quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Falando inglês na Mangabeira de Cima

Uma rua chamada Olímpio (IV)
Gustavo Maia Gomes
(7/2/2018)
  
Até recentemente, esta casa era 
a que mais conservava os traços 
do desenho original da antiga rua 
Moura Esteves.(Foto Google Street 
View, c. 2016, processada)
Na rua Olímpio Tavares, em Casa Amarela, Recife, as casas originais foram construídas de uma vez, entre 1925 e 1926. Obedeciam ao mesmo projeto básico. Hoje, quase todas já foram reformadas, conservando pouco da antiga feição.

Os terrenos, contíguos ao histórico Arraial do Bom Jesus, deviam pertencer a um engenho de açúcar. Em algum momento que não pude precisar, tornaram-se propriedade do comerciante que viria dar seu nome à rua.

Olímpio Tavares (segundo soube por Paulo Henrique Maciel, cuja esposa é bisneta dele) nasceu em Goiana, PE, mas concentrou seus negócios no Rio Grande do Norte, embora tivesse mantido as ligações com seu estado de nascimento.

As casas foram feitas para alugar, preferencialmente, a estrangeiros. Eles gostavam de arrabaldes. Um anúncio da época, no Diário de Pernambuco (DP, 22/8/1926), revela isso: “Lindas casas, tipos colonial e bungalows (sic), próprias para estrangeiros e famílias de trato, no novo bairro Alto do Céu, rua Moura Esteves, em Mangabeira de Cima. Oitões livres, grande quintal, recém construídas”.

Na esperança de atrair os que não entendiam português, também se publicavam anúncios em inglês: "Houses to let. Modern bungalows with three bedrooms... cool and dry climate at the highest point of Casa Amarela" (DP, 19/7/1927). Pois é, eu morava no ponto culminante do bairro e não sabia.

Moura Esteves era como se chamava a rua até 1929, quando ela tomou o nome que tem até hoje: Olímpio Tavares (Jornal do Recife, 8/12/1929). Surpreendeu-me a localização em “Mangabeira de Cima”, um nome que desapareceu completamente. Ainda existe uma Mangabeira, bairro do Recife – seria a “Mangabeira de Baixo”? Não durou uma eternidade: pouco tempo depois, o mesmo jornal já localizava a rua em Casa Amarela (DP, 21/12/1926).

Para despertar interesse, a família proprietária enfatizava que as casas dispunham do “bonde de Casa Amarela, a cem metros de distância”. Além disso (DP, 6/1/1927), que eram “modernas, com boas acomodações, saneadas, com luz, água e entrada para automóveis”. Essa última devia ser algo novo, realmente. Não eram poucos, portanto, os atrativos. De fato, em curto intervalo, todas as casas estavam alugadas, parecendo que o projeto foi um sucesso. Somente 15 anos mais tarde apareceram os primeiros anúncios de vendas (DP, 5/8/1941).

Meus pais, Mauro e Stella, meu irmão, Ivan Pedrosa Maia Gomes, e eu devemos ter nos mudado para a rua Olímpio Tavares (vindos da rua Álvares de Azevedo, em Santo Amaro) em ano muito próximo a 1950. Pouco depois de a moradora da casa 113 (a única que, provavelmente, já existia antes de 1925; devia ser a sede do engenho), Haidé Gomes Cabral, ter pedido financiamento bancário para a compra de imóvel: 120.000 cruzeiros, ou 315 salários mínimos da época (DP, 14/2/1950).

Ainda me lembro da rua com piso de terra e as sarjetas dos esgotos colocadas em nível mais alto que o do solo. Em junho de 1950, a Câmara Municipal determinou que a Olímpio Tavares fosse pavimentada. Isso, entretanto, só aconteceu muito depois. Provavelmente, em 1954, estimulada pela comemoração dos 300 anos da vitória sobre os holandeses. A Rua Olímpio Tavares fica ao lado do Sítio Trindade, local onde o Capitão Matias de Albuquerque, uma espécie de governador, da época, refugiou-se, após ser expulso de Olinda pelos batavos.

Só tenho boas recordações daquela rua, nos anos em que lá morei, como criança, adolescente e adulto jovem. Mas, nem todos concordariam comigo. Severino Barbosa, um jornalista muito lido, então, publicou, em 1967, um texto ácido em que dizia: “A situação lá pela rua Olímpio Tavares anda de mal a pior. Lixo, lixo é o problema. Mas não é lixinho besta. É muito lixo, lixo de uma rua inteira, que vive entregue ao Deus dará. Além do mais, na rua Olímpio Tavares também falta luz. É uma calamidade” (DP, 11/7/1967)

Nunca achei que houvesse calamidade nenhuma ali.

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