quarta-feira, 5 de agosto de 2015

O censo das putas (Belém, 1921)

Gustavo Maia Gomes
Recorte de jornal não identificado datado de 15/julho/1921 pertencente à Hemeroteca Theodoro Braga — Arquivo Público de São Paulo. (Material colhido no site http://fauufpa.org/2013/08/27/1921-onde-colocar-as-putas/ e, segundo é dito ali, enviado pelo professor José Maria de Castro Abreu Júnior.)



Antônio Emiliano de Sousa Castro (1875-1951) foi deputado estadual e federal, governador do Pará (1921-25) e senador da República. Não deve ser confundido com seu pai, o Barão de Anajás (1847-1929), embora os dois tivessem o mesmo nome e ambos fossem médicos e professores. O mais velho foi um dos fundadores da Faculdade de Medicina e Cirurgia do Pará (1919) e seu primeiro diretor.
O filho tinha preocupação especial com a saúde pública. Já no seu primeiro ano de governo, armou um plano para controlar as doenças mais disseminadas no Estado. Dentre elas, as sexualmente transmissíveis -– ou “venéreas”, como se dizia então. Nesse mesmo sentido, em 1923, criou o leprosário de Igarapé-Açu, um hospital para tratar as vítimas de hanseníase apresentado como o mais antigo do Brasil.

DOENÇAS VENÉREAS
Na Mensagem enviada ao Congresso Legislativo do Estado, em 1921, Sousa Castro informa que “começou a funcionar o Instituto de Profilaxia das Doenças Venéreas, que instalei no prédio do antigo Instituto Pasteur, nesta capital. O prédio possui uma grande sala de espera e portaria, um consultório para homens, outro para senhoras, um terceiro para crianças e dois para meretrizes” (pág. 58).
“O Instituto funciona diariamente”, continua a Mensagem: “Todas as manhãs são atendidos homens, senhoras e crianças. As tardes são reservadas para as meretrizes” (pág. 58). O governador estava copiando experiências exitosas de Montevidéu e do Paraná. Mas, para que tudo funcionasse a contento, alguém precisava contar as putas. Tarefa para quem entende -- e não era o IBGE da época.
“Incumbiu-se o Sr. Dr. Chefe de Polícia de mandar fazer o recenseamento e identificação de todas as meretrizes desta capital, as quais seriam localizadas em um único bairro da cidade”, prossegue Sousa Castro, revelando outra parte do plano. “Possuiriam cadernetas de identidade e com estas se apresentariam ao Instituto de Profilaxia, para serem examinadas, uma vez por semana” (pág. 58).
O Instituto de Profilaxia cuidaria apenas da parte médica, “a Polícia se encarregaria do resto: localização, identificação, intimações e fiscalização das interditadas por doença, para não continuarem a exercer o meretrício. Estamos, portanto -– vangloria-se o governador -– com as funções bem definidas. Este [Instituto] só aceita como meretrizes as mulheres que se apresentarem com caderneta especial” (págs. 58-59).
Na Belém de 1921, não bastava ser puta, tinha de ter caderneta.

O CENSO
-- Mas, quem eram elas? Foi o censo, realmente, feito?
-- Sim, e os números estão na Mensagem de Sousa Castro ao Congresso Legislativo.
“O serviço médico-legal do Estado enviou ao Instituto de Profilaxia 525 cadernetas de meretrizes identificadas na Polícia, a fim de serem submetidas ao exame médico semanal, visando a profilaxia de doenças venéreas. Destas 525 mulheres, apenas 302 foram examinadas em julho, porque as cadernetas chegaram nos últimos dias do mês”. 

Eis o resumo dos dados obtidos, mantendo a forma em que foram apresentados:

Total de meretrizes examinadas
302
Das quais, são brasileiras
282
E estrangeiras (todas brancas)
20
Das brasileiras, eram brancas
70
Mestiças
178
Pretas
34
(Fonte: Relatório do Governador do Pará ao Congresso Legislativo do Estado, 1921, pág. 60)

As prostitutas nacionais eram dos seguintes estados

Pará
91
Amazonas
15
Maranhão
27
Piauí
14
Ceará
64
Rio Grande do Norte
15
Paraíba
25
Pernambuco
20
Alagoas
4
Sergipe
1
Bahia
5
Rio de Janeiro
1
São Paulo
1
(Fonte: Relatório do Governador do Pará ao Congresso Legislativo do Estado, 1921, pág. 60)

A estatística das meretrizes estrangeiras também consta do mesmo Relatório: “Russas, 6; austríacas, 2; rumaicas (sic), 1; portuguesas, 2; espanholas, 2; italianas, 2; americanas do Norte, 1; sérvias, 1; peruanas, 1.” Das meretrizes brasileiras, 53 eram casadas; 214, solteiras e 15, viúvas; 96 sabiam ler, 186 eram analfabetas. Das estrangeiras, 10 eram casadas; 6, solteiras e 4, viúvas. 15 sabiam ler, 5 eram analfabetas” (pág. 61).

PUTÓPOLIS
Um pouco de sociologia, para encerrar: 

(1) A maioria das prostitutas brasileiras tinha vindo de outros estados. Do próprio Norte ou, sobretudo, do Nordeste. Neste último caso, por herança das secas e da imigração de flagelados em busca de água e trabalho. Por sua vez, as estrangeiras, provavelmente, haviam chegado na fase áurea da borracha, quando o movimento em Belém de navios vindos da Europa e dos Estados Unidos era intenso.

