Gustavo Maia Gomes
(6/12/2017)
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(Imagem adicionada em 12-2-2019) |
Stella e eu trocamos cartas por vários anos
(ainda não existiam os recursos modernos de e-mails, Skypes, WhatsApps, Messengers, etc),
durante os períodos em que morei em São Paulo (1971-76), nos Estados Unidos
(1979-83) e na Inglaterra (1987-88). Conservo comigo essa correspondência, mas minha mãe sempre foi muito econômica e reservada
no que escrevia.
A mensagem parcialmente transcrita a seguir, enviada
por Stella à sua irmã Heloisa (que morava em Belo Horizonte) em 8/4/1988,
quebrou esse padrão. É inusitadamente prolixa e, sobretudo, reveladora de
sentimentos que minha mãe não externava com facilidade. Agradeço a Martha, filha de Heloisa, ter
presenteado a Ivan e a mim com o original daquela carta. Nela, além de falar
sobre a visita à casa de sua infância, Stella detalha informações sobre os
ancestrais Kuhn, Quanz, Kruss e Cardoso, que muito ajudaram Heloisa a redigir a
memória da família.
Transcrevo o trecho que desejo deixar registrado
aqui. Stella com a palavra:
No
dia 26 de outubro do ano passado [1987, portanto], estive em “nossa” casa na atual Usina
Santana, antigo Engenho Velho (ou Usina Pedrosa). Naquele dia, eu estava com
Mauro acampando no Camping Clube João Pessoa. Pedi a Mauro que me levasse lá e
ele concordou.
Aquela
casa está ligada à minha primeira infância: todas as minhas recordações estão
lá, salvo alguma lembrança da casa “da cidade”, onde mamãe esteve para ter seu
sétimo filho, que morreu ao nascer. De lá, lembro alguns passeios no Parque
Solón de Lucena, por exemplo, e a outra propriedade (não sei qual) que tinha um
banho maravilhoso, num riacho de águas límpidas, entre árvores. Lembro também de
meu primeiro balão de ar, que era roxo e lindo e que me deixou frustrada ao
estourar.
As
outras lembranças de minha infância até os sete anos estão naquela casa [do
Engenho Velho]. Chegar lá, reconhecê-la e relembrá-la foi a volta a um mundo
que está definitivamente no passado. As pessoas que habitavam ali comigo,
inclusive eu mesma, são fantasmas, queridos fantasmas de minha infância feliz.
A
emoção de reencontrar aquela casa, visitá-la e reconhecer seus recantos, suas
salas, foi altamente emocionante e me deu a impressão de estar visitando um
palco onde se representou uma peça infantil muitos anos atrás, [uma peça] cujas
lembranças continuam vivas e presentes. Foi emocionante.