terça-feira, 22 de setembro de 2015

Medicina natural no Amazonas (1861)

Gustavo Maia Gomes
Daniel Maia Gomes (em Belém do Pará, dezembro de 1995) foi o primeiro da família a tratar uma infecção de pele com o óleo de copaíba. Isso aconteceu em Soure, Ilha do Marajó, na mesma viagem da foto. Os resultados foram ótimos.
Começo com uma história familiar. Em dezembro de 1995, estava eu em Soure (Ilha de Marajó) com meus filhos Pedro e Daniel, então crianças. A mãe deles nos acompanhava. Daniel apareceu com um furúnculo preocupante. Na farmácia, não havia remédio convencional; alguém indicou óleo de copaíba. Segui o conselho. O efeito foi rápido, positivo, espetacular. Aprendi um pouco da sabedoria índia.
(***)
Volto, agora, 150 anos no tempo. Em meados do século 19, na Província do Amazonas, a atividade econômica quase se resumia a extrair da floresta tudo o que pudesse ser vendido rio abaixo, em Belém. Mesmo assim, a Província participou da Exposição Nacional da Indústria, que Pedro II mandou organizar no Rio de Janeiro, em dezembro de 1861.
Na mensagem do Presidente do Amazonas, Manoel Clementino Carneiro da Cunha, à Assembleia Legislativa (1862) há um anexo descrevendo os itens enviados à Corte, que incluíam muitas drogas medicinais. Fiquei fascinado, mas não surpreso. Ainda hoje, o Mercado do Ver-o-Peso, em Belém, é cheio de produtos da floresta capazes de curar desde dor-de-corno até unha encravada. Acontece o mesmo em Manaus.
Transcrevo a parte do anexo (denominada “Relatório D”) à mensagem de Manoel Clementino que descreve as ervas medicinais enviadas. Por alguma razão, não há referência (neste documento, em outros, sim) ao óleo de copaíba. Desafio aos meus amigos do Pará – e se houver algum, do Amazonas – a dizer que os conhece todos.
1. MURURÉ. Líquido extraído por incisão no tronco de uma árvore deste nome. É vermelho, um pouco leitoso. Depurativo e antissifilítico poderoso, chama-se vulgarmente azougue vegetal.
2. MANACAU. Arbusto cujo tronco e folhas tem propriedades antissifilíticas. Usa-se da infusão destas partes da planta internamente. Quando o reumatismo articular tem sua principal causa na sífilis, [ele] desaparece facilmente com o uso deste medicamento.
3. MOIRAPUAMA. Raiz de um arbusto do mesmo nome. Excitante geral e afrodisíaco dos mais enérgicos. Usa-se interna e externamente e, neste último modo, tem aproveitado nas paralisias locais. Emprega-se a infusão ou a tintura.
4. TAMAQUARÉ. Óleo de uma árvore do mesmo nome. Extrai-se golpeando o tronco e colocando nos golpes algodão, que se embebe do líquido. Espremendo-se depois o algodão, passa-se o líquido para uma vasilha. É um anti-dartroso muito enérgico. [“Dartro” é um nome genérico das crostas ou das esfoliações produzidas por diversas doenças da pele.]