(2) Dois terços (67%) das “meretrizes” estrangeiras sabiam ler; a mesma proporção, entre as brasileiras, era muito menor (34%). No caso dessas, o elevado analfabetismo não devia ser uma característica que as diferenciasse muito dos seus clientes. As estrangeiras,  por seu turno, mesmo sendo originárias, provavelmente, de camadas pobres, se haviam beneficiado da melhor oferta de educação em seus próprios países.

(3) Dentre as brasileiras, havia quatro solteiras para uma casada. Das estrangeiras, o número de casadas era maior que o de solteiras, atingindo metade do contingente examinado pelo Instituto de Profilaxia das Doenças Venéreas. Havia viúvas nos dois grupos de nacionalidade. Para essas, possivelmente, a prostituição havia sido o caminho encontrado para dar conta da vida, após a morte do marido.

(4) A maioria das prostitutas brasileiras era "mestiça" (63%). As "brancas" vinham em segundo lugar (25%) e as "negras" ficavam com os 12% restantes. A baixa proporção de meretrizes "negras" poderia estar refletindo a composição "racial" da população de Belém, ou ser um resultado da preferência dos clientes, sempre mais propensos a fazer amor com mulheres "brancas" ou "mestiças". É uma especulação, apenas.

Para não esquecer: fazia parte do plano concentrar todas as prostitutas de Belém em um único bairro, que bem poderia ter sido chamado Putópolis.

domingo, 12 de julho de 2015

150 anos à frente de seu tempo

Gustavo Maia Gomes

(José Vieira) Couto de Magalhães (1837-98) foi um político, militar, escritor e folclorista do Segundo Império. Nasceu em Diamantina (MG). Formou-se em Direito (São Paulo, 1859). É nome de município em Tocantins e de ruas no Recife e em Caruaru (PE). Certamente, em outras cidades, também.
Como político, foi presidente, em diferentes anos, das províncias de Goiás, Pará, Mato Grosso e São Paulo, num tempo em que o cargo era preenchido por nomeação imperial. Como militar, teve atuação destacada na Guerra do Paraguai (1864-70). Como folclorista, escreveu livros pioneiros, a exemplo de "Os Selvagens" (1876) e "Ensaios de Antropologia" (1894).
Já o tinha descoberto. Mas, em minhas pesquisas para um trabalho sobre a história dos sertões brasileiros, reencontrei-o, agora. Há 150 anos, Couto de Magalhães escreveu o seguinte, na parte do seu “Relatório dos Negócios da Província do Pará” (1864) que trata da instrução pública:
“Se eu tivesse de criar uma província nova, onde não existisse nada, faria com que se estudasse – em vez de literatura, inglês, francês [e] alemão –, tecnologia, agricultura, mecânica [e] os diversos ramos da grande ciência da engenharia”.
Vale lembrar que vivíamos no Brasil do século 19, ainda mais do que hoje, o império dos bacharéis em Direito, um país no qual citar Virgílio em latim era muito mais valorizado do que apertar um parafuso, ou projetar uma ponte.
“Os homens dessa província,” prossegue, “não analisariam o estilo dos escritores; não veríamos tão belas palavras escritas e faladas, mas veríamos mais e melhores obras e, quando se necessitasse de assentar uma máquina a vapor, não se havia de buscar na Inglaterra um homem especial para isso”.
“Nossa mocidade”, finaliza Couto de Magalhães, “em vez de andar solicitando empregos pelas repartições públicas, onde estraga seu tempo e saúde, sem deixar futuro nenhum para sua família, acharia na indústria mil ocupações para sua atividade. Falar-se-ia menos, mas far-se-ia mais”.
Em 1864, parece que ele estava falando para o Brasil de 2015.

(Publicado no Facebook, 17/6/2015)

sábado, 11 de julho de 2015

As indústrias e profissões de Belém no século XIX

Gustavo Maia Gomes

Em 1872, quando o governo imperial fez o primeiro censo demográfico do país, Belém (62 mil habitantes) tinha duas vezes o tamanho de São Paulo (31 mil). Era a quarta maior cidade do Brasil, atrás apenas do Rio de Janeiro (275 mil), Salvador (129 mil) e Recife (117 mil). A capital paraense se beneficiava, sobretudo, da crescente produção regional de borracha, que já respondia por 80% das exportações provinciais.
Desde 1864, a cidade tinha iluminação a gás, um progresso sobre o sistema anterior de lampiões queimando petróleo. A liberação para navios estrangeiros do rio Amazonas (1867) impulsionara o movimento no porto de Belém. A prosperidade era evidenciada, também, nas obras do Teatro da Paz (inaugurado em 1878) e nos recém-enunciados projetos de canalizar água potável e calçar as principais ruas.
Mas, em que trabalhavam os habitantes da cidade? Um Relatório de 1871 dá uma preciosa resposta a essa pergunta. Ao recensear os contribuintes do “Imposto sobre indústrias e profissões desta cidade”, o presidente da Província Abel Graça nos informa que havia na capital, entre muitas outras, as seguintes atividades e respectivos profissionais:
- 18 advogados
- 31 alfaiates com estabelecimentos
- 51 donos de açougues
- Onze mercadores de carroças e carros de boi com pipa d’água
- 40 donos de casas de pasto

E mais:
- 51 donos de carroças de aluguel
- 15 proprietários de carros e seges para alugar
- 55 mercadores por grosso de tecidos ou fazendas
- 128 mercadores por miúdo de tecidos ou fazendas
- Oito mercadores por grosso de ferragens
- 40 padarias

Ainda mais:
- 14 médicos
- Nove mercadores de madeira
- Nove sapateiros com estabelecimento
- Dez torrefações de café
- 15 mascates ou bufarinheiros (!)

