terça-feira, 4 de março de 2014

“Se Deus não existisse, seria preciso inventá-lo”

Voltaire me lembra o "irmão"
marista José, que mantinha
uma disputa pessoal com o francês
Respeitados os limites de tempo e de lugar, acho que tive ótimos professores no curso de graduação em economia (Universidade Católica de Pernambuco, 1967-70). Em ordem alfabética, destaco alguns que já eram ou vieram a se tornar profissionais de primeira linha, nas suas respectivas especializações: Carlos Osório, Clóvis Cavalcanti, Cristóvam Buarque, Fernando Antonio Gonçalves, Jorge Jatobá, José Jorge Vasconcelos, Olímpio Galvão, Telmo Maciel, Vernon Walmsley e Vicente de Paulo Soares.
Esses eram ótimos, mas havia os não tão bons. O de História, por exemplo, de cujo nome não me recordo, nem citaria, deixava a desejar. Lembro de uma aula em que ele escreveu no quadro verde (ou “lousa”, como preferem os paulistas): “Causas da Revolução Francesa: Montesquieu, Voltaire e Rousseau”. Devo confessar que o desdobramento do assunto não nos levou muito além da desastrada introdução.
Eu já era um leitor razoavelmente assíduo, nessa época, de modo que as três “causas” da Revolução Francesa faziam parte de minha biblioteca particular. Voltaire, especialmente, era um conhecido de longa data, pois o “irmão” José, um de meus professores no Colégio Marista (Recife, 1958-64), não deixava seus alunos esquecerem o gênio francês que havia cometido o sacrilégio de chamar a Igreja Católica de “A Infame”.
Meio gago, José era revoltado com Voltaire e sempre se atrapalhava ao falar nele. Sua indignação o fazia ruborizar e tropeçar nas palavras, mais ainda do que sempre. Mas ele tinha uma arma fatal contra o autor de Cândido ou o Otimismo: “Voltaire, o maior inimigo da Igreja, disse que se Deus não existisse, seria preciso inventá-lo”.

Não ocorria ao “irmão” que bem pode ter sido o caso.

Gustavo Maia Gomes
Recife, 4 de março de 2014
(Treze anos, hoje, irrestritamente felizes com a mulher de minha vida: Maria de Lourdes de Azevedo Barbosa)

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Do padre Manuel da Nóbrega à Teoria Geral de Tudo

NÓBREGA ENFRENTA TUPÃ
Os índios brasileiros tinham uma divindade – Tupã, o trovão – porém o padre Manoel da Nóbrega [que chegou ao Brasil em 1549] achou que eles não tinham nenhuma, pois, que absurdo, trovão não é deus. Por outro lado, o jesuíta punha muita fé nos santos óleos.
– “E não há óleos para ungir, nem para batizar”, reclama ele, em carta enviada do Brasil ao seu superior em Lisboa. “Faça Vossa Reverendíssima vir no primeiro navio.”
Nóbrega jamais concordaria com isso, mas qualquer pessoa sensata instada a escolher entre um deus-trovão e um inócuo óleo para ungir ou batizar ficaria, sem dúvida, com o primeiro que, pelo menos, faz um barulho enorme.
Ou seja, se a batalha entre os sacerdotes católicos e os feiticeiros tupis, travada nos primórdios da colonização, tivesse sido decidida por argumentos racionais, não tenho dúvidas de que Tupã, o deus brasileiro, teria sido o vencedor.
– Trummmmmm!!!
VIVA O POLITEÍSMO !
É curioso, embora facilmente compreensível, que a história oficial das religiões, dominada em nosso meio pelos preconceitos cristãos, apresente o monoteísmo como uma espécie de ápice da compreensão humana, da mesma forma que o imperialismo seria o estágio superior do capitalismo, para Lênin; ou a teoria geral de tudo, atualmente buscada pelos cientistas, a culminância da Física. (A analogia não é minha; está num livro recente sobre a evolução da Matemática.)
A história de Afrodite  [assim como a de Héstia e Priapo] e muitas outras mais desmentem a alegada superioridade da crença em um deus único. Na verdade, o que o advento do monoteísmo fez foi substituir a riqueza dos enredos de intrigas, ciúmes, amores e paixões que mantinham os deuses em intensa atividade por uma história monótona de obediência ou desobediência a um ditador universal. Os desvios a esta mensagem são poucos e incapazes de rivalizar com a beleza e a profundidade das histórias que compõem a mitologia grega, para dar apenas o exemplo mais conhecido.
Gustavo Maia Gomes
(12/2/2014)
 NOTA: Textos retirados de Gustavo Maia Gomes, “O deus brasileiro e seus colegas do Velho Mundo: Uma viagem intelectual”, Revista Insight Inteligência, Rio de Janeiro, jul-ago-set 2012, disponível em http://www.insightinteligencia.com.br/58/PDFs/pdf10.pdf  

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

A cidade que o trem trouxe e o rio levou

     Se um dia eu vier a escrever um livro de memórias, ele se chamará O Trem para Branquinha. Que trem? Que Branquinha?


