quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

A MAIA GOMES QUE NINGUÉM CONHECIA


Gustavo Maia Gomes

Em 23 de novembro último, relatei neste mesmo espaço meu encontro virtual com Maria Alexandrowna de Jesus Brandão Maia Gomes, a filha de Mário Brandão Maia Gomes (1906-43) e de Luzia Antunes (?-c.2011). Desde então, tenho conversado com ela por telefone ou WhatsApp e conhecido um pouco de sua história.

Mário Brandão Maia Gomes, filho de Alípio Maia Gomes (1878-1916) era, portanto, primo em primeiro grau de meu pai Mauro Bahia de Maia Gomes (1916-97) e de todos os netos do coronel Manoel Gomes dos Santos (1841-1925) e de Tereza de Jesus Maia (c.1851-c.1930), a “Mãe Tetê”. Os Maia Gomes de Branquinha (AL) começaram com o casamento desses dois.

A divulgação, em linhas gerais, da história de Maria Alexandrowna se dará apenas na medida em que ela o deseje e autorize expressamente. Por enquanto, obtive permissão para publicar três fotos dela: aos seis anos (1949), aos 45 (1988), e com a sua idade atual (2019).

Ela mora no Estado de São Paulo e se assina, no Facebook “Alexandra Maia“. Estou tentando interessá-la a vir ao Nordeste, após janeiro de 2020, para conhecer pessoalmente a parte da família de seu pai que permaneceu morando em Maceió, no Recife e na Bahia. Ela gostou da ideia.

E nós, o que achamos?

(Publicado no Facebook, 4/12/2019)

PLANO CRUZADO EM MANAUS


Gustavo Maia Gomes

Em 1985-86, fui Coordenador de Planejamento Global do Ipea-Iplan (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas / Instituto de Planejamento), à época vinculado à Secretaria de Planejamento da Presidência.

O cargo tinha esse nome pomposo, mas importância nenhuma. Contudo, deu-me oportunidades de participar de discussões relevantes sobre a economia brasileira de então. Sabíamos todos que o nosso problema maior, herdado do regime militar, era a inflação.

A resposta inicialmente dada pelo governo Sarney foi o Plano Cruzado, um reles congelamento de preços. Enganou muita gente. No primeiro momento, inclusive, a mim. Detesto ter errado daquela forma. Claro, eu não estava só. Muitos economistas, embalados por uma teorização defeituosa, acreditavam que se podia extinguir a inflação alucinada com um passe de mágica.

Mas isso não me conforta. Melhor é me refugiar na certeza de que não participei da elaboração daquilo. Eis a prova do que estou dizendo: três dias antes do Plano Cruzado (28/2/1986), eu estava em Manaus. E reverberando, em entrevista, as medidas inócuas com as quais o ministro da Fazenda camuflava a iminência do congelamento.

Deixaram-me ir a Manaus, naquela semana. Dificilmente se poderia imaginar um lugar mais longe de Brasília. Fiquei sabendo do Plano Cruzado pela televisão. Não foi ideia minha.

(Publicado no Facebook, 3/12/2019)

CAZUZA


Gustavo Maia Gomes

Nunca soube seu nome verdadeiro. Para todos os efeitos, ele era Cazuza. Cortou meu cabelo desde os treze ou quatorze anos (c.1960), até eu o perder de vista, quase quatro décadas depois, do meio para o fim dos anos 1990.

Primeiro, atendia num salão onde hoje é o prolongamento da Padaria Cidade Jardim (Vila dos Comerciários, Casa Amarela, zona Oeste). Depois passou para o Edifício Tereza Cristina, próximo ao Cine São Luiz (Boa Vista, Zona Central). Finalmente, até onde eu saiba, foi para o Hotel do Parque (Rua do Hospício, também na Boa Vista). Sempre no Recife.

Em 1993, levei meus filhos gêmeos Pedro e Daniel para serem atendidos por Cazuza. Tive a feliz ideia de registrar esse encontro em duas fotos. É possível que algum de meus amigos virtuais de gerações próximas à minha tenha conhecido Cazuza. Teria, também, notícias atuais dele?

(Publicado no Facebook, 3/12/2019)

MARTHA LEU O TREM PARA BRANQUINHA


Gustavo Maia Gomes

Recebi um e-mail da prima Martha Pedrosa Resende, de Belo Horizonte, que reproduzo com sua autorização e meu prazer.

