terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Luíza e outras celebridades sem causa

Antes que o leitor descubra, digo eu: há muita inveja mal disfarçada neste texto. Ele trata das celebridades instantâneas, uma espécie de gente subitamente alçada à fama, mas que, em geral, não sabe fazer nada: a gostosinha foderosa do Big Brother, o futebolista incompetente convocado para a seleção, a Luíza citada no comercial televisivo. (Ela está cobrando quinze mil reais para aparecer em festas de grã-finos. Que raiva.)
Compreender fenômenos como esses só será possível depois de criarmos um novo ramo de conhecimento, a economia da notoriedade sem causa. Ou, quem sabe, ele já existe. Se não existe, os fatos e comentários alinhados abaixo poderiam servir como pontos de partida desta inusitada ciência. Tenho a esperança de que eles me façam ficar famoso, não apenas instantaneamente, mas para sempre.
DUAS CONSIDERAÇÕES
Primeira, uma reflexão sobre a velocidade e a extensão com que essas coisas ocorrem. Na escala hoje conhecida, celebridades instantâneas seriam impossíveis se não fosse a enorme redução que já houve e continua a haver dos custos de difundir e consumir informação. Luíza deve seu estrelato aos feicebuques e tuíteres, cujo acesso se tornou quase gratuito. O centroavante perna-de-pau dá entrevistas diárias porque o minuto de rádio é ridiculamente barato, seja para os que falam, seja para os que escutam. Sem a televisão, a gostosinha do Big Brother seria apenas uma inútil a mais; com a TV vendida em 290 prestações, os idiotas que a veêm diariamente (ou melhor, noturnamente) contam-se aos milhões.
Segunda, uma hipótese sobre o “conteúdo” das celebridades instantâneas. Aqui, quase tudo pode acontecer, desde o reconhecimento do heroísmo (o bombeiro flagrado ao resgatar vítima de um desses prédios que vivem caindo no Rio de Janeiro) até a ausência total de conteúdo (o exemplo emblemático é o de Luíza que nunca fez e, se depender dos que exploram sua momentânea fama, nunca fará nada relevante). Sem esquecer aquela inglesinha recém-promovida a princesa, elevada à condição de celebridade por ter-se casado com um parasita hereditário.
ORDEM NO CAOS
Mas, mesmo nessa aparente anarquia do “conteúdo” das celebridades, alguma ordem pode ser detectada. A chave parece ser que, em essência, a notoriedade instantânea não depende do que a pessoa é, nem de se ela sabe fazer alguma coisa socialmente útil; depende, sim, de se o público -- a massa da população, não um subgrupo reduzido dela -- identifica ou não no candidato a famoso e nas suas circunstâncias alguma coisa merecedora de atenção.
Imaginem, agora, duas situações polares: (a) João das Botas é flagrado mantendo relações sexuais com uma jumenta; (b) Andrew Wiles acaba de demonstrar o último teorema de Fermat. A pergunta é quem, mais provavelmente, se tornaria instantaneamente famoso: João das Botas ou Andrew Wiles?
Formular a pergunta já equivale a respondê-la. O importante, entretanto, é retirar as lições que o exercício pode conter. Por exemplo: ter relações com animais é comum no Interior; qualquer homem com suficiente coragem (a probabilidade de ser atingido por um coice da jumenta é enorme) poderia fazer o que João das Botas fez. A notoriedade deste senhor, portanto, não depende dele próprio, mas da avidez do público por episódios deste tipo. Já o feito de Andrew Wiles somente foi conseguido depois de 300 anos de tentativas fracassadas por parte dos melhores matemáticos que a humanidade já produziu. Mas a resolução do problema de Fermat desperta o interesse de muito poucas pessoas e, assim, Andrew Wiles nunca será uma celebridade que faça sombra à gostosa do Big Brother. Muito menos a João das Botas.
MEU SONHO
Encerro, como comecei, com uma reflexão pessoal. Virar celebridade sempre foi meu sonho. Inspirado nos aristóteles, voltaires, keynes e churchills -- que tenho por ídolos --, estudei um bocado, tive cargos em governos, escrevi livros, publiquei artigos venenosos em jornais de grande circulação. Debalde. E então vem a Luíza, e compreendo quão errado eu estava.
Seja como for, o fenômeno paraibano me tem ajudado a manter viva a esperança de ficar famoso. Vou ver se dá certo minha mulher, Lourdes, dizer, em horário nobre da TV Globo: “aqui em casa, todos pagamos imposto. Menos Gustavo, que está em cana.”
Dá?

Gustavo Maia Gomes

Este artigo será publicado, simultaneamente, em http://www.blogdatametrica.com.br, http://www.econometrix.com.br e http://www.gustavomaiagomes.blogspot.com (31/01/2012)


domingo, 29 de janeiro de 2012

Juízes em causa própria ou "Quando o escândalo é legal, não tem Polícia Federal"


(Nota: este artigo foi escrito em 08/09/2011. As notícias nele reproduzidas são, portanto, antigas. Mas não o contraste entre salários de magistrados e de professores. Este, se mudou, foi para pior.)


