segunda-feira, 6 de maio de 2019

Opiniões sobre Manoel Neném, "o maior cantador do Nordeste"


Gustavo Maia Gomes
Tendo participado como julgador – provavelmente, no Rio de Janeiro – de festival de cantadores e repentistas nordestinos, Manuel Bandeira compôs estes versos, parte de um poema mais extenso:
Saí dali convencido
Que não sou poeta, não;
Que poeta é quem inventa
Em boa improvisação [1]
Ignoro que festival foi aquele, nem isso importa muito. Pode ter sido o de 1960, sobre o qual Théo Brandão escreveu “O cantador que faltou”, no Diário de Notícias (RJ), explicando: “Reporto-me a Manuel Floriano Ferreira, ao velho Manuel Neném, de quem Aurélio Buarque de Holanda divulgou em 1939 (...) os repentes extraordinários que causaram admiração nos meios intelectuais do Brasil”. Neném, “nascido em Bom Conselho de Papacaça, Pernambuco, mas radicado desde novo em Viçosa, Alagoas, (...) sempre se declarou viçosense”, depõe o historiador Frederico Pernambucano de Melo.
Volto a Théo Brandão:
[Manuel Neném] não era cantador como os de hoje, afeitos aos grandes auditórios de rádios e televisões, que falam linguagem correta e nunca rimam pé macho com pé fêmea. Não, Neném era um poeta rude, trabalhador agrícola que ainda hoje o é e que cometia erros imperdoáveis, cantava versos errados e sem sentido mas que, de súbito, em duas ou três estrofes, redimia-se inteiramente e alçava-se aos voos mais puros e admiráveis da poesia repentista.[2]
E, de novo, Frederico Pernambucano de Melo: “a edição de 28 de junho de 1938 da Gazeta de Alagoas (...) dava notícia da cantoria ocorrida em casa de Theo Brandão”. No centro da festa regional, prossegue, estava “o poeta e repentista Manoel Neném, nome artístico de Manoel Floriano Ferreira”. E ainda: “a frequência à casa de Brandão [em Maceió] depõe a favor da qualidade de quem era considerado ‘o melhor cantador do sertão alagoano”, como o apresenta a folha. Que diz ter o poeta versejado por três horas, fazendo louvores aos presentes, cantando a história de Lampião, improvisando uma interessante história do mundo...”[3]
Até meia noite, ouviram-se os aplausos de José Aloísio Brandão Vilela [casado com Laura Bahia, tia de Élide Bahia, esposa de Théo], de Eloy e de Manoel Brandão, do padre Diégues Neto, de Jacques Azevedo, de Nominando Maia Gomes [meu avô paterno; sua mulher era tia de Élide], de Freitas Cavalcanti, de Humberto Bastos [economista e jornalista, fez carreira no Rio de Janeiro], de Aurélio Buarque de Holanda [dicionarista], de Olympio de Almeida [sogro de Théo], de Joaquim e de Manuel Diégues Jr. [sociólogo, pai do cineasta e membro da Academia Brasileira de Letras Cacá Diégues][4]
Trabalhador agrícola, “poeta rude”, Manoel Neném era analfabeto. Expressou isso, uma vez, de forma a não deixar dúvidas:
Sou cantador atrasado
E meus erros ninguém note
Eu só canto porque Deus
Foi quem me deu este dote
Mas eu só conheço um O
Devido à boca do pote [5]
Gostava de cantar, certamente, mais do que do trabalho na terra:
A viola é minha cruz.
Tou crucificado nela
Enquanto eu vida tive
Eu não deixo o braço dela
Eu sou dela e ela é minha
Ela é minha e eu sou dela [6]
“Qual será, no meio de tantos cantadores o maior de todos”, perguntava, em 1947, José Aloísio Brandão Vilela. E respondia: “Manoel Neném é o maior cantador do Nordeste”. Opinião de quem entendia do assunto. “Basta se fazer um estudo comparativo entre a sua poesia e a dos outros cantadores para se notar a enorme diferença”, dizia o folclorista de Viçosa.
Os seus repentes são originais, as suas imagens são deslumbrantes, a sua veia poética é inesgotável. E além de tudo é o poeta matuto que mais se volta para os motivos regionais. Suas imagens são tiradas do ambiente em que vive, suas comparações palpitam de um forte e delicioso nativismo. Há momentos em sua cantoria em que ele se transfigura e atinge, pela naturalidade e pela expressão, os elevados domínios da poesia pura.[7]
As cantorias de Manoel Neném, como toda boa literatura, não importa se oral ou escrita, exprimem de forma bela, envolvente, emocionante, a realidade de seu meio. Como nestes versos, recolhidos por José Aloísio Brandão Vilela:
Criei-me sem pai nem mãe
No meio deste sertão
Andando de déo em déo
Fui criado, meu patrão,
Com o sol e com a chuva
Como as ramas do algodão [8]
E, finalmente, um último depoimento, o de Aleixo Leite Filho, publicado em 1983: “Manoel Neném, apesar dos noventa e três anos e de paralisia recente que o prende à cama, continua lúcido e capaz de improvisar, como o fez recentemente, glosando o mote ‘Adeus até outro dia’ com que um companheiro mais moço se despedia dele”.[9]
Eis o improviso:
Estou quase de ida,
Pra ir pra eternidade
Já estou sentindo a saudade
Da hora da despedida;
É breve minha partida,
E parto sem companhia;
Eu vou fazer poesia
Pra os anjos celestiais
E você não me vê mais
Adeus até outro dia [10]
Manoel Floriano Ferreira, o célebre Manoel Neném de Viçosa deve ter morrido pouco depois disso. Desde meados do século XX, ele, que havia nascido em 1894, já mostrava sinais de que os anos não lhe haviam passado sem cobrar seu preço.