“Gustavo:

Ainda em setembro, depois do nosso encontro em Salvador, terminei de ler o seu valioso livro, percorrendo-o do princípio ao fim. Quero parabenizá-lo pelo seu trabalho. Você, por meio de pesquisas, transformou os relatos familiares de histórias contadas em documentos comprovadamente verdadeiros.

Além disso, insere a história familiar em um contexto político-social. Também bonita é a parte mais literária do livro, quando você relata lembranças cheias de emoção de suas vivências infantis e adolescentes na Fazenda Monte Verde. Nesta parte, revela-nos uma faceta sentimental sua pouco conhecida.

Foi um prazer a leitura. Gostei do seu estilo de interlocução com o leitor, seus comentários pessoais, dando um toque de informalidade ao texto tão bem escrito. Você foi um historiador, memorialista e literato. Ainda que tardiamente, eu não poderia deixar de dar-lhe o meu parecer sobre o seu livro. Parabéns e grande abraço. Martha.”

(Publicado no Facebook, 26/11/2019)

APARECEU MARIA ALEXANDROWNA !


Gustavo Maia Gomes

Relato um evento extraordinário para quem, como eu, se interessa em restabelecer relações familiares há muito perdidas, ou jamais achadas. Há dois dias, fiz uma postagem despretensiosa em minha página do Facebook: quatro fotos de flores acompanhadas de quase nenhum texto. Recebi vários comentários, mas, sem detrimento dos outros, o mais importante foi este:

“Bom dia. Flores muito lindas. Eu me apresento: sou a filha de Mário Brandão Maia Gomes. Meu nome é Maria Alexandrowna de Jesus Brandão Maia Gomes. Moro em Campinas, Estado de São Paulo. Nasci no Rio de Janeiro no ano de 1943. Fui batizada na Igreja da Lapa. Meu avô [chamava-se] Alípio Maia Gomes.” (Alexandra Maia, em comentário a uma postagem minha no Facebook em 21/14/2019)

Eu já sabia da existência de Maria Alexandrowna (respeito sua grafia; o Diário da Noite, do Rio de Janeiro, na notícia fotografada abaixo, escreveu “Alechandrovna”, com "ch" e “v”). Também sabia que ela era filha de Luzia Antunes Brandão, a última mulher de Mário Brandão Maia Gomes. Mas, a nota publicada em 1946 (Mário havia morrido três anos antes) não diz quem era o pai de "Maria Alechandrovna".

Eis que a própria Maria me descobre, se apresenta, revela ser filha do personagem mais rocambolesco, digamos assim, de “Uma Noite em Anhumas”, meu livro prometido para 2020. Com efeito, o filho de Alípio Maia Gomes (alagoano que foi estudar Medicina na Bahia e morreu por lá, deixando muitos descendentes) teve uma vida pra lá de atribulada.

Jornalista, escritor, boêmio, vivia se metendo em confusões. Ficou órfão de mãe aos quatro anos e de pai aos dez. Já adulto, brigou numa boate e levou um tiro, no Rio de Janeiro; noutro momento, em Santo Amaro (BA), foi ferido num braço, que teve de ser amputado; matou um motorista, em Maceió, e passou uma temporada na cadeia, devido a isso. Publicou dois livros, um dos quais eu consegui comprar na Estante Virtual, li e gostei. Tentou se suicidar várias vezes. Na quarta, teve sucesso.

Alexandra Maia, como se assina a prima que desconhece (ainda) a existência de seus parentes em Maceió, Salvador, Recife e Rio de Janeiro, é muito bem vinda ao nosso círculo de amizades virtuais e presenciais.

(Publicado no Facebook, 23/11/2019)

JOÃO NÃO ERA JORGE


Gustavo Maia Gomes

Além de poeta com fama nacional, Jorge de Lima (1893-1953) era um clínico conceituado em Maceió. Quando, em União (hoje, União dos Palmares), Basiliano Sarmento (1846-1931), o homem mais rico de Alagoas, estava prestes a morrer, mandou chamá-lo.

Para seu auxiliar, Jorge convidou o médico João Florêncio Filho, o único que residia na cidade. Basiliano morreu em três dias. Pouco depois, o assistente apresentou uma fatura de cinquenta contos de reis. Assustado, o curador do espólio recusou-se a pagá-la.

Cinquenta contos era uma pequena fortuna. Equivaleria, hoje, a uns 500 mil reais. Frustrado no seu intento de enriquecer instantaneamente, João Florêncio requereu, então, o arbitramento de seus honorários e, tendo os peritos avaliado os serviços nos mesmos cinquenta contos, ele voltou a cobrar aquele valor.

