quarta-feira, 26 de abril de 2017

Em torno de um livro de Mario Brandão Maia Gomes (1943)

Mario Brandão. Freud e meu personagem Emerenciano (Rio de Janeiro, Freitas Bastos, 1943, 123 págs.)

GUSTAVO MAIA GOMES


Freud e meu personagem Emerenciano tem um miolo, com aproximadamente 60 páginas, e dois “adornos” (artigos dele mesmo, Mario Brandão, e de terceiros), mais ou menos, do mesmo tamanho, ou seja, 30 páginas cada um. Nem sempre dá para entender por que os enfeites estão ali, o que eles têm a ver com a parte central do livro. Mas estão. 
Deixando isso de lado, ficamos com as páginas 37 a 97, o miolo. Que história elas contam? A de Emerenciano, diz Mario Brandão. A de Mario Brandão, digo eu. Ou melhor, dizemos nós, L. Lavanére (da Academia Alagoana de Letras, no Jornal de Alagoas, em ano próximo, mas anterior, a 1943) e eu. No artigo suscitado por uma conferência de Mario Brandão sobre o seu personagem (então ainda inédito) e reproduzido nas págs. 105-107 do livro, Lavanére escreveu: “Com franqueza, digo que não creio na ficção daquele Emerenciano. Para mim, [o que o autor sente] é forte desejo de revelar alguns segredos de sua vida, tirar de sobre si o peso do que se acumulou no seu cérebro e que lhe causa incômodo”.
Mario Brandão, até onde pude saber, escreveu três livros. Apenas dois vieram a público: Almas do outro mundo – Contos típicos regionais (Rio de Janeiro, Gráfica Ipiranga, 1931) e Freud e meu personagem Emerenciano – Síntese de um romance (Rio de Janeiro, Freitas Bastos, 1943). O terceiro (Penitenciária), ele disse ter escrito, mas não publicou. (Seriam reminiscências de seus anos de reclusão?) 
Nem, sequer, tentou publicar, segundo diz, embora quisesse, sim, que o livro fosse impresso e distribuído às livrarias: “Penitenciária [é um] romance mais ou menos dostoievskiano que há dois anos pretendo publicar do mesmo modo que muita gente deseja ganhar a sorte grande sem comprar bilhete de loteria”. Como este é, apenas, o primeiro paradoxo registrado em Freud e meu personagem Emerenciano, devo advertir que outros virão. (O manuscrito de Penitenciária, provavelmente, se perdeu para sempre.)[1]
Sabemos a que o intelectual da Academia Alagoana de Letras se referia, ao comentar a palestra em que seu criador apresentou o personagem Emerenciano. Mario Brandão devia ter saído há pouco tempo do manicômio judiciário onde ficara recolhido – ou seja, preso – por ter matado o motorista Perreque (Cícero de Carvalho Leite), em Maceió (1937). 
Não fora aquele, por sinal, o único acontecimento trágico que o autor de Freud e meu personagem Emerenciano havia sofrido ou, diretamente, causado. Essa é uma história contada no Cap. 11 de Uma noite em Anhumas (livro ainda em elaboração), que não será repetida aqui. Foi para “tirar de sobre si o peso do que se acumulou em seu cérebro”, volto a citar L. Lavanére, que Mario Brandão “fingiu criar um indivíduo fantasiado de vestes alheias, mas, no interior, das suas vestido”. É o que penso, também. Em sendo assim, o livro nos irá fornecer preciosos elementos para uma melhor compreensão de Mario Brandão. Ou eu deveria dizer “Emerenciano”?

O direito de nascer

Embora nunca o tenha dito explicitamente, pelo menos, não nos escritos que pude resgatar, Mario Brandão Maia Gomes era espírita, ou seja, acreditava na doutrina de Alan Kardec que, ainda hoje, tem seguidores no Brasil. Parece que o pai, meu tio-avô Alípio Maia Gomes, também era, pois ele dedicou sua tese de médico, formado na Bahia, às relações entre “a arte que professo” (a medicina) e o mundo sobrenatural, conforme descrito ou inventado pelo Espiritismo. 
Em um dos artigos (seus e de terceiros) com que adorna e dá volume a Freud e meu personagem Emerenciano, Mario Brandão faz uma referência positiva ao seu pai e à tese dele sobre os fantasmas cuja existência ninguém jamais comprovou, mas muitos continuam a dizer que viram. Ao longo do livro, são inúmeras as evidências de que ele acreditava nisso. Nem Alan Kardec, nem o Espiritismo estão no título do segundo livro publicado de Mario Brandão. Freud está. A despeito disso, eu encontrei muito mais Kardec do que Freud nas aventuras e desventuras de Emerenciano. A começar do primeiro parágrafo do primeiro capítulo:
O meu personagem, antes de tudo, precisava nascer. Ele pairava, por assim falar, nos domínios do vago, do incalculável, do ilógico, do impossível, do abstrato, do absurdo. Permanecia além dos estreitos limites da concepção humana. (...) Do fundo da eternidade, nas regiões imateriais onde se originaram os mundos e os espaços, a salvo de todos os princípios e livre de todas as leis, ele experimentou uma infinita amargura. Talvez a independência lhe houvesse provocado a necessidade imperiosa e inadiável de escravizar-se.[2]
Isso, convenhamos, é boa literatura. A este trecho inicial, entretanto, seguem-se alguns parágrafos pretensamente de discussão filosófica que não me agradam. Sem ser crítico literário, acho que as súbitas e repetidas mudanças de gênero narrativo, por assim dizer, são o ponto fraco do livro. Mario Brandão é capaz de conceber muitas situações interessantes e de descrevê-las com grande talento, mas, com frequência, põe a perder esses bons começos mudando subitamente o tom do discurso do emotivo-ficcional para o racional-científico. 
Nessas divagações inoportunas, ele gasta, às vezes, páginas inteiras. Depois, retoma o modo anterior, mais próprio do romance que Freud e meu personagem Emerenciano seria se houvesse sido terminado. (O que foi, efetivamente, publicado ganhou o subtítulo “Síntese de um romance”.)
Emerenciano queria com todas as fibras de seu ser metafísico o que quer que fosse do qual não podia ter uma noção exata. E dos confins da inexistência lhe chegava um mal estar horrível.
De repente, teve um sobressalto e formulou tragicamente esta decisão suprema:
– Vou nascer![3]
Para nascer, o “espírito de Emerenciano” (Mario Brandão jamais usa esta expressão) precisava achar um homem e uma mulher que estivessem dispostos a serem seus pais na Terra. “Encontrou-os, sem muito esforço. Chamavam-se Augusto e Filomena”. É a partir daí que as semelhanças entre as vidas de Emerenciano e do seu criador vão aparecendo em sequência, justificando a opinião de L. Lavanére de que o autor estava, na verdade, falando dele mesmo.
Nem Augusto nem Filomena foram felizes com o trabalho genésico. Filomena, após ter cumprido a missão sublime da maternidade, morreu, com um sorriso, delirando de febre, vítima de infecção puerperal. E Augusto ficou a ponto de perder o juízo. Pensou decididamente em correr atrás da companheira. Não passou, todavia, dessas cogitações graves. Temeu realizar a desconhecida viagem.[4]
Primeira semelhança: Luíza Brandão, a mãe de Mario, morreu de complicações no parto, quando ele tinha quatro anos (contei essa história em O trem para Branquinha, Cap. 27). Segunda: ao longo da vida, Mario Brandão tentou suicidar-se quatro vezes, sendo, afinal, “bem sucedido”, diferentemente de Augusto, o pai de Emerenciano, a quem “faltou o ânimo para empreender o grande salto mortal até a Eternidade”. Terceira: apenas seis anos após perder a mãe, Mario Brandão iria sofrer outro golpe, com a morte de Alípio, seu pai. A criança Emerenciano também perdeu o pai, a propósito do que o autor do livro escreveu uma das passagens mais bonitas de todo o livro:
Uma tarde Augusto tomou um navio com destino ao Amazonas, de lá nunca mais regressando nem dando sinal de vida. Emerenciano ficou espiando o navio. O navio sumiu-se no horizonte, e Emerenciano ficou espiando o mar.[5]
A partir daí, prossegue a narrativa, “a figura do pai, que representava a sua garantia na vida (...) apagara-se-lhe no consciente e se confundia com o mundo”. Emerenciano vai, então, morar com um amigo do pai. (Na vida real, Mario Brandão deve ter continuado a viver com a viúva de Alípio, Elisette Cardozo, e com seus quatro meios-irmãos. Não sei se a madrasta teve um segundo casamento, mas acho isso improvável. De todo modo, é natural que o garoto de dez anos duplamente órfão tenha se sentido desamparado.) 
O pai adotivo de Emerenciano, infelizmente, “era muito violento. Mais grosseiro do que mau”, atenua o narrador. Mesmo assim, numa passagem incluída mais adiante no livro, mas que se refere a esses primeiros tempos, diz o autor:
Logo no primeiro dia que chegara à casa do pai adotivo, sentiu, repentinamente, dentro dos miolos o tremendo estrondo de um cascudo [golpe dado na cabeça, com a mão fechada e usando as articulações dos dedos; gíria da época]. Fora o pai de criação que assim lhe queria apenas preparar o espírito para uma advertência a propósito do modo mais decente de uma criança sentar-se à mesa.[6]
Com o tempo, Emerenciano “deslembrou-se” daquilo embora (Freud!), inconscientemente, jamais tenha esquecido a dor que o cascudo lhe provocara. Era hora da ceia. “Em torno havia a dona da casa e muitos outros membros da família”. Dependurada na parede havia uma enorme reprodução de um quadro da última ceia de Cristo.
O menino (...) vaga e confusamente, entendia que ali estava o seu Deus, aquele que não deveria permitir que o pai jamais regressasse desse Amazonas longínquo, aquele seu Deus que, mesmo ali do quadro, decerto, possuía poderes para evitar o castigo imerecido que acabava de sofrer.[7]
Esse episódio fez com que, já mais crescido, Emerenciano passasse “a odiar do fundo do inconsciente na pessoa daquele homem que lhe batera, a família toda, no seio da qual vivia e a família no sentido geral”. Da mesma forma, a odiar o Cristo “porque lhe ficara a ideia mórbida de que Jesus, com os Apóstolos apreensivos, assistira impassivelmente ao seu primeiro e injusto aviltamento na terra”. Para piorar as coisas, além de o pai adotivo ser violento, a mãe 
era indiferente ao destino de Emerenciano. Parecia olhá-lo com certa mágoa por verificar inconscientemente que ele vinha, de qualquer modo, subtrair-lhe um pouco das atenções devidas aos filhos. Os filhos eram tratados pelos fâmulos por seu fulano e seu sicrano. Tratavam Emerenciano por Emerenciano mesmo.[8]
Também aqui, o autor alcança o nível da melhor literatura. O prosseguimento da narrativa (que, neste caso, não perde o ritmo nem sofre alternância de modo) é muito revelador de que Mario Brandão, como primeiro percebeu L. Lavanére, usava seu personagem Emerenciano para fazer uma espécie de autodefesa, de justificativa para sua vida mais do que atribulada. (Em favor de Elisette, a contrapartida real da fictícia e inominada madrasta de Emerenciano, diga-se que ela tinha ainda mais razões do que Mario para se sentir desamparada: a morte de Alípio lhe deixou com seis filhos pequenos para criar, apenas quatro dos quais eram biologicamente dela.)
Como reagia Emerenciano (e por quê?) ao seu próprio desamparo, num ambiente em que ele se julgava preterido aos irmãos de criação?
Menino inteligente, superior, já experimentava essa tortura da vaidade que acaba gerando a timidez. E a criança sentia intimamente qualquer coisa inexprimível lhe dando uma convicção de superioridade. Ela sentia-se muito mais gente do que seus irmãos adotivos. Mas aquela diferença de roupa, de dormitório, de tratamento e até de alimentação humilhava-o.[9]
Em poucas páginas, Mário Brandão, projetando-se em Emerenciano, expôs os pilares de sua própria defesa diante do mundo, atendendo ao desejo, como disse L. Lavanére, de “tirar de sobre si o peso (...) que lhe causa incômodo”. Ele fora, Mário / Emerenciano, uma vítima de trágicas circunstâncias e infelizes acontecimentos. E, se reagiu, às vezes, de maneira tão violenta, foi porque era mais inatamente inteligente do que a maioria da humanidade.
Uma criança medíocre não sofreria maiores vexames em face dessas desigualdades. Não sentiria os grandes abalos morais. Não seria vítima de nenhum trauma. Não se deprimiria na luta entre a altivez e a pusilanimidade.[10]