[1] Manuel Bandeira, Estrela da Vida Inteira. Rio de Janeiro, 25ª ed., 1993, págs. 256-57.
[2] Théo Brandão, “O cantador que faltou”, Diário de Notícias (RJ), 1/5/1960. A citação anterior é de Frederico Pernambucano de Melo, Apagando o lampião: Vida e morte do rei do cangaço. Global, Rio de Janeiro, 2019.
[3] Frederico Pernambucano de Melo, Apagando o lampião: Vida e morte do rei do cangaço. Global, Rio de Janeiro, 2019.
[4] Frederico Pernambucano de Melo, Apagando o lampião: Vida e morte do rei do cangaço. Global, Rio de Janeiro, 2019.
[5] Cf. Manuel Diégues Jr. “Poetas que nascem feitos: Os cantadores do Nordeste”. Américas, 1958, em http://docvirt.com/docreader.net/DocReader.aspx?bib=cdu&pagfis=10395
[6] Cf. Théo Brandão, “O cantador que faltou”, Diário de Notícias (RJ), 1/5/1960.
[7] “A vida dos cantadores” (publicado originalmente em 1947), em José Aloísio Brandão Vilela, Coletânea de assuntos folclóricos, Maceió, Museu Théo Brandão, 1982, pág. 39.
[8] Cf. “A vida dos cantadores” (publicado originalmente em 1947), em José Aloísio Brandão Vilela, Coletânea de assuntos folclóricos, Maceió, Museu Théo Brandão, 1982, pág. 39.
[9] Aleixo Leite Filho, “O glosador genuíno”, Boletim da Comissão Catarinense de Folclore, 1983, nos 35-36, em http://hemeroteca.ciasc.sc.gov.br/Boletim%20de%20Folclore/boletim%20folclore/BFC1983DEZ035-036.pdf Acesso em 6/5/2019.
[10] Cf. Aleixo Leite Filho, “O glosador genuíno”, Boletim da Comissão Catarinense de Folclore, 1983, nos 35-36, em http://hemeroteca.ciasc.sc.gov.br/Boletim%20de%20Folclore/boletim%20folclore/BFC1983DEZ035-036.pdf Acesso em 6/5/2019.


quarta-feira, 1 de maio de 2019

José Aloísio Vilela, folclorista de poucas palavras


"Na foto acima, tirada há alguns anos passados,
vemos o folclorista José Aloísio Vilela acompanhado de três
conhecidos cantadores de viola. Nos extremos, Abdias Soares
e Miguel Turquia, vendo-se ao centro
o famoso poeta popular Manuel Nenén" (José Milton de Castro)

(Entrevista concedida a José Milton de Castro, em Viçosa, Alagoas, por José Aloísio Vilela, Jornal de Alagoas, Maceió, 5/8/1956)

(Nota prévia: José Aloísio Brandão Vilela, 1903-76, que se casou com minha tia-avó paterna Laura Soares Bahia, foi um dos integrantes da famosa Escola de Viçosa, formada também pelos folcloristas Théo Brandão, José Maria de Melo e José Pimentel de Amorim, todos autores de obras clássicas e premiadas nacionalmente. Gustavo Maia Gomes)