Seguiu-se uma batalha judicial entre, de um lado, o curador do espólio e a fazenda estadual (Basiliano não tinha herdeiros conhecidos; num primeiro momento, seus bens foram recolhidos pelo Estado) e, de outro, o médico reclamante.

No final desse primeiro ato, o juiz mandou o espólio pagar oito contos de reis a João Florêncio. Cerca de R$ 80 mil, na moeda de hoje. Mas, o médico não aceitaria tão pouco. Apelou para o Tribunal Superior de Alagoas.

Ao fazê-lo, julgou ter na manga uma carta decisiva: os honorários pagos a Jorge de Lima. Cem contos! Isso, contudo, não sensibilizou os juízes: “Se houve razões de direito para justificar tão elevada soma — disseram eles —, essas razões não ocorreram em relação ao requerente”.

No final, decidiu o Tribunal Superior que o espólio de Basiliano Sarmento pagasse a João Florêncio Filho três contos e quatrocentos mil reis. Trinta e quatro mil reais de hoje, na avaliação mais otimista. O homem ficou arrasado, mas teve de se conformar.

Quem mandou João Florêncio Filho não se chamar Jorge Matheus de Lima?

REFERÊNCIA: “Justiça Estadual. Tribunal Superior de Alagoas. Apelação Cível (União). Primeiro Acórdão, 12/8/1932”. Jornal do Commercio (RJ), 17/6/1933. FOTO: O casarão onde viveu e morreu o argentário Basiliano Olíbio de Mendonça Sarmento. Dele só existe, hoje, o portão ao lado. Foto colhida na internet, sem indicação de autor.

(Publicado no Facebook, 19/11/2019)

JORGE DE LIMA, POETA


Gustavo Maia Gomes

Foi meu pai quem primeiro me falou sobre ele. Eu era um menino. Embora nascidos em lugares próximos um do outro – Jorge em União, Mauro em Branquinha –, os dois tinham idades distantes. Provavelmente, nunca se encontraram.

Mesmo assim, ao falar em Jorge de Lima (1893-1953), Mauro se sentia próximo dele. Talvez, traindo uma inveja longínqua, pois meu pai, na juventude, também escrevera seus versos (algum estudante de Direito, nos 1930, não o fez?) e havia sonhado com uma carreira literária.

Dois ou três anos depois daquela conversa, Mauro comprou um disco fonográfico: “Essa negra Fulô”. Alguém havia musicado o poema de Jorge de Lima, que começa assim:

Ora, se deu que chegou
(isso já faz muito tempo)
no bangüê dum meu avô
uma negra bonitinha,
chamada negra Fulô.

Ao perceber meu ar de espanto ouvindo aquilo, minha mãe, Stella, explicou:

– Jorge de Lima. Poeta importante. Alagoano.

Sou um leitor inconstante de poesias. Conheço poucas. Mas, simpatizei com este soneto dele. Cito só um fragmento:

Lá vem o acendedor de lampiões da rua!
Este mesmo que vem infatigavelmente,
Parodiar o sol e associar-se à lua
Quando a sombra da noite enegrece o poente!

Quase vinte e cinco anos separam os dois poemas. (“O acendedor de lampiões” foi escrito em 1906, quando Jorge tinha treze anos.) Os estilos são, também, diferentes. Mas, gosto de ambos. Dizem, porém, que sua obra prima é "Invenção de Orfeu".

O Brasil esqueceu Jorge de Lima. Eu, inclusive. Mas, quando voltei as vistas para União dos Palmares, lembrei-me das coisas ditas por Mauro e Stella. E reencontrei o poeta. Quase ao vivo.

Em 7 de setembro de 2019, com Cassio Silva, Genisete Lucena Sarmento, Carla Theresa Borba Leite, Iremar Marinho e João Paulo Farias – todos palmarinos ou residentes na cidade – Lourdes Barbosa e eu visitamos o memorial Jorge de Lima em União dos Palmares.

É a casa onde ele nasceu e morou por uns anos. Ainda bem que está de pé, razoavelmente, conservada. Viva a Negra Fulô, o Acendedor de Lampiões, Orfeu. Viva Jorge de Lima.

(Excerto do livro “Uma Noite em Anhumas”, com publicação prevista para 2020.)

(Publicado no Facebook, 13/11/2019)

O MITO DA VIOLÊNCIA CRESCENTE


Gustavo Maia Gomes

Deixem-me esclarecer, de saída, que falarei sobre um tema (crimes violentos), um tempo (1850-1984) e um lugar (Pernambuco) baseado no que pude observar usando uma lente específica: a frequência relativa (ao número total de páginas) com que quatro palavras – crime, roubo, assassinato e assalto – apareceram no Diario de Pernambuco nesses 130 anos.

