terça-feira, 24 de março de 2020

E quando isto tiver passado? (5)


Gustavo Maia Gomes


Minhas perguntas são: – O que foi feito (ou será?), no mundo e no Brasil, depois de cada um dos onze acontecimentos de importância magna ocorridos desde 1914 e listados no primeiro texto desta série? – Que reações efetivas eles suscitaram na política, na economia, no pensamento econômico, na ciência? As respostas que dou são sintéticas, incompletas. Espero que não sejam, também, erradas.

Foto colhida no blog Viva a História, de Juarez Ribeiro
Depressão Econômica dos Anos Trinta

John Maynard Keynes (1883-1946) tinha um diagnóstico da profunda, duradoura e generalizada perda de renda, produção e emprego que assolou o mundo ocidental nos primeiros anos 1930. Ele achava que a crise fora deflagrada por uma queda na demanda total, ou seja, na disposição dos agentes econômicos (consumidores, empresários, governo) de adquirir os bens que haviam sido ou poderiam vir a ser produzidos.

O economista inglês vivia dizendo isso, mas pouca gente lhe dava bola. A teoria econômica da época tinha dificuldades de admitir (imaginem, explicar) a existência de quedas persistentes do emprego, da produção e da renda nacionais. Era dogma de fé que o mecanismo de preços (incluindo salários) corrigiria rapidamente qualquer distúrbio que apontasse nessa direção.

A esse tipo de argumento, Keynes respondeu com a Teoria Geral do Emprego, do Juro e do Dinheiro (1936). Podia, sim, haver situações em que o mercado não corrigiria automaticamente as quedas de demanda e, consequentemente, de produção e de emprego. Os consumidores não iriam consumir mais porque suas compras eram proporcionais à própria renda, que já havia sido reduzida. Os empresários não iriam investir mais porque o investimento era uma função das expectativas sobre o estado futuro da economia e, numa recessão duradoura, pouca gente acreditaria na existência de um mar de rosas alguns meses à frente.

Isso dito, só restava um agente que poderia compensar a queda na demanda: o setor público. Coerentemente, Keynes recomendava que, em situações como a dos anos trinta, o governo gastasse mais, mesmo que isso implicasse em déficits orçamentários. Os economistas – a grande maioria deles, pelo menos –, a princípio, torceram o nariz à recomendação. Enquanto isso, a crise continuava, os mercados não reagiam.

Veio a Segunda Guerra e os governos tiveram de gastar muito mais do que arrecadavam. Como puderam? Endividando-se ou emitindo moeda. Logo, o desemprego desapareceu. OK, mas, guerra é guerra: o medo de que a crise voltasse após encerradas as hostilidades era generalizado. Como fazer para evitar isso? No espírito da “Teoria Geral”, devia-se acompanhar a conjuntura, mantendo elevados os gastos públicos até que a demanda total oriunda do setor privado demonstrasse robustez suficiente para afastar o perigo de nova crise.

A expectativa de que a depressão voltaria, após 1945, contribuiu para que quase todos os economistas virassem keynesianos. Seguindo seus conselhos, os governos passaram a monitorar as economias nacionais, regulando os próprios gastos, em função do estado corrente e previsto do emprego e da renda para o curto prazo. E a verdade é que, depois disso, tivemos 25 anos de prosperidade. A Era de Ouro somente viria a ser encerrada em 1973, a partir de quando o mundo iria sofrer uma crise severa, mas deflagrada por razões que nada tinham a ver com as da Grande Depressão.

Keynes teria sido o primeiro a admitir que as suas propostas de políticas dos anos trinta não serviam para a crise precipitada pelos dois choques do petróleo (1973 e 1979). Ele, porém, estava morto. Nessas circunstâncias, as correntes do pensamento econômico anti-intervencionista, que nunca foram silenciadas, mas que haviam ficado na defensiva durante um quarto de século, subitamente, ganharam projeção e adesão amplas. Não que isso fosse, necessariamente, bom: se a economia clássica (na acepção da “Teoria Geral”) havia fracassado em predizer e/ou remediar a crise dos anos trinta, a macroeconomia “novo-clássica” – aquela que acredita irrestritamente na capacidade auto-reguladora dos mercados – revelou-se incapaz de predizer e/ou remediar o que viria a acontecer na primeira década do século XXI.