Montado a cavalo, um cigarro apagado esquecido no canto da boca, os olhos perdidos no lençol verde dos canaviais. A usina soltou uma fumaçada pelo charuto imenso de seu bueiro e deu um urro tremendo que se foi morrendo imprensado pelas gargantas da Serra dos Dois Irmãos. E pareceu-me ouvir a voz bondosa de Jorge de Lima, a sussurrar-me, baixinho:
– Ah, Usina, você engoliu os banguezinhos do país das Alagoas...
Estava eu na Usina Boa Sorte, no município de Viçosa. Aproximei-me do cavaleiro que continuava com seu cigarro apagado no canto da boca. Era o folclorista José Aloísio Vilela, em suas ocupações agrícolas e industriais. Disse-lhe do motivo de minha visita e chamei uns caboclos para juntos tirarmos um retrato. O meu desejo era que esta entrevista se tivesse realizado ali, sentindo o cheiro gostoso do açúcar queimado nas estufas, junto daqueles homens simples, daquela terra vestida de verde a quem o escritor José Aloísio Vilela dedica a sua vida e a sua inteligência. Mas ele protestou com aquele seu jeitão engraçado de dizer as coisas:
– Qual entrevista, qual nada, seu repórter? Você diga ao Arnaldo Jambo [editor do Jornal de Alagoas, á época; passaria a ser diretor poucos dias depois da publicação desta entrevista. GMG] que eu quero saber é quando chove. Quem já viu nesta terra de Viçosa, neste mês do Senhor São João, o massapê rachando e o barro vermelho levantando poeira? São estes fenômenos climáticos que estão impressionando toda gente e fazendo com que o homem do campo bote a boca no mundo num longo pedido de misericórdia.
QUEIXAS E RECLAMAÇÕES
Já se tinham passado três dias daquela minha visita frustrada ao folclorista Aloísio Vilela, mas neste intervalo muitas outras vezes estive com o escritor. O homem do “Coco” das Alagoas [dança folclórica, foi objeto do mais conhecido livro de José Aloísio Vilela, que ele demorou, mas, afinal, publicou, em 1961. GMG] não queria mesmo saber de entrevistas, e nem tampouco de retratos. Tornei-me insistente, fiz-lhe as maiores lamúrias, mas nada... O folclorista continuava firme no seu propósito.
Como, porém, acredito no provérbio de que “água mole em pedra dura tanto bate até que fura”, prossegui em minha luta. Certo dia, invadi o seu gabinete de trabalho, em sua residência na Viçosa e encontrei-o em plena atividade literária. Para não ser mais insistente do que já vinha sendo, disse-lhe ter ido ali para conhecer a sua monografia sobre a origem do “Coco”, apresentada no Congresso Nacional de Folclore, no Rio [1951]. Esse estudo sobre a tão debatida origem do “Coco” é um trabalho de pesquisa, de erudição, escrito sem pressa. Foi-lhe justa a citação de Câmara Cascudo no seu Dicionário Brasileiro do Folclore.
Não sei por que José Aloísio insiste nessa sua teimosia de não querer publicar um livro. José Aloísio não atende às solicitações que lhes são feitas para colaborar nos jornais, não atende ao pedido de Veríssimo de Melo que em toda carta lhe escreve em letra de manchete: “Lembre-se do livro que você deve ao Nordeste”. Parece não dar ouvidos às referências aos seus trabalhos e à sua erudição de profundo conhecedor da Ciência da Civilização Tradicional, feitas pelo grande Cascudo e pelo inesquecível Leonardo Mota. Esse, já em 1939, escrevia nos jornais do Rio que jamais suspeitara existir em Alagoas um folclorista como José Aloísio Vilela.
E isso foi em 39, e Aloísio Vilela nunca parou de estudar. Possui uma grande biblioteca, está em dia com todo assunto referente ao “folk” publicado no Brasil, mas permanece com essa psicose de não querer ver o seu nome pelos jornais. O farto material inédito e publicado que dá para uns cinco grossos volumes, colheu-os José Aloísio diretamente do povo. É um homem teimoso e simples, esse folclorista de Viçosa.
Os já firmados nomes dos grandes centros vivem a colher as suas pesquisas despretensiosas para encaixar em seus volumes, porque ele não pretende publicá-las. O que quer, isso notei, é viver na sua Viçosa. Em toda festa é convidado a discursar. É o orador da terra. (Esse ano irá ser o Paraninfo da turma concluinte do Ginásio de Viçosa, a convite dos ginasianos daquele estabelecimento de ensino.
O “coronel doutor” José Aloísio Vilela, como o chama o mestre Cascudo, não quer saber de publicar livro. Quer é estudar o folclore; quer é viver ali mesmo nas suas terras, sentindo o cheiro bom dos canaviais, ouvindo o aboio dolente dos seus vaqueiros ecoando pelas grutas de Viçosa, misturado com o gemer das águas do Paraíba, rasgando-se por entre a Serra dos Dois Irmãos para cair nos braços alvos da cachoeira do Inhamunhá. E eu bem sei que dali, daquela “cidadezinha” do país das Alagoas ele jamais sairá atrás de glórias. O folclorista José Aloísio Vilela dedicou-se ao estudo da poesia popular; por isso, ele é assim, simples como a poesia que brota despretensiosa da boca do povo.
PLANTADOR DE CANA
Como insistisse em dizer que não pretendia reunir os seus trabalhos em livro, perguntei-lhe para que então todo aquele material colhido em tantos anos de pesquisa; por que razão um homem culto e viajado como ele, que é convidado a comparecer a todos os congressos de folclore do Brasil, teima em dizer que não é folclorista e não pensa em publicar livro; é apenas um estudioso do folclore e plantador de cana. Então ele sereno com aquele seu ar de matuto intelectualizado comentou a razão de ser como é:
– Depois de entrosado novamente em minha luta de obscuro plantador de cana do Nordeste, tenho a impressão de que nunca saí dessas grutas da minha Viçosa, de que nunca me afastei dos limites destes canaviais a que dediquei minha vida. Isto vem apenas provar que os árduos trabalhos da agroindústria canavieira, as preocupações e as responsabilidades, amortecem completamente em meu espírito as melhores intenções de um possível folclorista.
FOLCLORISTA DA “RAZUEIRA”
– Folclorista José Aloísio, que acha o sr. da nova orientação dos estudos folclóricos brasileiros?
– Tudo muito bonito no terreno da dialética e da erudição. Mas tudo ainda muito incerto na real fixação de certos elementos básicos da nomenclatura da realidade folclórica. A falta de compreensão, a multiplicidade dos pontos de vista, fazem com que os mestres do assunto não se entendam. E o excesso de erudição é o que está estragando as melhores das intenções dos sábios e cientistas. Quando estes homens discutem, o mundo se acaba e eles não chegam a um acordo.
Depois de uma pausa, prosseguiu:
– Mas eles têm razão, porque há por aí um conceito de que “para ser folclorista é preciso ser sábio”. E, sendo assim, você não me chame mais de folclorista. Entre os cantadores de viola, há uma divisão interessante. A dos sábios que dizem cantar ciência e a dos analfabetos que possuem apenas o instinto poético, a quem o povo chama de cantadores de razueira. Estes dão por paus e por pedras e dão o seu recado, seja lá de que forma for. Como homenagem muito especial, você pode me chamar de folclorista de razueira.
E quando acabou de falar, encontrava-se em meu bolso um seu retrato acompanhado de três famosos poetas populares, que consegui roubar habilmente de um de seus arquivos.
A DECEPÇÃO DE MARINUS
Quando interrogado sobre o que achava do resultado dos congressos folclóricos realizados no Brasil, declarou Aloísio Vilela ter considerado os resultados do I Congresso Brasileiro de Folclore, no Rio de Janeiro em agosto de 1951 mais satisfatórios do que o Congresso Internacional de São Paulo [1954], embora o Congresso Internacional tivesse a presença de sábios folcloristas como Stith Thompson e Ralph George, dos Estados Unidos da América; Fernando Ortiz, de Cuba; Jorge Dias e Jaime Lopes, de Portugal; Castillo de Lucas, da Espanha; A. Marinus, da Bélgica; Tobias Rosemberg, da Argentina e muitos outros nomes de fama internacional, não chegaram a uma conclusão lógica, ficando a própria conceituação de fato folclórico no mundo da lua, apelando para os auspícios da Unesco. E por causa disto, Aloísio Vilela acha que ainda hoje Joaquim Ribeiro e Edison Carneiro estão discutindo e fazendo malabarismos de toda sorte.
Disse ainda José Vilela que o próprio relator do Congresso Internacional realizado em São Paulo, A. Marinus, escrevera não poder impedir de exprimir sua tristeza, sua decepção. Continuando, declarou o escritor entrevistado que “a parte mais interessante do Congresso foi o desfile folclórico, porque ali se viu “o elemento popular cantando e dançando sem vaidade e pose, independente de mestres e proprietários”, como dissera o velho Cascudo. E prosseguindo:
– Foi ali que tive a satisfação de ver as 500 mil pessoas que lotavam o Parque do Ibirapuera aplaudir entusiasmadamente a coreografia e os cantos populares do Reisado de Viçosa. Nas palavras que pronunciei nessa ocasião, frisei bem que São Paulo conhecia o Nordeste através do espetáculo triste dos Paus de Arara. Mas o que todos estavam vendo ali era uma paisagem diferente. Era o Nordeste que vibrava no pedestal da tradição, elevando bem alto a flama da raça e da brasilidade.
– E a Escola de Viçosa, folclorista Aloísio Vilela, como vai?
– Já lhe disse que não sou folclorista. O que sou é plantador de cana, mas como você perguntou pela Escola de Viçosa lhe digo que este caso está dentro de certos postulados do folclore. É um vasto motivo de controvérsias. Colocando o negócio num ponto pacífico, vamos dar razão a Diégues Jr., Aurélio Buarque, Valdemar Cavalcante, Humberto Bastos e outros intelectuais de boa vontade que inventaram essa história de Escola de Viçosa. Como você sabe, eram quatro os membros dessa Escola: Théo Brandão, José Maria de Melo, José Pimentel Amorim e o folclorista de razueira que fala neste momento.
Como na anedota dos quatro evangelistas, esses quatro folcloristas estão reduzidos a dois: Théo Brandão e José Pimentel de Amorim. O Dr. José Maria de Melo, por enquanto, está fazendo o secreto folclore da política e eu como você sabe nem cavo nem tiro terra.
Era tarde no dia de São Pedro e eu me encontrei com o folclorista José Aloísio Vilela no Clube de Viçosa, a apreciar entusiasmado uma quadrilha infantil marcada por seu filho Paulo.
– Então vamos concluir a nossa entrevista, perguntei.
– Não me atrapalha, rapaz, deixa eu ver sossegado o menino marcar a sua quadrilha!
E no pátio do Clube, o jovem filho do folclorista marcava sisudo a bonita dança dos nossos salões imperiais:
“Cada qual com sua dama
En avant tour
Chaine de dames
Chaine de chevaliers”