Menino e rapaz

O rosário de infelicidades continua a ser cantado. Sem ter atenção ou receber cuidados, Emerenciano sofre também as consequências físicas disso. “Os dentes lhe principiaram a cariar. (...) Não tardou a ficar desdentado. Era para ele uma tortura ter de achar graça em qualquer coisa, sobretudo, diante de pessoas do outro sexo”. Teve uma paixão precoce, aos cinco anos, “por uma moça que ganhara um concurso de beleza na sua cidadezinha distante e esquecida”. E, como o personagem de Mario Brandão era um ser diferenciado, “ele amou aos cinco anos com a intensidade com que muitos não amam na adolescência”. 
Segue-se um longo parágrafo em que o autor, incorrendo naquele problema de alternar modos de exposição, se socorre em Freud para justificar Emerenciano. Uma inserção com resultados negativos, um momento em que a literatura é sacrificada em favor do discurso de advogado. Mas, findo o entre parênteses e retomada a narrativa ficcional, aparece outra pérola:
Emerenciano não podia rir sem tentar angustiosamente esconder a boca atrás das mãos, sem ficar rubro de vergonha, sem se constranger, sem se recalcar, sem levar para o dia de amanhã a doença da prevenção contra a humanidade. Toda vez que precisava rir, ele marcava na folhinha do futuro uma necessidade de chorar.[11]
“Folhinha”, para quem não é desse tempo, era como a gente chamava aqueles calendários apresentados em blocos de 365 folhas arrancáveis, uma para cada dia. Esclarecido isso, devo dizer que a frase “Toda vez que precisava rir, ele marcava na folhinha do futuro uma necessidade de chorar” é impactante e dotada de rara beleza. Arrisco-me a dizer, a despeito de meu pouco conhecimento a respeito, tratar-se de uma das mais bonitas já escritas na literatura brasileira. 
Mas o fato é que, desdentado, o Emerenciano menino passou a conviver apenas quem também não tinha dentes, os meninos pobres, enfim. Já homens feitos, tanto Emerenciano como seu criador iriam cultivar esses relacionamentos. No caso de Mario Brandão, nas boates de segunda categoria onde ia beber e, frequentemente, brigar.
Quanto mais crescia, mais Emerenciano apanhava. Depois daquele primeiro cascudo, “ainda apanhou muito bolo de palmatória, muito murro, muito pontapé, muita surra de cipó-pé com culpa e sem culpa”. Adquiriu um complexo de inferioridade. Compensava-se disso “praticando maus feitos”.
Foi Emerenciano quem botou sabão na panela. Foi ele quem derramou tinta na toalha. Foi ele quem quebrou o copo. Foi ele quem atirou uma pedra na vidraça do vizinho. Foi ele quem roubou o dinheiro do oratório. E apanhava que era uma lástima.[12]
Apanhava sem chorar, prossegue o relato. Não suportava era a dor moral. Os irmãos adotivos foram estudar na Capital.
Emerenciano ficou estudando na aldeia. Adiante, os irmãos de criação partiram para outros Estados, a fim de ingressarem em escolas superiores. Emerenciano foi para a Capital empregar-se no armazém de um comerciante que lhe pagava uma insignificância.[13]
Como “[não] tomava gosto pelo trabalho, foi trabalhar num engenho como cabo de eito. Não deu para o engenho. Foi estudar na Capital. O homem que o criara agora gostava dele. Talvez intimamente se arrependesse de tanto o haver espancado. Mas, a verdade é que Emerenciano não dava para nada”. (Seria este também o sentimento de Mario Brandão sobre si mesmo?) A despeito disso, sentia,
de vez em quando, um desejo vago e confuso, uma necessidade medonha de ser alguma coisa muito grande na vida, para mostrar àqueles irmãos de criação, para mostrar àquele homem que o criara e a todas as famílias do mundo de quanto era capaz.[14]
Emerenciano estudou algum tempo e foi trabalhar num jornal (outra pista de que o autor está falando dele mesmo). Trabalhar não como o repórter que Mario foi, por vários anos, no Rio de Janeiro, mas “como uma espécie de contínuo”, como devia se sentir em seus empregos precários e periodicamente rompidos pelas confusões que arranjava. Os paralelos entre as vidas do personagem e de seu criador continuam a se apresentar.
Era um jornal do tempo em que os poetas não podiam viver sem beber. Encontrou boêmios, gente de cultura, ou apenas de sensibilidade, personagens de Dostoievski, gente como Verlaine e Musset, gente mal vestida e gente mal alimentada e gente feia e doente.[15]
Dessa maneira, o homem feito Emerenciano repetia o menino que ele havia sido e que convivia apenas com outros desdentados. E se dava bem com eles, como, agora, devia estar à vontade ao lado da gente mal vestida, mal alimentada, feia e doente.
Emerenciano bebia. Embriagava-se. Amava completamente bêbado. O lupanar era a alcova que ele sonhara... Procurava encontrar, inconscientemente, no lupanar baixo aquela moça bonita que amara aos cinco anos.[16]
“Lupanar”, para quem não sabe (como não o sabia eu) é o mesmo que casa de meretrizes, bordel. Ou “recurso”, como lembrou Humberto Gomes de Barros (Cap. 13). Muitos dos incidentes graves em que Mario Brandão se envolveu ao longo da vida começaram ou terminaram em bares e boates de segunda que, se não eram lupanares, chegavam perto.