5. SASSAFRÁS. Óleo extraído por incisão do tronco do “laurus sassafraz”. É um excitante do sistema nervoso e emprega-se com maior proveito no tratamento das soluções de continuidade frescas [?] Nesta espécie, são mais prontos seus resultados do que os da Arnica. Aqui, só os médicos sabem que a raiz e a casca deste arbusto têm uso na Terapêutica.
6. ACAUÃ CAÁ (Guaco). Arbusto cujas folhas em infusão ou tintura se empregam com muito proveito no tratamento de reumatismo e das mordeduras de cobras de vírus [sic]. Suspeita-se que seja antissifilítico.
7. CAÁ IXIÚ. Diz-se que a infusão das folhas desta planta aproveita o tratamento da asma.
8. SUCUBA. Leite de uma árvore deste nome. É purgativo, bem como a infusão da casca da árvore. Externamente, aproveita no tratamento do reumatismo articular, emplastando com ele o lugar ou as articulações infestadas.
9. MARUPÁ MIRY. Diz-se que a raiz deste arbusto em infusão aproveita nas diarreias.
10. MARUPAI. A casca deste arbusto é um calmante poderoso. Aproveita muito nos vômitos e disenterias rebeldes. Aplica-se em infusão ou cozimento internamente. Em emplasto, a casca ralada é bom cicatrizante.
11. QUINA. Uma das espécies do gênero cinchona. Não é boa a da amostra. Seus usos são por demais conhecidos em toda a parte. Já foi grande ramo de comércio desta província. Em 1820 ainda se exportaram 41 arrobas. [“Cinchona é um gênero de aproximadamente 40 espécies da família Rubiaceae. São arbustos de folhagem persistente naturais da região tropical da América do Sul que crescem entre 5 e 15m de altura. Algumas espécies produzem o quinino” (Wikipedia). O quinino é usado ainda hoje no tratamento da malária.]
12. UCAÚBA. Leite da planta do mesmo nome. Aplica-se com proveito nas úlceras da mucosa da boca e faringe. A infusão da casca desta planta aproveita muito no tratamento das flores brancas. [Flores brancas (Leucorréia): doença venérea, corrimento vaginal].
13. LEITE DE SORVA. Leite da sorveira, planta que dá um fruto (sorva) semelhante ao mucugê da Bahia, É boa cola e os índios do Rio Negro servem-se dele na preparação de ralos para ligar a matéria às pontas de pedra. Bebe-se. Deve ser analisado.
14. ABUTUA. Raiz de cissampelos pasciva. É da melhor. Seus usos são conhecidos em toda parte. [“A espécie Cissampelos sympodialis (Menispermaceae) é utilizada na medicina popular e indígena para o tratamento de desordens inflamatórias, incluindo a asma. Liane Franco Mangueira et alii, Revista Brasileira de Ciências da Saúde, 14 (2), 2010.]
15. CAFERANA. Raiz do arbusto do mesmo nome. É excelente antiperiódico e aplica-se em infusão ou tintura. Usa-se internamente.
16. GAPUÍ. Raiz do arbusto de mesmo nome. Macera-se a raiz n’água, decanta-se, e aplica-se, em mistura com água, a goma, que se deposita. É remédio pronto para as oftalmias.
(***)