– E o livro, quando publica? – indaguei-lhe insistente.
– Livro de quê? Autor de livro é como cantador de viola, só presta bom. E já dizia com muita razão o velho Manuel Nenén:
“De cantadores ruins
A nossa terra anda cheia.
De muito cabra safado
Que só faz figura feia
Como esses que anda bebendo
E cuspindo a casa alheia”

É, de autores ruins, o Brasil está repleto e o pior, querendo a força cuspir a casa alheia.
– Sr. José Aloísio – interferi de novo – Estou com o Veríssimo de Melo, o sr. deve um livro ao Nordeste e já é tempo de pagá-lo, com juros!
– Olhe, vamos parar com isso... E diga ao Jambo que só não o chamo aquele nome feio que o Cascudo chamou ao Condé dos “Arquivos Implacáveis” [João Condé, 1912-69, jornalista pernambucano nascido em Caruaru fez carreira no Rio de Janeiro. Sua coluna semanal Arquivos Implacáveis, publicada na revista O Cruzeiro, revelava confidências de escritores famosos] porque acho que ele é um rapaz direito.

[Fonte: “Excesso de erudição é que mata intenções dos sábios e cientistas”. Entrevista de José Aloísio Vilela com José Milton de Castro. Jornal de Alagoas, Maceió, 5/8/1956, 20 Caderno, págs. 1 e 4.]

terça-feira, 2 de abril de 2019

ACHADOS E PERDIDOS

Gustavo Maia Gomes
Serra do Pirauá, PE e PB, 23-2-2019
Terminada a sessão, um corpo sem cabeça e uma cabeça sem corpo foram achados. Perdido para sempre, o último pensamento de Luís 16 deve ter sido: “sei não, mas alguma coisa parece ter acontecido ao meu pescoço“.
Em frangalhos, Benito Mussolini foi achado pelos seus perseguidores. A caminho da execução, perguntou à amante Clara Petacci: “sabes onde deixei meu gel para o cabelo? Está perdido.”
— Achou a corda? perguntou um. — Achei, disse o outro. Foi quando Saddam Hussein compreendeu que iriam enforcá-lo. Sua última esperança, a corda perdida, estava agora ali, à sua frente.
Nicolae e Helena Ceauşescu achavam tudo o que queriam. Na crise, eles reuniram o povo para mostrar que mandavam. Um dia depois, foram mortos por balas perdidas, que nem perdidas eram.
Consta que a mãe de Nicolás Maduro chamou-o à sua presença. Perguntou-lhe se ele já tinha achado uma rota de fuga. — Não irei fugir, retrucou. — Estás perdido, disse-lhe a mulher.

(Publicado no Facebook, 23-2-2019)

DOIS NA SERRA

Gustavo Maia Gomes
Entre os Alpes suíços e a Serra do Pirauá (a 130 km do Recife), Lourdes Barbosa e eu preferimos a segunda. Pelo menos, no fim de semana terminado hoje. Já tínhamos estado lá duas vezes. Esta não será a última.
Na região nasceu ou morou a ancestral mais antiga que pude identificar: Maria Madalena da Silva (1811-99). Ela e o filho (o marido, se existiu, desapareceu pelas brechas da história) Manoel Sebastião de Araújo Pedrosa (1853-1906), meu bisavô.
Além do padre Francisco Raimundo da Cunha Pedrosa e seu irmão Pedro, que viria a ser senador federal pela Paraíba. Este último, pai de Mario Pedrosa (nascido em Timbaúba, cidade pernambucana próxima), crítico de artes de renome internacional. Comunista e inspirador do PT, imaginem.
O arruado de Pirauá tem dupla estadualidade. Divide-o uma rua. De um lado, Macaparana (PE), de outro, Natuba (PB). Há um restaurante bom, afastado do centro, e um hotel satisfatório, embora (pela sua arquitetura urbana) em desarmonia com o potencial turístico do lugar, atrativo como serra (650 metros de altitude, mais do que em Gravatá, no Agreste pernambucano), não como cidade.
A altitude garante cinco ou seis graus a menos de temperatura em relação ao tórrido Recife. À noite, faz frio. Desfrutamos de seus vinte graus — dezoito, com a brisa. A serra também cria amplidão de vistas: adoramos contemplar as paisagens deslumbrantes.
Ainda não existe movimento turístico apreciável em Pirauá. O restaurante enorme teve apenas dois clientes (adivinha quem) no jantar da sexta-feira e no almoço do sábado. O hotel de bom tamanho, da mesma forma, só teve nós dois como hóspedes no fim de semana.
A fábrica de queijos estava fechada, a feira terminou antes de percebermos que ela havia começado, a belíssima formação rochosa conhecida como Pedra do Bico tem acesso difícil e mal sinalizado. Em matéria de transformar aquelas paragens em ponto turístico, tudo está por fazer.
Em resumo: foi ótimo!
(Publicado no Facebook, 24-2-2019)