A estação de Branquinha em 2007.
Foto Claudio Vitoriano, em www.estacoesferroviarias.com.br

Ivan espera o trem que não virá na estação que já não existe.
Foto Gustavo Maia Gomes (8/2/2014)





















Originalmente, um distrito de Murici, na região canavieira de Alagoas, Branquinha tornou-se município em 1962. Era para onde eu ia, viajando de trem, passar as férias, na minha infância. Hoje, quem mora ali tem apenas vagas lembranças das fazendas que ficavam ao redor: Monte Verde, do avô Nominando; Campo Verde, do tio Jovino; Três Paus; Guanabara; Cocho d’Água...
Inexpressiva, a cidade só é lembrada nas ocasiões em que alguma coisa muito ruim acontece. Como em 2010, quando uma parte dela sucumbiu à fúria do Mundaú. Foi a maior cheia que o rio já teve. As águas derrubaram a estação de trens, construção mais importante que havia em Branquinha.
Importância histórica, diga-se, pois o lugar deve sua existência ao trem. Devia. Já nada resta da estação; nem das duas ruas que faziam o vilarejo, nas cercanias de onde os vagões paravam. Estive lá, este fim de semana, com meu irmão, Ivan. Constatamos o óbvio: o que o trem havia trazido, a cheia levara. Mas havia coisa pior.
Diálogos branquinhenses
No antigo coração de Branquinha, naquela manhã de sábado, sete jovens estavam reunidos fazendo nada.
– “Vocês trabalham na cana?”, perguntei-lhes.
– “Não há mais cana aqui”, respondeu um deles.
– Então, o que fazem?
– Nada. Quando aparece algum serviço, a gente faz, mas é raro.
O que nos pareceu um escândalo, a Ivan e a mim, não preocupava os jovens. Por quê?
– “Tem Bolsa Família?”, indaguei ao mais velho.
– Não.
– Mas, alguém em sua casa tem?
– Tem, sim.
Fiz a mesma pergunta a cada um dos outros seis. Só um deles não tinha a bolsa. Estava um pouco mais bem vestido. Talvez fosse filho do prefeito ou de um vereador. Conclui que, para os branquinhenses, o Bolsa Família tornou-se um projeto de vida. Pelo menos, para os que não podem sonhar em disputar a eleição.
Lembranças de uma cidade
Não nasci em Branquinha, mas foi por pouco. Meu irmão mais velho, Ivan, sim. 1943. Algum tempo depois, nossos pais, Mauro e Stella, mudaram-se para o Recife. Ao perder a esperança na possibilidade de criar sua família plantando cana-de-açúcar e, uma coisa levando à outra, ao trocar o campo pela cidade – onde buscaria um emprego público, a prática da advocacia ou, como acabou acontecendo, ambas as coisas –, Mauro escrevia sua versão particular de uma história comum a tantos contemporâneos.
Eram demasiados os herdeiros de terras na região do açúcar, não apenas de Alagoas, mas do Nordeste, e a cana não sustentaria a todos. Por isso, muitos saíam. Os que ficavam – os proprietários maiores e os usineiros – iam levando a vida, ricos, alguns, em termos relativos; endividados, todos, muito além das possibilidades reais de seus negócios. Felizmente, para uns e para outros, havia o governo, com os empregos; a Faculdade de Direito do Recife, com os diplomas; e o Banco do Brasil, com os financiamentos, frequentemente, renegociados.
Tendo perdido a oportunidade de nascer em Branquinha, vim a fazê-lo no Recife, em 1947. Deste ano até, pelo menos, à primeira metade dos anos 1960, passar férias em Monte Verde tornou-se minha rotina. Em regra, viajávamos – Mauro, Stella, Ivan e eu – no trem da Great Western, depois Rede Ferroviária do Nordeste; mas, às vezes, íamos de avião até Maceió, onde viviam o avô paterno Nominando e minha avó materna, Olga, além de tios e primos, e de lá, depois de alguns dias, embarcávamos no trem para Branquinha. Quando viajava em dezembro, eu, no caminho, sonhava com os cajus da fazenda. Ainda hoje sonho com cajus, embora tenha experimentado coisas muito mais gostosas, desde que deixei de ser criança. Essa era a Branquinha.
E o trem?
Até 1954, as locomotivas eram marias-fumaças, movidas a lenha e vapor; depois desse ano, apareceram as máquinas diesel. A duração da viagem do Recife a Maceió, quando não havia atrasos, encurtou-se de doze para dez horas; do Recife a Branquinha, passamos a gastar já não dez, porém oito horas. Viajávamos na única parte do trem onde se podia reservar assentos, um vagão exclusivo. Primeira classe. Não era grande coisa, claro, mas, para os trens, também vale o que alguém disse sobre os aviões: neles, só há duas classes. A primeira e a última.
As estações tinham nomes marcantes: Boa Viagem, Pontezinha, Escada, Paquevira, Catende, Maraial, São José da Lage, Branquinha, Nicho, Murici, União dos Palmares, Bebedouro. Nelas, podíamos comprar laranjas, doces, alfenins, cavacos, rodelas de cana. Em Branquinha, o trem descarregava diariamente sacos de sururu e pacotes de jornais vindos de Maceió. Mas o melhor da viagem era quando íamos ao vagão-restaurante tomar um guaraná Champagne e comer alguma coisa. Também me lembro do banheiro – quero dizer, da latrina – que se comunicava diretamente com o mundo exterior, pois era aberta embaixo do assento e não devia ser usada quando os trens estivessem parados nas estações. (Eu ficava pensando nos sobressaltos que as pessoas em terra sentiriam, se os aviões adotassem o mesmo sistema.) Esse era o trem.
Tenho, certamente, muitas outras lembranças, boas e más, de outras épocas e lugares. Mas, por alguma razão, o trem para Branquinha ganhou um lugar especial em minha memória. Pode ter sido por causa do guaraná Champagne, dos cajus de Monte Verde, das laranjas de Maraial, ou da impressão que me causava ir deixando o cocô ao longo do caminho. Às vezes, espalhado em quilômetros.
Gustavo Maia Gomes
(10/2/14)