De volta ao presente. Segundo uma reportagem do Portal G1 Amazonas (“Venda de ervas da Amazônia sustenta família”, 20/8/2012) a loja de Nora Garcia, localizada por trás do Mercado Adolfo Lisboa, em Manaus, comercializa 450 tipos de erva. Cólicas de bebê, depressão, dor de estômago, alguns tipos de câncer e Acidente Vascular Cerebral são algumas dos problemas para cuja solução os clientes costumam recorrer às ervas amazônicas, diz Nora.

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Me dá um dinheiro aí (Província do Amazonas, 1859)

Gustavo Maia Gomes

Em 1859, a Província do Amazonas possuía três Comarcas, três Termos, oito Municípios e 19 Distritos. “Comarca” e “Termo” eram subdivisões judiciárias; “Província”, “Município” e “Distrito” tinham mais a ver com a ordenação política. Também havia as divisões eclesiásticas (Diocese, Freguesia, Arraial), que não deixavam de ser políticas, pois Estado e Igreja viviam em simbiose.

De 1822 a 1889, o Brasil teve um sistema político centralizado, com grande protagonismo do Imperador, que nomeava e destituía os presidentes de província. A centralização se rebatia para o âmbito local. Em 1859, por exemplo, as finanças dos municípios dependiam fortemente da esfera provincial. Já a sua administração era responsabilidade imediata das Câmaras Municipais.
Em 1859, dos oito municípios amazonenses (Capital, Serpa, Silves, Borba, Barcelos, Teffé, Maués e Vila Bela), quatro escreveram ao presidente Francisco José Furtado (1818-70) pedindo “providências”. (Relatório do Presidente da Província do Amazonas à Assembleia Legislativa Provincial). Que providências?
– Ora, dinheiro.
“Em ofício de 11 de março, [a Câmara Municipal da Capital] pede a consignação, do cofre provincial, de dois contos de réis para fazer face às suas despesas, visto como decairão suas rendas logo que se instalar a Câmara de Borba”. A Câmara de Serpa tinha pedido, em 16 de janeiro, “o aumento de vencimentos para seus empregados”. A de Vila Bela da Imperatriz oficiaria, em 22 de março, "pedindo aumento de verba (...) para acabar o cemitério, cuja obra está paralisada por falta de meios”.
Somente um dos municípios fez outra coisa que não fosse estender a mão ao Presidente Furtado: “Por ofício de 12 de fevereiro, [Maués] pede providências para reprimir-se o abuso dos comerciantes de Cuiabá, que vêm do rio Maués e outros lugares daquele município comprar gêneros que conduzem sem pagar os direitos a que são sujeitos.”
Ou seja, a Câmara Municipal de Maués também queria dinheiro. Mas, pelo menos, acenava com a possibilidade de arrecadá-lo localmente, se apenas a Província lhe enviasse alguns soldados.

(Publicado no Facebook, 18/9/2015)

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Washington Luís (1928) e o Brasil de Dilma (2015)

Gustavo Maia Gomes

Na Mensagem ao Congresso Nacional de 1928, o então Presidente Washington Luís Pereira de Sousa (1869-1957) escreveu:
“Rumores correm de novos movimentos sediciosos. Simples atoardas. Não há, não pode haver revoluções ou revoltas no país. Não existem para isso nem ambiente nem elementos. O povo está satisfeito. Podemos considerar encerrado o período de motins e rebeldias.”
Continuava o Presidente: “Reina a ordem constitucional, garantindo todas as liberdades. A [economia] retorna à prosperidade [e aos] orçamentos equilibrados. A ordem político-administrativa inspira confiança. A ordem judiciária impõe respeito. O Brasil caminha para seus destinos.”
Dois anos e meio depois, um movimento sedicioso derrubou Washington Luís. Houve revoluções e revoltas em profusão. O povo não estava satisfeito, tanto que apoiou a revolução de Getúlio Vargas. Longe de encerrado, o período de motins e rebeldias teria novos episódios importantes em 1930, 1932 e 1935.
A ordem constitucional deixou de reinar de 1930 a 1945 (com um hiato em 1934-37). A ordem econômica desandou na maior crise de toda a República. Os orçamentos equilibrados desapareceriam por longos anos. Na ordem político-administrativa, brasileiro nenhum teria confiança, até que aquele Presidente fosse expulso. A ordem judiciária, ao invés de impor respeito, foi desrespeitada.
Ou seja, tudo o que Washington Luís previu ou asseverou, a realidade desmentiu. Com uma exceção, talvez.
“O Brasil caminha para seus destinos”, disse ele.
Se desemprego, inflação, discursos presidenciais desconexos, dólares na cueca, mensalões, petrolões, zé dirceus, lulas e lulinhas fossem os “destinos” para os quais o Brasil caminhava, não é que o homem estava certo?

(Publicado no Facebook, 16/9/15)

Cortando gastos na Província do Amazonas (1858)