Também havia quem desempenhasse atividades menos comuns, algumas das quais, hoje, ou continuam a ser muito raras ou já nem existem.
- Um dono de cocheiras de cavalos a trato e de aluguel
- Um dono de casa de banhos
- Um mercador de fumo em rolo
- Um trapicheiro
- Três tanoeiros com estabelecimento

A indústria mais bem representada na Belém de 1871 era a de tavernas: havia 224 delas. Atendiam bem à demanda, presumo. Na verdade, quem viveu na cidade, àquela época, só não foi mais feliz porque ainda não existia o Papão da Curuzu, menos conhecido como Paysandu Sport Club, criado em 1913.
(Fonte dos dados sobre as indústrias e profissões: Relatório à Assembleia Legislativa Provincial apresentado em 1871 pelo Presidente da Província do Pará, Abel Graça, págs. 32 e ss).

Publicado no Facebook, 21/6/15

quarta-feira, 8 de julho de 2015

As comidas, bebidas, etc et al que os paraenses traziam da Europa (1897-1900)

O Rio Amazonas foi um dos navios da Ligure Brasiliana que fizeram viagens entre a Europa e Belém nos anos 1897 a 1903. (Imagem colhida no site Historia y Arqueología Marítima)

Gustavo Maia Gomes

No final do século 19, os governos estadual do Pará e municipal de Manaus decidiram subvencionar a vinda de navios a vapor da Europa para Belém e para a capital amazonense. A empresa que topou o negócio foi a Ligure Brasiliana, italiana de Gênova. Seus navios de passageiros também traziam e levavam cargas. O que compravam de Portugal, França e Espanha – até mesmo de Marrocos, na África – os paraenses? Comidas, bebidas, material de construção, máquinas... Alhos e bugalhos.

Em 1901, apareceu o “Resumo dos gêneros vindos pelos vapores da Ligure Brasiliana desde junho de 1897 a dezembro de 1900, contando-se trinta e quatro viagens durante este período de tempo”. Apenso à Mensagem do Presidente do Pará Augusto Montenegro ao Congresso do Estado (10/9/1901), é mais uma preciosa fonte de informações sobre os hábitos de consumo dos habitantes de Belém naqueles anos. Uma época, ainda, de prosperidade devida à borracha.

A empresa Ligure Brasiliana foi fundada em 1897 com o objetivo explícito de operar linhas de navios para a Amazônia e outras regiões brasileiras. Também navegava no Rio da Prata. Seus navios (um deles denominado Rio Amazonas) gastavam 17 dias no percurso de Gênova a Belém e mais oito para alcançar Manaus. No Norte (mas não no restante do Brasil), ela teve a história encerrada em 1903. O Rio Amazonas, porém, continuou a navegar até 1917, quando foi afundado pelos alemães. Era tempo de guerra.

No “Resumo dos gêneros...” estão os nomes e quantidades desembarcadas dos gêneros trazidos, especialmente, de Gênova, Lisboa, Porto, São Miguel (Açores, Portugal), Ilha da Madeira (Portugal), Marselha (França), Barcelona (Espanha) e Tanger (Marrocos). Não eram, apenas, alimentos e bebidas, embora estes predominem. Também aparecem artigos de vestuário, objetos de uso pessoal (jornais, livros, cachimbos), utensílios domésticos (fogões, móveis, rolhas, palitos), entre outros.

Alimentos

Os belenenses importavam alho, amêndoas, arroz, azeite, azeitonas, banha, batatas, biscoitos, carne, castanhas, cebolas, chocolate, chouriços, conservas, doces, farinha de trigo, farinha láctea, feijão, frutas, grão de bico, legumes, leite, maçãs, manteiga, massa de tomate, mortadela, nozes, óleo, peixe de moura, peixe salgado, peras, pimenta, presunto, queijos, repolhos, sal, salame, sardinhas, tâmaras, uvas e vinagre. Isso, na categoria de alimentos, claro.

Pelo ângulo da diversificação de origens, destacam-se no “Resumo” a cebola e as batatas, embarcadas em sete diferentes portos europeus; o azeite e o feijão, em seis; as conservas, em quatro. Em quantidades, o mais popular é o feijão, com 26.098 caixas, mas também aparecem muito bem as batatas (5.132 caixas), a cebola (2.622), as conservas (5.054), o azeite (1.394) e a manteiga (1.319). O alho era trazido em canastras, espécie de cestas de couro. Foram 1.691 delas, nos anos 1897-1900.

Bebidas

No “Resumo”, aparecem as bebidas alcóolicas aguardente, bitter, champagne, chartreuse, cidra, conhaque, fernet, licores, rum, uísque, vermute e vinho. Conhaques e licores vinham de Gênova, Lisboa, Marselha, Barcelona e Tanger. Os vinhos procediam do Porto, Gênova, Lisboa, Marselha, São Miguel, Ilha da Madeira, Barcelona e Tanger. A aguardente tinha origem em Barcelona e em Tanger; o vermute consumido em Belém era embarcado em Gênova, Marselha e Barcelona.

De 1897 a 1900, os belenenses compraram 18.672 caixas de vermute. De conhaque, 567 caixas; de licores, 384. Os vinhos eram acondicionados em caixas (8.488) e em barris (12.765). Os chartreuses, vindos de Marselha, eram raros: dez caixas. Nem tão raros, as 510 caixas de fernets vinham de Gênova; as cinco de champagne embarcaram em Barcelona. Dentre as bebidas não-alcóolicas, há registro de 56 caixas de água mineral. Devia faltar água de beber em Belém, à época.