Gustavo Maia Gomes*


Quatro notícias
1. “Uma revolta dos ministros do Supremo Tribunal Federal, que culminou em ameaças até de mandado de segurança contra a presidente Dilma Roussef, levou o governo a rever a proposta orçamentária para 2012 e estudar reajuste ao Judiciário.” (Folha de São Paulo, 2/9/11).
2. “Procurador diz que reajuste do Judiciário não parece exorbitante.” [Ele] voltou a defender a concessão de aumento salarial para o Poder Judiciário e o Ministério Público Federal e disse que se trata de “mera recomposição de perdas”. (O Globo, 5/9/11).
3. O ministro do STF Marco Aurélio Mello defende o reajuste salarial do Judiciário em 56% para os servidores e 14,7% para os magistrados, como consta na proposta enviada pelo Planalto ao Congresso Nacional na última sexta-feira (2/9). (Terra Magazine, 6/9/11)
4. “A Associação dos Magistrados Brasileiros vai fazer um ato em defesa do reajuste salarial dos juízes e membros do Ministério Público, no dia 21, em Brasília. A entidade manifestou indignação com o fato de líderes partidários terem afirmado que o aumento para os juízes é inviável”. (Jornal Floripa, 07/09/2011).
Três fatos
1. A remuneração do cargo de juiz federal substituto é de R$ 21.766,16. Constitui requisito que o candidato ao cargo seja bacharel em Direito há três anos, no mínimo. (Edital do XIV Concurso Público; Tribunal Regional Federal, 2011, 1ª Região.)
2. A remuneração para o cargo de professor adjunto, nível I, em regime de trabalho de 40 horas com dedicação exclusiva é de R$ 7.333,67. Constitui requisito que o candidato ao cargo tenha a titulação mínima de doutorado. (Edital de Concursos Públicos n. 6, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2011.)
3. Recomposição por recomposição, os professores universitários terão 4% de reajuste. Ameaçaram greve, mas compreenderam que ela seria inútil, e aceitaram a proposta do governo. (JC Online, 31/8/11).
Dois comentários
1. Em salário, um juiz substituto vale três professores plenos. Devia acontecer o oposto, pois do professor se exige o doutorado, ou seja, mais quatro anos de estudo que o bacharelado. Mas, mesmo se fosse para ganhar igual, a “defasagem” dos professores em relação aos juízes já seria de 197%.
2. O argumento “o concurso de juiz tem 100 candidatos por vaga; ele merece ganhar mais” é infantil. Com a quantidade de bachareis em Direito desempregados que existe hoje, é fácil juntar muitos milhares deles ao simples aceno de salários razoáveis. Além disso, (um exemplo) se a presidente Dilma abrir concurso prometendo pagar R$ 21.766,16 por mês ao ascensorista do Palácio do Planalto, aparecerão dois milhões de candidatos. Mas isso não faria do único aprovado alguma coisa mais do que um ascensorista.
Uma conclusão
Os professores continuarão ganhando não o que valem, mas o que sobra. Quando fazem greve, são ignorados. No outro extremo, juízes e seus correlatos só precisam sugerir entrar com mandado de segurança contra a presidente que as coisas se resolvem rapidinho. Dessa desigualdade, nasce um problema, pois salários baixos afugentam os professores bons; e professores ruins só podem formar juízes ainda piores. Como, por sinal, já deve estar acontecendo.
Mas não se preocupem, nada disso irá mudar. Até porque, quando o escândalo é legal, não há Polícia Federal.

* Gustavo Maia Gomes foi professor da Universidade Federal de Pernambuco (1976-2009)


terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Quando os estrangeiros são bem-vindos