Os amores frustrados, trágicos, infelizes

Emerenciano “sentia-se, inconscientemente, de uma inferioridade dolorosa para com as moças, concebendo-as, num plano sublimado elevadíssimo, como se não fossem criaturas vivas, como se fossem feitas de luz”. Mas, a despeito disso, teve suas mulheres, seus amores. Todos problemáticos. Afinal, o que deveríamos esperar?
Não se achava bem nos ambientes familiares, fugindo deles, pensando que assim o fazia por superioridade. (...) Não se depravava em meio à depravação. Era como se misturasse com a lama não se lameasse. Não ia para a sarjeta da vida, porque o seu espírito subia, procurava galgar os cumes luminosos, o azul, a Via Láctea... Um dia se apaixonou por uma infeliz criatura. Foi como se houvesse apaixonado pela Branca de Neve. (...) Emerenciano, porém, com a sua timidez, não podia possuir senão platonicamente aquela sua Dulcinéia.[17]
Ela o queria de graça, mas Emerenciano, “de graça, era capaz para mulheres inferiores, de tamanco e vestido sujo de chita, em cima de uma esteira, sobre uma velha cama de lona, num cubículo da ‘Calçada Alta’. Mas aquela era decente. E ele se sentia diante dela humanamente incapaz. Precisava de dinheiro para comprá-la”. Não tardou que se separassem. “Nunca a esqueceu. Ouvia a música de sua voz. Sentia o perfume de seus cabelos. E o tempo foi passando por ele, cada vez mais velho”. Em determinado momento, o personagem de Mario Brandão comprou um bilhete de loteria e...
ganhou uma porção de contos de reis. Foi um desespero. Comia às pressas. Bebia às pressas. Vivia precipitadamente, numa vertigem, dormindo somente quando estava exausto (...) Era como se quisesse se desforrar do tempo em que vivera miseravelmente. Tinha medo de morrer antes de o dinheiro acabar.[18]
Encontrou novamente aquela mulher. “E foi humano e não mais apenas divino”. Sentia que, momentaneamente rico, a podia comprar. “O dinheiro com que agora a mantinha diminuí-a um pouco no seu conceito inconsciente para que se sentisse igual a ela e não inferior”. Passou a sentir ciúmes. (E, então, em nova alternância, Mario Brandão passa a discorrer sobre o ciúme em Freud. Chega a dizer: “vou sintetizar de forma simbólica, como num verdadeiro sonho estudado por Freud, o que houve com Emerenciano...” Isso me parece má literatura.) 
A história que ele conta para introduzir Freud em seu argumento é, na verdade, uma história de espiritismo, não de Psicanálise. E, embora não seja desprovida de interesse, a narrativa principal sofre, neste ponto, mais uma vez, um desvio injustificado e de resultados literariamente ruins.
O capítulo seguinte, o terceiro, começa com a frase “teve uma grande paixão na vida”. Não foi a mulher que ele, no início, assimilava a Branca de Neve. Esta ficou para trás, sem outras considerações. A “grande paixão” era o contrário dela.
Mas a paixão de Emerenciano era diferente. Amava a uma criatura perdida, para a qual julgava não haver possibilidade de salvação. A princípio não se apercebeu de que dificilmente seria capaz de mantê-la entre a humanidade sem se livrar do egoísmo. Mais tarde compreendeu que ela era uma mulher do diabo, embora não soubesse como livrar-se de sua tentação (...) Num verdadeiro inferno vivia ele.[19]
Mais uma vez, a narrativa sofre uma solução de continuidade, prejudicada pela tentativa inapropriada de fazer análises explícitas ou recorrer a conceitos freudianos. Nesses momentos, Mario Brandão escancara sua intenção de fazer do romance de Emerenciano um libelo de autodefesa. 
Mas o libelo poderia ser um romance ou um arrazoado, nunca as duas coisas ao mesmo tempo: “Vou apresentar ‘os sintomas de seu alheamento da realidade e do presente, de que nos fala o Pai da Psicanálise’”, diz Mario, citando ele não diz quem na frase entre aspas no original. Quando ele para de parecer científico e volta ao modo de romance, a narrativa cresce em qualidade. Dessa nova paixão, Emerenciano também sentia um ciúme doentio. Aparece o espectro do assassinato; reaparece o do suicídio. É Mario Brandão falando de si mesmo, sob o disfarce de um personagem ficcional.
Preocupava-se de que não acabasse bem. Podia matá-la. E antes a beijaria como Otelo e, de certo, lamentaria também não poder ficar matando a vida inteira a amada infiel.
Podia matar-se. Se ficasse vivo, seria encontrado junto do cadáver dela, considerando vagamente o que tinha feito, a cabeça caída sobre o peito, os olhos parados nas órbitas, olhando-a no chão, estendida, sem poder se levantar para chamar-lhe muito nome feio, atirar-lhe em cima o que pudesse alcançar, e, em seguida, cair-lhe aos pés, de joelhos, com as mãos postas, pedindo perdão.[20]
Tinha brigas contínuas com a mulher. “Uma vez, ela lhe quebrara a cabeça com um vidro de remédio ainda fechado. Emerenciano começara a dizer que ela era uma mulher miserável, uma criatura monstruosa, uma degenerada, uma bandida”. A companheira não se conteve “e atirou-lhe o frasco na testa. O sangue desceu misturado com o remédio”. Mas, quando o viu ferido, “agarrou-se a ele”. Daí a pouco estavam bons amigos. Apenas para brigar de novo, talvez, sem grande demora. Segue-se um dos trechos mais dramáticos e bem escritos de todo o livro, que me permito citar na integralidade.
Naquela noite brigaram mais uma vez. E mais uma vez na vida recolheram-se intrigados. Ela deitou-se na cama. Ele ficou estirado sobre uns caixões de querosene, embora no mesmo quarto. Numa situação tal, dificilmente dormiriam. E não dormiram mesmo. Cada qual ficou aguardando da parte contrária uma voz amiga, enternecida, generosa, de reconciliação. E se mantiveram nessa luta silenciosa até alta noite. De repente, Emerenciano não se conteve mais e pulou no meio do quarto como se fora aferroado violentamente, gritando a plenos pulmões, no escuro:
– Olha, sinha vaca, quer saber de uma coisa? Vou deixá-la! Trate de arrumar meus troços já neste instantezinho que eu vou me meter na casa das setenta mil pestes. E você que se meta nas profundas do inferno, gota serena, bexiguenta.
A companheira levantou-se sem uma recriminação. Retirou a caixa de fósforos de baixo do travesseiro, acendeu o candeeiro, e com ele na mão caminhou para Emerenciano. Ergueu a luz até a altura do rosto do amante e respondeu serenamente:
– Pode se danar.[21]
O homem, efetivamente, foi embora na madrugada. Mas, no dia seguinte, retornou, para encontrar “o lugar mais limpo”. Saiu dali, entrou numa taverna. “Virou sombra também. Todos os dias protelava o recomeço da vida para o dia seguinte. A vida de todos os párias, de todos os sombras, sempre começa amanhã”. Não se sentia mais feito de pensamento, como antes sentira. “Ele se sentia o fim vago de qualquer coisa vaga, como o ponto final de uma carta que está dependurado da pena no derradeiro instante da vida”.
Isso é Mario Brandão em um dos seus melhores momentos!