Bugalhos (nem tanto)

35 pianos e um órgão vieram de Gênova para Belém, trazidos pela Ligure Brasiliana naqueles anos finais do século 19. Mais um piano foi trazido de Lisboa. O Porto mandou quatro caixas de violões. Houve, também, oito caixas de instrumentos musicais diversos, que o “Resumo” não discrimina. 460 peças classificadas como “Materiais para a Estrada de Ferro de Bragança” embarcaram em Lisboa e chegaram a Belém. De Marselha, vieram 67 “máquinas hidráulicas”.

Material de construção era outro item das cargas: Lisboa enviava cantarias, cal, cimento, ladrilhos, mármore, obras de ferro, pedras, pregos e vidraças. Gênova, arames, cal, cimento, ferragens, ferro, gesso, mármores, telhas de zinco, tinta e zinco (em folhas, suponho). Marselha fornecia cimento, mármore, chumbo, telhas de zinco e tijolos. 60 mil tijolos e 150 mil telhas cruzaram o Atlântico; 2.200 “volumes” de mármore vieram para a capital paraense, embarcados em Gênova e Lisboa.

De Lisboa, chegaram 17 caixas de livros; de Marselha, 10. Os jornais portugueses, ou vindos de Lisboa, ocuparam 20 fardos. Há grande variedade de utensílios domésticos: louças, móveis, candeeiros, quadros, obras de madeira, rolhas, fotografias, retratos, obras impressas, fonógrafos, palitos, fogões e camas. E artigos de vestuário, como botões, calçados, camisas, chapéus, couros, espartilhos, fazendas, tecidos, palha para chapéus e um genérico “roupas” vindas de Lisboa, Gênova e Marselha.

Como “roupas”? As “prêt-à-porter”, roupas que a gente compra já prontas para usar, são bem posteriores a essa época. Será que as caixas de roupas estariam, na verdade, trazendo de volta os vestidos e ternos que os belenenses de maiores posses mandavam lavar na Europa – em Paris, sobretudo. Onde mais? –, como ainda hoje eles dizem que faziam?

Fontes

Mensagem do Presidente Augusto Montenegro ao Congresso do Estado do Pará, 10/9/1901 (Disponível em Center for Research Libraries, Brazilian Government Documents) http://www-apps.crl.edu/brazil


Site Historia y Arqueología Marítima

Ex-Libris

Gustavo Maia Gomes

Ex-libris são desenhos personalizados que se colocam nos livros para informar a quem eles pertencem ou pertenceram. A prática remonta ao século 16 e subsiste até hoje, embora com menor intensidade. Blogs tratam do assunto. Livros, idem. Exposições, igualmente. Há quem colecione ex-libris, assim como existem os que juntam selos postais. Pintores famosos produziram-nos, para si mesmos ou por encomenda.
Claro, só aprecia ex-libris quem ama os livros – e com eles convive. Nem todo mundo tem a felicidade de frequentar bibliotecas. Eu tenho. De certa forma, vivo em uma, ridiculamente pequena, mas funcional para meus propósitos e projetos. (Claro que a expansão da internet está tornando as bibliotecas pessoais obsoletas. Não lamento isso.) Nunca tive ex-libris. Talvez invente um. Antes tarde do que nunca.
Quando criança e até os vinte e poucos anos, desfrutei da biblioteca de meu tio Hermano Cardoso Pedrosa, na sua casa da rua Dr. Albino Magalhães, 61, Farol, Maceió. Não era na minha cidade, mas eu ia lá com frequência e, numa relação quase indecente com os livros, despendia horas infindas lendo filosofia, economia, matemática, sociologia, história – ou tratados sobre o jogo de xadrez, paixão antiga que também nasceu em Alagoas.
Mais tarde, na Universidade de São Paulo e, sobretudo, na de Illinois, bibliotecas se tornaram meus locais de trabalho. Nos Estados Unidos, escrevi a tese doutoral enfurnado na University Library, onde ganhei o direito de usar até um pequeno escritório só para mim. Com muitos livros deparei, então, inclusive, alguns que haviam pertencido a conhecidos intelectuais ou políticos brasileiros. Vários destes tinham ex-libris colados.
Os ex-libris que publico agora foram coletados na internet. Alguns são lindos; outros, diferentes; todos, significativos.

(Publicado no Facebook, em 5/7/15)

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Paraenses, nordestinos e os peixes de Belém (1888)




Gustavo Maia Gomes

Na segunda metade do século 19, a “carestia” de alimentos se abateu sobre Belém do Pará, infelicitando, sobretudo, os mais pobres. Um sinal de alerta soou entre os governantes. Depois da terrível Cabanagem (1835-40), quando a turba revoltada derrubou o presidente da província, tomou o poder por um ano e matou milhares de pessoas, muitas delas ricas, ninguém queria cultivar insatisfações semelhantes.

O que fazer? Os relatórios presidenciais à Assembleia Provincial monotonamente expõem o problema, tentam entender suas origens e elaboram repetidas, porém sempre malogradas, tentativas de solucioná-lo. No mercado do Ver-o-Peso, em Belém, carne e peixes, os alimentos básicos, eram sempre caros e escassos. Em 1888, o ano sobre que me interessa falar, o problema já vinha se arrastando há décadas.

De carne verde, Belém era abastecida pelo Marajó. (Também vinha alguma charque do Sul brasileiro.) Transportar as reses da ilha até o continente custava tempo e dinheiro e, uma vez em terra, o gado tinha de ser abatido imediatamente, magro como chegava. Faltavam à cidade as condições mínimas de receber os rebanhos e permitir que eles descansassem por uns dias, recuperando o desgaste da viagem. Por isso, a carne vendida era pouca, cara e ruim.