Em função disso, a atualidade de Keynes viria a ser reafirmada em 2008. Afinal, a crise dos “subprimes” (empréstimos concedidos a um tomador que não oferece boas garantias), como ficou conhecida, embora distinta da que tinha ocorrido nos anos trinta, foi precipitada por um distúrbio no mercado financeiro que também teria levado, na ausência de ações governamentais compensatórias, a um colapso da demanda muito maior do que, de fato, aconteceu. E não aconteceu porque, enfatizo, os governos tomaram medidas abertamente keynesianas.

Curiosamente, hoje, março de 2020, os remédios que os governos no mundo estão propondo ou implementando para enfrentar os efeitos econômicos da pandemia têm (de novo) um indisfarçável sabor keynesiano. Eu não conheço outra receita, mas tenho que advertir para um ponto: a crise econômica em que estamos entrando combina quedas de demanda com choques de oferta. Quedas de demanda (muita gente perderá o emprego ou a ocupação e, assim, não terá dinheiro para comprar nada) podem ser combatidas com as medidas de compensação de renda que vêm sendo imaginadas. Por exemplos: ampliação do seguro desemprego, subsídios diretos às empresas para manutenção dos empregos, “Corona Vouchers”, postergação de pagamentos de impostos. Com os choques de oferta, a história é outra. A quarentena, as restrições a viagens, o bloqueio de estradas, entre outros fatores, têm como resultado um declínio na capacidade de produzir – e isso não pode ser consertado com remédios keynesianos.

John Maynard Keynes foi, na minha opinião, o maior economista do século XX. Nenhuma das atrocidades ultimamente cometidas em seu nome (lembram da “Nova Matriz Econômica”?) teria recebido sua chancela. O mundo aprendeu, sim, muitas lições com a Grande Depressão dos anos trinta e foi a Teoria Geral do Emprego, do Juro e do Dinheiro que ensinou a maioria delas. 

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

GOL DE PIPICO

Gustavo Maia Gomes
No café, comeu ovos com bacon
Depois, caminhou até o rio
Ali, empunhou a vara de pescar
A linha era curta, um passante advertiu:
– O anzol está fora d’água
Ele respondeu: – Tanto faz, não há peixes aqui
Quando teve fome, almoçou
Bacon com ovos
Concluiu que a ordem dos fatores não altera o sabor
Andou pela cidade
Viu black fridays na terça-feira
Deliveries que não fazem entregas
Longas filas paradas em restaurantes fast food
Passou por call centers, home centers, shopping centers
Coworks, networks, homeworks
Home pages, hardwares, softwares
Cream crackers, mussarelas, messalinas
Ouviu no rádio novelas mexicanas
Chororô, chororô, chororô...
Não, não há mais novelas mexicanas
Voltando para casa, caiu-lhe do bolso uma moeda
Fez tlim tlim antes de rolar calçada abaixo
Procurou-a na sala, onde havia claridade
Ao deitar, leu Foucault, Bourdieu, Althusser
Gramsci, Nietzche, Kant, Weber, Paulo Coelho
Não entendeu patavina
Nem sabe se a luz da cabeceira estava acesa
Sonhou com futebol
Sport, 8; Santa Cruz, 1
Para o Santa, marcou Pipico
Em impedimento
Às seis horas, despertaram-no bombeiros nervosos
Tinham durante a noite combatido incêndios. Debalde
Era manhã novamente
Os ovos com bacon estavam servidos
(Pipico existe e joga pelo Santa Cruz do Recife. As histórias da linha curta e da moeda perdida, antigas, não são minhas.)

(Publicado no Facebook em 5/2/2020)

“OS SANTOS MURMÚRIOS MISTERIOSOS DAS MADRUGADAS TRANSLÚCIDAS...”