SERRA DAS FLORES

Gustavo Maia Gomes
Se estiver no campo ou na montanha, desça do carro. Ande a pé. Descalço. Pergunte a quem passar... (cruzou a estrada um calango): Faz frio? Vai chover? Uma cachacinha? Um tô-fraco pra vender? Um ganso? Galinhas? Respire a bosta cheirosa de bois e vacas. Olhe as montanhas. Veja as flores. Sobretudo, as miudinhas, invisíveis de longe. De volta pra casa, ponha na vitrola aquele disco de Luiz Gonzaga.
Quem é rico anda em burrico
Quem é pobre anda a pé
Mas o pobre vê nas estradas
O orvalho beijando a flor
Vê de perto o galo campina
Que quando canta muda de cor
Vai molhando os pés no riacho
Que água fresca, nosso Senhor
Vai olhando coisas a granel
Coisas que, "pra mode" ver
O cristão tem que andar a pé

(Publicada no Facebook, 25-2-2019)

LAURENTINO TREME-TREME

Gustavo Maia Gomes

Ano provável, 1850, pouco mais, pouco menos. O local, Maragogi, belíssima praia, hoje um ponto turístico no Litoral Norte de Alagoas. Ali aparece um homem estranho, que desconhece o próprio nome, ignora de onde veio, não tem ideia de para onde estava indo.
Se tem parentes, ninguém sabe, nem os viu. “Provavelmente seria português” – relata o tetraneto Arnoldo Gomes de Barros, “pois dizia-se jocosamente que ele chegara à praia dentro de uma barrica de bacalhau e bacalhau é coisa de português”.
Cedo, o amnésico evidencia que veio para ficar. O povo de Maragogi inventa-lhe o nome de Laurentino Gomes de Barros. Aos poucos, ele vai se recuperando. Mostra-se tão brabo que ganha a alcunha de Treme-Treme. Laurentino Treme-Treme. Apesar disso, passados alguns meses, ainda sem confessar ou saber quem era ou tinha sido, ou como e porque chegara ali, já vivia uma vida normal.
“Fico pensando que tipo de homem seria meu tetravô e porque escondeu a sua identidade”, reflete o médico Arnoldo Gomes de Barros, que mora e trabalha em Maceió. “Não seria um bandido, pois não há história que desabone a sua conduta. Certamente fugia de alguém, de algo ou de si mesmo”.
De qualquer modo, Laurentino Treme-Treme ganhou aceitação local, tanto que se casou com a filha de um fazendeiro da terra, cujos nomes – o do fazendeiro e o da filha – parece terem sido perdidos na memória familiar. Desse casamento nasceu Carlinda Gomes de Barros, que viria a ser a mulher de Luís Ferreira da Silva Rego. Carlinda e Luís ficaram conhecidos entre seus descendentes como Mãe Nenê e Pai Lulu.
“Mãe Nenê era brava; Pai Lulu, suave. Os filhos do casal receberam o sobrenome Gomes da Silva Rego, com exceção do meu avô que, por se parecer com o avô dele, foi chamado Laurentino Gomes de Barros. Era branco sanguíneo, os olhos de um azul intenso; tinha vasta cabeleira branca, altura mediana e porte esguio”, diz Arnoldo Gomes de Barros.
Prossegue o médico: “Meu avô Laurentino Gomes de Barros [1881-1958] casou-se com Amália Maia Gomes e, juntamente com o sogro, Manoel Gomes dos Santos, e com os cunhados, fundou a Usina Campo Verde [em Branquinha, 1920]".
Por desavenças com os cunhados, Laurentino desligou-se da sociedade [c.1934]. "Morou em Matriz de Camaragibe, estabeleceu-se no Engenho Amapá, em Colônia de Leopoldina. Então, mudou-se para a Fazenda Riachão, na atual Joaquim Gomes, onde fundou a Usina Santa Amália [em 1943]”.
Branquinha, Matriz do Camaragibe, Colônia Leopoldina e Joaquim Gomes, são todas cidades alagoanas da mesma região canavieira ao Norte do Estado. Além de empresário, Laurentino Gomes de Barros foi vereador em Passo do Camaragibe (AL) e prefeito da cidade alagoana de Leopoldina (1936).
Muitos descendentes seus e de Amália Maia Gomes se destacariam na política alagoana, como os filhos Antônio, Mario e Carlos, deputados estaduais e federais, e o neto Manoel (deputado estadual, prefeito de União dos Palmares, 1977-82, e governador, 1997-99). E também nas áreas empresarial (Geraldo), médica (Arnoldo), jornalística (Luís Alípio) e jurídica (Humberto, que chegou a ser presidente do Superior Tribunal de Justiça, em 2008). Todos, com o sobrenome Gomes de Barros.
Se pudesse saber disso tudo em seu tempo de vida, talvez Laurentino Treme-Treme tivesse chegado a Maragogi uns dois anos antes.