De um querer morrer à aventura em São Luís do Maranhão

O capítulo IV de Freud e meu personagem Emerenciano tem meia página de extensão. Trata, apenas, de uma tentativa de suicídio que não teve sucesso.
Emerenciano, a quem o tédio da inexistência levara a formular tragicamente aquelas palavras desesperadas que revelavam a sua firme decisão de nascer, agora decidia o contrário, levado pelo tédio da própria existência.
Emerenciano decidiu morrer. Tomou qualquer coisa doce que lhe lembrou o próprio gosto da boca daquela mulher, que eu estou sentindo na minha boca neste instante em que escrevo a vida desse personagem.[22]
Mas não morreu: “a aproximação da morte fê-lo enxergar mais detalhadamente a vida. E a vida lhe pareceu sublime, pelo menos no instante primeiro da salvação”. E Emerenciano viajou... Vamos encontrá-lo, no capítulo seguinte, em São Luís do Maranhão. Sem nenhuma razão óbvia, em São Luís do Maranhão, onde vive uma aventura. “Como tinha sido de jornal, decidiu fazer uma reportagem [contínuo fazia reportagem?] 
E foi esta a reportagem: uma coisa meio kafkiana, embora Kafka ainda nem fosse conhecido no Brasil. “Vai alta a noite”, começa Mario Brandão. “A cidade, por assim dizer, dorme. Apagam-se as lâmpadas no último café”. Baixa o silencio e a intensa escuridão. O repórter (Emerenciano, naturalmente) “deixa o local em que se escondera e avança pela rua trevosa”. De repente, os vultos que ele podia divisar, somem-se nas trevas.
Caminhando até o local em que os vultos desapareceram, verifica, à sua direita, um portão de ferro dando acesso a enorme edifício desabitado, em princípios de ruína. Transpõe-no, disposto a sondar o mistério até o fim, custasse o que custasse.[23]
Avista, “de costas para ele, sentados no soalho, os dois vultos brancos que seguira, desde a Praça Gonçalves Dias. De frente, da mesma forma sentados, encontram-se mais onze indivíduos, de feições macabras”. Esses últimos, prossegue, “usam vestes escuras. Olhares verdadeiramente alucinados percorrem as complicadas linhas de uma espécie de mapa”.
Em dado momento, erguem-se todos, como se fossem tomados de sobressalto atroz. E um deles se afasta. Acompanha-o visualmente o repórter através da fechadura. Habituara-se a escrever sobre o corriqueiro, o chão, o concreto e também sobre o fantasmagórico, o abstrato, o absurdo, o real menos verossímil e o fabuloso com insofismáveis, iniludíveis caracteres de puro realismo.[24]
(Mario Brandão esquece aqui que era ele, não Emerenciano, quem fazia tais coisas. Mas, como são a mesma pessoa...) Neste momento, o indivíduo que se afastara dos demais volta, carregando nos braços “um corpo desnudo e inanimado de mulher”. Mario Brandão aproveita o ensejo para instilar um toque de Alan Kardec à cena, dizendo que se ouve uma oração concebida para afugentar os maus espíritos.
– Não está morta – assegura, por fim, com voz rouquenha e pausada, o sujeito que a trouxera nos braços – mas se acha o seu espírito em condições de abandonar, transitoriamente, a matéria, e, galgando o espaço, de lá nos trazer, desvendados, os segredos sob os quais repousam as grandes arcas de ouro em S. Luís, enterradas pelos holandeses.[25]
A presença, em local próximo, do repórter Emerenciano observando a cena é, entretanto, descoberta e ele “sente repercutir dentro dos miolos o tremendo rumor de uma cacetada”. Perde os sentidos. Tem noção, não sabe quão pouco depois disso, de que “está sendo conduzido em automóvel, de olhos fechados, com as mãos atadas às costas e com uma quase asfixiante mordaça”. O veículo para e lhe ordenam que desça. Sente o cheiro do mar. Imagina que lhe vão amarrar uma pedra ao pescoço e lança-lo às águas. Mas logo percebe que a intenção dos adeptos da magia negra é outra. Querem que ele decifre uma inscrição gravada em certa pedra.
– Mas não tenha receio – lhe diz um dos detentores. O amigo viaja em nossa companhia exclusivamente com o fim de traduzir a inscrição de que lhe falamos. Se acertar, ficará rico também. (...) Se não acertar, paciência! Somos constrangidos a matá-lo.[26]
Parece que ele não acertou, pois, em determinado momento, os homens decidem acabar com a sua vida. Só não conseguem porque o repórter lembrou-se de que tinha sido, na juventude, campeão de corridas e escapou de seus captores. Pegou um bote e remou para o mar, deixando para trás quem lhe perseguia.
Cheguei a me afastar tanto da terra que durante muito tempo não vi em torno de mim senão céu e mar. Mas não demorou que soprassem ventos amigos e as correntes marítimas me reconduziram a solo firme.
Antes houvesse morrido mesmo, apunhalado pelo verdugo preto ou afogado no verde abismo, pois que chegando quase morro de raiva. Contei a minha história aos amigos de rua, aos companheiros de hotel, aos colegas de jornais, aos membros da família, a muita gente de quem pude dispor de um minuto de atenção e todos diziam que era história de Trancoso, que era conversa para boi dormir, que era o raio que os parta.[27]