Gustavo Maia Gomes

Em agosto de 1858, Manoel de Almeida Coutinho de Abreu encaminhou ao Presidente do Amazonas, Francisco José Furtado (1818-70), o “Relatório da Administração da Fazenda Provincial”. Nomear presidentes era atribuição privativa do Imperador que, para as províncias longínquas, sempre mandava gente absolutamente ignorante da realidade local. Para o azar das províncias, os nomeados demoravam tão pouco em seus cargos que não tinham tempo de aprender nada.
Felizmente, havia uma burocracia que começava a adquirir certa permanência. Coutinho de Abreu, por exemplo, serviu a vários presidentes e a todos pediu aumento de salários para si próprio e seus funcionários, como ele mesmo confessa no já citado Relatório. Nunca foi atendido, pela razão simples de que os orçamentos por ele preparados jamais equilibravam receitas e despesas. Não que o homem fosse um gastador. É que a Província não tinha como custear a própria existência.
“Comparando a receita com a despesa orçada [para 1859], resulta o déficit de 14 contos, 205 mil e 900 réis”, escreveu Coutinho de Abreu. E continuou: “Sendo certo que as boas finanças consistem em cada um calcular a sua despesa pela receita com que pode contar, quando não com certeza, com probabilidade, dir-se-á que este orçamento é um despropósito financeiro.” (Mal sabia ele que, 156 anos depois, o governo republicano do Brasil iria enviar ao Congresso Nacional um Orçamento com déficit de R$ 30 bilhões.)
Havia, entretanto, um porém: “A prudência e economia dos Exmos. Administradores desta Província tem sempre desviado a realização desse déficit aparente [pelo expediente de não efetuar parte das despesas previstas] e o mesmo é de esperar que continue a acontecer”. Ou seja: Manoel de Almeida Coutinho de Abreu mandava para a Assembleia Provincial as contas que não fechavam e cruzava os dedos, esperando que o Presidente do dia gastasse menos do que estava autorizado a fazer.
Era o que terminava acontecendo. Talvez, nem se tratasse de repetidas demonstrações de responsabilidade fiscal. Podia ser, apenas, falta de crédito do governo na praça.

(Publicado no Facebook em 14/9/15)

Como era bom ser criança no Amazonas

Gustavo Maia Gomes

Desmembrado do Pará em 1850, o Amazonas começou a existir como Província autônoma dois anos depois. Em 8 de março de 1852, seu primeiro presidente, João Batista de Figueiredo Tenreiro Aranha, baixou o “Regulamento da Instrução Primária”. Manaus (que perdera o nome em 1848, para recuperá-lo, apenas, em 1856) ainda se chamava “Cidade da Barra do Rio Negro”.
“A instrução primária nesta Província”, escreveu Tenreiro Aranha, “compreenderá a educação física, moral e intelectual, com o ensino de leitura, caligrafia, doutrina cristã, numeração e regras de aritmética, gramática, noções de geometria aplicada às artes, história natural, sagrada, do Brasil, e geografia; para o sexo feminino, a mesma educação e instrução e as prendas próprias deste sexo”.
“Prendas próprias do sexo feminino” eram o "uso da agulha e da tesoura, os princípios da costura e dos bordados, e a música, para as meninas que tiverem propensão". Elas também aprenderiam como fazer “redes, flores artificiais, doces de confeitarias e artefatos de palhinha”. (Mas, na escola, as meninas não aprendiam a cozinhar, provavelmente, atividade exclusiva das escravas.)
O Regulamento estipula os castigos reservados aos alunos e alunas que mostrassem “maus modos e costumes; falta de asseio em si, em seus livros e papeis; falta de obediência e de respeito ao Professor; erros nas lições e nas escritas; e rixas e mutilações”. Também havia a relação das “ações boas”, que seriam recompensadas.
Quem mostrasse "maus modos e costumes" no grau mínimo seria advertido. Os que cometessem até seis erros nas lições e nas escritas teriam os trabalhos emendados pelos colegas. Além daí, receberiam uma “palmatoada” (golpe com palmatória na palma da mão) para cada erro. Os envolvidos em rixas e mutilações apanhariam ainda mais. Até doze aplicações da palmatória.
Os professores e professoras das escolas primárias no Amazonas, em meados dos 1800, embora submetidos a concurso, seriam escolhidos pessoalmente pelo Presidente da Província, “que nomeará os mais aptos”. Mesmo sendo “vitalícios”, podiam ser demitidos, se cometessem “ofensas à moral pública e à Religião do Estado”, ou “por negligência, desídia ou embriaguez habitual e incorrigível”.
Embriaguez, a gente sabe o que é. Desídia quer dizer “disposição para evitar qualquer esforço físico ou moral; indolência, ociosidade, preguiça; falta de atenção, de zelo; desleixo, incúria, negligência”. No Amazonas, como em todo o Brasil, bêbados continuam a existir. Alguns chegam à Presidência da República. “Desídia”, em contraste, é uma palavra que ninguém mais usa. Já o hábito...
[Acompanha o retrato de João Batista de Figueiredo Tenreiro Aranha (1798-1861), primeiro presidente da Província do Amazonas (1852)]