(Publicado no Facebook, 
27-2-2019)

ASSASSINATOS DE CEM BOIS

Gustavo Maia Gomes
Impressiona a quantidade de matanças registradas na crônica política pernambucana dos últimos anos imperiais e primeiros republicanos. Sem contar as menores, identifiquei seis, cujos nomes correspondem ao local onde ocorreram. São as “hecatombes” da Vitória (1880), de São José (1884), da Inveja (1884), de Jatobá (1886), de Garanhuns (1917) e de Belmonte (1922).
Das matanças, apenas uma ocorreu no Recife (a de São José, nome da igreja em que houve o tiroteio). Todas as demais se deram no Interior, onde as diferenças políticas eram mais frequentemente resolvidas a bala. Com raras exceções, as disputas, nessa época, contrapunham proprietários a proprietários, barões a barões, coronéis a coronéis, a gente comum delas participando apenas como pistoleiros, capangas, jagunços ou forças policiais regulares.
Hecatombe, informa o Dicionário Online de Português, é um substantivo feminino com os significados de “massacre de muitas pessoas, chacina ou matança; desastre ou catástrofe em proporções gigantescas; calamidade; assassinato de cem bois (na Antiguidade)”. Em somente um dos casos acima se disse que os mortos chegaram a cem. E não foram bois, mas gente. Para os matadores, essa distinção tinha pouca importância.
(Publicado no Facebbok, 2-3-2019)

A HECATOMBE DA VITÓRIA (1880)

Gustavo Maia Gomes
“A 27 de junho último (1880), na cidade da Vitória, Comarca de Santo Antão, deu-se um fato horroroso. Nunca a história das campanhas eleitorais de Pernambuco se manchou de tanto sangue”, escreveu Félix Cavalcanti, em seu diário comentado por Gilberto Freyre (“O velho Félix e as ‘Memórias de um Cavalcanti’”, Rio de Janeiro, 1959, pág. 58).
Aconteceu o seguinte: “após ter subido ao poder do Império em 1878 [tendo o alagoano João Visconde de Sinimbu, como chefe do Conselho de Ministros], o Partido Liberal [em Pernambuco] dividiu-se em dois grupos. Um, composto dos membros da família Souza Leão, tinha por chefe o bacharel Luís Felipe; o outro era dirigido pelo bacharel Antônio Epaminondas de Mello” (pág. 59).
Esses últimos foram chamados democratas, os primeiros, leões. Seus chefes em Vitória eram, respectivamente, Ambrósio Machado da Cunha Cavalcanti e José Felipe Souza Leão. Na votação para juízes da paz e vereadores, os democratas se uniram aos conservadores e alcançaram a vitória, despertando o ódio dos leões.
Assim, na próxima eleição, estava estabelecido o clima para um confronto armado. Os dois lados arregimentaram forças. “Os chefes governistas [leões], entre os soldados de polícia e os capangas que puderam reunir contavam 300 homens, suficientes [para] resistir a um exército” (pág. 60).
Essas forças ocuparam a igreja do Rosário, onde se realizaria a eleição. “Diziam então os leões mais arrogantes que não haveriam de deixar que os democratas entrassem para votar” (pág. 60). Seus oponentes também arregimentaram um bando armado e foram para a igreja.
Acompanhava as tropas democratas o Barão da Escada, Belmiro da Silveira Lins. Foi o primeiro a morrer fuzilado. Ao final do tiroteio ocorrido na igreja – que não seria o único do dia – um relato da época contou 17 mortos.
Dentre os gravemente feridos, estava Ambrósio Machado. Diante dessas baixas importantes, os homens se dispersaram após, mas foram perseguidos. O Diário da Manhã (Recife), 62 anos depois (28-5-1942) afirmou que, no total, mais de cem pessoas haviam morrido, a maioria do lado democrata.
A crise repercutiu no Recife. Em discurso inflamado, o deputado José Maria de Albuquerque Melo atribuiu toda a culpa pelos incidentes e mortes à família Souza Leão, a quem chamou de “ladrões de estrada”, salteadores” e “passadores de cédulas falsas”.
No mesmo tom falou José Mariano Carneiro da Cunha, veemente abolicionista e democrata. Além disso, “saiu um boletim pregando o extermínio de tudo o que fosse Souza Leão: homem, menino, mulher. Todos deviam desaparecer. Parecia um episódio da Revolução Francesa” (pág. 62).
Foi assim, nos traços essenciais, que se deu a Hecatombe da Vitória, primeira de uma série de muitas ocorridas em Pernambuco entre os anos 1880 e 1922.