Gustavo Maia Gomes
Carlos Gomes chegou a Belém para morrer. Sua agonia de quatro meses foi acompanhada pela imprensa local. “É compungidos pela mais profunda dor que noticiamos terem-se agravado muito, ontem, ao cair da noite, os sofrimentos do glorioso maestro” (Folha do Norte, 21/5/1896). Daquela, ainda bem, ele escapou.
Os jornalistas tinham êxtases: “Pobre Carlos Gomes! Ilustre e resignado mártir! Procura ouvir ainda nas amplitudes de teu ideal a incomparável ballata, onde deixaste toda a essência do teu carinhoso sentir e toda a seiva afetiva do teu gênio” (17/8).
No mesmo dia, o jornal informou: “Começaram a correr boatos de se terem subitamente agravado os sofrimentos deste grande inditoso, que é presa de uma agonia inexorável – o velho e glorioso maestro Carlos Gomes. Dentro em pouco, os boatos eram substituídos por outro tristíssimo: dizia que o maestro já havia exalado o último alento. Enfim, que para aquela organização física, soara o momento das dores últimas, dos sofrimentos derradeiros” (17/9).
Ou seja, a organização física tinha morrido. “Tranquila foi a hora final de Carlos Gomes. O grande espírito desprendeu-se, calma, placidamente, sem o cortejo de sofreres que geralmente era previsto. Expirou, com os grandes olhos abertos, como que fixos numa visão imponderável – quem sabe? – a [visão] das glórias pretéritas que ainda vinha, cheia de flores e luzes, atenuar-lhe, com todo o peregrino passado que evocava, a tremenda hora do aniquilamento fisiológico” (17/9).
Continuava a matéria: “Logo de manhã foi o cadáver fotografado pelo sr. Oliveira, com a roupa com que falecera, tirando o artista Domenico de Angelim um croquis. Hoje será novamente, depois de embalsamado e vestido, fotografado por aquele artista o nosso querido morto” (17/9).
Dois dias depois, “todas as classes movimentam-se para dar público testemunho dos seus pesares na grande procissão cívica em que, amanhã, será levado o corpo do excelso épico para a necrópole da Soledade, onde ainda, até a hora em que o embarquem para São Paulo, ouvirá ele, através da transparência de nossas tardes sugestivas e de nossas profundas noites inspiradoras, o canto suavíssimo das auras e esses santos murmúrios misteriosos das madrugadas translúcidas da terra hospitaleira e carinhosa onde a desdita assentou-lhe o Calvário tremendo” (19/9).
E, finalmente: “Ainda terão de brilhar por algum tempo sobre aquelas estremecidas relíquias os clarões benfazejos de nosso formosos luares a despejarem-se em catadupas da azulea imensidade em cujo seio vezes muitas perdeu-se o olhar de Carlos Gomes” (19/9).
O cortejo fúnebre arrastou multidões para as ruas de Belém. E deve ter feito a glória literária de muitos poetas e oradores daquelas terras.

(Publicado no Facebook, 3/2/2020)

DILMA DOIS

Gustavo Maia Gomes
Notícia de última hora: “Coronavírus: Governo vai resgatar brasileiros na China”.
Agora, esperemos:
(1) que o resgate prometido seja mesmo feito;
(2) que — após isso acontecer — quem já havia notado o “descaso do governo com os cidadãos expatriados” venha a público se desculpar pela precipitação.
Dentre os que deveriam pedir desculpas incluo o próprio presidente, cujas declarações iniciais sobre o assunto foram mais descabidas e idiotas do que as emitidas pelos seus piores críticos.
Acho que ninguém vai pedir desculpas por coisa nenhuma.

(Publicado no Facebook em 2/2/2020)

MORTE NO NORTE

Gustavo Maia Gomes
O compositor Antônio Carlos Gomes (1836-96) fez a maior parte da carreira na Itália. Sua obra mais conhecida, “O Guarani”, estreou em 1870 no Teatro Scala de Milão. Foi um sucesso de público e de crítica.
Mas, se as composições de Carlos Gomes ainda hoje são lembradas, o dinheiro que ele ganhou desapareceu rapidamente. No final da vida estava pobre. Com o prestígio artístico em declínio na Europa, decidiu vir para Belém.
Por que Belém? É que suas óperas, encenadas no Teatro da Paz, tinham despertado entusiasmo. Então, em 1895, o governador Lauro Sodré o convidou a vir morar na cidade.
Em pleno auge da borracha, o Pará era um dos estados mais ricos do Brasil. Seu governo podia pagar bem ao maestro. Mas, Carlos Gomes tinha os dias contados e ninguém desconfiava disso. Ele aceitou o convite.
A viagem, num primeiro momento, pareceu que jamais se realizaria: “Não vem mais ao Pará o glorioso autor da Fosca. Uma afecção da língua impediu-o de embarcar em Lisboa, onde deve operar-se” (Folha do Norte, 21/4/1896).
Descobriu-se o pior. “Dizem de Lisboa que os médicos diagnosticaram a existência de uma epitelioma na língua do insigne maestro. Esperam, no entanto, que ele partirá para o Pará logo que faça a operação e sinta melhoras” (23/4).
Que melhoras? O exame seguinte revelou que ele contraíra "um câncer dos fumantes” (28/4). “Os médicos acham inconveniente a partida do maestro, antes de efetuada a cura” (26/4). Ele, entretanto, insistia em vir.
Por desespero e carência de recursos, talvez. Pois as circunstâncias continuavam ruins. “De Lisboa noticiam que Carlos Gomes [foi] sujeito a novo exame. O diagnóstico de um cancro na língua prevê agravação de sofrimentos. Não obstante, o maestro persiste na deliberação que tomou de partir amanhã para o Pará. Se o fizer, fá-lo-á sem a responsabilidade dos médicos assistentes” (4/5).
E ele veio: “O governador do Estado recebeu telegrama do cônsul brasileiro em Lisboa comunicando ter ali embarcado no [navio] Obidense o maestro Carlos Gomes" (5/5). Não que estivesse bem: “Passou por Funchal anteontem, ainda gravemente enfermo...” (FN, 8/5/1896).
Mais uma semana, estava em Belém: “Veio ontem no Obidense o eminente compositor brasileiro maestro Carlos Gomes. (...) Instalado na sua nova residência, o glorioso artista recebeu a visita do sr. Lauro Sodré [governador do Estado]” (15/5).
Quatro meses depois, estava morto.
(Publicado no Facebook, 1/2/2020)