O peixe também tinha oferta escassa. Surpreende um tanto, mas desconfio que isso se devesse à mania de tabelar preços sem levar em conta que a demanda do produto crescia com o afluxo de gente à cidade. Sujeitando os pescadores a condições insatisfatórias de remuneração, o governo inibia a oferta do pescado o que, por sua vez, gerava irresistíveis pressões altistas de preços, a despeito das tentativas policiais de contê-los.

Em 1888, Francisco José Cardoso Júnior, primeiro vice-presidente da província, fez publicar a tabela de preços que deveria prevalecer na feira livre do Ver-o-Peso, em Belém. A medida nada resolveu, claro, (a culpa é sempre de algum Cardoso), mas, por meio dela, ficamos sabendo os peixes que os paraenses comiam no final do século 19, assim como sua classificação por “qualidade" e respectivos preços oficiais.

Na tabela abaixo, reproduzo as informações. Para mim, a maior surpresa foi saber que, em fins do século 19, o maravilhoso Filhote era considerado de “segunda qualidade”. Os preços são, provavelmente, em "réis por quilo", embora a Fala de Cardoso não o esclareça. (O sistema métrico já havia sido introduzido no Brasil desde 1872, mas isso não quer dizer que fosse sempre adotado. No Nordeste, ele foi, inicialmente, recebido com um grande buruçu: a Revolta do Quebra-Quilos.) 

Fonte: Relatório do Vice-Presidente da Província do Pará, 1888
Mas, afinal, quão caros eram os peixes em Belém? É difícil avaliar preços tão antigos, mas posso fazer uma tentativa. Em 1888, o Pará recebeu grande quantidade de cearenses fugidos da “Seca dos Três Oitos”. (Isso já tinha acontecido em 1877 -– a “Seca dos Dois Setes”.) Aos retirantes, era oferecido trabalho, aproximadamente, a 40 mil réis por mês, no prolongamento da Estrada de Ferro de Bragança. Um professor de ensino médio ganhava em torno de 200 mil réis, cinco vezes mais que o flagelado nordestino.

Ou seja: em 1888, com 1% do que recebia na frente de trabalho, o retirante da seca podia comprar um quilo do melhor peixe. A Pescada, por exemplo, custava 400 réis o quilo. Era caro? Talvez sim, talvez não. Considerando que um quilo de Pescada Amarela custa, hoje, R$ 37 na Casa do Marisco (Belém) e que o salário mínimo atual é de R$ 788, deduz-se que o trabalhador de baixa qualificação terá de gastar quase 5% de sua remuneração mensal para comprar um quilo de peixe de primeira qualidade na capital paraense, em 2015.

Felizmente, para seus apreciadores, nesses 127 anos transcorridos desde 1888, o Filhote ganhou status -- e preço. (R$ 42/kg, na mesma loja já referida acima; talvez, um pouco menos, no popular mercado do Ver-o-Peso. Mesmo assim, uma fortuna.) Um trabalhador de salário mínimo que resolvesse consumir diariamente um quilograma de Filhote -- mesmo se não gastasse em mais nada -- veria o seu salário terminar quando ainda faltassem dez dias para o próximo pagamento.


quarta-feira, 24 de junho de 2015

A cidade perdida da Bahia

Gustavo Maia Gomes

O encontro da cidade perdida por um viajante. Desenho de Brian Fawcett (Lost Trails, Lost Cities,  1953). Imagem obtida em Oleg Dyakonov: “1913-2013: Centenário da redescoberta da Cidade Perdida da Bahia”








Durante dez anos (1743-53), um grupo de bandeirantes vagou pelos sertões da Bahia em busca das lendárias Minas de Prata do Muribeca, alcunha de Robério Dias, que as teria descoberto mais de um século antes. Consta que Muribeca havia prometido ao Rei de Espanha e Portugal (era a época da União Ibérica, 1580-1640) revelar a localização das minas, em troca de um título de marquês. Como não o conseguiu, fechou a boca e morreu na prisão.

Apesar de todo o esforço, as minas jamais foram encontradas pelos bandeirantes do século 18, mas, no último ano de suas andanças, um deles, ou alguém conhecedor da expedição, escreveu carta a uma autoridade do Rio de Janeiro. Este documento – que viria a ser conhecido como Manuscrito 512 – contava a descoberta de uma cidade mais antiga que a chegada dos portugueses. Ficou esquecido durante anos até que, em 1838, foi encontrado na então Biblioteca da Corte, hoje Biblioteca Nacional.

Reproduzido no primeiro número (1839) da revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), a “Relação histórica de uma oculta e grande povoação antiquíssima, sem moradores, que se descobriu no ano de 1753” suscitou enorme curiosidade. O Instituto, cujo patrono era Pedro II (1825-91), ainda não entronizado, decidiu, então, investigar se o relato tinha veracidade. Na época, havia a urgência de descobrir ou inventar um passado grandioso para o Brasil, algo capaz de dar legitimidade ao país recém fundado, que ainda lutava para se afirmar como nação.

Para tanto, o Manuscrito 512, se suas afirmações fossem comprovadas, poderia ser de grande ajuda. Seu anônimo autor descreve um conjunto de edificações cujas ruínas ele teria descoberto em local imprecisamente definido. O achado tinha características de uma cidade clássica romana, com pórticos, imponentes edifícios, templos majestosos e estátuas de heróis em poses dignificantes. Algo incomparável com a pobreza arquitetônica de tudo o que se conhecia sobre o Brasil pré-cabraliano.