Últimos capítulos

A primeira história do Capítulo VI tem a ver com um companheiro de Emerenciano chamado Pinho. “Esbofeteara-o um dia. E o Pinho descera as escadas a jurar, humildemente, que ainda havia de lhe mostrar uma coisa. Morrera meses depois, o seu amigo, num desastre de automóvel”.
Fora visitá-lo no necrotério. Saíra dali, da casa da morte, com uma tristeza enorme no coração. À noite, não pudera fechar-se nas sombras lúgubres daquele aposento dos fundos de um sobrado velho. Os quatro meses durante os quais viveram juntos ameaçavam, lá dentro, caminhar para ele com o olhar apagado do morto.[28]
Poucas linhas depois dessas, reflexões filosóficas sobre o significado da vida e o medo da morte interrompem a narrativa ficcional, substituindo-a por um arrazoado psicofilosófico. A qualidade literária da obra sofre prejuízo. Mas, enfim, retomando o fio da meada: nessa altura de sua vida, que o autor não especifica bem qual fosse, Emerenciano era dado a orações com as quais procurava conseguir uma espécie de expurgo espiritual. Os resultados, como deveríamos esperar, nunca eram os melhores.
Quando Emerenciano procurava comunicar-se com o seu Anjo da Guarda aparecia o sexo fantasiado com o complexo, por assim dizer, do demônio, a desnudar santas, por chifres em santos, a praticar ignominiosos sacrilégios de toda a ordem.
Emerenciano procurava compreender Jesus, se não aquele que inconscientemente odiava, o da ceia distante de sua infância, pelo menos aquele Jesus que levara Madalena à casa de Lázaro e que encontrou desassombro de amor nos prelados revolucionários das catacumbas romanas.[29]
E as coisas caminhavam assim até que “um dia Emerenciano foi preso”. (Mais uma vez, as histórias de autor e personagem se confundindo.) Havia um chaveiro, sentenciado, que “batia a grade com muita força e mordia os lábios ao girar três vezes, violentamente, a enorme chave”. Estava, talvez, se vingando.
Na Penitenciária, como Dostoievski, ele [Emerenciano] entrou em contacto com frios sicários, bandoleiros impávidos e românticos, com o espírito da independência aguçado, homicidas e ladrões de toda sorte, autores de latrocínios e de crimes passionais, mandatários e mandantes de assassinatos horrorosos e sistemáticos, integralistas, comunistas, alguns inocentes misturados com os culpados como luz e sombra, como bons e maus, fracos e fortes.[30]
Nesse meio “dolorosamente heterogêneo”, encontrou um amigo. Um tipógrafo com oito filhos. A mulher que o visitava aos domingos “tinha a fisionomia de santa martirizada numa fogueira”. E este cidadão, prossegue a narrativa, “era uma espécie de louco a pregar (...) contra o dinheiro e as leis dos homens que o possuíam, sem odiar os homens que o possuíam”.
O meu pobre Emerenciano começou a tentar compreender o problema econômico da humanidade. Não mais haveria justificativa sentimental, pelo menos de caráter monetário, como se nota no princípio dessa apressada narrativa, para complexos de inferioridade sexual. E Emerenciano leu Marx. Foi um desespero igual ao que sentiu quando ganhou o bilhete da loteria. Queria viver não para gastar o dinheiro, mas para transmitir aos outros o achado. Faltava, porém, solução para o problema espiritual.
Ficou materialista. Dentro do seu materialismo, o que ele demonstra é uma necessidade de força propulsora para subir, para sentir o Além.[31]
Os dois capítulos finais acrescentam pouco e, neste sentido, reduzem o valor da obra. Algumas passagens, entretanto, são preciosas. Como esta:
Eu criei Emerenciano e queria traçar como um Deus o destino de minha criatura na face do meu mundo de ficção. Pensei ingenuamente em fazê-lo um menino feliz, que mais tarde pudesse ser um doutor e ter uma placa dourada na porta com o seu nome.[32]
Não apenas isso. Mario Brandão também pensou em tornar Emerenciano governador do seu Estado, ou mesmo presidente da República, ou deputado “para que defendesse os interesses da Pátria e as garantias individuais de seu povo” (raros deputados procedem assim, caro Mario Brandão; o mais provável é que seu personagem se corrompesse por quaisquer trinta dinheiros), em grande orador, literato de renome...
Eram estes os sonhos de glória que eu sonhei para Emerenciano. Mas eu também tive para com ele os meus sonhos de felicidade pura e simples. Sonhei em fazê-lo rico, bom e belo e em casá-lo com uma bela mulher.[33]
Se eram esses os sonhos que Mario Brandão tinha para Emerenciano e para si mesmo, nada deu certo, nem com o personagem, nem com seu criador. Ambos se tornaram pessoas pobres, feias, sofridas, cheias de amargura, vítimas e provocadoras de acidentes, infelizes. Com a passagem do tempo, a vida dos dois foi piorando, piorando, até se tornar inteiramente desgraçada.[34]






[1] Mario Brandão, Freud e meu personagem Emerenciano. Rio de Janeiro, Freitas Bastos, 1943, pág. 21 (Apresentação).
[2] Idem, pág. 37.
[3] Idem, pág. 38.
[4] Idem, pág. 40.
[5] Idem, págs. 40-41.
[6] Idem, pág. 45.
[7] Idem, pág. 46.
[8] Idem, pág. 42.
[9] Idem, pág. 42.
[10] Idem, pág. 42.
[11] Idem, págs. 43-44.
[12] Idem, pág. 47.
[13] Idem, pág. 47.
[14] Idem, pág. 48.
[15] Idem, pág. 49.
[16] Idem, pág. 49.
[17] Idem, pág. 53.
[18] Idem, pág. 54.
[19] Idem, pág. 63.
[20] Idem, págs. 64-65.
[21] Idem, págs. 66-67.
[22] Idem, pág. 69.
[23] Idem, pág. 69.
[24] Idem, pág. 77.
[25] Idem, pág. 78.
[26] Idem, pág. 79.
[27] Idem, pág. 81.
[28] Idem, pág. 85.
[29] Idem, pág. 87.
[30] Idem, pág. 88.
[31] Idem, pág. 93.
[32] Idem, pág. 93.
[33] Idem, pág. 93.
[34] Idem, pág. 89.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Pato ao Tucupi no Rio de Janeiro (Uma carta de Sargentelli a Luís Alípio de Barros, 1965)














GUSTAVO MAIA GOMES

Aprendi a gostar da comida paraense antes mesmo de conhecer Lourdes Barbosa, que é de lá, perita em gastronomia, minha mulher há 16 anos. Acontece que entre 1995 e 2003 eu fui diretor do IPEA, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, em Brasília, e tinha de comparecer às reuniões mensais da Sudam (Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia) realizadas, quase sempre, em Belém. Isso aconteceu até à extinção da autarquia, em 2001. Foi nessas viagens e rápidas estadas que aprendi a apreciar as delícias culinárias daquele Estado.
Pois, meu parente Luís Alípio de Barros (1920-91), jornalista importante, alagoano de nascimento, carioca por adoção, frequentador assíduo de restaurantes, experimentou o tempero paraense trinta anos antes de mim. Sob o pseudônimo de Comendador Ventura, ele manteve durante anos uma coluna no célebre jornal Última Hora (que ajudou a fundar) com o sugestivo nome “Não morra pela boca”. 
Eis o que o Comendador Ventura, ou seja, Luís Alípio (Gomes) de Barros, escreveu, em 9 de outubro de 1965:
O Sargentelli, sim, o nosso Sargentelli da TV, do rádio e animador e defensor entusiástico da música popular brasileira de verdade, foi convocado e aceitou dirigir o restaurante Casa do Pará, bem ali na Avenida Franklin Roosevelt, num terceiro andar de um edifício bem pertinho da Maison de France.
Quem nos informou foi o próprio Sargentelli, numa divertidíssima carta. Diz ele que resolveu [lhe] dar o nome de Restaurante Tucupi da Casa do Pará. Os pratos do restaurante são, como não podia deixar de ser, típicos: Pato no Tucupi, Pirarucu, Tacacá, Casca de Siri, Frigideira de Camarão, etc. E comenta com sinceridade: “Não decorei ainda todos os nomes. As sobremesas e as batidas são variadíssimas. Os nomes, engraçados e, alguns, até difíceis de pronunciar. Aprenderei com o tempo”.
Diz mais: “A casa serve almoço diariamente. ‘Mandarei uma brasa’ [expressão típica da época] para fazer o horário de 18 horas. Pretendo transformar o Tucupi num local de encontro na hora em que a moçada se dirige para casa, saindo do ‘batente’. Para isso, estou adaptando o ambiente. A iluminação e decoração estão sendo transformadas pouco a pouco. Como devias imaginar, meu ‘chapa’ Comendador, muita viola, muito cantador, afoxê, agogô, recorreco e ziriguidum comporão o nosso Tucupi”.
Termina o Sargentelli dizendo que topou uma parada duríssima, mas que está dando tudo. É que ele não pensa em fracasso e, fracassando, ser rebaixado a Cabelli. Ao contrário, a sua vontade de luta é enorme e há como que a certeza do sucesso. Diz, concluindo: “Se não me faltar engenho e arte se os amigos ajudarem, minha promoção a Tenentelli será uma barbada”.