Gustavo Maia Gomes

De acordo com notícia recente de O Globo online, o governo federal, por meio da Secretaria de Estudos Estratégicos, estuda novas regras para a imigração de trabalhadores: “Brasil quer facilitar vistos para profissionais estrangeiros altamente qualificados”. Será, mesmo, necessário? O leitor pode fazer seu juízo. Para tanto, além de fatos, relaciono abaixo umas poucas proposições acompanhadas de razões que demonstram serem elas, provavelmente, verdadeiras.
·                    Leva, pelo menos, dez anos para transformar um bom concluinte do ensino médio em profissional altamente qualificado.
São cinco anos no curso superior e, no mínimo, mais cinco em mestrado, doutorado ou experiência equivalente no trabalho.
·                    Portanto, mesmo se começássemos hoje a formar mais técnicos, demoraria uma década para que essas pessoas adquirissem alta qualificação.
Como se infere, facilmente, da proposição anterior. Se não temos este tempo, a importação de profissionais já qualificados pode ser a única solução.
·                    O crescimento sustentado da economia brasileira exige uma crescente oferta de técnicos altamente qualificados, especialmente, engenheiros.
Cito um estudo do Ipea: para um crescimento real acumulado do PIB de 26,5%, entre 2003 e 2008, a ocupação de engenheiros e profissionais afins aumentou em 51,6%. (Nascimento et alii, ver referências, ao final.)
·                    Nos últimos trinta anos, os cursos de engenharia, no Brasil, foram desvalorizados, acarretando insuficiência destes profissionais.
Com a retomada do crescimento, essa situação está se revelando no mercado de trabalho: em 2011, por exemplo, o salário médio de engenheiros e profissionais afins subiu 20%. (M. Gazzoni, no Jornal da Tarde online)
·                    A insuficiência de engenheiros não se deve a que o número de formados pelas faculdades e universidades tenha deixado de crescer.
Nos últimos dez anos, especialmente, ocorreu, na verdade, o oposto. Só que o crescimento não se deu nas engenharias ou carreiras técnicas, em geral. Concentrou-se em cursos de Direito e Ciências Sociais. Um sintoma disto é mostrado a seguir.
·                    O Brasil tem mais faculdades de Direito do que todo o resto do mundo junto.
“Temos 1.240 faculdades de direito. No restante do mundo, incluindo China, Estados Unidos, Europa e África, existem 1.100 cursos, segundo os últimos dados a que tivemos acesso”, disse o conselheiro do Conselho Nacional de Justiça. (Segundo Jefferson Kravchychyn, do CNJ.)
·                    Uma última pergunta, que sugere uma conclusão.
Um país que, único no mundo, forma sete vezes mais bachareis em Direito (e em áreas semelhantes) do que engenheiros (e profissionais correlatos) pode sustentar o crescimento econômico e, portanto, continuar criando empregos e ocupações produtivas, inclusive, para advogados e juízes? (Os dados estão no site da Unesco.)

Referências:
http://colunistas.ig.com.br/leisenegocios/2010/10/13/brasil-e-campeao-em-faculdades-de-direito/
Paulo A. Meyer M. Nascimento et alii, “Escassez de engenheiros: realmente um risco?”. Radar, n. 6 (02/2010). Brasília, Ipea, Diretoria de Estudos e Políticas Setoriais, Inovação, Produção e Infraestrutura. Em http://www.ipea.gov.br/sites/000/2/pdf/100223_Radar6.pdf.(Pág. 5).
Marina Gazzoni, “Alta procura faz salário de engenheiro subir 20%”. Jornal da Tarde online (03/11/11). Em http://blogs.estadao.com.br/jt-seu-bolso/alta-procura-faz-salario-de-engenheiro-subir-20/.
United Nations, Unesco, Institute for Statistics, em http://stats.uis.unesco.org/unesco/TableViewer/ tableView.aspx?ReportId=169

Este artigo será publicado, simultaneamente, em http://www.blogdatametrica.com.br, http://www.econometrix.com.br e http://www.gustavomaiagomes.blogspot.com (24 jan 2012)

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Porto de que galinhas?


Gustavo Maia Gomes

Porto de Galinhas, grande atração turística pernambucana, é um garajau de paradoxos.
Primeiro: Pegado à praia mais bonita do Brasil, o vilarejo fede, graças a um cocódromo que lhe serpenteia as ruas. Emitido por obra pública, o mau cheiro tem nome, endereço e filiação partidária.
Segundo: Repleto de simpáticas lojinhas, o centro comercial mistura transeuntes sobressaltados e carros ameaçadores, como se atropelamentos fossem atração turística.
Terceiro: Ambiente com enorme fluxo de pessoas, abriga pizzarias de grande movimento onde não se pode fazer xixi. Nem nelas, nem nas imediações: mangi qua, mije lá.
Quarto: Centro de eventos internacionais, no local a internet não pega, o celular não fala e as operadoras só escrevem (mensagens de autopropaganda).
Quinto: Território de um dos municípios com maior receita per capita de impostos do país, tem ruas sujas e calçadas intransitáveis. Ali, ninguém jamais viu uma árvore ser plantada.
Sexto: Lugar de idas e vindas, suas estradas de acesso são periodicamente interditadas por longas horas, em protestos disso ou daquilo, enquanto a polícia negocia, negocia, negocia...
Assim, Porto de Galinhas vai acabar. Deixará de ser a melhor praia do Brasil; muito poucos irão comprar em suas lojas; hoteis luxuosos se tornarão pardieiros; eventos internacionais serão coisa do passado; quem usa a internet procurará outros destinos; o vilarejo submergirá em lixo; manifestantes bloquearão estradas por onde não trafegará um só automóvel.
***
Não que o fim seja inevitável. Seis intervenções urbanas simples e baratas – de responsabilidade do poder público – corrigiriam os problemas, dando nova vida ao lugar. Para começar, bastaria isso: o restante ou a natureza já fez, ou a iniciativa privada faria.
Primeira: o cocódromo teria de ser imediatamente substituído por esgotos decentes, que guardem o fedor para si mesmos, sem partilhá-lo com o público passante.
Segunda: os automóveis deveriam ser separados dos pedestres, abrindo estacionamentos pagos na periferia, proibindo a circulação de veículos no centro e tornando disponíveis carros coletivos, tipo jardineiras, com faixas exclusivas.
Terceira: a Anvisa precisaria ser anvisada de que restaurantes sem banheiro podem funcionar na pequepê, não em Porto de Galinhas.
Quarta: punições severas seriam aplicadas às operadoras de celulares mudos e internets invisíveis. Claro (Tim, Oi, Vivo...), o problema não é só de Porto, nem de perto; é do país.
Quinta: prefeito e donos de casas seriam obrigados a limpar as ruas, pavimentar as calçadas e plantar árvores, sob penas de cassação ou multas.
Sexta: a polícia garantiria que o direito de ir e vir fosse respeitado. Ponto final. Isso está na Constituição; vale tanto para Porto de Galinhas quanto para portas de galinheiros.
Imagine agora um lugar assim tão belo com livre circulação nas estradas; adequado acesso à internet, celulares falantes; um centro comercial cheirando bem, sem automóveis, pleno de transporte público segregado dos pedestres; ruas limpas e muito arborizadas; calçadas transitáveis e praias espetaculares. Morrer, coisa nenhuma; voltaria a ser um paraíso, capaz de atrair mais e mais visitantes.
Do jeito que está, se aquilo é um porto, nós somos as galinhas.