O cônego que terminou louco

Dois anos depois de publicada a “Relação histórica” (portanto, em 1841), o cônego Benigno José da Carvalho e Cunha (?-1852), que morava na Bahia e era sócio correspondente do IHGB, candidatou-se ou foi convidado a verificar se a tal povoação "antiquíssima", realmente, existia. Para tanto, ele precisava de financiamento. O Instituto não tinha dinheiro, mas seu patrono, sim. Encaminhado o pedido, Dom Pedro IIjá então em pleno exercício do imperial poder, prontamente o deferiu. Dois contos de reis, valor alto para a época.

O Cônego Benigno se embrenhou nas matas da Chapada Diamantina, próximo à Serra do Sincorá, onde ele imaginou que a cidade fabulosa se encontraria, mas nunca achou coisa nenhuma. Por quase uma década, andou pela região, estranhamente, gastando parte de seu dinheiro na construção de pontes e estradas. Escreveu ao Instituto umas tantas cartas com poucas informações confiáveis e muitos pedidos de mais dinheiro, como se fora um empreiteiro da era petista, até ser esquecido. Há versões de que enlouqueceu, mas sabe-se apenas que veio a morrer na cidade da Bahia, em 1852.

O fracasso da expedição de Benigno Carvalho gerou constrangimento, obrigando o Instituto Histórico e Geográfico a ser mais cauteloso em patrocinar empreitadas semelhantes. Nenhuma ação concreta (exceto publicar o material que lhe fora enviado) foi tomada pela direção do IHGB quando, por exemplo, em 1848, um desconhecido major Manoel Rodrigues de Oliveira lhe remeteu longo documento argumentando que a cidade perdida, realmente, existia, mas estava sendo procurada no lugar errado. Que ficasse perdida e esquecida, pareceu dizer o Instituto.

Esquecida, não ficaria por muito tempo. Em 1862, José de Alencar (1829-77) – já então um escritor famoso – começou a publicar, em folhetos, seu romance As Minas de Prata, apresentado como continuação de O Guarani e que tinha entre os personagens principais o notório Robério Dias. Mas Alencar, ao contrário de outros escritores indianistas como Gonçalves de Magalhães (1811-82; A Confederação dos Tamoios), Gonçalves Dias (1823-64, “Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá...”), Joaquim Manoel de Macedo (1820-82, A Moreninha), não tinha ligações com o IHGB. Talvez por isso, além dos receios derivados do fracasso anterior, seu romance não tenha suscitado novas excursões em busca da cidade perdida.

A história se torna internacional: Burton e Fawcett

É, mais ou menos, no final dos anos 1860 que outro personagem extraordinário entra na nossa história. Richard Francis Burton (1821-90) foi o maior explorador e aventureiro ocidental do século 19. Mas também tinha empregos convencionais. Entre 1865 e 1869, foi cônsul da Inglaterra em Santos (SP). Viajou pelo país, como fazia sempre, e escreveu um livro, (Explorations of the Highlands of Brazil, 1869), como sempre fazia. Além do quê, traduziu para o inglês e fez publicar o Manuscrito 512.

Mais novo que Burton, também inglês, igualmente irrequieto, o coronel Percy Harrison Fawcett (1867-1925) leu o documento e ficou fascinado pela cidade perdida que - agora estamos no começo do século 20 - já se acreditava ficar bem mais a oeste, possivelmente, em território do Mato Grosso. Fawcett passou dez anos viajando pelos interiores amazônicos, ganhou fama mundial, publicou livros, mas não achou a cidade. Em compensação, inspirou a criação do personagem Indiana Jones, levado ao cinema por George Lucas e Steve Spielberg e interpretado por Harrison Ford.

Na sua última tentativa, em 1925, Fawcett embrenhou-se nas matas, na direção da Serra do Roncador, acompanhado do filho e de outro inglês. Os três desapareceram, para sempre. Devido à sua celebridade e ao fato de ele estar em missão científica oficial, muitas expedições foram organizadas para tentar resgatá-lo e a seus acompanhantes. A Wikipedia me conta, sem citar a fonte, que, nas décadas seguintes, mais de cem pessoas morreram na tentativa de saber o que havia acontecido ao coronel. Nenhuma conseguiu.

A incrível chegada de Lampião ao Mato Grosso

Tudo isso dito acima é bastante conhecido. O que vou acrescentar, agora, não é. Em minhas pesquisas recentes, deparei com a seguinte notícia, publicada no jornal A Província, do Recife, em 13 de maio de 1932 (pág. 2):

EM VEZ DE ESCLARECÊ-LO, O EXPLORADOR INGLÊS CAPITÃO A. M. MORRIS COMPLICA AINDA MAIS O JÁ MISTERIOSO CASO DO CORONEL FAWCETT

Lampião [Virgulino Ferreira da Silva, 1898-1938, o cangaceiro nordestino] teria sido visto no sertão mato grossense trazendo consigo as armas do famoso desaparecido.

(...)

Conta Morris que, estando certa vez numa povoação perdida nos confins matogrossenses salvou da morte um homem que pertencia a um grupo de outros, chegado pouco antes à localidade. Conquistou, dessa maneira, as simpatias dos rudes sertanejos.

Deste ponto em diante, deixemos ao próprio Morris a tarefa de contar sua singular aventura.

Fixei fortemente a minha atenção no homem moreno de óculos. Notei que conduzia um compasso prismático em cuja cobertura se viam as iniciais P. H. F. e um revólver cuja bolsa de couro era do tipo militar britânico. Do outro lado, uma cartucheira. Aquelas iniciais P. H. F. me bailaram na cabeça: P. H. Fawcett!

