quarta-feira, 30 de março de 2016

Um mistério familiar do século XIX

Gustavo Maia Gomes


















Na origem, o ramo dos Araújo Pedrosa a que me filio era muito pobre. Disso fiquei sabendo por um discurso do padre Francisco Raimundo da Cunha Pedrosa (1847-1936) na festa de formatura em Direito do seu parente e protegido Manoel Sebastião de Araújo Pedrosa (1853-1906), meu bisavô. Disse ele: “Abandonado da fortuna e desprezado daqueles que lhe eram mais próximos por consanguinidade, ele vivia desde a infância como um pobre órfão em companhia de sua carinhosa mãe, cujos recursos apenas iam dando para a sua parca subsistência”. (Diário de Pernambuco, 13/11/1883, pág. 3)

O padre (depois monsenhor) Pedrosa não dá o nome da pobre mulher. Descobri, por notícias e anúncios fúnebres, que era Maria Madalena da Silva, ou Maria Madalena da Silva Pedrosa, ou, ainda, Maria Madalena de Araújo Pedrosa. Nada sei sobre seu marido, se marido foi, pai de Manoel Sebastião. Não só eu. Olga Dias Cardoso (1895-1978), minha avó, casada com o segundo Manoel Sebastião (1889-1936), tampouco, sabia. Nas palavras de Heloisa de Araújo Pedrosa (baseada nas informações da mãe, Olga): “Quanto ao vovô Pedrosa, não sei quem foram seus pais. Presumo que morreram cedo”.

Eu consegui saber um pouco mais. O pai, sim, morreu cedo (ou então “órfão” no discurso do padre foi um eufemismo para “abandonado”); a mãe viveu 88 anos. A ignorância de Olga não era fortuita: percebi que existe um grande mistério cercando a relação de Maria Madalena com o inominado pai de Manoel Sebastião de Araújo Pedrosa. Nem Monsenhor Pedrosa, escritor prolixo; nem seu irmão, Pedro da Cunha Pedrosa, senador pela Paraíba, que deixou um livro de memórias, jamais esclarecem qual era a relação de parentesco que os unia a Manoel Sebastião. E note-se que ambos foram bastante próximos de meu bisavô.

Como o silêncio é suspeito, fica a hipótese de que Manoel Sebastião de Araújo Pedrosa era bastardo, apenas parcialmente reconhecido pelo pai. Este poderia ser padre, algo não incomum, à época. É pura especulação, reconheço. Padres passavam seu sobrenome para os filhos? Em alguns casos, sim. No Sertão, para tomar um exemplo bem conhecido, o coronel Veremundo Soares (1879-1973), chefe político em Salgueiro (PE), era filho declarado do padre Joaquim Soares, que formou patrimônio razoável e o deixou em herança para os quatro filhos.

Em todo caso, se os recursos de Maria Madalena da Silva “apenas iam dando para a sua parca subsistência”, seu filho, com a ajuda inicial do padre Pedrosa, conseguiu construir para si e os descendentes uma posição bem mais confortável na sociedade de seu tempo. Ainda mais realizou o segundo Manoel Sebastião, que morreu integrando o estrato mais alto da classe rica do Nordeste canavieiro, dono que foi de uma grande usina de açúcar em Alagoas.

Se os Cunha Pedrosa (como mostro em outro texto) foram aristocratas descidos à pobreza, os Araújo Pedrosa chegaram a ser pobres alçados à aristocracia. A trajetória ascendente, entretanto, iria ser interrompida pela morte inesperada do segundo Manoel Sebastião.