(Publicado no Facebook, 3-3-2019)

SINAL AMARELO

Gustavo Maia Gomes
Quando a Revolução (ou, menos pomposamente, um movimento político que altera de algum modo o curso da História) começa a devorar seus líderes ou aqueles que a ajudaram a acontecer, é tempo de levantar o sinal amarelo.
Isso ocorreu agora, durante o carnaval. Refiro-me à exoneração do diplomata Paulo Roberto de Almeida da direção do IPRI (lnstituto de Pesquisa em Relações Internacionais). Sobre ela, escrevi o seguinte em comentário que transcrevo aqui para lhe dar maior visibilidade.
“Paulo: tenho acompanhado há bastante tempo sua trajetória de intelectual erudito, independente, combativo, aberto ao debate de ideias. Sua crítica pertinente e persistente do descalabro petista representou contribuição importantíssima à superação desse período triste de nossa história. É lastimável que o governo eleito pelos que combateram o petismo o tenha tratado com tamanha deselegância.
Não estou contestando o direito de o ministro preencher os cargos de confiança com as pessoas de sua preferência. Estou chocado com o fato de você ter recebido uma “reprimenda” (cf. Carmen Lícia Palazzo) por ter publicado em seu blog pessoal três artigos com opiniões diferentes sobre a Venezuela. Isso, infelizmente, não passa de macartismo.”
PS. O próprio PRA, li depois, identifica um comentário crítico seu ao Sofista da Virgínia, o semi-filósofo Olavo Pornográfico de Carvalho, como um possível detonador de sua exoneração. Mais um motivo para que acendamos todos a luz amarela.

(Publicado no Facebook, 5-3-2019)

A INTRIGA DE PINGA FOGO

Gustavo Maia Gomes
Na cidade alagoana de Viçosa, terra de meus ancestrais Bahia, nem todo mundo era amigo de todo mundo. Não no século 19, pelo menos. Prova disso é que, em um certo dia, alguém assinando-se Pinga Fogo publicou no jornal Gutenberg, de Maceió, a seguinte nota:
“CONSELHO. Aconselho ao Sr. JB que entregue as chaves do cofre ao Sr. LS, comerciante nesta cidade, pois não é lícito este meio de adquirir fortuna. Este conselho é de teu amigo, pois bem conheço o Sr. LS e ele não se sujeitará ao que se sujeitou a Sra. Lulu, negociante em Pindoba. Viçosa, 20 de agosto de 1896. Pinga Fogo”.
O “Conselho” do Pinga Fogo saiu em várias edições do jornal. Uma semana depois, apareceram duas notas, parcialmente transcritas abaixo:
“REPTO AO PINGA FOGO. Peço ao autor de uma publicação da Viçosa inserta no Gutenberg de ontem que, sob pena de passar por vilão covarde e sofrer a imputação só a si mesmo cabível, queira declarar se entende comigo as iniciais JB em relação ao negócio da chave do cofre. Conforme sua resposta, tomarei a atitude conveniente para salvaguardar minha reputação, para o que já constitui advogado. Maceió, 22 de agosto de 1896. Joaquim Menandro Batista”.
“CHAVES PERDIDAS. Sob a desagradável impressão que a todo homem de bem causa a leitura do conselho do Sr. Pinga Fogo, venho declarar ao público que as chaves de que trata aquela publicação, as quais desde anteontem me foram entregues, não estiveram em poder de pessoa alguma com intenções funestas e é uma prova disso o estado em que elas me vieram às mãos – cobertas de ferrugem, estando uma delas amassada – bem como o lugar em que foram apanhadas, por onde passei no dia de domingo em que caíram do bolso de minha calça que verifiquei estar dilacerado. Não cabem, pois, as alusões do Sr. Pinga Fogo, em cujas faces ficam gravadas as setas da calúnia. Viçosa, 21 de agosto de 1896, Luiz Sá”.
Não quero fazer intriga, ainda menos depois de tanto tempo, mas acho que Luiz Sá teve, mesmo, as chaves do cofre surrupiadas quando visitava Joaquim Menandro. Ao se dar conta disso, procurou este último que, entretanto, não admitiu nada. Foi quando o comerciante resolveu dar pelo jornal um “conselho” a Joaquim, lembrando-lhe que ele – Luiz – não era nenhuma Dona Lulu de Pindoba.
Diante da ameaça velada, Joaquim Menandro Batista pensou duas vezes e se entendeu com Luiz Sá, devolvendo-lhe as chaves. Desta forma, as notas assinadas por cada um dos dois, no Gutenberg de 28 de agosto de 1896, foram apenas uma encenação. Um pingou fogo, dois apagaram o incêndio e a paz voltou à Viçosa alagoana.

(Publicado no Facebook, 6-3-2019)