(Uma parte deste texto foi publicada em 2010, na revista Nordeste Econômico. O autor, Mauro Bahia, cedeu-me os direitos da republicação. Na verdade, tratou-se de uma transação interna, se é que me entendem.)

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Penedo, Alagoas, no alvorecer do século XX: dez jornais e uma receita de mulher

Gustavo Maia Gomes
Penedo (possivelmente) em 1869. Foto de A. Coutinho;
acervo da Biblioteca Nacional
Quem duvidar, consulte o acervo da Biblioteca Nacional na internet: entre 1902 e 1912, Penedo, a cidade alagoana do Baixo São Francisco, chegou a ter dez jornais em circulação. Não todos ao mesmo tempo; a maioria não sobreviveu ao primeiro ano. Abria um, fechava outro. Relaciono os que encontrei em uma breve pesquisa no site http://bndigital.bn.br/acervo-digital/. (Nas citações, mantenho a grafia original.)
O mais antigo (1902) dos velhos jornais de Penedo, dentre os digitalizados pela Biblioteca Nacional, foi “A Fé Christã”, que se apresentava como “hebdomadario dedicado aos interesses da religiao catholica”. Circulou até 1907. Não era feito para debiloides mentais, como o título poderia sugerir. Ali se discutia filosofia – o positivismo, por exemplo; e política – o jornal se congratulou, em seu primeiro número, com a rejeição de um projeto de lei que instituía o divórcio no Brasil. Vamos lembrar que a República, dominada, na origem, pelos positivistas, tinha apenas doze anos de vida, quando “A Fé Christã” apareceu.
Em 1909, quatro jornais nasceram e morreram na cidade: “A Flor: orgam dedicado ao bello sexo”, “O Cruzeiro”, “O Monitor” e o “Germinal: orgao litterario e noticioso”. Um ano depois, foi a vez do “Alvorada: orgam dedicado a defesa e educacao da mulher”, “A Escola: litterario e recreativo”, órgão do Externato José Batinga, “A Thesoura: orgao critico e noticioso” e “O Vadio: orgam popular”. Este último aguentou dois anos, vindo a fechar apenas em 1911. Finalmente, o “Jornal do Penedo: orgam do Partido Republicano Conservador” existiu entre 1912 e 1914.
Dos dez jornais mencionados acima, dois tinham a mulher como centro de atenção: “A Flor”, dedicado ao “belo sexo”, e o “Alvorada”, que se propunha defender e educar a mulher. O Germinal, por sua vez, se subintitulava um "órgão literário e noticioso". Nem um pouco especialmente preocupado com a mulher, aparentemente. Apesar disso, no seu primeiro número (25 de julho de 1909), apareceu a matéria seguinte, sem assinatura de autor. Mais uma vez, mantenho a grafia (nem sempre coerente, ao longo do texto) e os lapsos de concordância tais como os encontrei no original.
Concelhos para escolher esposa
Não sejam as leitoras egoísta, e permita-nos que insiramos aqui, um conselho para os homens que segundo nos parece é muito aproveitável.
– Quando uma mulher te agradar, leitor benévolo e houver de tua parte disposição para o casamento, procura primeiro que tudo, se possível for, surprehender uma mulher na cosinha – o que já é de muito bom agoiro. Se ella se não desculpar, se não se envergonha de ser surprehendida em trabalhos grosseiros, fica certo que possue um juízo são e um raciocínio bem orientado.
– Procura depois vêl-a sahir em dia de mau tempo: se se emvolve cuidadosamente n’um simples casaco de abafo ou de borracha, levando na cabeça um chapéu do inverno passado, evidentemente para não innutilisar com o aguaceiro o chapéu de que ultimamente fez acquisição, essa mulher não te arruinará, com certeza, em vestidos espaventosos e chapeos caros.
– Se a vires arranjar carinhosamente as flores n’um vaso, compor a prega mal feita de uma cortina, dispor as cadeiras e os moveis d’um modo cômodo e gracioso; essa mulher ama infalivelmente o lar domestico, o interior da sua casa simples e modesta; não correrá a bailes, não gostará de festas, será o anjo da família, a tua felicidade em suma; desposa-a se te agrada e não procures indagar se é rica ou pobre.