domingo, 6 de março de 2016

Leonardo Kuhn (c. 1835 - c. 1900-25), meu trisavô

Poço da Panela (um bairro do Recife, onde morou Leonardo Kuhn), em 1847. Vista da margem direita do rio Capibaribe. Litografia colorida à mão, executada em Dresden. Autor: W. Bassler. In: FERREZ, Gilberto. Raras e preciosas vistas e panoramas do Recife: 1755-1855. Recife: Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco, 1984, p. 51
Leonardo Kuhn foi meu trisavô, pelo lado Araújo Pedrosa. Ignoro quando ele nasceu, mas sei que, em 1855, ele, suíço de fala alemã, já era adulto e devia residir no Recife desde algum tempo. Não fora assim, seria difícil explicar o anúncio publicado no Diário de Pernambuco, em 17 de fevereiro daquele ano: "Tendo o sócio gerente da Schapeitlin & Cia de fazer uma viagem, deixa durante sua ausência como procuradores da mesma casa os Srs. Leonardo Kuhn e Carlos Scholle”. Faço a hipótese de que Leonardo Kuhn nasceu em 1835, mais ou menos, porque ele deveria ter, pelo menos, 20 anos de idade, quando foi nomeado procurador daquela empresa.
O ano de sua morte também me é desconhecido, mas posso estabelecer um intervalo de possibilidades. Heloísa Pedrosa Resende (1916-2017), minha Tia Isa, em sua “Memória Histórica das Famílias Cardoso e Pedrosa” (inédita), diz: “Creio que o Leonardo morreu no Engenho Velho [Santa Rita, PB], em casa da filha, minha avó [Maria Margarida Kuhn Pedrosa], pois a mamãe [Olga Cardoso Pedrosa] o conheceu lá”. Considerando que o Engenho Velho tornou-se propriedade da família Pedrosa-Kuhn em 1900 e deixou de sê-lo em 1925, Leonardo deve ter falecido entre esses dois anos extremos.
OLHOS AZUIS, POÇOS DA ABISSÍNIA
Relembrando as informações de sua mãe, Tia Isa descreve Leonardo como um homem “bonito, claro, olhos azuis, cabelos louros”. Casou-se com Maria Margarida Gertner Kuhn, filha de alemães, (falecida em 1893). Tiveram dois filhos: Maria Margarida Kuhn (1864-1947) e Cornélio Otto Kuhn (1872-1947). A primeira (nome de casada Maria Margarida Kuhn Pedrosa) viria a ser minha bisavó, como esposa de Manoel Sebastião de Araújo Pedrosa (1853-1906, o primeiro dos três com esse mesmo nome).
Mas o que fazia Leonardo Kuhn no Recife? O que o trouxera de tão longe? Provavelmente, o movimento internacional de capitais. Na primeira metade do século XIX, com o Brasil independente de Portugal, a imigração de estrangeiros se tornara mais fácil. Eles vinham, entre outras coisas, para implantar, administrar, ou ocupar cargos técnicos operacionais nas empresas pertencentes a seus compatriotas (principalmente, ingleses). Também se arriscavam no comércio e, em casos mais raros, na indústria e agricultura.
É verdade que, em Pernambuco, essa entrada de capitais e gente vindos de outros países foi dificultada pela sucessão de revoltas e distúrbios políticos (Revolução, 1817; Confederação do Equador, 1824, Novembrada, 1831; Abrilada, 1832; Cabanada, 1832-35; Revolução Praieira, 1848). Mas não impedida. Basta lembrar que o Cemitério dos Ingleses, no Recife, (que também servia a outros estrangeiros e brasileiros não-católicos) é de 1814. E continuou em plena atividade ao longo do século XIX.
Mas, e no caso específico de Leonardo Kuhn? Segundo Heloisa Pedrosa Resende, seu bisavô “tinha a profissão de guarda-livros, hoje denominada técnico em contabilidade. Trabalhava com o conde Pereira Carneiro, na Companhia de Comércio e Navegação, que pertencia ao conde.” Provavelmente, o fato de falar alemão tinha a ver com esse emprego. Leonardo, entretanto, não vivia somente disso, ou, então, não permaneceu todo o tempo ligado àquela empresa. Meteu-se no comércio, na agricultura, na indústria e na prestação de serviços.
Assim é que eu o descubro informando no Diário de Pernambuco (10/1/1872) ser “o primeiro introdutor dos poços tubulares da Abissínia em Pernambuco”. Comerciante, portanto. Mas, não só. Um “Aviso” no mesmo jornal (9/1/1874) diz: “Tendo falecido os proprietários da farmácia estabelecida na rua Barão da Vitória, n. 25, (...) o Sr. Leonardo Kuhn fica encarregado das cobranças. Roga-se aos devedores da dita farmácia queiram quanto antes saldar seus débitos”. Prestação de serviços.
CHOCOLATES, VINHOS, CAFÉ E CACAU
Foi também industrial. Em 1880, registrou uma marca de chocolates na Junta Comercial; em 1881, sua fábrica de chocolates é referida no Almanak de Pernambuco (a indústria ficava na Estrada do Arraial, atual bairro de Casa Amarela, próximo de onde residiram meus pais, por quase 50 anos, e de onde eu próprio moro, hoje); em 1882, o chocolate Kuhn ganhou uma medalha de prata na Exposição Brasileira-Alemã. Além disso, ele fazia vinhos e, de modo surpreendente, para mim, seus vinhos pernambucanos foram premiados com uma medalha de bronze na Exposição Universal de Paris, em 1889. Tudo isso está documentado em sucessivas edições do Diário de Pernambuco.
Em seu relato, Heloisa Pedrosa Resende informa que quem sabia fazer os chocolates era a mulher de Leonardo, Maria Margarida. O marido apenas transformou a atividade em empreendimento comercial. Deu seu nome ao produto, certamente, por acreditar ser essa a melhor maneira de vendê-lo. Tia Isa também se refere ao fato de que sua mãe, Olga, viu esses prêmios (mais de um?) ganhos pelos chocolates Kuhn na casa do Engenho Velho. Os vinhos, entretanto, não foram registrados pelas memórias de Tia Isa.
Finalmente, em seu sítio da Estrada do Arraial, Leonardo Kuhn também exercia atividades agrícolas. Em 1882, ele anunciou no Diário de Pernambuco: “vendem-se pés de cacaueiro de quatro a cinco pés de altura” ("Há um Século", 15/3/1982); em 3/5/1892, apareceu o informe “Cavalo furtado: furtaram da propriedade do Sr. Leonardo Kuhn, no Arraial, um cavalo de tamanho regular, carnudo, foveiro (sic), inteiro, com três pés calçados de branco...”; em 6/5/1896, ele tem “50.000 pés de café, bons para transplantação, [para vender] no seu sítio do Arraial, próximo à estação da linha do Limoeiro”.
Pelas aparências, meu trisavô não era pobre. Além de possuir uma casa, no Poço da Panela (como logo veremos) e um sítio na Estrada do Arraial, ainda podia se dar ao luxo de fazer viagens internacionais. Documentei, apenas, uma viagem dele à Europa (ida: Diário de Pernambuco, 10/9/1873; volta: Diário de Pernambuco, 9/1/1874), mas essa pode não ter sido a única. Viajar, certamente, não era barato, à época.
POÇO DA PANELA
Leonardo Kuhn parece ter morado durante grande parte da vida no Poço da Panela, um bairro bucólico do Recife, à beira do Rio Capibaribe, próximo a Casa Forte, que ainda hoje conserva muitas de suas antigas mansões, sendo um ponto de atração turística na capital pernambucana. Um artigo publicado pela Revista de Urbanismo da Universidade do Chile (n. 9, 2004) traz a seguinte informação.
No século XIX, localidades como o Poço da Panela, “inicialmente povoações sazonais para passatempos de férias, veraneios e terapias médicas, vão se tornando moradias definitivas. Chegam os ingleses e germânicos, funcionários das companhias de serviços públicos (saneamento, transportes coletivos, abastecimento d’água, etc.), que preferem residir neste trecho da cidade, em meio à natureza e belíssima paisagem, de hábitos rurais, com transporte fácil para o centro; a viver nos sobrados magros e fétidos do centro.”
Sim, os recifenses de posse, à época, moravam no centro da cidade. Bairros como o Poço da Panela, a Várzea, Ponte d’Uchoa, todos situados ao longo do rio, tinham ocupação ocasional. Suas casas, de frentes voltadas para a água, serviam para fins de semana e férias dos ricos. Foram os estrangeiros, aparentemente, (entre os quais Leonardo Kuhn) que inauguraram a moda de residir ali, com o que foram, paulatinamente, mudando os hábitos dos habitantes mais antigos da cidade.
No Poço da Panela nasceram os filhos de Leonardo, Cornélio Otto (1872-1947) e Maria Margarida (1864-1947). Ali também nasceu e foi batizado, como escreve Heloisa Pedrosa Resende e me dizia minha mãe Stella Pedrosa, o pai das duas, Manoel Sebastião, e o tio delas Antônio Leonardo. Como acontece com todos nós, esses descendentes iriam, de certa forma, prolongar a existência de Leonardo Kuhn, suíço de olhos azuis e pele clara, por muitos anos à frente.