(Artigo publicado em 19/01/2012 no Jornal do Commercio do Recife, pág. 12, com o título "Porto de paradoxos")



terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Saci, Careca e Pescoço


Gustavo Maia Gomes
Ao contrário da fruticultura irrigada, que só existe onde há água, o futebol está em toda parte. É um grande negócio, que ninguém pode ignorar, pois sobre ele os jornais escrevem, as rádios falam, as tevês mostram, os repórteres reportam, os comentaristas comentam e os torcedores distorcem.
Ainda mais agora quando, reabertos os campeonatos estaduais, os clubes contratam novos jogadores. E que jogadores! Se colocados juntos, formariam a seleção dos sonhos. Ou um drime-time, como diriam os americanos. Posso provar, ajudado por algumas notícias colhidas na internet.
“O Fortaleza contrata Careca”; o Santa Cruz, Rodrigo Arroz; “XV de Piracicaba contrata esotérico”; o Palmeiras, Román; o Bahia, Boiadeiro; o Vitória, Wellington Saci. “Max Pardalzinho será novo reforço do Guarani”; Pescoço, o do São Caetano Futsal. “Luverdense contrata Xerife”; o América, Marx Freud; o Sport, Jheimy; o Sergipe, Tales e Mocley. “ABC contrata Eliélton e empresta Nego” (atualmente, chamado Afrodescendente, para não parecer  racismo.) “Linense contrata Pedrão, que estava encostado”; o ‎Grêmio contrata Léo Gago; o Vasco, Erivélton.
Com tantos talentos, o técnico Rei do Acesso, contratado pelo Juventus, teria dificuldade em escolher os onze que primeiro entrariam em campo. Mas, finalmente, aconselhado pelo esotérico do XV de Piracicaba, ele escalaria um 4-2-4 com:
·         Erivelton, no gol.
·         Boiadeiro, Xerife, Román e Wellington Saci, na zaga.
·         Careca e Max Pardalzinho, no meio campo. E, no ataque:  
·         Pescoço, Léo Gago, Pedrão Encostado e Marx Freud.
As escolhas mais controversas seriam as de Saci, Careca e Pescoço. Mas, na entrevista coletiva, Rei do Acesso justificaria: “Saci não leva bola entre as pernas”; “Careca penetra fácil”; “Pescoço era do futsal, mas estava duro...”. De Marx Freud, por razões que ambos explicam, o técnico preferiria não falar. Os locutores Garganta de Osso e Bola de Couro narrariam tudo, com aquela entonação de voz tão agradável aos ouvidos. Afinal, futebol é isso mesmo, conversa e mais conversa; de fazer gol, ninguém mais lembra.
E aí, por azar, no primeiro jogo, Leo Gago seria expulso. Inadvertidamente, o repórter de pista lhe perguntaria o que ele achava do juiz:
– É um fi... fi... fi... fi...


Este artigo será publicado, simultaneamente,em http://www.blogdatametrica.com.br, http://www.econometrix.com.br e http://www.gustavomaiagomes.blogspot.com (17 jan 2012)

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Reincidências alagoanas, II


Gustavo Maia Gomes


Duas notícias reproduzidas esta semana no Blog do Magno Martins (http://www.blogdomagno.com.br/) me fazem voltar ao tema da promiscuidade entre política e pistolagem em Alagoas. Martins colheu as informações em Poder Online (http://colunistas.ig.com.br/poderonline/) 

Novo escândalo envolvendo crime e política em Alagoas 
O diretor da Polícia Civil de Alagoas, José Edson, informou que um grupo de policiais de Pernambuco e de Alagoas teria sido contratado para matar dois deputados estaduais do PMN a mando de um colega de partido, Cícero Ferro, que chegou a ser cotado como candidato a prefeito de Maceió. (04/01/12) 

Governador de AL confirma plano para matar deputados 
O governador Teotônio Vilela Filho (PSDB), confirmou a descoberta pela polícia daquele estado de um plano para assassinar deputados estaduais. As vítimas seriam cinco parlamentares. Pistoleiros foram contratados e Vilela garante que a polícia está investigando o caso. Uma das supostas vítimas, o deputado Dudu Holanda (PSD), no entanto,  inocentou um dos principais suspeitos, Cícero Ferro. (06/01/12) 

Sem comentários.