O instrumento é impreciso, reconheço, mas não há nenhum outro (de meu conhecimento) capaz de nos dar uma ideia aproximada do que aconteceu com a incidência de agressões a indivíduos em Pernambuco, em todo o período histórico que vai de meados do século XIX até os anos 1980.

Parece razoável supor que, quanto mais crimes, roubos, assassinatos e assaltos acontecessem, mais notícias a respeito seriam publicadas. A vantagem de medir isso no Diario de Pernambuco é que ele circula há 194 anos, com pouquíssimas interrupções, e sempre foi um dos principais órgãos de imprensa do Estado.

Violência crescente foi o que esperei ver. O que, de fato, encontrei está nos quatro gráficos anexos: com exceção dos assaltos, que crescem tendencialmente (muito) até 1940-49, e decrescem em seguida, de modo que, de ponta a ponta, a série é apenas levemente crescente, com exceção dos assaltos, repito, todos os indicadores apontam para baixo.

Há nuances: “Crime” e “Assassinato” crescem de 1850-59 a 1900-09, passando a cair com a virada do século. “Roubo” descreve um “U”, no mesmo intervalo, mas se torna francamente declinante após 1900-09. Fato é que, tirando os assaltos, os demais indicadores de violência contra pessoas em Pernambuco caíram sensivelmente, de 1900-09 a 1980-84.

Esse resultado me surpreendeu. Eu já havia escrito, em “Uma Noite em Anhumas” (ainda não terminado) que a urbanização desenfreada do século XX, em Pernambuco e Alagoas, teria sido, provavelmente, acompanhada de um aumento da violência. Tive de rever meus preconceitos.

Eis a minha convicção atual: a velha sociedade canavieiro-açucareira do século XIX era muito mais violenta do que havíamos imaginado. Nem mesmo a rigidez dos controles morais e religiosos foi suficiente para evitar que crimes, em geral, roubos e assassinatos, em particular, fossem cometidos em larga escala.

Paradoxalmente, tudo isso melhorou desde 1900, com a urbanização e o crescimento explosivo do Recife. Não era apenas eu que cultivava a pressuposição da violência crescente. (Lembrem-se de que minha análise só vai até 1984). Ficamos sabendo agora esse é mais um mito.

(Publicado no Facebook, 7/11/2019)

HONRA E DEFLORAMENTOS


Gustavo Maia Gomes
(Fragmento do livro “Uma Noite em Anhumas”, com previsão de publicação em 2020)

A noção de honra, no velho mundo canavieiro-açucareiro, tinha duas conotações principais. Uma a relacionava à satisfação dos compromissos financeiros. A outra remetia às mulheres, em geral, e à virgindade das filhas solteiras, em particular. “Perder a honra”, ser deflorada fora das condições aceitas pela moral da época, equivalia a expor a moça, seus pais e irmãos, à execração social.

A mulher trair o esposo também era uma desonra. As meninas andarem na rua desacompanhadas, outra. Ter uma amante permanente era tolerável, para o homem. Para as mulheres, um escândalo que podia lhes custar a vida.

Isso dito, o que mostram as curvas “Honra” e “Defloramento” no gráfico anexo? De 1850-59 a 1900-09, elas se comportam como deveríamos esperar: uma cai, outra cresce. Ou seja, a lenta dissolução da sociedade tradicional e de seus pilares teria sido acompanhada por um aumento dos episódios de desvirginamento. Menos controle social, mais transgressões. Menos honra, mais atentados à virgindade.

Há, porém, um aspecto desses dois processos que precisa ser mencionado. Nas décadas de 1850-70, quase todos os defloramentos noticiados tiveram como autores homens negros, crioulos ou pardos. E, como vítimas, moças pobres. A partir de 1870 (até 1900), em alguns casos, é provável que o deflorador fosse branco e a vítima, uma jovem negra. Significaria isso que as filhas da classe proprietária nunca eram defloradas antes do casamento? Claro que não: os episódios de defloramento nessa classe eram resolvidos sem os jornais saberem.

A partir da virada para o século XX, entretanto, a curva de defloramentos passa de ascendente para declinante, enquanto a da honra continua a apontar para baixo. Por quê? Uma hipótese explicativa é a seguinte: (i) com a honra, nada de novo acontece. O crescimento das cidades, intensificado nesse período, corrói os valores antigos. Há menos retórica sobre a honra, em consequência. (ii) Com os defloramentos, se passa outra coisa. O valor moral, antes absoluto, da virgindade começa a ser questionado – sobretudo, no Recife. E isso tem consequências peculiares.