sábado, 16 de janeiro de 2016

Os jesuítas e a origem da gastronomia brasileira

Padre José de Anchieta (1534-1597)
Gustavo Maia Gomes

É uma delícia ler as cartas dos padres jesuítas chegados ao Brasil no século XVI. Manoel da Nóbrega, José de Anchieta e o impronunciável Azpilcueta Navarro, entre outros, escreviam bem sobre assuntos vários, como pecado e salvação, salvação e pecado, pecado e salvação, salvação e pecado...
Detestavam, por exemplo, a prática indígena da antropofagia. "É esta a coisa mais abominável que existe entre eles", diz Nóbrega, escrevendo da Bahia para Portugal, em 1549. "Se matam a um na guerra, o partem em pedaços e, depois de moqueados, os comem com a mesma solenidade".
Os defensores do pensamento politicamente correto digeriram com dificuldade esse aspecto da cultura local anterior à chegada dos portugueses. Sustentaram, por exemplo, para dourar a pílula, que se tratava de assassinatos rituais, cujo único objetivo seria permitir aos membros de uma tribo incorporar as qualidades guerreiras do inimigo assado no moquém.
Balela. Os índios "brasileiros" tinham deficiências de proteínas e apreciavam muito comer carne humana. Não sou eu o primeiro a dizer isso, mas encontrei uma história excelente, que reforça meu ponto, nas Cartas Avulsas, 1550-1568, de Azpilcueta Navarro e outros (São Paulo e Belo Horizonte, Editora da USP e Itatiaia, 1988, pág. 81).
A história aparece em nota ao livro e foi buscada pelo editor Afrânio Peixoto nas Crônicas escritas em 1663 pelo também jesuíta Simão de Vasconcelos. Com pequenas adaptações de estilo, mormente, para adaptar os tempos de verbo ao uso mais comum hoje em dia, ei-la:
"Sem governo, erradios e canibais. Tinham os padres juízo em diferir o batismo, pois, por mais civis e piedosos que se mostrassem, o uso de comer carne humana era neles inveterado. Sobejam os documentos: basta esta anedota, simbólica."
Até aqui, copiei Afrânio Peixoto. Daqui para frente, o editor das Cartas Avulsas transcreve Simão de Vasconcelos.
"Contava um padre de nossa Companhia, grande língua brasílica, que penetrando uma vez o sertão, chegando a certa aldeia, achou uma índia velhíssima, no último da vida. Catequizou-a naquele extremo, ensinou-lhe as coisas da Fé e fez cumpridamente o seu ofício." (A expressão "língua brasílica" quer dizer que a pessoa sabia falar o idioma dos índios.)
O padre da história agora se dirige à idosa. "Depois de ter-se cansado em coisas de tanta importância, atendendo à sua fraqueza e fastio, lhe disse (falando a modo seu da terra): Minha avó (assim chamam as que são muito velhas) se eu vos desse agora um pequeno bocado de açúcar, ou outro conforto lá de nossas partes do mar, não o comeríeis?"
"Respondeu a velha, catequizada, já: Meu neto, nenhuma coisa mais da vida desejo, tudo me aborrece. Só uma coisa me poderia abrir agora o fastio: se eu tivesse uma mãozinha de um rapaz tapuia, de pouca idade, tenrinha, e lhe chupasse aqueles ossinhos, então, parece, tomaria algum alento. Porém eu, coitada de mim, não tenho quem vá me flechar um desses".
Não adianta negar: a verdadeira origem da gastronomia brasileira é o churrasco de índio.