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

ARQUEOLÓGICO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO ANDRÉ


Gustavo Maia Gomes

O IAHGP (Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico de Pernambuco) comemorou, ontem, 158 anos de existência. Fez sessão solene e deu posse a novos sócios, dentre os quais André Heráclio do Rego. É um recém-amigo, dos melhores.

Dou sorte com os andrés: André Maia Gomes LagesAndré DurãoAndré RegisAndré Magalhães... E com as andreas: Andrea OliveiraAndréa Mendonça ... E com os alguma-coisa-andrés: Carlos André Magalhães, por exemplo. São todos gente da melhor qualidade.

Se a Rádio CBN me contratasse como filósofo (Ah, eu queria tanto ser um desses Sócrates fast-food !), vocês ouviriam minha mensagem:

-- Não existe o paraíso celestial; o proletariado fez as revoluções erradas. Precisamos de um mundo só de andrés e andreas.

Um lugar pacífico, sem aquecimento global, sem propriedade privada, sem desigualdades, sem economistas franceses, sem a exploração dos andrés pelos andrés.

Na rua, as pessoas se cumprimentariam: -- Oi, André? -- Oi, André.

Na missa, o padre rezaria: -- Em nome do Pai, do Filho e do André.

No jogo de futebol, o locutor diria, entusiasmado: -- Avança André, passa para André, dribla André, serve André... Ih! A bandeirinha Andrea marcou impedimento daquele jogador baixinho cujo nome... cujo nome... esqueci temporariamente... (O colega o socorre, fora do microfone.)

-- André!

Isso dito, gostei muito da sessão de ontem. O IAHGP é um patrimônio pernambucano; André Heráclio do Rego, um competente diplomata e historiador. Estamos todos de parabéns.


(Publicado no Facebook, 29/1/2020)

NOITES AMAZÔNICAS


Gustavo Maia Gomes

A Mercearia Pará – loja especializada em preparar e vender alimentos da Amazônia – é um projeto de minha mulher, Lourdes Barbosa. Imaginando como poderia lhe dar alguma ajuda nisso, tive uma ideia interessantíssima. Bem, não estou seguro de que seja, realmente, “interessantíssima”, exceto para mim mesmo. Seria boazinha, talvez? Mais ou menos? Tolerável? Irrelevante? Contraproducente? Um desastre?

Enquanto me inquieta essa dúvida, mal consigo olhar para picolés de cupuaçu, patos no tucupi, jambu, maniçoba, farinha de Bragança, açaí com tapioca, tacacá, castanhas, peixes filhotes, caranguejos... Quem sabe, meus escassos leitores poderiam me ajudar? Exponho a ideia e, quem quiser, emite sua sincera opinião sobre ela.

Lourdes, além de suas outras qualidades, é ótima na cozinha; eu gosto de livros e de contar histórias. Combinando as duas coisas, imaginei fazermos uma série de encontros gastronômico-intelectuais. Tenho até um nome para eles: “Noites Amazônicas de Sabor e Livros”. Seriam jantares paraenses antecedidos por breves notícias sobre episódios marcantes da história regional.