(Publicado no Facebook em 11/9/2015)

O encontro de Groucho Marx com o Barão de Itararé

Gustavo Maia Gomes

Apparício Torelly (1895-1971), o Barão de Itararé, foi um humorista brasileiro; Groucho Marx (1890-1977), um comediante norte-americano. Além de viver na mesma época, tinham outras afinidades. Faziam graça inteligente. Não é para qualquer um.
"Entre sem bater", escreveu o Barão na entrada de seu jornal, depois de três ou quatro invasões e depredações promovidas pela polícia de Getúlio Vargas. Já Groucho, saindo de um casamento para entrar em outro, descobriu que "o matrimônio é a principal causa do divórcio".
Imaginei um diálogo entre os dois. Eles conversam um pouco, prometem se ver no dia seguinte. O Barão propõe que se encontrem numa famosa agremiação social de Nova York. Groucho recusa o convite:
-- Não frequento clubes que me aceitam como sócio.
"De onde menos se espera, é que não vem nada, mesmo", pensa Torelly, contrariado. Groucho ameniza:
-- Estes são meus princípios. Se não gosta deles, tenho outros.
O Barão aceita as desculpas e diz não se sentir muito preso a princípios.
-- Vivo cada dia como se fosse o último; um dia, acerto.
-- Poderíamos almoçar juntos, sugere Groucho. Há um bom restaurante vegetariano logo ali.
-- Você é vegetariano?, quis saber o Barão.
-- Não. Eu não sou vegetariano, mas como animais que são.
Enquanto caminham, o comediante confessa que queria muito morar no Brasil. "Mas, como fazer, se meu trabalho é aqui?", pergunta. Torelly o aconselha a continuar lutando:
-- Nunca desista do seu sonho. Se acabou numa padaria, procure em outra!
-- Pois é, responde Groucho. Eu gostaria de relaxar o dia todo em Copacabana, mas o problema de não fazer nada é você nunca saber quando acabou.
-- Eu gosto muito, diz o Barão. Na praia, as pessoas cavam buracos. Eu cavo, tu cavas, ele cava, nós cavamos, vós cavais, eles cavam. Não é bonito, nem rima, mas é profundo.
-- Inclua-me fora disso, fala Groucho. Estou-lhe achando um tanto egoísta.
-- Não é o que eu penso, retruca o Barão.
Groucho Marx trata de explicar:
-- Egoísta é toda pessoa que pensa mais nela do que em mim.
Foi a gota d'água. Cancelam o almoço. A mudança para o Brasil fica para nunca. Torelly está decepcionado. Fala baixinho, consigo mesmo:
-- O tambor faz muito barulho, mas é vazio por dentro.

(Publicado no Facebook em 9/9/2015)

Burrice Coletiva

Gustavo Maia Gomes

Bastou o Esquisito da Fazenda acenar, em Paris, com o aumento de alíquotas do Imposto de Renda -- um imposto direto -- para uma multidão de estações repetidoras trazer de volta o velho discurso de que taxar mais as pessoas com rendas altas "é bom".
Em contraste, os impostos indiretos (sobre o consumo, por exemplo) seriam "ruins". Pelo seguinte: ricos e pobres pagam o mesmo preço por um quilo de feijão. Para o pobre, esse gasto representa uma parte maior da renda. Portanto, o imposto do feijão é "injusto", pois o pobre paga mais que o rico.
Os economistas tentam arranjar uma explicação menos óbvia para seus preconceitos mas, no fundo, (quase) todos achamos que a fonte da riqueza e dos altos rendimentos é o roubo. Portanto, aumentar o imposto sobre os altos salários (ou, melhor ainda, sobre a riqueza) ajuda a reduzir a injustiça, "é bom".
Agora, vamos sair da fantasia e ir para os fatos. Tirando o caso dos zé dirceus e gente da mesma espécie, cujos ganhos e fortuna foram, realmente, roubados, a história do mundo é completamente outra. Todos nós vivemos do que os empresários, organizando seus trabalhadores, operando seus investimentos, produzem. Podemos obrigar os "ricos" a pagar impostos mais altos, sim, porém, seria isso "justo"? E se o aumento da taxação causar uma produção menor, seria isso "bom"?
São os Ford, os Rockefeller, os Mauá que organizam a produção e fazem nascer os empregos, os bens e serviços, a riqueza que se acumula até fazer a diferença entre a Alemanha e a Somália; a Coréia do Sul e o Haiti. Enquanto acharmos que os ricos são os inimigos, estaremos, apenas, derrotando a nós mesmos.
Altos rendimentos indicam elevada contribuição à geração de bens, de serviços e de riqueza. Vamos, então, taxá-los? Vamos desestimular o sucesso, vamos criar incentivos para que as pessoas produzam menos? Além de injusto não seria, também, uma burrice?
Claro que existem as distorções, como o funcionário que faz greves anuais para continuar sugando as tetas do Estado, ou o pastor evangélico que vive de enganar o próximo. Para esses, recomendo cadeia, não impostos altos.