Eu, Gustavo, gostaria de ter provado o Pato ao Tucupi do Sargentelli, em 1965. O que minha mulher prepara é de tirar o chapéu. Mesmo sem ziriguidum.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Reflexões na contramão sobre um ator de novelas

Gustavo Maia Gomes

Quando eu tinha 18 anos (em 1966), tentei namorar uma moça cujo pai era conhecido no Recife como o terror da ortodoxia. (Ele ainda é vivo -- e não mudou nada; eu não tive êxito, mas esse fato é irrelevante para a presente história.) A moral sexual reinante na casa da minha amiga era tão rígida quanto devia ser a de um monastério medieval.
Um dia, soube pela minha não-namorada que estava havendo um "problema terrível" no âmbito da família. É que um homem não identificado vinha repetidamente telefonando para a sua casa e, quando era atendido, apenas pronunciava dois ou três palavrões, desligando em seguida.
O patriarca considerou isso o prenúncio do Apocalipse. Determinou que, em nenhuma hipótese, suas filhas atenderiam mais o telefone. (Naquele tempo, não havia a identificação do número na outra ponta da linha.) O resultado foi que, se só estivessem as meninas em casa, nem mesmo a informação de que seus pais haviam sido assassinados chegaria até elas.
A moça contou-me isso. (Ela era rebelde, não-conformista.) Quando lhe disse que não via ali nenhum problema, perguntou-me o que eu faria. Respondi-lhe que, se fossem minhas filhas, eu as mandaria continuar atendendo o telefone, como sempre. Caso recebessem uma ligação daquele homem, antes até (se possível) de ouvir o primeiro palavrão, deveriam mandá-lo tomar no ** e desligar imediatamente.
Lembrei-me disso com esse caso do ator global irrelevante e a mocinha global ofendida. Eis minha opinião: se ela não queria ser "assediada", que deixasse isso bem claro, desde a primeira tentativa. Caso o homem, a despeito disso, ignorasse o sinal (e, pior, passasse da palavra à mão boba), ela deveria prestar queixa na delegacia contra ele. E comunicar o fato à direção da empresa.
Não sei se ela agiu dessa forma. Tomara que sim. O que me choca é a exploração do assunto na mídia. A opinião pública em uníssono protesta contra a agressão a uma jovem, supostamente, "indefesa", sem perceber que, ao fazê-lo, reduz as mulheres (simbolizadas nessa moça) a debiloides mentais que não conseguem reagir por si sós nem sequer a cantadas indesejadas, feitas em plena luz do dia.
E o pior: pretende que essa atitude imbecilizante seja um exemplo de ação em defesa das mulheres! Mais ou menos como aquele senhor de moral rígida achava que fazia com suas filhas, ao proibir que elas atendessem o chamado do Corpo de Bombeiros mandando-as evacuar imediatamente a casa em chamas.

(Publicado também no Facebook, em 5//4/2017.A propósito do caso de assédio sexual do ator José Mayer a uma colega de trabalho, assunto largamente comentado na mídia esta semana.)

domingo, 2 de abril de 2017

Espiando o passado por um buraco de fechadura

Gustavo Maia Gomes


A fotografia anexa tem quase cem anos. Mostra meus avós Nominando Maia Gomes (1886-1966) e Josefa de Azevedo Bahia (1890-1954) e meu pai Mauro Bahia de Maia Gomes (1916-97) quando criança. Eu sempre a achei belíssima. Agora, examinando-a com cuidado, percebo que tem alto valor, além de estético, histórico e sociológico. Passo às considerações que a fotografia me sugere, depois de fornecer algumas informações de contexto.

(1) Não há indicação de local, mas, pelas andanças de Nominando, que consegui retraçar no livro O trem para Branquinha (ainda inédito), a foto deve ter sido tirada em Santa Luzia do Norte, um município próximo de Maceió e da região dos primeiros Maia Gomes. (2) O ano, deduzo da idade aparente de Mauro, é 1919, ou 1920. (3) Nessa época, Nominando, filho de senhor de engenho e dono de (poucas) terras, era promotor público na mencionada Santa Luzia.

Roupas, sapatos, cabelos

Todos os personagens da foto estão impecavelmente bem vestidos, mas a cena não parece ser a de uma festa ou solenidade. Ao contrário, a atitude de relaxamento dos três, em particular, dos adultos, sugere, com maior probabilidade, que se tratasse de um momento logo após o almoço, quando a família aproveitava para descansar – e conversar? – um pouco no terraço da casa. (O ambiente é quase rural; note-se, entretanto, que há uma tela de arame ao fundo e, depois dela, quase invisível, outra construção, que poderia ser uma pequena igreja.)

Se a hipótese de que o momento capturado pela fotografia não era de festa, mas de um dia comum, a elegância das pessoas retratadas se torna ainda mais notável. A começar pela de Nominando, de paletó e gravata, todo de branco, dos pés ao pescoço: sapatos, meias, calça, camisa, paletó. (A gravata, naturalmente, contrasta com a brancura toda em volta.) Devia estar de colete branco e de ceroulas da mesma cor, também, mas isso a foto não mostra. Cabelos bem penteados. Em seguida, Josefa: sapatos de salto alto, meias, vestido longo com ornamentos, colar, cabelos bem tratados e penteados. E, finalmente, o menino Mauro: sapatos brilhando, meias, uma espécie de macacão, camisa de mangas longas, cabelos fartos, soltos e bem penteados.

Era normal os proprietários de terras e/ou doutores trajarem-se dessa forma elegante, à época e local? Creio que sim, porém, em grau menor que o de Nominando. A indumentária de Josefa, entretanto, merece menção especial, pois as mulheres (como o constato em outras fotos comparáveis) se vestiam de forma quase relaxada, até mesmo, em ocasiões solenes ou comemorativas.

De onde vinha essa elegância? Minha avó viveu a maior parte da infância e juventude em Viçosa, Alagoas, que fica numa zona ainda “da Mata” (e canavieiro-algodoeira, na passagem do século XIX para o XX), porém, já de transição para o Agreste. Uma cidade próspera, mas interiorana. Seu pai era um comerciante rico. Nenhuma dessas duas pistas nos leva à elegância de Josefa na foto. Acho mais provável que ela tenha passado a se vestir bem por influência de Nominado.

Isso porque seu marido, a despeito das raízes rurais canavieiro-açucareiras, morou dois anos em Salvador e três no Recife, como estudante de Direito. Teve, portanto, convivência com hábitos urbanos que primavam pela sofisticação. Era escrevendo sonetos, ou artigos em jornais, fazendo citações em latim, assumindo cargos públicos importantes e se vestindo a rigor que os bacharéis residentes nas cidades iam marcando a diferença entre eles e seus pais e irmãos agricultores, senhores de engenho ou, mesmo, usineiros.

Foi graças a essas múltiplas armas que eles, os “doutores”, terminaram arrebatando o poder político da classe agrário-industrial. Ocuparam o Estado falando difícil e, como o Nominando da foto, trajando branco da cabeça aos pés. Ou outras cores, também formais. Nesse contexto, ainda mais se reforça a impressão de que a elegância de minha avó foi aprendida depois do casamento com o bacharel que prezava o bem vestir. (Uma característica que meu pai, também bacharel, assimilou direitinho.)

O bem-vestir de Mauro criança – este, sim, obra da mãe Josefa –, também o devia colocar acima da média dos meninos filhos da classe proprietária em seu tempo. Os cabelos longos e arrumados, particularmente, refletiam uma história específica que eu conheci por minha mãe, Maria Stella de Araújo Pedrosa (1917-2001). É que a sogra Josefa tinha os preconceitos de raça comuns à época e lugar e ficou muito contrariada com o fato de seu filho ter nascido escurinho e com os cabelos encaracolados, parecendo muito mais árabe que ariano. Aprendeu e aplicou mil receitas para clarear a pele e alisar os cabelos de Mauro. A cor não mudou nada, mas os cabelos de meu pai, pelo menos no momento da foto, efetivamente, ficaram parecendo lisos. Não durou muito a ilusão, contudo.

Cadeiras, rede, jornais

Meu avô está sentado em uma cadeira de balanço muito elaborada, como a foto mostra. É um modelo que, em versão simplificada, ainda hoje pode ser visto nas lojas de móveis antigos. Possuí ou usei mais de uma delas, enquanto solteiro ou casado, ao longo da vida. Mas, não com os ornamentos elaborados dessa. (Note-se, por exemplo, no encosto, logo acima da cabeça de Nominando.) Deve ser sintomático das relações entre os sexos daquela época e lugar minha avó estar sentada numa cadeira muito mais simples que a do seu marido. Não era de balanço e nem tinha ornamentos de qualquer espécie. O modelo, pelo pouco que a foto revela, também me parece ter sido bastante comum, até recentemente.