(Publicado no Facebook, 13/1/16)

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

O Regulamento do Teatro Nacional (São Luís do Maranhão, 1854)

O então chamado Teatro Nacional de São Luís (hoje Arthur Azevedo) em 1908.
(Foto colhida no site do Governo do Maranhão)
Gustavo Maia Gomes

O imponente Teatro União, depois Nacional e, hoje, Arthur Azevedo, em São Luís do Maranhão, é um dos mais antigos do Brasil. Foi inaugurado em 1817, bem antes, portanto, dos comparáveis Santa Isabel, no Recife (1850); da Paz, em Belém (1878) e Amazonas, em Manaus (1896). Construído por dois comerciantes portugueses, Eleutério Lopes Varela e Estevão Gonçalves Braga, tornou-se um símbolo da grande prosperidade criada pelo algodão maranhense no crepúsculo do Brasil Colônia.
A história do teatro tem sido atribulada. Ainda em construção, arranjou uma briga com os padres, que não queriam uma casa blasfema perto da igreja. Os comerciantes trocaram a frente do prédio, que se volta para uma rua estreita. Depois de inaugurado, o União (o nome aludia ao então recém criado "Reino Unido" do Brasil e Portugal) não demorou a fechar. Permaneceu assim por vários anos, até que o governo da província o comprou e, nos primeiros anos 1850, patrocinou sua reabertura.
 O Regulamento
Em 1854, o teatro (que já tinha trocado o nome pela primeira vez, chamando-se, então, Nacional de São Luís) foi reaberto e entregue, sob contrato, a Germano Francisco de Oliveira. Havia um regulamento, que começava assim: "O edifício construído na rua do Sol, incorporado aos próprios provinciais em 28 de outubro de 1848, e destinado a servir de teatro de declamação em língua nacional, conservará a denominação que já tem de Teatro Nacional de São Luís" (Artigo Primeiro).
“Tem por objeto o Teatro Nacional de São Luís promover o aperfeiçoamento da arte dramática, quer pelo trabalho de artistas de reconhecido merecimento, quer pela escolha e representação de peças nacionais ou estrangeiras cuja ação, linguagem e moralidade possam servir de lição e ilustrar o público desta cidade”, rezava o Artigo Segundo. E continuava (Artigo Terceiro): “São permitidos os seguintes gêneros: 1. A tragédia; 2. A comédia de caráter e costumes, e a comédia ligeira; 3. O drama histórico, o drama de paixão e o drama da atualidade; 4. Óperas líricas cantadas, quer na língua nacional, quer em qualquer outra; 5. Peças avulsas destas mesmas óperas"
Farsas, entremezes
Ainda outros parágrafos do Artigo Terceiro davam permissão a "6. Danças completas com mímica e bailados; 7. Farsas, entremezes e todas as peças de cômica vulgar, não resultando delas depravações para o gosto, atraso para a boa declamação dramática e ofensa da moral, da razão e da arte; 8. Bailes mascarados unicamente pelo carnaval e em sábado de Aleluia.” (“Entremez”, uma forma de arte típica dos séculos XVI a XVIII, quer dizer farsa, ou “uma representação jocosa ou burlesca de curta duração, que servia de entreato da peça principal”, segundo o Dicionário Criativo.)
Havia, também, as disposições que tratavam da “Censura Dramática” (Artigos 29 a 34). Entre elas: “Nenhum drama, ou qualquer outra peça de declamação pode ser representado sem prévia censura”. “A censura compreende a censura literária e a censura moral”. “A censura literária e artística das peças destinadas ao Teatro de São Luís será exercida pelo Inspetor, enquanto não se criar uma conservatório dramático”.
E mais: “O objeto da censura literária", esclarecia o Regulamento assinado 1 de maio de 1854 pelo presidente da Província, Eduardo Olímpio Machado (1817-55), "é apreciar o merecimento intelectual das obras dramáticas, sustentar a pureza da língua e, quando for possível, a correção do gosto”.
Durante parte do século XX, o Teatro Arthur Azevedo foi transformado em cinema, mas voltou a cumprir sua destinação original e, às vésperas de completar 200 anos, hoje, funciona normalmente.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

A gripe espanhola em Manaus (1918-19)

Gustavo Maia Gomes

De agosto de 1918 a junho de 1919, o mundo foi assolado pela gripe espanhola, em cujo rastro entre 20 e 40 milhões de pessoas morreram, duas a quatro vezes mais que na primeira guerra mundial. Ao Brasil, a epidemia veio de navio, aportando, primeiro, no Recife, em setembro. O Norte foi atingido um mês depois. Fortemente: em Belém, o número de casos fatais alcançou 575; em Manaus, 858 pessoas foram mortas pela doença. Uma tragédia de vastas proporções.

O Instituto Benjamin Constant foi um das últimos lugares atingidos pela gripe espanhola. Caíram doentes 143 alunas e sete irmãs religiosas, mas não houve vítimas fatais.

Era governador do Amazonas o médico Pedro de Alcântara Bacellar. Ele deixou à posteridade impactante relatório sobre os estragos causados pela doença. Eis um resumo do documento.

A 22 de outubro (de 1918), passou por Manaus o navio S. Salvador, vindo do Pará, do qual desembarcaram pessoas gripadas. Ainda de Belém, entrou, a 24, o Valparaíso, com 17 enfermos. Dada a existência de casos ambulatoriais, foram suspensos os ensaios no Teatro Amazonas e, nos dias seguintes, as diversões em outros lugares, tornando-se cada dia mais aflitiva nossa situação. Foram, então, prestados os primeiros socorros à população, em grande parte, desprovida de recursos e, na sua generalidade, tomada de pânico pela propagação assombrosa da doença.

Como uma rajada, a investida do mal varria a cidade. Deixou de ser feita a comemoração aos mortos; adiaram-se os cultos religiosos; à Santa Casa não foi mais possível admitir gripados. Instalaram-se postos sanitários da Cachoeirinha, Vila Municipal, São Raimundo e Vila Barroso. O número de doentes ia avultando diariamente. A 7 de novembro, o desenvolvimento da epidemia já era assustador. Desorganizaram-se os serviços; por toda parte, a desolação, o pavor e o luto.