(Publicado no Facebook em 9/9/15)

Recordando Chico Anísio (1931-2012)

Gustavo Maia Gomes

Francisco Anísio de Oliveira Paula Filho integra o time dos grandes humoristas brasileiros, ao lado do Barão de Itararé (1895-1971), Stanislaw Ponte Preta (1923-68) e, naturalmente, Millôr Fernandes (1923-2012).
Graças à internet, uma parte expressiva da obra de Chico Anísio está, hoje, ao alcance de um clique. Mas, não tenho pretensões de resenhar a sua produção Quero, sim, registrar algumas lembranças pessoais relacionadas a histórias contadas por ele.
O Professor Beira Baixa vivia criando soluções complicadas para problemas simples e, quando o interlocutor aparentava espanto, ele esclarecia: "quem inventa é inventor; eu invento; logo, sou inventor". Meu pai gostava e, com frequência, repetia a mesma frase em nossa casa.
Joca, outro personagem, era um sujeito tão tímido que, quando alguém o surpreendia (ele estava sempre se escondendo das pessoas) e perguntava: "Quem é você?", invariavelmente, ouvia a resposta: "Não é ninguém, não; é o Joca".
Mas a melhor história de Chico Anísio, dentre aquelas que se mesclam às minhas lembranças de vida, é uma de Esquerdinha. Acho até que já a contei aqui. Peço desculpas, se for o caso. Mesmo assim, vale repeti-la. Não é uma piada, mas uma aula de economia, contada em um tempo -- anos 1960 -- no qual pouquíssimos de nós, estudantes, professores, economistas, jornalistas podiam perceber sua lição essencial.
Criado nos primeiros anos da ditadura militar (talvez, até, antes disso), Esquerdinha era um típico agente do Partido Comunista, naturalmente, disfarçado. A quem abordasse, tentava convencer de que bom mesmo era "lá". Essa última palavra, ele a pronunciava com especial entonação. E completava: "Vai lá que você vai gostar".
A maquiagem fazia a cabeleireira de Esquerdinha nascer dois centímetros acima das sobrancelhas, mas seu bordão era: "Confie em mim, que sou um homem de testa larga". Numa dessas conversas de rua, sempre olhando para os lados, para ver se a Polícia estava perto, Esquerdinha encontra um amigo recém-saído de uma loja de sapatos carregando uma caixa.
-- O que é isso? pergunta Esquerdinha.
-- Sapatos, reponde o outro.
-- Como fez para consegui-los?
-- Ora, entrei na loja e os comprei. Por que?
-- Porque "lá" não é assim, não.
-- E como é?
-- Primeiro, você entra num lugar que tem escrito em cima "sapatos".
-- Mas aqui também é assim.
-- "Lá" é diferente. Depois da porta com o nome "sapatos", há um grande corredor, cheio de sinais: "siga em frente", "dobre à direita em 100 m" e outros. Quando chega o final, a gente dobra à direita. Tem mais placas: "atenção: sapatos, à esquerda, em 80 m". Dobramos à esquerda. Entramos em outro corredor, andamos uns 50 m. Há uma porta. Abrimos a porta e estamos, de novo, na rua.
-- Mas, e os sapatos?, pergunta o amigo de Esquerdinha, confuso.
-- Sapatos, não tem. Mas é uma organização!
Com 30 anos de antecedência, Chico Anísio (ou quem tenha escrito isso para ele) antecipou as razões para a inevitável falência do socialismo. Contei essa história muitas vezes aos meus alunos, a maioria, naturalmente, "esquerdinhas" convictos. Alguns entenderam, outros, não. Esses, devem estar trabalhando para o PT, hoje em dia.