(O primeiro artigo sobre o mesmo tema está em http://gustavomaiagomes.blogspot.com/2011/12/reincidencias-alagoanas.html)

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

As Ligações Perigosas

Gustavo Maia Gomes


Choderlos de Laclos publicou o seu romance Les liaisons dangereuses em 1782. Se o tivesse escrito no Brasil de hoje, as ligações perigosas de que fala bem poderiam ser aquelas que se estabeleceram entre juízes e deputados. Perigosas para o país, bem entendido; muito lucrativas para eles.
***
Duas notícias se destacaram na semana passada – uma nacional, outra, pernambucana, mas com repercussões que as ampliarão muito no tempo e no espaço:
Ministro beneficiou a si próprio ao paralisar inspeção. O ministro do Supremo Tribunal Federal Ricardo Lewandowski está entre os magistrados do Tribunal de Justiça de São Paulo que receberam pagamentos sob investigação do Conselho Nacional de Justiça. (Folha de São Paulo, 21/12/2011).
Assembleia está distribuindo milhões. A Assembleia Legislativa de Pernambuco decidiu pagar auxílio-moradia [retroativo a 1997] a diversos deputados e ex-deputados. O valor pode chegar a mais de R$ 1 milhão por deputado (ou ex-deputado). (Blog Acerto de Contas, 22/12/2011)
Aparentemente desconexas, as duas notícias abrem uma fresta sobre algumas das ligações que se estabeleceram entre os integrantes do Judiciário e a classe política, no Brasil contemporâneo. Senão, vejamos:
No caso dos juízes, os pagamentos foram feitos “com base em direito reconhecido em 2000, quando o STF decidiu que todos os magistrados do País deveriam ter recebido aquilo que, durante alguns anos da década de 90, foi pago apenas aos parlamentares”. (Portal Terra, 23/12/2011).
No caso dos deputados, o presidente da Assembleia “[Guilherme] Uchoa lembrou que o pagamento [do auxílio-moradia] também está sendo recebido pelos tribunais de Justiça e de Contas e pelo Ministério Público de Pernambuco” (Band.com.br, 25/12/2011)
Ou seja, para quem não entendeu bem: os juízes podem receber porque os deputados recebem; os deputados podem receber porque os juízes recebem.
***
É preciso dizer que nem sempre juízes e deputados tiveram as regalias atuais ou ganharam a exorbitância que ganham hoje. Sem recuar muito na história, durante o regime militar (ou seja, de 1964 a 1985), ambas as “categorias”, além de viverem atormentadas pelo espectro da demissão arbitrária ou cassação de mandatos, recebiam pouco dinheiro. Os donos da pátria eram os militares de alta patente, que abocanhavam os gordos salários nas empresas estatais respaldados na sua competência em dar tiros de canhão.
A partir de 1985, tudo isso mudou. No seu período de domínio, os militares se sustentavam escorados no crescimento econômico (que gerava ganhos pecuniários, mesmo se desigualmente distribuídos, para todos os brasileiros) e na repressão (que inibia os insatisfeitos, permanentemente ameaçados de prisão, morte ou tortura). Portanto, as forças que se organizaram para derrubá-los tinham de buscar outros pontos de apoio. Se houvesse crescimento, ótimo; mas a repressão estava fora de pauta. As palavras de ordem que, no novo regime, abririam as portas para conquistar e manter o poder seriam “eleições diretas”, “participação”, “estado de Direito”, “autonomia e equiparação dos poderes” e semelhantes.
***
Em tal ambiente, uma aliança logo se formou entre deputados (e senadores...) e juízes (e desembargadores, procuradores...). Os primeiros faziam as leis que criavam regalias para eles mesmos; os segundos garantiam a constitucionalidade dessa nova legislação e, apelando para a “equiparação dos poderes”, estendiam a si próprios os benefícios. Ou então, numa variante do mesmo processo, os deputados e senadores instituíam as leis encomendadas pelo Judiciário para beneficiar seus integrantes, as quais eram, posteriormente, interpretadas como se aplicando também aos parlamentos.
Enquanto isso, o Executivo (à exceção de setores muito específicos) era -- e ainda é -- mantido como refém: se esboçasse reagir, não teria uma só proposta acatada no Congresso, nem as contas aprovadas, nem a tranqüilidade de viver sem a ameaça de uma coerção judicial. Ou, quem sabe, os deputados e senadores criariam uma CPI (para os menos informados: Comissão Parlamentar de Inquérito), ou uma ameaça de impeachment.
Esse processo teve uma dimensão macroeconômica graças à qual os privilégios criados no papel puderam ser convertidos em dinheiro de verdade na conta dos beneficiários. Pois a “autonomia dos poderes” foi traduzida pelo Legislativo e Judiciário como significando que eles (embora tenham responsabilidade zero pela arrecadação de impostos) podem fixar livremente suas próprias despesas, obrigando o Executivo a pagá-los pelo preço que eles pensam valer. Ninguém precisa ser muito sábio para deduzir que receitas ilimitadas logo seriam transformadas nas remunerações astronômicas de deputados, senadores, juízes e similares. Ou que, extorquido pelos dois outros poderes, ao Executivo restaria apenas aumentar impostos, cortar investimentos, piorar a qualidade dos serviços públicos e comprimir os salários de seus próprios servidores. Com todas as consequências nefastas que cada uma dessas medidas, inevitavelmente, traria. E trouxe.
***
Uma frase muito repetida na década de 1950 era “ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil”. Em 2011, saúvas são as relações perigosas que se estabeleceram entre juízes e deputados, cujos “direitos” aumentam na mesma magnitude em que os nossos diminuem. E nem se falou, neste artigo, em corrupção, outro tema (com perdão do duplo sentido) "riquíssimo".
Infelizmente, foi mais fácil acabar com as formigas do século XX do que será extinguir as saúvas de hoje.