-- Desculpe, senhor, disse, quebrando o silêncio --. Ainda não tive a honra de saber o seu nome.

-- Lampião –- respondeu ele, com simplicidade, mas com uma certa ponta de orgulho.

Tive um choque. Aquele pacato tipo não era outro senão o bandido feroz cuja fama corre de um extremo ao outro do continente. Ele tinha cem mortes nas costas e, invariavelmente, cortava as orelhas dos cadáveres de suas vítimas.

Ele ficou satisfeito com minha surpresa.

-- Sim, sou eu mesmo esse homem. Peça o que quiser em recompensa por ter salvo a vida de meu irmão.

Imediatamente, excitou-se a minha imaginação. As armas são preciosidades nas florestas brasileiras. Daria o famoso bandoleiro suas armas? Eu precisava daquele revólver e daquele compasso.

-- Nunca podia imaginar –- comecei em tom cortês –- que me fosse dada tão grande honra. O seu nome é, na verdade, tão famoso em Montevidéu como em Lima. Congratulo-me de lhe ter prestado um pequeno favor.

Lampião sorriu. O padre chegou para avisar que a comida estava pronta. Enquanto comíamos, meu pensamento estava cheio de conjeturas. Teria Lampião morto o coronel Fawcett? Estariam as orelhas do coronel fazendo parte de sua coleção? Ofereci-lhe a minha bolsa de fumo. E enquanto ele enrolava o cigarro, decidi me aventurar:

-- Diga-me, senhor, como obteve esse revólver e este compasso? Eles devem ter uma história interessante.

O relato d'A Província continua. Lampião teria dado os objetos ao Capitão Morris, que deixou o local o mais rápido possível. Não há notícias do que as armas tenham sido, jamais, mostradas ao público, como provas de que Fawcett tinha, de fato, morrido. Talvez, assassinado por Lampião. De fato, a presença do cangaceiro nordestino em terras tão distantes é altamente improvável e, tanto quanto eu saiba, jamais foi registrada por outro testemunho.

Epílogo

Em 1952, os irmãos Claudio e Orlando Villas Boas, seguindo pistas contadas por índios da região onde Fawcett havia andado, encontraram corpos que eles identificaram como sendo os do coronel e seus acompanhantes. Havia, no mesmo lugar, objetos que poderiam ser dos exploradores ingleses. A prova definitiva, entretanto, não foi conseguida, pela aparente razão de que os descendentes do explorador inglês não têm permitido que seja feito o exame de DNA.


O fato é que a Cidade Perdida da Bahia nunca foi encontrada. Já não se acredita, hoje, que ela possa existir. Mas a lenda continua.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Memórias de um tempo em que escrever fazia barulho

Gustavo Maia Gomes

Sempre gostei de escrever. Quando tinha dez anos, bateram-me à porta. Era gente do Grupo Escolar Ageu Magalhães, onde eu estudava. Isso em 1957. Disse que minha redação havia sido escolhida em algum concurso. Não sei por que precisou vir à minha casa, se eu estava todos os dias na escola. Mais tarde, a professora leu comigo o texto. Percebi que tinha a letra deitada, como se um vento forte soprasse sobre a página, da esquerda para a direita, e ela me fez ver que eu não separava os parágrafos. Mas elogiou o trabalho.

Poucos anos depois, apaixonei-me pelas máquinas de escrever. Todo tempo, havia uma em minha casa. Às vezes, duas. Meu pai, Mauro Bahia, tinha um emprego público, mas também advogava. Precisava apresentar suas petições no padrão exigido. Com frequência, Stella, minha mãe, as datilografava -– e ela o fazia com técnica perfeita, usando todos os dedos das duas mãos. Nunca adquiri essa habilidade (que ainda acho linda), embora os cursos de datilografia proliferassem nas esquinas, naquele tempo.


Minha primeira máquina de escrever foi uma Olivetti Lettera 22 igual a esta. Comprei-a em 1968, ou em ano próximo a este, quando era repórter do Jornal do Commercio e estudante de economia na Universidade Católica de Pernambuco. (Foto colhida num site de vendas da Internet, sem identificação de autor.) 
Eu usava as máquinas de meu pai com entusiasmo, filosofando sobre tudo. Se sou escritor, devo muito a elas. O texto datilografado mais antigo de que lembro é de 1963. Neste ano, Ivan, meu irmão, entrou na universidade e trouxe para casa uma revolução cultural iluminista. Rapidamente, nos tornamos revolucionários em política e iconoclastas em religião. Meu artigo começava com a frase “acredito que Deus existe” (logo, isso deixou de ser verdade) e continuava metendo o pau na Igreja Católica. (Ainda atual.)

Esse texto foi incluído por Ivan num jornalzinho datilografado cuja circulação se restringia à nossa própria casa. Mamãe, com certeza, o leu; não lembro se comentou. Dali em diante, escrevi muitos inéditos, sempre batendo teclas na Underwood portátil de meu pai, em memoráveis noites adentro. Até que um dia, no final de 1966, ele me fez a pergunta-desafio: — “Você gosta de escrever. Não quer trabalhar no Jornal do Comércio?” Eu disse sim. Mesmo sendo tímido como um marisco, topei na hora.

A ponte para tornar-me repórter chamava-se Wladimir Calheiros, nosso primo, a quem eu ainda não conhecia. Jornalista de mão cheia, trouxera para Pernambuco a revolução gráfica e de conteúdo que, pouco antes, havia sido feita no Rio de Janeiro pelo Jornal do Brasil. Editor Geral, era rígido. De uma feita, quando eu fui lamentavelmente furado pelo concorrente Diário de Pernambuco, chegou a mandar fazer uma anotação formal de advertência em meus registros. Depois, soube que deixara o dito por não dito.