Considerem os seguintes temas:

1. Anna C. Roosevelt e a civilização tapajônica (c.4000 a.C.)
2. Orellana descobre o Rio Solimões-Amazonas (1542)
3. Fugindo da seca: cearenses na Amazônia (1877)
4. Os teatros da Paz (1878) e Amazonas (1896)
5. Carlos Gomes escolhe morrer em Belém (1896)
6. A construção da Ferrovia Madeira-Mamoré (1907-12)
7. Belém e Manaus no auge da borracha (c.1910)
8. A expedição Rondon-Roosevelt (1913-14)
9. Percy Fawcett e a cidade perdida (1925)
10. Do sonho ao pesadelo: Fordlândia (1927-45)
11. Getúlio Vargas e os Soldados da Borracha (1943-45)
12. Silvio Amorim e sua motocicleta transamazônica (2011)

Os assuntos acima foram objeto de livros, artigos e reportagens. Existe a respeito dos mesmos farto material iconográfico. Será que discorrer e provocar o debate com os convidados sobre cada um deles (um por noite) aumentaria (Diminuiria? Não teria efeito algum?) o interesse que os jantares de qualquer modo despertariam?

(As imagens representam: 1. A construção de um bergantim na selva amazônica, durante a expedição Pizarro-Orellana. 2. O percurso feito pelos

(Publicado no Facebook, 28/1/2020)

SABEDORIA CONTEMPORÂNEA


Gustavo Maia Gomes

Como resenhar 1.500 páginas em uma? Nem tentarei. Apenas, aviso aos navegantes: estes três livros citados nas Referências são imperdíveis.

Pinço frases que grafei enquanto os lia. Não são necessariamente as melhores. Mas, são boas o bastante para instigar nos potencialmente interessados o desejo de enfrentar as 570 páginas de “Bourgeois Dignity”, as 686 de “O Novo Iluminismo” e as 214 de “O Chamado da Tribo”.

“A renda real por pessoa na atualidade é, pelo menos, 16 vezes maior do que era em torno de 1700 ou 1800, num país como a Grã-Bretanha e outros que experimentaram o crescimento econômico moderno. (...) Nas economias americana ou sul-coreana (...) o desempenho foi ainda melhor. E se novidades como viagens de avião a jato, pílulas de vitaminas e comunicação instantânea forem apropriadamente computadas, o fator de melhoria material vai para 18, 30 ou muito mais” (Mc Closkey, pág. 48).

Isso tem sido algo absolutamente inédito na História humana, continua a autora. Não aconteceu nem na China da dinastia Song, nem no Egito do Novo Reino, nem nas gloriosas Grécia e Roma antigas. Nem no Brasil, acrescento eu. Com efeito, exceto nos últimos dois séculos, a pobreza absoluta, generalizada e sustentável sempre foi o estado normal da humanidade. Hoje, finalmente, isso já não é verdade, para a imensa maioria das pessoas.

“O mundo é cerca de cem vezes mais rico hoje do que era há dois séculos e a prosperidade está se distribuindo de modo mais uniforme por todos os países e povos do mundo. A proporção da humanidade que vive em extrema pobreza caiu de quase 90% para menos de 10% e, durante o período de vida da maioria dos leitores deste livro, pode aproximar-se de zero” (Pinker, pág. 381).

E, finalmente, Vargas Llosa, que enfoca mais o lado político:

“A igualdade perante a lei e a igualdade de oportunidades não significam igualdade nos ingressos e na renda, coisa que liberal algum proporia. Porque isso só pode ser obtido por meio de um governo autoritário que ‘iguale’ economicamente todos os cidadãos mediante um sistema opressivo, fazendo tábua rasa das diferentes capacidades individuais, imaginação, criatividade, concentração, diligência, ambição, espírito de trabalho, liderança. Isso equivale ao desaparecimento do indivíduo, sua imersão na tribo" (Vargas Llosa, pág. 19).

REFERÊNCIAS

Deirdre N. Mc Closkey, “Bourgeois Dignity: Why Economics can’t Explain the Modern World”, Chicago, The University of Chicago Press, 2010

Steve Pinker, “O Novo Iluminismo”, São Paulo, Companhia das Letras, 2018

Mario Vargas Llosa, “O Chamado da Tribo: Grandes Pensadores para o Nosso Tempo”, Rio de Janeiro, Objetiva, 2019.