O ponto está em que assim a encontres.

(“Germinal”, ano 1, número 1. Penedo, Alagoas, 25/7/1909)

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

O dia em que minha mãe viajou no Penedinho

Este é o Comendador Peixoto, vapor contemporâneo, porém maior que o Penedinho. Afundou no início da década de 1960, quando já não fazia mais a linha regular Piranhas-Penedo.

Há um episódio que me diz respeito pessoalmente e tem a ver com a velha navegação a vapor (1867-1979) no Baixo São Francisco, entre Piranhas e Penedo, Alagoas. Envolve o navio Penedinho, sobre o qual minha mãe contava muitas histórias. Ela foi passageira daquela embarcação -- uma única vez, e por razões as mais imprevisíveis. (Como informa Etevaldo Amorim, historiador, em seu blog, “o vapor Penedo -– também conhecido por Penedinho -– operou até finais da década de 1950”.)
Minha mãe se impressionou, sobretudo, com os milagres de aproveitamento de espaço nos minúsculos camarotes do Penedinho. Também falava muito da informalidade da viagem, que incluía, com frequência, paradas não programadas, para compartilhar intermináveis almoços oferecidos aos viajantes pelos habitantes dos lugarejos ou das fazendas ribeirinhas. Nessas ocasiões, parecia que o tempo parava, ninguém tinha pressa. Nem mesmo o comandante do navio.
-– Mas como, afinal, minha mãe foi parar no Penedinho?
Provavelmente, no final de 1941 ou início de 1942, Stella Cardoso Pedrosa, que viria a ser minha mãe, viajou em férias ao Rio de Janeiro, na companhia de sua prima Carmita. Ambas, à época, solteiras, com idades próximas a 24 anos. Do Recife ao Rio de Janeiro, elas podem ter ido de avião ou de navio. Desconheço qual tenha sido a escolha.
Pouco depois de chegarem à capital da República, entretanto, foram surpreendidas com o início, em fevereiro de 1942, do torpedeamento sistemático de navios brasileiros pelos submarinos da Alemanha e da Itália. (Ao todo, 33 navios brasileiros foram afundados, parte nas costas do Brasil, parte nas dos Estados Unidos e em outros mares.) Como medida de precaução, as viagens de navios pela costa brasileira foram suspensas ou, pelo menos, grandemente limitadas. Lembro-me de Stella haver feito referência a estes fatos, como prelúdio às suas histórias sobre o Penedinho.
A suspensão das viagens de navios criou um problema para o retorno ao Recife de Stella e Carmita. Por causa da guerra, não havia vagas para civis na aviação comercial: os assentos eram sempre requisitados pelos militares. Tampouco existia a possibilidade de se vir, exclusivamente, por terra, pois as estradas de rodagem ou de ferro que havia não conectavam o Sul (hoje diríamos Sudeste) ao Norte (ou seja, ao Nordeste). Não ao Recife, com certeza.
Como, então, as duas conseguiram chegar a Piranhas, para, dali, embarcar no Penedinho? Não sei. Podem ter ido por terra do Rio a Pirapora, Minas, e dali ter tomado um vapor que as levaria a Jatobá (hoje, Petrolândia), em Pernambuco. De Jatobá a Piranhas, se podia ir de trem, usando a ferrovia de Paulo Afonso (1883-1964). Uma alternativa, que me parece, levemente, mais provável, seria elas terem ido de trem do Rio de Janeiro a Salvador e, desta cidade, seguido até Juazeiro, também de trem. De Juazeiro a Jatobá, de onde poderiam continuar em ferrovia até Piranhas, é uma distância, relativamente, curta.
Pode ter sido de um jeito ou de outro. Não tenho lembrança de Stella falar sobre esta parte de sua viagem. Em contraste, os dias que ela passou embarcada no Baixo São Francisco, fugindo dos submarinos alemães, foram marcantes. A ponto de o Penedinho ter-se tornado, em casa, quase uma pessoa da família.
Gustavo Maia Gomes