A 13 de novembro, a Associação Comercial fez um apelo a todas as classes para o auxílio à população. Organizou-se um comitê que instalou postos na capital. Fecharam-se as casas comerciais, os veículos deixaram de circular, e houve dificuldade no transporte de cadáveres, sendo preciso que o governo contratasse caminhões para esse trabalho e providenciasse os enterramentos. Mas, os obreiros da cruzada iam caindo também, atacados do mal. A classe médica, abnegada e heroica, socorria os atingidos pelo flagelo, mesmo desfalcada de elementos que a epidemia prostrara.

Naquele mesmo mês, a gripe atingiria sua maior intensidade. Doloroso momento; doloroso e indescritível. O Estado forneceu, além das receitas aviadas nas farmácias da capital à população pobre, a distribuição domiciliar de dietas e medicamentos. Expandia-se, por esta forma, o trabalho já iniciado pela Diretoria do Serviço Sanitário. Além disso, as medidas de socorro foram estendidas ao Interior. Para todos os municípios foram remetidas ambulâncias, sendo postos auxílios monetários à disposição das intendências, para distribuição de dietas e medicamentos.

O estoque de medicamentos esgotou-se, nesse tempo, sendo, então, publicadas pelo governo informações sobre o aproveitamento de plantas de nossa flora no tratamento da influenza. Boletins contendo medidas preliminares para a cura da doença foram distribuídos pelo interior. Quase todo o funcionalismo público sofreu o ataque da pandemia.

Em 6 de dezembro, chegávamos à quinta semana angustiosa e de incomparáveis provações. Cessara, entretanto, desde o dia 3, o ruído terrificante e sinistro dos caminhões se dirigindo para o cemitério. A epidemia declinava, diminuía o terror. Em 31 de dezembro, a epidemia foi considerada extinta na cidade.

O trânsito direto de navios de Belém ao território do Acre, sem obediência às prescrições exigidas, veio, porém, mudar a face das nossas condições sanitárias. Assim, o hospital flutuante Santa Bárbara, que havia sido fechado em 10 de janeiro, teve de ser reaberto em 11 de fevereiro, em virtude da chegada de gripados procedentes do Acre. Em 15 de março, entretanto, o número de doentes nos hospitais flutuantes havia se reduzido sensivelmente. A 5 de abril, os serviços do último desses hospitais de emergência, funcionando no vapor Marapatá, deixaram de ser necessários.

Devido, ainda, à chegada de enfermos do interior do Estado e do território do Acre, reapareceram, depois, nesta capital, alguns casos e a 8 de março irrompeu a moléstia no Instituto Benjamin Constant, que permanecera imune até então. Foram atacadas 143 educandas e sete irmãs religiosas, não se verificando óbito algum. Em maio e junho, houve casos no interior e em Manaus, mas, neste momento (julho de 1919) parece extinta a gripe pandêmica, em todo o território do Estado, após o ciclo devastador de sua apavorante duração.

(Fonte: Mensagem lida perante a Assembleia Legislativa na abertura da primeira sessão ordinária da décima legislatura, pelo Exmo, Sr. Dr. Pedro de Alcântara Bacellar, governador do Estado, a 10 de julho de 1919. Disponível na internet em Center for Research Libraries / Brazilian Government Documents)

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

"Esse governo vai cair. Sua inépcia supera a imaginação"

Gustavo Maia Gomes

(Entrevista com Zamuk Amin sobre o momento político brasileiro)


Há cientistas políticos que não são uma coisa nem outra. Não é o caso de Zamuk Amin. Nascido no Ondéquistão, ele tem ideias claras sobre o Brasil, país que jamais visitou e cuja existência, até recentemente, desconhecia. Entrevistei-o após as manifestações a favor do-impeachment desse domingo (13/12/15). A seguir, um resumo da conversa.

E o povo não foi às ruas na quantidade esperada. Por quê?
Mesmo que abaixo da expectativa, a quantidade de pessoas nas ruas, ontem, deve ter sido duzentas vezes maior do que em qualquer das manifestações de apoio a Dilma. É algo significativo. Mas, o baixo comparecimento, admitamos isso, ainda mais numa hora em que o processo de impeachment vê-se ameaçado de extinção por manobras políticas e processuais, demonstra que a maioria das pessoas não está, realmente, muito interessada no assunto. Protestar contra a corrupção escrevendo em redes sociais é uma coisa; tomar um ônibus num domingo e aguentar o calor, em vez de permanecer em casa bebendo cerveja, é outra.

O descrédito da classe política pode também ser responsável pelo ainda baixo interesse popular no impeachment de Dilma?
Certamente, é um fator. Há tanta lama que as pessoas não acreditam mais nas instituições políticas, administrativas, e da Justiça, nas quais incluo o governo, estritamente falando, o Congresso, e os tribunais. Isso é muito perigoso. Uma crise política, com suas repercussões destrutivas sobre a economia, como a que vocês estão vivendo, só comporta duas soluções: a democrática, conduzida pelas instituições políticas dentro da normalidade constitucional e a violenta, imposta, geralmente, pelas forças armadas. Já estudei um número suficiente de ditaduras militares, inclusive a brasileira de 1964 a 1985, para não recomendar essa segunda alternativa a ninguém.