(Publicado no Facebook, 7/9/2015)

Ainda sobre Limoeiro (PE)

Gustavo Maia Gomes
Limoeiro, no Agreste de Pernambuco (que Lourdes Barbosa, seu sobrinho Antônio, e eu visitamos nos dias 29 e 30/8), já viveu dias mais prósperos. Na cidade, é possível identificar construções significativas datadas do início do século 20. Além disso, as estatísticas mostram que a economia limoeirense cresceu em importância regional entre os anos 1920 e 1959. Infelizmente, a tendência foi revertida e o panorama atual não é bom.
Duas atividades econômicas moviam Limoeiro, até os anos 1960: o algodão e a pecuária. As hoje abandonadas instalações da Irodusa (descaroçadora de algodão, fundada em ano próximo a 1940) indicam que a primeira delas atingiu dimensão bastante grande. O trem, que funcionou por um século e cuja primeira viagem aconteceu em 1882, tinha no transporte do ouro branco sua principal razão de ser.
Ocorre que o algodão nordestino entrou em crise já nos anos 1960, devido à concorrência de São Paulo (intensificada com a abertura
das rodovias ligando o Sudeste ao Nordeste) e foi ao colapso, vinte anos mais tarde, devido à praga do bicudo. Limoeiro, como não podia deixar de ser, sentiu o golpe. A pecuária, atividade em que a família Heráclio do Rego se destacou, desde os anos 1940, ainda existe, mas não pode, sozinha, sustentar um desempenho econômico satisfatório do município.
De modo que Limoeiro, vive, hoje, do governo, de programas como o Bolsa Família, do comércio remanescente, e de umas poucas indústrias modernas. Não dá sinais claros de ter-se beneficiado à larga dos anos de populismo petista que, em tantas outras cidades do Semiárido nordestino, gerou uma feliz, porém insustentável, prosperidade.
Um indicador sutil do declínio pode ser a indiferença da população com respeito à própria história. Relatei em outra postagem neste mesmo lugar ("Meu limão, meu limoeiro", 1/9) como ninguém sabia, nas ruas de Limoeiro, quem tinha sido o coronel Chico Heráclio. "Ninguém" não é a palavra correta: um doidinho sabia.

(Publicado no Facebook, 2/9/2015)

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Chico Heráclio de Limoeiro (PE)

