes

(20/1/2014)

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Tributo a Vicente Moreno

Ladeado pelos vereadores Jayme Asfora (esq) e Vicente André Gomes,
Vicente Moreno Filho recebe o diploma de Cidadão do Recife (29/11/13)

Inspirado em Silvio Pessoa Carvalho Junior, cujo belo texto dedicado ao novo Cidadão do Recife acabo de ler, gostaria de deixar também um breve testemunho sobre Vicente Moreno Filho. (Ele preferia ser chamado de Douglas, um apelido de infância. Sensatamente, viria a dar este nome ao seu primeiro filho.)

Conhecemos-nos desde os últimos anos 1950, ele e eu alunos meninos do Colégio Marista, aquele que virou shopping center. Nem sempre fomos da mesma turma, penso eu, mas nomes como os dos "irmãos" Abel, Luciano, José, Roque, Kerginaldo, Paulão, Longhi, Cirilo, Firmino lhes serão tão familiares quanto o são a mim.

Vicente e eu morávamos em Casa Amarela, circunstância que facilitou a formação de uma estreita amizade entre nós. Freqüentei sua casa e me tornei admirador, sobretudo, de seu pai a quem ainda hoje cito como exemplo de pessoa que tinha pouca instrução e muita sabedoria.

Nessa época - agora estou falando dos anos 1960 - íamos quase todos os sábados às então imperdíveis festa de clube. Internacional, Náutico, Português, América, sobretudo. 

Mais para o fim da década, Vicente estudava Direito e já trabalhava em um escritório de advocacia, eu estudava Economia e era repórter do Jornal do Comércio. Entrávamos nos clubes, ele como "policial" (tinha arranjado uma carteira do que chamávamos araque), eu, como jornalista, e nos divertíamos muito. Sempre bebemos com moderação, muito antes de o Ministério da Saúde assim o recomendar. 

As festas eram uma delícia, mas, nelas, minhas "realizações mulherísticas" ficavam sempre abaixo das expectativas. As de Vicente, creio que também, pois a mulher em que ele, já então, realmente, pensava não o encontraria nos clubes do Recife, mas nas casas de Várzea Alegre e numa escola de Natal.

Nas décadas seguintes, nos vimos pouco. Enquanto Vicente construía no Recife uma brilhante carreira de advogado, ao lado de Nicinha, eu andava pelo mundo (São Paulo, Urbana-Champaign, Cambridge, Brasília) estudando e trabalhando. Nos víamos, sim, com certa raridade, mas, sempre, com a mesma alegria. E, em todas as vezes, nos prometíamos outros encontros para breve.

De modo que somos amigos há quase 60 anos. É com a autoridade conferida pelo tempo que registro, aqui, minhas palavras de profunda admiração por Vicente Moreno Filho. Grande homem, grande amigo, grande marido, grande pai, grande advogado, grande amante e propagandista de sua terra natal Várzea Alegre, grande cidadão honorário do Recife.

Emocionei-me durante a cerimônia da Câmara Municipal, meu caro Douglas. 

Parabéns, amigo.

Gustavo Maia Gomes 
(2 dez 2013)

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Juros também visam captar dinheiro estrangeiro

Artumira Dutra
O Povo, Fortaleza, 28/11/2013







O economista Gustavo Maia Gomes diz que o aumento da taxa de juros favorece os objetivos de trazer dinheiro novo para o Brasil e de aumentar a credibilidade do País, além de controlar a inflação. “Juros maiores aumentam a atração para a vinda de capitais de curto prazo e, portanto, contribuem para trazer mais dinheiro de fora”, diz. Com isso, explica Gomes, a alta dos juros serve para atenuar o déficit nas contas nacionais, além de minimizar os efeitos da valorização do dólar.
Ele explica que o retorno a um regime mais ortodoxo de política monetária (juros altos, em resposta ao aumento da inflação) também faz elevar a credibilidade do País diante do mercado internacional. “Os bancos e administradores de fundos gostam de duas coisas: juros altos e segurança de que não haverá bruscas mudanças de política. A elevação dos juros sinaliza a disposição do Governo de adotar políticas impopulares”.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Nordeste em pauta: a reunião de Fortaleza

Um grupo de estudiosos esteve reunido (dias 21 e 22/11/13) na sede do Banco do Nordeste, em Fortaleza. Discutimos trabalhos ainda em elaboração sobre a economia regional. Antônio Márcio Buainain, da Unicamp, presente ao encontro, teve a gentileza de comentar, em artigo n'O Estado de S. Paulo, minha própria contribuição.

O artigo de Buainain está em 
(Publicado no Facebook, em 26/11/2013)