Mas, Collor caiu porque as ruas assim exigiram. Então, havia interesse popular na queda do presidente, em 1992, e não há, hoje?
Não concordo com nenhuma das duas assertivas. Embora as ruas tenham tido um peso importante no final, Collor não começou a cair porque os meninos pintaram o rosto. Os meninos pintaram a cara porque ao presidente faltaram respaldo ideológico e um aparato partidário e institucional que ele pudesse acionar. Antes de perder nas ruas; ele perdeu as ruas, por carecer dessas duas vacinas contra a condenação pública e política.

E quanto ao desinteresse relativo das pessoas no impeachment de Dilma?
Eu não acho que o desejo das pessoas derrubar Collor tenha sido maior do que o existente hoje contra Dilma. Antes de o processo dele entrar na reta final, o entusiasmo devia ser tão ou mais baixo do que é hoje. Quem disse que as manifestações ocorridas durante o impeachment do presidente alagoano foram maiores que as de ontem? Que a quarta onda de protestos contra ele superou a primeira? Que os jovens de 1992 pintaram a cara em tantas cidades quanto as que já se mobilizaram contra Dilma? O comprometimento das pessoas com o impeachment de Collor pareceu enorme – e, no final, realmente, foi – simplesmente, por não ter aparecido ninguém e nenhuma instituição de peso para defendê-lo.

O senhor falou que Collor carecia de respaldo ideológico e de um aparato partidário e institucional a seu favor. Poderia detalhar isso?
Fernando Collor trouxe um discurso novo e adequado ao tempo. Refiro-me às ideias de maior abertura da economia, mais competição, redução do Estado. Pode ter sido apenas oportunismo (provavelmente, foi), mas, se a intelectualidade brasileira tivesse se convencido de que aquela era a ideologia adequada ao país, e não o esquerdismo anacrônico e o coitadismo que ela ainda hoje defende, o presidente não teria sido derrubado com tanta facilidade. A UNE e a OAB, por exemplo, teriam se posicionado a seu favor, não contra. Os professores universitários, idem. Teriam dito, como dizem hoje, que impeachment é golpe. Nessas condições, dificilmente haveria grandes movimentos de rua contra o presidente (poderia haver, sim, a favor!) e os deputados pensariam duas vezes, antes de prosseguir com o pedido de impeachment.

E quanto ao aparato partidário e institucional?
O PT, apesar de ter perdido a eleição, já era um partido consolidado e com forte base social. Controlava os sindicatos, tinha as simpatias da Igreja Católica, dos estudantes, de movimentos sociais, de muitos jornalistas, e de quase todos os intelectuais que faziam a opinião pública brasileira. Quando surgiu a oportunidade de uma revanche, após a derrota de 1989, esse povo todo se mobilizou, no Congresso e fora dele, para criar um ambiente favorável ao impeachment. E o que Collor tinha em seu arsenal para combater aquela gente ressentida e organizada? Nada.

O fato é que o povo saiu às ruas e o movimento empolgou muita gente.
No final, sim. No começo, duvido que as adesões tenham sido espontâneas. Não tenho informações concretas, mas desconfio que as manifestações de rua da época foram infladas por multidões trazidas do interior em ônibus fretados. Já observei muitos processos semelhantes e posso afirmar com tranquilidade: na maioria dos casos, se há uma multidão na praça, existirá, também, uma fila de ônibus estacionados em ruas próximas. Os ônibus são fretados pelos partidos, sindicatos, movimentos sociais. É assim que se produzem as multidões gritando slogans a favor ou contra, não apenas no Brasil. É, também, o que está faltando aos que defendem o impeachment de Dilma Rousseff. Acho notável que, apesar disso, ainda se consiga juntar tanta gente nas ruas.

Já sabemos que as manifestações a favor de Dilma são regadas a mortadela.
E pelo fornecimento de transporte e a vinculação da presença ao recebimento de benefícios como a inscrição em programas governamentais. Sindicatos e organizações “sociais” tipo MST são braços do governo. Os partidos ideológicos como o PT, PSTU, PSOL, PCdoB, idem, mesmo quando tentam negar. Algumas entidades, a exemplo da OAB e a UNE, igualmente. Como diria Fernandinho Beira-Mar, “está tudo dominado”. Apesar disso, esse governo vai cair.

Por quê?
Sua inépcia supera a imaginação e a maioria das pessoas não suportará indefinidamente ver a inflação pipocar, seus empregos sumirem e o país ser destruído. Para piorar as coisas, a inacreditável sucessão de roubalheiras envolvendo o PT tem efeitos desmoralizadores. Assim, fica difícil aos defensores do governo mobilizar uma reação efetiva contra os que pretendem derrubá-lo. A cada dia, um novo petista vai preso ou é denunciado: dois ex-presidentes do partido, dois ex-tesoureiros, deputados, o líder do governo no Senado, o amigo de Lula, seus filhos e uma nora, a namorada do ex-presidente... Nada disso ajuda o governo, ao contrário, imobiliza-o numa posição delicadíssima, o que contribui para o cada-dia-pior que se tornou a rotina do noticiário econômico.

E então?
Nessas condições, se Dilma escapar do atual pedido de impeachment, cairá mais adiante. Por renúncia, por um segundo pedido de impeachment, até mesmo por um golpe civil ou militar. Nessa última hipótese, um belo dia, ela chegará ao seu escritório em Palácio subindo as escadas (pois os ascensoristas se recusarão a transportá-la) apenas para receber voz de prisão de alguém sentado na cadeira presidencial, enquanto o povo, reunido na Praça dos Três Poderes, a vaiará intensamente ao vê-la escoltada pelo “japonês bonzinho” da Polícia Federal.