Há uma rede de dormir estendida embaixo da árvore (mangueira?), ao fundo da foto. Não sei se alguém já escreveu uma sociologia da rede no Brasil. (Luís da Câmara Cascudo tem, sim, livro com o título A rede de dormir: Uma pesquisa etnográfica.) A rede, uma das poucas coisas que os europeus chegados ao futuro Brasil e seus descendentes imediatos aprenderam com os índios (outras duas foram os caminhos para o Sertão e as formas de sobrevivência na selva amazônica), tem sido, desde as origens, intensamente utilizada. Até hoje, no Nordeste, não há casa de praia sem um par de ganchos esperando que alguém lhes estenda uma rede; no Norte, seu uso é ainda mais comum, sobretudo, nas áreas rurais.

Em Monte Verde, a fazenda de Nominando, tinha redes. Em Santa Luzia do Norte, idem. Em todos os lugares daquele tempo nordestino, havia redes esperando quem delas aproveitasse. Poucas coisas são mais prazerosas na vida que deitar na rede, depois do almoço, sob a sombra acolhedora de uma mangueira. E lá está ela, na fotografia centenária, para não me deixar mentir. Mas, nem Nominando, nem Josefa – ou, mesmo, Mauro –, deitariam numa rede vestindo aquela elegância toda. É por isso que a coitada ficou lá, esquecida. Não por mim, embora com cem anos de atraso.

Na foto, tanto Nominando quanto Maninha (ah, esqueci-me de dizer: Josefa detestava seu nome. Só admitia ser chamada Maninha) leem jornais. Como assim? Há cem anos, no interior de Alagoas, as pessoas liam jornais? Não me parece que fosse um hábito generalizado, mas era bastante difundido. Aos lugares próximos à capital, (caso de Santa Luzia do Norte), ou nas imediações das ferrovias (como em Murici, Branquinha, União dos Palmares, terras de origem dos Maia Gomes), os jornais chegavam no mesmo dia em que eram impressos. Nominando, bacharel em Direito, não passava sem ler jornais. Transmitiu este hábito ao filho Mauro e aos netos, Ivan e Gustavo.

Mas, voltando à foto, a sua mulher também lia jornais. Não sei com que frequência. Vem-me à lembrança, nesse contexto, que minha outra avó, Olga Dias Cardoso (1895-1978) também lia jornais (mais especificamente, um deles, O Semeador, órgão oficial da Diocese de Maceió), e trouxe do interior alagoano, onde o marido era dono de usina, para a sua casa na capital uma coleção enorme de revistas antigas – O Cruzeiro e Seleções do Reader’s Digest, sobretudo – que eu li, parcialmente, claro, com grande prazer 30 ou 40 anos depois da respectiva publicação. Sim, os proprietários de terras no Nordeste oriental canavieiro liam jornais, desde os últimos anos 1800, quando o trem chegou a Alagoas; ou os 1860, quando a primeira ferrovia começou a operar fora das cercanias do Recife, em Pernambuco.

Dos brinquedos de ontem às festas de aniversário de hoje

E os brinquedos de Mauro? Ele segura uma espécie de pandeiro, com seu batucador respectivo, e, em cima da cadeira, no canto inferior esquerdo da foto, há uma corneta. Talvez também possuísse soldadinhos de chumbo, comuns à época. (Segundo Gilberto Freyre, em Ordem e Progresso, popularizados depois da Guerra do Paraguai.) Devia estar satisfeitíssimo com seus três brinquedos. Que contraste com o mundo atual, onde as mães entulham os filhos de artefatos eletrônicos que, no mais das vezes, não tocam músicas como os tambores e cornetas de Mauro, nem enfrentam inimigos paraguaios em guerras leias, como seus soldadinhos de chumbo.

Dos parabéns anuais, nem falar. Embora, sobre eles, nada nos diga a foto, eram simples, com certeza. Se, nas suas festinhas de aniversário, houvesse um bolo, dois confeitos e bastante espaço para correr, não só ele, Mauro, mas todos os meninos e meninas convidados viveriam momentos felizes. Hoje em dia, em contraste, sempre que vou a um aniversário de criança, fico estupefato com as transformações dos tempos. Para se contentarem com suas festas, os meninos e meninas precisam ter, nelas, recreadores, palhaços, bandas de músicas, parques de diversões especialmente montados, bolos, chocolates, doces e distribuição de prêmios. Além dos cinco mil balões que custaram uma nota para encher e que serão, devidamente, estourados ao fim da festa. Já os adultos, não podem passar, nessas mesmas festas, sem farta distribuição de cerveja, uísque, comedorias várias – muitas vezes, jantares completos. Quando os pais do aniversariante ainda se acham obrigados a botar alguma música para berrar nos ouvidos dos convidados, aí a desgraça fica completa.

Com dois aniversários desses, Nominando teria gasto três anos de seus modestos vencimentos como promotor, depois juiz de Direito. Desconfio, por isso, que estamos vivendo uma era onde a bobagem assumiu o comando. E a ditadura dos meninos e meninas (da qual a festa exorbitante não passa de evidência menor) é somente o primeiro tempo da dominação sem dó nem piedade dos pais pelos filhos, que apenas terminará com a morte de um dos dois.

Poste escrito (como diria Millor Fernandes)

A foto que comentei ficou guardada nos baús de meus avós, de meus pais, e de meu irmão Ivan (e sua mulher, Elisa) durante quase cem anos. Que bom que ela tenha sobrevivido, para nos permitir espiar o mundo de um século atrás, nem que fosse por um buraco de fechadura.