Numa evolução ainda em curso, cada vez mais, “tirar a virgindade” de uma menina-moça, numa relação consentida, deixa de ser visto como um crime e passa a ser acontecimento rotineiro que não chega, portanto, às páginas dos jornais.

Ou seja: no âmbito da moral sexual, o avanço da sociedade urbana (somado à luta das mulheres) produziu significativa mudança da condição feminina no Recife, em Maceió, no Brasil. Para melhor, penso eu.

(Publicado no Facebook, 5/11/2019)

AUTOMÓVEIS NO RECIFE


Gustavo Maia Gomes
(Trecho do livro “Uma Noite em Anhumas”, em preparo)

As mais antigas notícias de que havia um automóvel circulando em Pernambuco são de 1901. Comprado pela empresa Transportes de Goiana (PE), ele veio pela primeira vez ao Recife em março de 1903. Era um veículo para doze pessoas. De uso individual (ou, no máximo, do condutor e mais três pessoas), o primeiro carro a circular na capital parece ter sido um Renault trazido em 1904 pelo médico Octavio de Freitas.

Meios de transporte são uma condição necessária à existência das cidades grandes. Mas, não são só isso. Além da sua função utilitária, cada um tem as próprias conotações culturais e subjetivas. Bondes eram democráticos, dizia Gilberto Freyre. Carregavam ricos e pobres juntos e criavam espaços onde as pessoas de diferentes classes podiam conversar.

Pois, digo eu, automóveis são o oposto dos bondes: eles enaltecem a individualidade. Sinalizam o triunfo egoísta do seu dono sobre a distância, o tempo, os horários inflexíveis, a rígida separação entre o lar e a rua. Eu acho bom. O sociólogo de Apipucos que me perdoe.

Meu pai sentiu tudo isso agudamente. O automóvel era parte importante de seu mundo. Uma casa ambulante que, em percursos urbanos, o conduzia de ida e volta ao trabalho com rapidez, segurança e conforto. Ou à praia, nos fins de semana. Aos lugares de lazer, na hora que lhe aprouvesse. E que, nos deslocamentos interurbanos, o podia levar, como o fez, do Recife a Montevidéu, em poucos dias. Ou ao Chile. São Paulo. Rio de Janeiro. Maceió. Branquinha. À Fazenda Monte Verde. Como ele amava isso tudo!

O carro foi a glória, não apenas de Mauro. Seu antecessor, o cavalo, se cansava facilmente, tinha humores cambiantes, aplicava coices aleatórios, defecava na via pública, expunha os condutores à chuva e ao sol excessivo, podia morrer do dia para a noite e, pior de tudo, andava miseravelmente devagar. A máquina que carregava a si mesma era outra coisa.

Para usar uma palavra que detesto por conservadorismo, mas reconheço ser boa, o automóvel “empoderou” os recifenses – primeiro, os homens, depois, também as mulheres. É verdade que o idílio não duraria para sempre – não com a intensidade dos primeiros tempos –, pois as ruas se entupiram dessas máquinas andantes. Isso emporcalhou o ar, provocou congestionamentos e reduziu a velocidade média do automóvel para menos que a de um cavalo bem nutrido.

Alguns anos depois, numa espécie de pá de cal, as estradas ficariam repletas de armadilhas eletrônicas capazes de gerar seiscentas multas numa viagem do Recife a São Paulo, para felicidade dos governos e desgraça dos motoristas. Inclusive, dos cuidadosos e conscientes.

(Eu, de minha parte, após ter sido multado por não estar com os faróis ligados ao meio dia de um domingo ensolarado no Nordeste brasileiro, desisti de dirigir. Sem o temor da multa, só um imbecil acenderia lâmpadas em circunstâncias tais.)

Mas, enquanto durou, a era do carro foi ótima. Produziu gente mais alegre, mais otimista, mais convencida de que sua vida era melhor do que tinha sido a de seus pais. Claro que tudo isso se aplica apenas aos que podiam possuir um automóvel. E esses eram poucos. E daí?

Não devia me justificar, mas o faço: estou falando de automóveis. Não dos direitos fundamentais do homem, ou da extração de mais valia, ou da desigualdade de rendas, ou da inevitável derrocada do capitalismo financeiro internacional e monopolista cada vez mais saudável, apesar de tantos intelectuais acreditarem que bom mesmo era o socialismo.

Viva o carro!

(Publicado no Facebook, 1/11/2019)