Que cenário, dentre os que apontou acima (impeachment agora, impeachment mais adiante, renúncia, e golpe civil ou militar) o senhor considera mais provável?
O primeiro, a menos que o Supremo dê um cheque mate no processo. Pode demorar um pouco, pois esse governo, pelas razões que expus, é duro na queda, mas o atual caminho que leva ao impeachment já me parece irreversível. É a segunda saída menos dolorosa da situação caótica a que o Brasil foi levado pelos governos petistas – não apenas o de Dilma, mas também o de seu mentor Lula. A primeira, naturalmente, seria a renúncia, que me parece improvável. A não ser que a presidente consiga colocar a pasta de dentes de volta ao dentifrício, como ela pediu que Obama fizesse, alguns meses atrás. Não vai acontecer. A renúncia seria um gesto de grandeza e Dilma Rousseff é desprovida de qualquer traço de grandeza. De inteligência, então, nem falo.


domingo, 29 de novembro de 2015

Homenagem à professora Lourdes Barbosa, da UFPE

Íntegra do discurso pronunciado pela professora Viviane Santos Salazar em homenagem a Maria de Lourdes de Azevedo Barbosa por ocasião da solenidade comemorativa dos 20 anos de criação dos cursos de Hotelaria e Turismo da Universidade Federal de Pernambuco. O evento teve lugar no auditório do DHT-UFPE na noite de 27 de novembro de 2015
Vinte anos de Hotelaria e Turismo na UFPE (27/11/15). Da esquerda para a direita: Isabella Jarocki, Alan Machado, Laura Carvalho, Lourdes Barbosa, Isabele Almeida e Viviane Salazar.

Magnífico Reitor Professor Anísio Brasileiro, demais autoridades presentes, professores, ex-professores, alunos, ex-alunos, funcionários, ex-funcionários, demais convidados:

Hoje estou emocionada e muito honrada por ser a porta-voz de ex-alunos, alunos, professores e amigos nesta homenagem à minha querida ex-professora, hoje colega de trabalho e amiga Maria de Lourdes de Azevedo Barbosa, a LUDOCA.

No dicionário, agradecer significa mostrar ou manifestar gratidão, render graças, reconhecer. Gratidão é um sentimento de reconhecimento, uma emoção por saber que uma pessoa fez uma boa ação. A gratidão traz junto dela uma série de outros sentimentos, como amor, fidelidade, amizade (sentimentos esses que permeiam esta comemoração, este discurso e este momento) sendo esta exatamente a nossa intenção: agradecer a você, Lourdes, pelos 20 anos de dedicação à UFPE e especialmente ao curso de Hotelaria.

Se o curso de Turismo é filho dos professores Djaílton de Araújo, Carlos Eduardo e Helena Pedra, o curso de Hotelaria foi criado por uma mãe solteira !!! E este fato já demonstra a personalidade de Lourdes: uma mulher forte, altiva, cabeça feita e bem à frente de seu tempo. Filha caçula de uma família numerosa de oito irmãos (talvez por isso tenha aprendido cedo a conviver com a diversidade, a dividir e a seguir regras), sempre nos conta (de uma maneira divertida) como era o dia-a-dia de uma casa com oito filhos e apenas um banheiro !!! Luís Paulo (médico em São Paulo), João Batista (corretor de imóveis em Belém), Maria Placidina (juíza militar, hoje servindo no Rio de Janeiro), Inácio (engenheiro, São Paulo), Francisco. (engenheiro e empresário, Belém), Carlos (administrador de empresas, São Paulo), Joana (estilista) e, finalmente, Lourdes.

O pai, Armênio Barbosa, era paulista de Taubaté. Foi para Belém convidado por uma empresa internacional de pneus, entre 1943 e 1944. A ideia inicial era que ele fosse para Manaus, mas terminou em Belém. Lá conheceu Maria de Lourdes Azevedo, que pertencia a uma família de muito prestígio no Pará. Seus antepassados, especialmente, o avô, havia sido um grande comerciante e banqueiro da borracha, nos tempos áureos. Logo se vê que a elegância e o requinte de nossa Lourdes vêm de berço !!!!!

Graduou-se em turismo pela Universidade Federal do Pará (1985), fez especialização em Administração Hoteleira pela Universidade Federal de Juiz de Fora, teve um restaurante em Belém, e era professora da UFPA. Quis o destino que ela viesse para o Recife em 1994 e, como não havia curso de Turismo na UFPE, na época, ela foi para a Escola Técnica Federal de Pernambuco (onde tive a honra de conhecê-la). Em 1995, veio para a UFPE para implantar e coordenar o curso de Hotelaria.

Se já a admirava naquele tempo, hoje que sou professora e estou coordenadora do curso de Hotelaria, a minha admiração e respeito só aumentaram. Durante quase 15 anos foi nossa coordenadora e hoje (quando já podia ter dito NÃO, disse SIM novamente e é minha vice-coordenadora).

Não deve ter sido fácil. Junto com Carlos e Djaílton, fizeram de tudo um pouco: de carregar cadeira a planejar e operacionalizar encontros acadêmicos; de fazer matrícula (sem o SIGA) a participar de banca de concurso para professor. Durante este período, ainda teve coragem e garra de fazer mestrado e doutorado em Administração no Propad [UFPE] (conciliando com a coordenação, sendo substituída apenas por um período pela nossa querida Silze Anne). Ao longo deste período construiu uma sólida e reconhecida trajetória profissional e pessoal.