Este artigo será publicado, simultaneamente, em http://www.blogdatametrica.com.br, http://www.econometrix.com.br e http://www.gustavomaiagomes.blogspot.com (26 dez 2011)



segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Papai Noel, enforcado, está vivo



Gustavo Maia Gomes


Em 24 de dezembro de 1951, o personagem conhecido como Papai Noel morreu na forca e foi queimado, em seguida, sob a acusação de transformar o Natal num evento de consumo. Isso ocorreu na catedral de Dijon, França. Os padres locais aprovaram tudo, mas não conseguiram evitar que o morto reaparecesse, alguns dias depois, na mesma cidade. Lépido e fagueiro, curtindo sua fama, que não é pouca.
Nem pouca, nem surpreendente: uma vez por ano, o velho recebe mais propaganda gratuita do que Jesus Cristo, seu patrão e aniversariante do mês. De fato, Papai Noel é o Natal, evento que provoca euforia no comércio, sustenta tanto a indústria de enfeites quanto uma multidão de inventores esquisitos, e ainda motiva a produção de inúmeros artigos acadêmicos. Nos Estados Unidos, sobretudo, mas não exclusivamente.
A produção científica sobre a festividade, movida a dinheiro e povoada de estudos duvidosamente relevantes, é pouco conhecida. Vale ter uma breve notícia dela, assim como dos inventos natalinos: bugigangas patenteadas, que, em conjunto, refletem e ajudam a sustentar a prosperidade movida pelas compras.
NATAL CIENTÍFICO
Do que os estudiosos andam pesquisando sobre temas de Natal, vai aqui uma pequena amostra, encontrável na internet:
1. Ray Cradick testou a hipótese de que os desenhos de Papai Noel aumentariam de tamanho até o Natal, mas se tornariam menores depois. Parece que as figuras, realmente, crescem antes da festa, mas não diminuem, depois. Assim, terminarão maiores que o consultório psiquiátrico onde são desenhadas.
2. A contribuição de Eileen Fischer e Stephen J. Arnold para o conhecimento humano é a descoberta de que os homens que “sustentam atitudes igualitárias em relação ao papel dos gêneros se envolvem mais na compra de presentes natalinos”. Ou seja, se comportam como as mulheres. Embora pareça banal, chegar a tanto custou caro: eles entrevistaram 299 pessoas.
3. Joel Waldfogel afirma ser muito improvável que, ao dar um presente, o doador escolha exatamente aquilo que o beneficiado compraria com o mesmo dinheiro. Em todos os outros casos, isso não ocorreria. A discrepância pode ser interpretada como uma perda social de bem-estar. Que fazer? Nem eu sei nem, aparentemente, ele.
4. James Hillard e colaboradores reconhecem existir a crença de que a época do Natal está associada à maior incidência de crises psicóticas. Chegaram à conclusão contrária: há um decréscimo delas. Infelizmente, passado dezembro, o que tinha caído volta a subir. Os doentes ficam sem nenhum benefício líquido; só os médicos ganham, pois têm mais tempo para fazer as compras natalinas que o mundo todo lhes cobra.
Em resumo, a literatura técnica especializada trata dessas coisas. Assim como o Natal, propriamente dito, é movido a reais, dólares e décimo-terceiro salários, a produção acadêmica a ele associada também responde aos impulsos do mercado e aos financiamentos governamentais. Existem os financiadores e os que querem ser financiados. Portanto, aparecem as pesquisas. Mas talvez haja dinheiro demais. Considerando algumas das coisas que têm sido estudadas, esta é uma possibilidade.
NATAL INDUSTRIAL
Passemos agora para o lado prático da coisa: as invenções natalinas e suas respectivas patentes concedidas pelo governo. Um homem inventou o disco CD em forma de árvore de Natal. (Deve ser um problema, aquele negócio triangular girando a alta velocidade. Poderia cortar um dedo desavisado.) Outro, um clipe para luzes natalinas. O terceiro, um suporte de luzes para colocar no telhado. Há, também, uma varinha sustentando pequenas luminárias. (Meio afetada, a tal varinha.) Um besteirol completo.
Felizmente, bem pesadas as coisas, a sobrevivência da humanidade independe desses inventos. Mas a lição que fica é outra: os que patenteiam varinhas ornamentais ganharão dinheiro com elas. E a soma dos ganhos com varinhas, luzes, clipes, suportes e tudo o mais termina sendo parte da diferença entre os países onde a burguesia “faz maravilhas” (para usar a expressão de Marx e Engels no Manifesto Comunista) e aqueles onde ela está proibida de fazê-las. Quem quiser que prefira estes últimos. Não é meu caso. A mim, custa muito menos aturar Papai Noel uma vez por ano do que custaria ter de aguentar Fidel Castro o ano inteiro.