Gustavo Maia Gomes

Francisco Heráclio do Rego (1885-1974) foi um dos mais importantes "coronéis" pernambucanos, mandando e desmandando na sua cidade (Limoeiro, 80 km do Recife, região Agreste), especialmente, entre os anos 1945 e 1954. Aliado de Agamenon Magalhães (1893-1954), que por duas vezes governou Pernambuco, o coronel também teve influência na política estadual e, numa escala muito menor, nacional.
Chico Heráclio no terraço lateral de sua casa. As grades foram mudadas, mas o piso é o mesmo e a coluna (com maior razão) ainda é a que está lá. A foto foi colhida na reportagem que O Cruzeiro (1/1/75) publicou em registro da morte do coronel.
Chico Heráclio era uma celebridade, a ponto de merecer, quando de sua morte, reportagem de cinco páginas na revista O Cruzeiro (1/1/1975), o equivalente, hoje, a ter cinco minutos no Jornal Nacional da Globo. A matéria, que pode ser acessada via hemeroteca digital da Fundação Biblioteca Nacional, tem um tom predominantemente favorável ao coronel.
Dois de seus filhos (Francisquinho e Heráclio) foram deputados, o primeiro, estadual; o segundo, federal, em várias legislaturas. Os prefeitos de Limoeiro eram sempre os que Chico Heráclio queria que fossem e ele dizia: "melhor do que ser prefeito é mandar no prefeito". Como ocorria com os outros chefes políticos municipais, o pacto implícito era que o governador garantia ampla autonomia ao coronel em seu reduto; em troca, esse assegurava os votos para o governador eleger seus candidatos.
São famosas algumas de suas histórias. Naquela época, o voto era dado por meio de uma cédula com o nome do candidato que o eleitor depositava na urna. (A cédula única, com os nomes de todos os candidatos, veio depois. Já foi um avanço.) Chico Heráclio preparava os envelopes com as cédulas de quem ele queria eleger, lacrava-os em um envelope, e os distribuía aos seus eleitores "de cabresto".
Geralmente, os votantes eram buscados em suas casas pelos empregados do coronel e levados à seção onde deveriam votar. Eles cumpriam o ritual esperado e, em seguida, recebiam farta comida e bebida. Talvez, algum dinheiro, também. Só que, um dia, um deles perguntou ao coronel se poderia saber, ao menos, em quem ele (o perguntador) havia votado. Chico Heráclio teria respondido na bucha. -- Você não sabe que o voto é secreto, cabra?
Conheci Francisquinho, o filho, entre 1968 e 1970, quando ele era deputado estadual e eu um jovem repórter encarregado de cobrir, para o Jornal do Commercio (Recife), o dia a dia da Assembleia Legislativa. A impressão que guardo é que, se Francisquinho não fosse filho de Chico Heráclio, dificilmente teria subido na vida. Era ou parecia ser, intelectualmente limitado. Heráclio do Rego tinha um pouco mais de massa cinzenta, mas posso estar enganado.
A casa de Chico Heráclio em Limoeiro (PE). Pelo estilo, deve ter sido construída na década de 1950, mas não me foi possível comprovar essa hipótese. Mesmo para os padrões da época e do local, está longe de ser um palacete, a despeito de todo o poder e (relativa) fortuna do coronel. (Foto Gustavo Maia Gomes, 30/8/15)
O terraço lateral da casa de Chico Heráclio em Limoeiro. (Note que o piso é o mesmo que aparece na foto publicada em O Cruzeiro, edição 1/1/75). As poltronas, segundo me garantiu o atual morador da casa, Clóvis Coutinho Pereira, ainda são as do tempo em que o coronel era vivo. (Foto Gustavo Maia Gomes, 30/8/15)

Lourdes Barbosa, Antônio e o retrato de Chico Heráclio na sala de jantar de sua casa. Pelo que pude apurar, os grandes almoços com finalidades políticas eram promovidos pelo coronel em sua fazenda Varjadas. A sala mostrada na foto é, realmente, pequena. Os móveis são os mesmos que serviram ao coronel e à sua família. (Foto Gustavo Maia Gomes, 30/8/15)
Um dos automóveis de Chico Heráclio. Ele era, de uma forma geral, avesso aos progressos do mundo moderno. Consta que não possuía geladeira, rádio, ou "vitrola" (aparelho de som). Mas gostava de carros luxuosos. Este é o único que sobreviveu (por quanto tempo?), deixado na sua garagem. É um Chrysler modelo muito parecido ao lançado em 1954. Se não é desse ano, é de um ano próximo. Está sendo destruído pelo tempo, segundo Clóvis Coutinho Pereira, porque os herdeiros não conseguem se entender sobre o que fazer com o espólio do coronel. (Foto Gustavo Maia Gomes, 30/8/15)
Estivemos (Lourdes Barbosa, minha mulher; Antônio, seu sobrinho e eu) em Limoeiro, neste fim de semana. Visitamos a casa onde morou Chico Heráclio. Lá residem, hoje, a viúva de um neto do coronel e o irmão dela, o advogado Clóvis Coutinho Pereira. Ele teve a gentileza de nos permitir a visita ao interior da sua residência, que conserva a mesma estrutura e muitos dos objetos usados pelo coronel e sua família.

(Publicado no Facebook, 31/8/2015)