(20/1/2014)

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Tributo a Vicente Moreno

Ladeado pelos vereadores Jayme Asfora (esq) e Vicente André Gomes,
Vicente Moreno Filho recebe o diploma de Cidadão do Recife (29/11/13)

Inspirado em Silvio Pessoa Carvalho Junior, cujo belo texto dedicado ao novo Cidadão do Recife acabo de ler, gostaria de deixar também um breve testemunho sobre Vicente Moreno Filho. (Ele preferia ser chamado de Douglas, um apelido de infância. Sensatamente, viria a dar este nome ao seu primeiro filho.)

Conhecemos-nos desde os últimos anos 1950, ele e eu alunos meninos do Colégio Marista, aquele que virou shopping center. Nem sempre fomos da mesma turma, penso eu, mas nomes como os dos "irmãos" Abel, Luciano, José, Roque, Kerginaldo, Paulão, Longhi, Cirilo, Firmino lhes serão tão familiares quanto o são a mim.

Vicente e eu morávamos em Casa Amarela, circunstância que facilitou a formação de uma estreita amizade entre nós. Freqüentei sua casa e me tornei admirador, sobretudo, de seu pai a quem ainda hoje cito como exemplo de pessoa que tinha pouca instrução e muita sabedoria.

Nessa época - agora estou falando dos anos 1960 - íamos quase todos os sábados às então imperdíveis festa de clube. Internacional, Náutico, Português, América, sobretudo. 

Mais para o fim da década, Vicente estudava Direito e já trabalhava em um escritório de advocacia, eu estudava Economia e era repórter do Jornal do Comércio. Entrávamos nos clubes, ele como "policial" (tinha arranjado uma carteira do que chamávamos araque), eu, como jornalista, e nos divertíamos muito. Sempre bebemos com moderação, muito antes de o Ministério da Saúde assim o recomendar. 

As festas eram uma delícia, mas, nelas, minhas "realizações mulherísticas" ficavam sempre abaixo das expectativas. As de Vicente, creio que também, pois a mulher em que ele, já então, realmente, pensava não o encontraria nos clubes do Recife, mas nas casas de Várzea Alegre e numa escola de Natal.

Nas décadas seguintes, nos vimos pouco. Enquanto Vicente construía no Recife uma brilhante carreira de advogado, ao lado de Nicinha, eu andava pelo mundo (São Paulo, Urbana-Champaign, Cambridge, Brasília) estudando e trabalhando. Nos víamos, sim, com certa raridade, mas, sempre, com a mesma alegria. E, em todas as vezes, nos prometíamos outros encontros para breve.

De modo que somos amigos há quase 60 anos. É com a autoridade conferida pelo tempo que registro, aqui, minhas palavras de profunda admiração por Vicente Moreno Filho. Grande homem, grande amigo, grande marido, grande pai, grande advogado, grande amante e propagandista de sua terra natal Várzea Alegre, grande cidadão honorário do Recife.

Emocionei-me durante a cerimônia da Câmara Municipal, meu caro Douglas. 

Parabéns, amigo.