Este artigo será publicado, simultaneamente, em http://www.blogdatametrica.com.br, http://www.econometrix.com.br e http://www.gustavomaiagomes.blogspot.com (19 dez 2011)

Referências
Ray A. Cradick, “Size of Santa Claus drawings as a function of time before and after Christmas”. Journal of Psychological Studies, Vol 12(3), 1961, 121-125.
Eileen Fischer and Stephen J. Arnold, “More than a labor of love: gender roles and Christmas gift shopping”. Journal of Consumer Research, Dec 1990.
Joel Waldfogel, “The deadweight loss of Christmas”. American Economic Review, vol. 83, n. 45, n. 5, Dec. 1993.
James R. Hillard, Jacqueline M. Holland, and Dietolf Ramm, “Christmas and psychopathology: Data from a psychiatric emergency room population”, Archives of General Psychiatry, 1981; 38 (12).

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Reincidências alagoanas


Gustavo Maia Gomes
Sob muitos aspectos, Alagoas é uma decepção. Estado relativamente rico em recursos naturais, tem uma economia truncada, muito dependente da cana-de-açúcar e seus produtos, e uma situação social deplorável até para os padrões nordestinos. De onde vêm os problemas? A resposta envolve inúmeros fatores, mas, dentre eles, a política tem lugar de destaque. Confira, abaixo, uns poucos retratos impressionistas (e impressionantes).
***
1) "Investigação da Polícia Federal afirma que a família do senador e ex-presidente Fernando Collor pagou [R$ 2,2 milhões] em 1998 pelo dossiê Cayman, conjunto de papéis forjados para implicar tucanos com supostas movimentações financeiras no exterior. (...) O senador teria recebido pessoalmente a papelada”. (Folha de São Paulo, 12/12/2011)
2) "O Ministério Público Federal informou que pediu à Justiça a inclusão dos nomes dos ex-governadores de Alagoas Manoel Gomes de Barros e Ronaldo Lessa no rol de denunciados por má gestão de recursos de verbas destinados às obras de macrodrenagem do Tabuleiro dos Martins." (O Estado de São Paulo, 30/11/2010)
3) "O Supremo Tribunal Federal abriu investigação sobre supostas práticas de improbidade administrativa e de tráfico de influência exercidas pelo senador Renan Calheiros (PMDB-AL), [que] já é investigado pelo STF em outro caso." (UOL Notícias: Política, 02/08/2010)
***
Se fosse só isso, seria bastante. Mas tem mais, muito mais. Veja algumas jóias históricas a respeito de ex-governadores do Estado. 
a) Sobre Silvestre Péricles (1947/51): no último dia de mandato, besuntou as paredes do Palácio do Governo com suas próprias fezes, como forma de recepcionar o arquiinimigo Arnon de Mello, sucessor eleito. Não tinha feito muito mais do que isso, nos quatro anos anteriores.
b) Sobre Arnon de Mello (1951/56): em 1963, tentando balear Silvestre Péricles, matou em pleno Senado o acreano José Kairala, um suplente que não tinha nada a ver com aquela briga. Além da falta de pontaria, o atirador também se distinguiu por ter legado ao mundo um filho de nome Fernando (Collor de Mello).
c) Sobre Geraldo Bulhões (1991/95): uma nulidade política, entregou o poder à mulher, de quem apanhava regularmente com toalhas molhadas. Um dia, os humoristas do Casseta e Planeta (TV Globo) entrevistaram a espancadora: “dona Denilma, na sua casa, quem tem Bulhões?”. Nem precisaria perguntar. Enquanto isso, o Estado prosseguia parado, quando a situação era boa; ou afundando, quando era normal.
***
Quem quiser conhecer outras informações "edificantes" deve ler o livro Curral da Morte (Rio de Janeiro, Editora Record, 2010), de Jorge Oliveira. Trata-se de uma reportagem sobre os crimes de mando em Alagoas, focada em 1957, quando o pedido de impeachment do então governador Muniz Falcão levou a um tiroteio de metralhadoras dentro da Assembleia Legislativa. Apurados os “votos”, havia um deputado morto e cinco feridos.
Jorge Oliveira conta ter entrevistado um velho jornalista alagoano que, conduzindo-o pela principal rua de Maceió, ia apontando cada ponto onde alguém tinha sido assassinado por razões políticas. Conclusão do autor de Curral da Morte: se houvessem colocado uma cruz em cada um desses locais, aquilo ali seria um cemitério.
Para os alagoanos (ou “meio alagoanos”, como eu), conhecer ou relembrar tais histórias e confrontá-las com a situação lamentável a que essa gente levou o Estado dá um pouco de tristeza e muito de raiva. Meu pai concordaria; meu irmão, tenho certeza, concordará.