Na verdade, fui um repórter medíocre. Adorei ser jornalista — uma das profissões mais interessantes já inventadas —, mas, enquanto estava ali, eu vivia outros planos. Estudava economia. Intuía que ser professor universitário seria caminho mais seguro para me tornar escritor, meu projeto mais precioso. Em parte, estava certo. Quase tudo de maior fôlego que publiquei até hoje está diretamente ligado à carreira universitária. Se não é grande coisa, dou a notícia de que algo melhor ainda está por vir.

Até as máquinas de escrever se tornarem obsoletas fui dono de três delas. A primeira, uma Olivetti Lettera 22 portátil, adquirida no tempo de repórter e estudante universitário, no Recife. 1968, por aí. Os trabalhos acadêmicos e alguns artigos jornalísticos que redigi nesse tempo trazem a marca de seus tipos. A segunda foi uma máquina elétrica (grande avanço tecnológico: o teclar tornou-se suave e mais gostoso; a qualidade da impressão melhorou muito), também Olivetti, que ainda hoje tenho comigo.

Essa segunda, comprei-a em São Paulo, para onde me mudei em 1971. Os colegas da Copersucar, certamente, não deviam gostar do barulho que a Olivetti Lettera 36 fazia. A regra daqueles anos era escrever à mão e passar o texto para a secretária datilografar, em outra sala. Desde os tempos da Underwood, contudo, eu aprendera a trabalhar diretamente na máquina. Na Olivetti de teclas macias escrevi as versões iniciais de minha tese de mestrado, completada depois que voltei para o Recife.


Em 1973, ou 1974, adquiri a máquina elétrica Olivetti Lettera 36, que conservo até hoje. (A foto é de uma máquina igual à que ainda possuo; de autor não identificado, foi colhida num site de vendas de produtos usados da internet.)
A propósito: outra grande inovação tecnológica aconteceu quando a IBM lançou umas máquinas grandes, de mesa, — elétricas, claro — com as matrizes das letras impressas em esferas trocáveis.  Achei sensacional poder introduzir itálicos no texto, ou usar tipos de letras menos comuns. Tudo isso que viria a se tornar trivial com os computadores, era uma grande novidade, então. Em 1976, de volta ao Recife, consegui ter uma daquelas IBM na minha sala de professor, e a usei intensamente. Pertencia à Universidade.

Quando fui morar nos Estados Unidos, em 1979, comprei ali minha terceira e última máquina de escrever. Creio que era uma Triumph, também elétrica e portátil, de cor azul. Como não escrevia os acentos, tinha utilidade limitada no Brasil. Por isso, em algum momento, a abandonei. Sua folha de serviços inclui a versão definitiva de minha tese doutoral. Mas meu dinheiro era curto, de modo que demorei a adquiri-la. A consequência foi que, numa regressão de hábitos, por um tempo, voltei a escrever à mão.

Ainda amo as máquinas de escrever. O que é isso onde escrevemos hoje — chame-o microcomputador, laptop, ou tablet — senão também uma moderna máquina de escrever? Silenciosa, sim; mais eficiente, sem dúvida. Mas não a ponto de me fazer esquecer a velha portátil Underwood que meu pai deixava em casa, sempre ao meu alcance. Ou as tantas Olivetti que havia na redação do Jornal do Comércio, umas pesadas de teclar, outras macias e preferidas por nove entre dez repórteres, inclusive, eu.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Antes da internet, as ondas curtas

Gustavo Maia Gomes

Quem sabe, hoje, o que são transmissões radiofônicas em ondas curtas? Pouca gente. Mas, até os anos 1980, elas eram o que mais se parecia com a internet. Meu pai, Mauro Bahia de Maia Gomes, muito as apreciava. Ele sempre tinha em casa um receptor Transglobe, o melhor da época.
Com os Transglobe, nós ouvíamos os noticiários da BBC de Londres, Voz da América, Rádio Pequim, Rádio Moscou, Deutsche Welle. Se não me trai a memória, também da Rádio França Internacional. Sempre à noite. De dia, as interferências atmosféricas inviabilizavam uma recepção satisfatória.
Todas transmitiam em português ou espanhol. A melhor era, sem dúvida, a BBC. As dos países comunistas só faziam proferir impropérios contra o "imperialismo ianque". A séria briga entre a China e a União Soviética, nos anos 1960, nós a pudemos acompanhar ouvindo as rádios dos dois países.
Emissoras "do Sul" (como costumávamos dizer) também podiam ser ouvidas no Recife. Creio que as mais bem captadas eram a Globo, do Rio, e a Bandeirantes, de São Paulo. As cariocas Tupi e Nacional entravam com boa qualidade de som. Igualmente, a Dragão do Mar, de Fortaleza.
Acompanhávamos por elas os jogos do Vasco, Botafogo, Flamengo, Fluminense, Palmeiras, Santos, Corinthians, São Paulo. E programas humorísticos, como o "Balança, Mas Não Cai", da Nacional, que também era retransmitido localmente pela Rádio Jornal do Commercio.
Poucos amigos e colegas tinham o hábito de ouvir rádio em ondas curtas. Foi nosso pai quem nos iniciou, a Ivan e a mim, naquele mundo de notícias internacionais transmitidas e analisadas com detalhes e profundidade muito maiores do que lhes dariam os jornais da manhã seguinte.

(Publicado no Facebook, 6 de maio de 2015)