Gustavo Maia Gomes 
(2 dez 2013)

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Juros também visam captar dinheiro estrangeiro

Artumira Dutra
O Povo, Fortaleza, 28/11/2013







O economista Gustavo Maia Gomes diz que o aumento da taxa de juros favorece os objetivos de trazer dinheiro novo para o Brasil e de aumentar a credibilidade do País, além de controlar a inflação. “Juros maiores aumentam a atração para a vinda de capitais de curto prazo e, portanto, contribuem para trazer mais dinheiro de fora”, diz. Com isso, explica Gomes, a alta dos juros serve para atenuar o déficit nas contas nacionais, além de minimizar os efeitos da valorização do dólar.
Ele explica que o retorno a um regime mais ortodoxo de política monetária (juros altos, em resposta ao aumento da inflação) também faz elevar a credibilidade do País diante do mercado internacional. “Os bancos e administradores de fundos gostam de duas coisas: juros altos e segurança de que não haverá bruscas mudanças de política. A elevação dos juros sinaliza a disposição do Governo de adotar políticas impopulares”.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Nordeste em pauta: a reunião de Fortaleza

Um grupo de estudiosos esteve reunido (dias 21 e 22/11/13) na sede do Banco do Nordeste, em Fortaleza. Discutimos trabalhos ainda em elaboração sobre a economia regional. Antônio Márcio Buainain, da Unicamp, presente ao encontro, teve a gentileza de comentar, em artigo n'O Estado de S. Paulo, minha própria contribuição.

O artigo de Buainain está em 
(Publicado no Facebook, em 26/11/2013)

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

"A seca" ou "Nem todas as estatísticas são frias"