Este artigo será publicado, simultaneamente, em http://www.blogdatametrica.com.br, http://www.econometrix.com.br e http://www.gustavomaiagomes.blogspot.com (12 dez 2011)

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Onde fica o Recife?


Gustavo Maia Gomes
Dentro de alguns anos, quando um turista perguntar “onde fica o Recife?”, ouvirá como resposta “ao lado do chópin”. Estou pensando no principal desses monstrengos urbanos, já quase tão grande quanto a cidade que o cerca. O maior do Nordeste, do Brasil, do mundo – incluindo a Guatemala. Tem uma doença: gigantismus pathologicum; e um sintoma: não para de crescer.
Nas proximidades, em terrenos que ainda não são chópins, outro deles está sendo erguido. Enormemente enorme. Na sua terceira expansão, que coincidirá com a décima-nona do rival mais antigo, os dois se encontrarão e a cidade terá desaparecido. No futuro, os paraenses visitarão o local para desfrutar de um grande território. “Como era bom”, dirão eles, saudosos.
***
O que há de errado com esta cidade? A simples inspeção visual sugere que, por metro quadrado, o Recife tem mais desses centros de compras do que qualquer outro lugar. A gente acha isso bom. Trafegar por ali tardes e noites chupando um sorvete de matéria plástica é o programa da moda – e não apenas dos adolescentes. Comprar nas suas lojas é a obrigação diária das dondocas classe média às assalariadas emergentes. E de seus maridos, filhos, netos, enteados, penteados, quase todos. E tome mais chópins sendo construídos e mais expansões sendo feitas nos que construídos estão.
De onde saem os estímulos econômicos para esta febre que destrói o comércio tradicional do centro e dos bairros, transformando o Recife numa cópia infeliz das cidades americanas mais desprovidas de poesia? Sim, porque estímulos econômicos, certamente, abundam: com uma exceção, motivada por circunstâncias particulares, que não vem ao caso citar, não existe aqui um chópin que dê prejuízo.
Eles são um bom negócio, em perpétua expansão, por duas razões. A primeira é nosso irrefreável desejo de copiar os Estados Unidos, consumindo os produtos da sua subcultura. Os norte-americanos ganham dez prêmios Nobel a cada ano, enquanto nós nunca tivemos nenhum. Nisso não os imitamos. Sua capacidade de criar fantásticas tecnologias que melhoram nossa vida é sem igual. Pouco nos interessa. Mas em formar multidões de viajantes para Miami-Orlando e ali apertar a mão do rato, ninguém nos vence. Em trazer para cá aquela comida horrorosa – Mac Donald’s, Burger Kings, Pizza Huts – somos imbatíveis. E em construir cinco mil chópins, todos iguais, nem se fala.
A segunda razão remete ao descaso do poder público com os locais onde não estão os chópins, como os centros das cidades e as zonas comerciais dos bairros. Basta a prefeitura não mandar recolher o lixo, o governo estadual relaxar com o policiamento, a companhia de águas deixar os esgotos entupidos, que as pessoas, se puderem (e quase todas podem), se afastarão desses locais, obrigando as lojas a fecharem suas portas ali. E que outra coisa governos e prefeituras (não apenas no Recife) têm feito?
Portanto, haja chópins ou, como os entendidos preferem escrever, shopping-centers. Onde iremos parar? Talvez no ponto em que começamos.
***
Dentro de alguns anos, quando um turista perguntar “onde fica o Recife?”, ouvirá como resposta “ao lado do chópin”. Estou pensando no principal desses monstrengos, já quase tão grande quanto a cidade que o cerca. O maior do Nordeste, do Brasil, do mundo – incluindo a Guatemala. Tem uma doença: gigantismus pathologicum; e um sintoma: não para de crescer.
Melhor seria que as pessoas fossem uma vez por ano ver o Mickey Mouse e o deixassem lá. Mas elas acham isso pouco; dão um jeito de trazer o rato para cá. Com suas comidas, sua estupidez cultural, seus intoleráveis shopping centers.


Este artigo será publicado, simultaneamente, em http://www.blogdatametrica.com.br, http://www.econometrix.com.br e http://www.gustavomaiagomes.blogspot.com (5 dez 2011)