sábado, 1 de abril de 2017

Zabumba ou Esquenta-Mulher? Uma visita à Alagoas canavieira em 1947

GUSTAVO MAIA GOMES

Antes de escrever a primeira letra, recorro a Lúcia Gaspar, da Fundação Joaquim Nabuco, que tem me amparado com frequência nessas incursões pelo Nordeste canavieiro de tempos idos. Banda de pífanos, diz ela, “é um conjunto instrumental de percussão e sopro, dos mais antigos, característicos e importantes da música folclórica brasileira”.
Adianto que “banda de pífanos”, é o jeito pernambucano de chamar o que os alagoanos conhecem como Zabumba (conjunto musical) ou Esquenta-Mulher. (Este último, um nome precioso, por sinal.) Historicamente, continua Lúcia Gaspar, o pífano remonta à época dos primeiros cristãos. Na versão nordestina, entretanto, “a banda de pífanos é uma criação do mestiço brasileiro, que (...) adaptou o instrumental, dando-lhe a forma típica pela qual é conhecida no folclore brasileiro”.
Por toda a região Nordeste do Brasil e nos estados de Minas Gerais e Goiás são usados várias termos para denominar o conjunto: Banda de Pífanos, Banda de Pife, Música de Pife, Zabumba, Cabaçal, Esquenta-Mulher, Banda de Negro, Terno, Banda de Couro (Goiás), Musga do Mato, Pipiruí (Minas Gerais).[i]
Assim como os nomes variam, também o faz a composição das bandas, “mas seus instrumentos básicos são dois pífanos, um surdo, um tarol e um bombo ou zabumba. Em Pernambuco, a banda é composta por dois pífanos, uma caixa, um bombo, um surdo e um tambor. Em Alagoas, além dos instrumentos básicos acrescenta-se um par de pratos e em certos grupos um triângulo e até um maracá para maior sonoridade”.[ii]
Zabumba em Alagoas, 1947
Assim devidamente instruído por Lúcia Gaspar, visito, em seguida, a Alagoas canavieira de 70 anos atrás, tendo Luís Alípio de Barros (1920-91) como guia. Embora já o tenha apresentado antes, repito o essencial. Filho de Laurentino Gomes de Barros (1881-1958) e de Amália Maia Gomes (?-?), ele migrou, ainda jovem, para o Rio de Janeiro, onde fez carreira jornalística, dos primeiros anos 1940 até bem perto de morrer, em 1991, começando na revista O Cruzeiro (1928-75) e terminando no jornal Última Hora (1951-c.1987).
Em 1947, a revista O Cruzeiro já era o equivalente ao nosso contemporâneo Jornal Nacional da TV Globo. Foi por meio daquela revista e de suas reportagens que os brasileiros das diversas regiões começaram a se conhecer e aos seus costumes, tradições, belezas naturais, particularidades várias. (Na casa de minha avó materna Olga Dias Cardoso, no Farol, Maceió, havia pilhas de números antigos de O Cruzeiro – e da indefectível Seleções do Reader’s Digest – que eu devorava regularmente, nos períodos de férias que passava por lá, entre os anos 1947-67.)
“Zabumba” foi o nome da reportagem especial escrita por Luís Alípio de Barros, com fotografias de José Medeiros, com a qual a revista iniciou (em 8/2/1947) uma série de trabalhos sobre Alagoas. Passo a copiá-la, desavergonhadamente:
A “marcha” é a mais elementar música da Zabumba. [Nela], primeiro vêm os “pífaros” [o mesmo que pífanos, ou pifes] e, depois, as três “batidas” violentas dos “pratos” e do bombo. Música monótona, evidentemente, mas, pitoresca, para o forasteiro, indispensável como o pão de cada dia para o residente. [E, para aquele, como Luís Alípio] que visita a terra natal depois de longa ausência, ela é linda, porque traz recordações de um tempo perdido.
Como explicava Luís Alípio na reportagem de O Cruzeiro, a zabumba não tinha muita penetração nas cidades maiores.
Ela é a banda de música das pequenas povoações, das vilas, dos engenhos, das fazendas. As próprias sedes dos municípios, com foros de cidade, desprezam a zabumba. Têm a sua filarmônica, seu maestro, às vezes seu “jazz”.
Das cidades, prossegue a matéria, “as zabumbas cheiram apenas as vizinhanças, as ruas mais afastadas”. Somente em casos especiais elas eram convidadas para visitar o centro da cidade. “Para puxar uma cavalhada [“torneio equestre com raízes ibéricas trazidas para o Brasil durante a colonização portuguesa, com a participação de cavaleiros e fidalgos”, Vanessa Omena], por exemplo, , “ou quando um santo milagreiro não pode prescindir de uma zabumba na sua festa”. A capital não queria saber delas, até que um dia o major Bonifácio Silveira, “homem famoso, o maior carnavalesco que existiu em todos os tempos em Alagoas, resolveu que faltava a zabumba [em Maceió] e organizou uma”. Mas, deu-lhe um nome diferente.[iii]
Não se sabe por que a pobre banda de música perdeu em Maceió o nome com que toda Alagoas a conhecia. Passou de zabumba ao picante Esquenta-Mulher. Até hoje, depois da morte do major e de sua banda de música, o povo não esqueceu o apelido. Para o habitante de Maceió, zabumba não é zabumba; é, sim, Esquenta-Mulher.
Mas, a despeito do major Bonifácio, a zabumba não vingou em Maceió. Seu território continuou a ser as pequenas cidades do interior, inclusive, as da região canavieira de Alagoas. Ali, a banda de pífanos continuava a ter, como havia tido desde tempos imemoriais, fortes raízes religiosas. Católicas, claro.
Onde tocar uma zabumba, a Igreja Católica estará presente. Jamais a zabumba se divorciou da Igreja. Vive para a Igreja, a Igreja é a razão de sua existência. Por isso, a zabumba, como o foguete, nunca está ausente nas cerimônias, nem nos festejos dos santos padroeiros e milagrosos. Tocando nas missas e nos batizados, angariando espórtulas para as festas mais pobres, puxando as cavalhadas que são também folguedo de festa religiosa.
E, além disso, os leilões. Neles, a presença da zabumba era imprescindível. Não nos leilões em cidades que tinham sua própria filarmônica, como o de Santa Maria Madalena, em União dos Palmares. Nem nos grandes leilões de São Sebastião de Urucu e de São Sebastião de Colônia Leopoldina, cidades que, apesar de não terem filarmônicas, as pediam emprestadas de outras cidades. Mas,
Nos leilões de outras festas menores, aí sim, aí a zabumba mostra o que vale. A imagem do santo içada no mastro do meio da praça, a mesa do leitão cheia de coisas, melancia, queijos, compoteiras, vasos, bolos, latas de goiabada, copos e xícaras com flores desenhadas, tudo.
Tenho vagas lembranças visuais, reforçadas por testemunhos de familiares, dessas festas alagoanas. Luís Alípio de Barros, que nasceu em Murici, cidade vizinha a União dos Palmares, prossegue:
Mais atrás, bacorinhos, marrás de ovelhas, uma penosa, ou melhor, com licença da palavra, uma perua; criações, garrotes, e outros animais em currais, amarrados pelos postes ou em balaios. De lado, fica a zabumba e, um pouco afastados, os foguetes.
Um coronel (continuo a citar Luís Alípio) pergunta a um caboclo se ele não havia se esquecido de trazer os presentes da fazenda.
– Não sinhô, seu Coroné. Veio tudo direitinho. Um garrote, duas marrás de ovelha e, com licença da palavra, dez galinhas.
O caboclo não diz galinha, perua, ou égua. Para ele, são nomes feios. Diz, sim, criação, penosa ou animá. Para se pronunciar a palavra galinha, por exemplo, é necessária a anteposição de um “Com licença da palavra”.
“Marruá de ovelha”, confesso, eu não conhecia. Mas “penosa” e “criação”, sim. Devo somá-las, as três palavras, àquele glossário que compilei do livro de Humberto Gomes de Barros, sobrinho de Luís Alípio, Sexta-feira 13, 1957: Memória do tiroteio (Maceió, Edufal, 2012) e relacionei neste mesmo blog, dias atrás.[iv]
O leilão começa. O leiloeiro sai com um queijo do Reino e manda uma pessoa “botar preço”. E atravessa a multidão, aos gritos:
– Vinte mil réis me dão / Por um queijo do Reino /Que ofereceram à imagem / De São Sebastião.
Adiante dá um lance e rápido o leiloeiro responde:
– Morr-e-este, vinte mil réis / Trinta mil réis me dão / Por um queijo do Reino /Que ofereceram à imagem / De São Sebastião.
Assim, os lances vão se sucedendo, até que ninguém mais se pronuncia e o leiloeiro, “depois de três ou quatro voltas, resolve entregar o queijo ao dono do último lance”. Faz suspense, antes de chegar ao clímax:
– Cinquenta mil réis, dou-lhe uma... (O homem do bombo dá uma marretada forte: BUM).
– Cinquenta mil réis, dou-lhe duas... (Outra marretada).
– Cinquenta mil réis, dou-lhe três... (Nova marretada).
E o leiloeiro termina:
– Toca a música, solta foguete, que eu vou entregar, estou entregando, entreguei...
A zabumba ensaia uma música, prossegue Luís Alípio, “os foguetes sobem e o homem que arrematou o queijo manda entrega-lo à Comadre Sinhá, como presente”. Mas a grande cena do zabumba é a da coleta das espórtulas para as festas dos santos.
Esta é, de fato, a cena mais pitoresca, onde o zabumba enche-se de poesia, de garbo marcial, de orgulho pela beleza da música, a sua música. A mulher na frente, de manto bem alvo, tendo nas mãos a imagem do santo envolta em flores. A zabumba vai atrás, majestosa e satisfeita da vida.
Em todas as portas, a mulher para e pede uma esmola para a festa do santo. “Às vezes, não há dinheiro. Mas sempre existe alguma coisa, uma melancia, galinhas, patos, bacorinhos, para o leilão. E em cada porta que dá alguma coisa, a zabumba toca sua música”. Não como um agradecimento pela espórtula oferecida,
Mas, como uma homenagem a quem, apesar de pobre, não se nega a dividir o pouco que tem para que a festa possa se realizar com sucesso, a festa que alegrará tantos corações humildes.
Viva a zabumba!



[i] Lúcia Gaspar. Bandas de Pífano. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: <http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar>. Acesso em 28/3/2017.
[ii] Lúcia Gaspar. Bandas de Pífano. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: <http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar>. Acesso em 28/3/2017.
[iv] Gustavo Maia Gomes, “Humberto Gomes de Barros e a Sexta-feira 13 de setembro de 1957”, em http://gustavomaiagomes.blogspot.com.br/ 2017/03/humberto-gomes-de-barros-e-sexta-feira_20.html