Gado morto à beira da BR-232, próximo a Serra Talhada, PE.
(Foto de Daniel Maia Gomes, 13/1/13)
Números não mentem: no Semiárido nordestino, em 2012, foram perdidos 80% da produção de feijão, 66% da produção de milho e 40% da de mandioca. Repito: 80% da produção de feijão, 66% da produção de milho e 40% da de mandioca foram perdidos, no ano passado, nos sertões e agrestes, devido à estiagem prolongada.
Não foi tudo: os rebanhos bovino, caprino e ovino diminuíram 9%, 8% e 6%, nesta ordem. A produção de leite caiu 17%. (Todas as comparações são entre o valor medido em 2012 e a média dos valores da mesma variável nos três anos anteriores.) Mais uma vez, a seca devasta a pequena produção agrícola não irrigada e a pecuária nos sertões e agrestes nordestinos. Devasta, sim, pois ainda não acabou.
Somente agora, com a divulgação pelo IBGE, (em 25/10/13), dos resultados da “Produção Agrícola Municipal” e da “Pesquisa Pecuária Municipal” relativas a 2012, foi possível fazer esses cálculos. Mas, como a estiagem se prolongou por 2013, e ainda não se sabe se não continuará no próximo ano, os números relatados são apenas uma parte dos prejuízos que a seca tem trazido. Praticamente, todas essas perdas – que abalam a vida de uma parcela grande da população sertaneja – são absorvidas pelos próprios agricultores e pecuaristas pobres e por suas famílias. O governo socorre com um caminhão-pipa aqui, uma bolsa estiagem ali, uma bolsa família em todos os lugares. Mas isso é um pequeno alívio, insuficiente, vexaminoso. Enquanto isso, a tragédia segue seu curso, matando o que ainda encontra pela frente.
CASOS CRÍTICOS
Houve, por trás das médias, casos, especialmente, dramáticos. A produção de feijão foi reduzida a zero em 326 municípios que, normalmente, são produtores do grão. Em 422 municípios que, em anos de chuvas, produzem milho, não se colheu sequer uma espiga. O mesmo aconteceu – ou seja, produção nenhuma, nada, zero – em 162 municípios que, normalmente, produzem mandioca.
Mais casos críticos.
Os agricultores de Senador Elói, Rio Grande do Norte, produziram 224 toneladas de feijão, em 2011, e apenas uma tonelada, em 2012. Em Ibiara, Paraíba, as perdas foram ainda maiores: as 283 toneladas de feijão produzidas em 2011 se transformaram em apenas uma, em 2012. Em Mata Grande, Alagoas, a produção de feijão havia sido de 649 t, em 2011; reduziu-se a 4 t, no ano seguinte. Condeúba, Bahia, produziu 1.680 t de feijão, em 2011; não mais do que 7 t, em 2012. Monsenhor Tabosa, Ceará, viu sua produção de 2.792 t, em 2011, se reduzir a 12 t, em 2012.
Na cultura da mandioca, houve muitas situações do mesmo tipo. Belém do São Francisco produziu 360 t, em 2011; uma tonelada, em 2012. Cipó, Bahia: 1.080 t, no ano de boas chuvas (2011); 20 t, no ano de seca. Em Bento Fernandes, Rio Grande do Norte, a produção despencou de 5.880 t para 50 t. Em Ielmo Marinho, também no Rio Grande do Norte, as 6.000 t de 2011 viraram 200 t de 2012.
Quanto ao milho, os agricultores de Pesqueira (PE) haviam produzido 1.500 t, em 2011; produziram apenas uma tonelada, em 2012. Ibicuitinga, Ceará, viu sua produção desaparecer: 2.736 t para 6 t. Os agricultores de Monsenhor Tabosa (CE) viveram a mesma tragédia: o município que produzira 8.831 t de milho, em 2011, colheu meras 21 t, um ano depois.
Na produção de leite, embora esta não tenha sido reduzida a zero em nenhum município, alguns casos individuais merecem registro. Entre muitos outros, os de Gurjão e São Domingos, na Paraíba, e Itaíba, em Pernambuco. Gurjão, pequeno produtor, havia produzido 1.300 litros de leite em 2011. Em 2012, sua produção foi um quarto disso: 265 litros. São Domingos esteve no mesmo caso: 1.375 litros, em 2011; 378 litros, um ano depois. Em Itaíba, município maior produtor do Semiárido (tanto em 2011 quanto, apesar do desastre, também em 2012) a produção caiu de 102.283 litros para 59.625 litros.
VACAS POLÍTICAS
A variação dos rebanhos também foi, em muitos casos, dramática. Em Pacoti, Ceará, havia 3.564 cabeças de boi, em 2011; apenas 836, em 2012; em Betânia, Pernambuco, 10.000 bois e vacas, no ano de 2011, deram lugar a apenas 5.309, em 2012. Em Vertente do Lério, Pernambuco, o rebanho caprino era de 1.500 cabeças, em 2011; passou a 461, no primeiro ano da seca. No mesmo município, havia 1.700 carneiros e ovelhas, em 2011; um ano depois, os pesquisadores do IBGE só encontraram 280. Uma parte desses animais foi vendida a preços vis, ou sacrificada fora de hora. Outra parte, talvez, maior, morreu de fome e sede.
A dizimação dos rebanhos provocou perdas de capital que os pequenos pecuaristas levarão anos para recompor, se é que conseguirão. Aqui, também, faltou governo. O gado morreu em pé, devagar, uma vaca por vez. E não apareceu ninguém que evitasse isso. Impossível, não era. Para usar um jargão que a turma hoje instalada em Brasília tanto gostava de usar contra seus adversários: faltou “vontade política”.
E a seca, repita-se, ainda não acabou.
Semiárido nordestino, 2009-12
Efeitos da seca de 2012 sobre a produção de feijão, mandioca, leite e sobre os efetivos de rebanhos bovino, caprino e ovino
Item
 Unidade de medida
Média 2009-11
2012
Quebra % em relação à média 2009-11
Observações
Feijão
Quantidade produzida em t
591.914
120.567
79,6
326 municípios normalmente produtores tiveram produção zero em 2012
Milho
Quantidade produzida em t
2.234.946
758.459
66,1
422 municípios normalmente produtores tiveram produção zero em 2012
Mandioca
Quantidade produzida em t
3.693.299
2.222.645
39,8
162 municípios normalmente produtores tiveram produção zero em 2012
Efetivo do rebanho bovino
Cabeças
15.080.612
13.725.009
9,0
Rebanho não zerou em nenhum município onde havia algum estoque nos anos anteriores à seca
Efetivo do rebanho caprino
Cabeças
7.197.589
6.648.094
7,6
Rebanho não zerou em nenhum município onde havia algum estoque nos anos anteriores à seca
Efetivo do rebanho ovino
Cabeças
8.618.095
8.119.970
5,8
Rebanho não zerou em nenhum município onde havia algum estoque nos anos anteriores à seca
Leite
Mil litros
15.080.612
13.725.009
17,3
Produção não zerou em nenhum município, mas houve casos de perdas acima de 75%
Fonte: IBGE, Produção Agrícola Municipal e IBGE, Pesquisa Pecuária Municipal

Gustavo Maia Gomes

(6 nov 2013)

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Pensando errado sobre seca e Semiárido

Washington Novaes é jornalista. Até onde sei, dos bons. Mas não é especialista em Nordeste, muito menos, em seca ou semiaridez. De certa forma, portanto, devemos perdoar seus enganos. No artigo "O Semiárido ergue as mãos para o alto" (O Estado de São Paulo, 11 de outubro de 2013, disponível em http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,o-semiarido-ergue--as-maos-para-o-alto-,1084491,0.htm), ele apenas repete a sabedoria convencional, ou seja, a burrice vastamente compartilhada. Sob a aparência de proposições quase autoevidentes, o texto esconde muita bobagem. 