(Publicado no Facebook, 27/1/2020)

JULIÃO, A BIOGRAFIA


Gustavo Maia Gomes

Perguntei a jovens instruídos: "Já ouviu falar em Francisco Julião?" Responderam-me: "Não". Lamentável. Pois, nos anos 1955-64, o pernambucano Francisco Julião Arruda de Paula (1915-99) foi uma das personalidades políticas mais importantes do país. Teve os direitos políticos cassados logo após a derrubada de João Goulart. Fugiu da perseguição policial, mas foi capturado e preso em junho de 1964.

Julião formou-se (em 1939) pela Faculdade de Direito do Recife, na mesma turma de meu pai. (Que o visitou na prisão, num gesto de coragem, embora os dois jamais tivessem tido maiores ligações.) Advogava de graça em favor dos camponeses. Isso lhe deu visibilidade para se tornar, um pouco adiante, primeiro, deputado estadual, em seguida, federal.

Pela sua liderança no campo, os serviços de informação norte-americanos o consideravam um potencial Fidel Castro brasileiro. De fato, os dois tinham muitas afinidades ideológicas. Tanto que, escrevendo da prisão para sua filha recém-nascida, Julião disse: "só de uma coisa não me despojaria, Isabela, para te ter nos braços: de minha dignidade de revolucionário".

Professar a crença na "Revolução" (à moda de Marx, Engels, Lênin, Mao, Stálin ...) como um substituto terrestre do desacreditado paraíso celestial era menos absurdo então do que viria a ser depois, quando se tornou inegável que os governos comunistas ou socialistas não passavam de ditaduras sanguinárias produzindo gigantescos fracassos econômicos.

Não é estranho, portanto, que Julião tenha seguido aquela moda. (Eu próprio fui, também, parcialmente atingido por ela, na mesma época.) Penso, entretanto, que o seu legado mais importante à posteridade não foi a fé na Revolução, mas a integridade moral que sempre demonstrou ter. Mesmo quando estava flagrantemente errado em suas posições políticas.

Cláudio Aguiar ("Francisco Julião: a Biografia", Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2014) escreveu um livro valioso, ganhador de prêmios. Só agora o li. Recomendo que façam o mesmo os interessados na história política recente do Brasil.

(Publicado no Facebook, 24/1/2020)

DIAS DE LUZ


Gustavo Maia Gomes

Estou lendo as biografias de Severino Pereira da Silva e de Rubem Braga. Terminei de ler, há dois dias, Mario Vargas Llosa, “O chamado da tribo”.

Pereira foi um jovem pobre que saiu de Taquaritinga do Norte (PE) para se tornar, graças a muito trabalho, dedicação e talento, um dos maiores industriais brasileiros, em meados do século XX.

Braga, jornalista e escritor (admirado por meu pai) foi, talvez, o maior cronista brasileiro, aí pelos anos 1950-70. E olhe que a concorrência era pesada: Paulo Mendes Campos, Carlos Drummond de Andrade, Sérgio Porto, Carlinhos de Oliveira, Nelson Rodrigues ...

Vargas Llosa trata de grandes pensadores liberais (quase todos dos anos 1900) que influenciaram a formação de seu pensamento econômico e político: Adam Smith, Ortega y Gasset, Friedrich Hayek, Karl Popper, Raymond Aron, Isaiah Berlin e Jean-François Revel. Preciosas reflexões.

Também leio (na verdade, estudo) “O homem e o rio”, memórias poéticas, truncadas, caóticas de João Fernandes Lins, avô de Ricardo Maia, primo distante que vem se tornando próximo. (“Há os Maias de Eça e os Maias de Ricardo”, escrevi no “Uma noite em Anhumas”, livro que espero publicar neste ano de 2020.)

Escrevi isso tudo, no fundo, para dizer outra coisa: hoje faz um dia esplêndido, na minha casa com Lourdes. Menos, porém, do que fará amanhã, quando o Alto do Céu vai voltar a se encher de luz, mesmo que chova.

Referências

Luís Olavo Fontes, A passagem do cometa: Severino Pereira da Silva, pioneiro da industrialização brasileira no século XX" (Rio de Janeiro, Aeroplano, 2013)

Marco Antonio de Carvalho, "Rubem Braga, um cigano fazendeiro do ar: A biografia". (Nova edição, revista.São Paulo, Biblioteca azul, 2013)

Mario Vargas Llosa, "O chamado da tribo: Grandes pensadores para o nosso tempo. (Rio de Janeiro, Objetiva, 2019)

João Fernandes Lins, "O homem e o rio: Meu opúsculo" (Maceió, 1982)

(Publicado no Facebook, 19/1/2020)