Seleciono quatro delas, para comentar.

1. Convivência com a seca. Virou moda dizer que descobrimos a pedra filosofal. Que não se trata de “combater a seca”, mas de conviver com ela. Grande besteira. Convivência com a seca não é nenhuma novidade.
O primeiro açude de grande porte no Nordeste (Cedro, em Quixadá, CE) começou a ser construído no Império e foi inaugurado em 1906. É a mais antiga representação da velha política. Alguém pensava, naquela época, que o açude iria fazer chover no Sertão? Claro que não. A idéia era que a água acumulada evitaria que o sertanejo morresse de sede, quando a chuva faltasse. O que é isso, se não "conviver com a seca"? E o que estamos fazendo hoje, com cisternas e transposições, senão melhorar a "convivência" do sertanejo com a seca?
Ariano Suassuna não tem com que se preocupar: ninguém jamais tentou combater o gelo na Sibéria. E nem extinguir a seca por decreto. Nem mesmo a Inspetoria de Obras Contra as Secas (1909) tinha tal pretensão.
2. Desertificação. O discurso da desertificação do Nordeste é uma espécie de primo pobre daquele outro, do aquecimento global. É pobre, mas não tem inveja do rico. Até tenta imitá-lo, na esperança de abocanhar umas migalhas da dinheirama que financia o primeiro.
Não estou brincando: se a tese do aquecimento global é duvidosa, seus simpatizantes, pelo menos, dizem que fazem pesquisas científicas e que seus alertas se baseiam nos resultados dessas pesquisas. A turma de cá anuncia o fim do mundo baseada em pesquisa nenhuma. É uma fraude. E o pior é que a desertificação (jamais nos níveis que eles dizem) talvez até exista, no Semiárido. 
Nunca iremos saber disso, se nos limitarmos a repetir chavões.
3. Fogão ecológico. Quem pode ser contra um fogão ecológico? Ninguém. Por outro lado, que desgraça alguém acha que o fogão ecológico vai evitar ou resolver? O problema do sertanejo não é como economizar três gravetos dos dez que ele ainda encontra pelos caminhos, quando precisa cozinhar. Seu problema não é se ele precisa de dez ou de sete gravetos. Seu problema é precisar de gravetos.
Se tivesse renda, teria um fogão a gás. Se isso fosse julgado inadequado, um pouquinho mais de pesquisa científica é tudo o que falta para viabilizar a energia eólica ou solar barata, não apenas no sertão. Aí, sim, teríamos os verdadeiros fogões ecológicos que economizariam não trinta, mas cem por cento dos gravetos.
4. Soja nos cerrados. A ideia de que o avanço da soja nos cerrados piora as condições sociais nas áreas em que ocorre soa bem aos ouvidos, mas é falsa, absurda e amplamente desmentida pelos fatos.
Muitos de nós conhecemos as "condições sociais" nos lugares do Sertão onde não há soja (nem fruticultura irrigada, nem pólos de confecções...) Agora visitem qualquer uma das cidades onde haja atividade econômica de alta produtividade, seja ela o cultivo de soja ou qualquer outra. A diferença em condições sociais é chocante, a favor da soja (ou da fruticultura irrigada, ou das confecções...).
Um dado interessante: Barreiras, BA, um dos principais pólos da soja, tem 9,3 beneficiários do Bolsa Família para cada cem habitantes. É muito? Talvez seja, mas, dos 413 municípios baianos, somente nove têm menos beneficiários (em %) do que Barreiras. Pelo menos um destes municípios (Luís Eduardo Magalhães) também é um polo de soja.
Sabe o que isso significa? Há menos pobres lá. O pessoal encontra formas produtivas de ganhar a vida e não precisa do auxílio assistencialista. 
É ruim? 
Pra quem vive de trocar um dinheirinho de nada por uma montanha de votos, é péssimo.
Gustavo Maia Gomes

(1 nov 2013)