Não teve filhos biológicos (sempre nos disse que ter filhos é uma loucura !!!!), mas a vida lhe deu muitos filhos: nós, seus ex-alunos e alunos; os cinco enteados filhos do querido professor Gustavo Maia Gomes (a quem agradeço a ajuda para escrever este discurso) e Antônio, seu lindo e amado sobrinho !!! Na época em que cursava Hotelaria, lembro muito de toda tarde, nos intervalos, ir à Coordenação, abrir a porta e olhar para você. Saber que estava ali era muito bom !!! As conversas que tínhamos eram e continuam a ser inspiradoras. Lembro também dos conselhos dados, de sua visita a São Paulo para supervisionar o meu estágio curricular, das festas que fomos, das farras que fizemos, ... enfim dos momentos felizes que tivemos juntas.

Lourdes, construímos uma relação bem maior que a de professora-alunos. Você se tornou AMIGA de muitos de nós e INCENTIVADORA DE TODOS !!! Sua casa, especialmente, a cozinha, funcionou como uma INCUBADORA de novos talentos. Lá nasceram projetos de sucesso como o Reteteu e a Analu Cupcakes. Aliás, sua casa até hoje é um reduto de muito amor e carinho. Nossos encontros lá são sempre especiais. Obrigada por nos ensinar o verdadeiro sentido da HOSPITALIDADE que é o bom ACOLHIMENTO.

Muito obrigada por ser nossa amiga, ser ponderada e nos “chamar” para a realidade, por ser uma inspiração para a nossa vida profissional e pessoal, por saber ler nossa alma e nos aconselhar, por enxergar muito além das aparências !!!

Obrigada por ter acreditado no curso de Hotelaria. Obrigada por ter construído uma cultura de respeito, hospitalidade, companheirismo e amizade (hoje mesmo um aluno de Hotelaria estava às seis horas da manhã aqui na UFPE fazendo os buracos para colocarmos as tochas de decoração. Ele fez isso por amizade, companheirismo, respeito e por vivenciar esses sentimentos DIARIAMENTE !!!) É claro que um curso superior não se faz sozinho. Somos gratos também a várias pessoas e instituições (que aqui foram lembradas no discurso do professor Carlos Eduardo) mas sem você, Lourdes, hoje não estaríamos aqui.

Por tudo isso o nosso MUITO OBRIGADA !!!!! Saiba que honraremos o seu legado e JUNTOS faremos deste curso e deste departamento referência no cenário nacional e mundial. Porque quem faz HOTELARIA FAZ SUCESSO !!!!!


Amamos você.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Dilma na Conferência do Clima

Gustavo Maia Gomes
Fontes completamente inconfiáveis informam que a presidente Dilma ainda não preparou o discurso de improviso que fará na Conferência do Clima, em Paris, na próxima semana. O Itamarati está otimista, acreditando que ela não irá falar nada, mas, por precaução, comprou farta quantidade de tapa-ouvidos para distribuir com os presentes ao encontro.
Desfalcada de seu tesoureiro, ora estagiando em Curitiba; preocupada com o Primeiro Amigo, que há três dias não recebe empréstimos do BNDES; e tendo de visitar o líder do governo na Papuda, a presidente Dilma estaria "sem cabeça" para atividades intelectuais. -- Melhor assim, tranquilizou-se o ministro Dedinho Silva.
O queise de sucesso que a presidente apresentará em Paris é a política pública dos governos petistas cujo objetivo, afinal cumprido, era tornar marrom uma enorme área do Oceano Atlântico. “Nunca antes na história deste país isso havia sido feito”, aduziu Pequenininho Silva, assessor de Dedinho. Menorzinho Silva, assessor do assessor, balançou...
Bem, quero dizer, balançou.

(Publicado no Facebook, 26/11/15)

Perigos da abundância

Gustavo Maia Gomes
Neste fim de semana, circulei de carro por interiores do Nordeste, no percurso Recife-Natal. Deixei o rádio sintonizar o que encontrasse. Impressionou-me descobrir FMs com transmissão cristalina e assuntos variados em municípios dos quais eu nunca ouvira falar.
Em Cacimba de Dentro (PB), por exemplo, um programa atrás do outro critica o prefeito. Bom mesmo é Nelinho, candidato da Oposição nas próximas eleições. Alguém espalhou que Nelinho tem um pendura antigo na mercearia, mas seus aliados negam veementemente.
Em Campina Grande, Artur Bolinha é candidato a prefeito. Roberto Freire, presidente do partido que abrigou Bolinha, estava lá. Foi duas vezes chamado de Roberto Jefferson, não sei se por ironia. (Freire é aquele deputado que gostava de Marx e Lênin. Desiludiu-se com o comunismo após perder os votos que nunca teve.)
Uma faculdade de João Pessoa anuncia ser a única reconhecida pelo Ministério de Educação da Espanha. Em nenhum momento diz ter crédito semelhante no Brasil. Pensei comigo: deve só ensinar espanhol. Ledo engano. Será que exporta mão de obra para a Europa? Quizás. El ascensorista siempre pregunta: vás pra riba?
Mas a melhor história veio mesmo de Natal, a bela capital potiguar. Era um programa desses que abrem os telefones, e-mails, whatsapps, facebooks, etc, na esperança de que alguém lhes tire do anonimato. Pois, não é que aconteceu? Falou uma mulher nervosa, reclamante, indignada.
Deduzi que, dois dias antes, o mesmo programa havia ensinado como tirar manchas do sofá. Receita simples: “pegue uma porção de fixador para cabelos tingidos e aplique com abundância sobre a mancha”. Por que, então, a mulher tinha tanta raiva?
– A senhora aplicou o fixador? – perguntou o radialista.
– Sim.
– Com abundância?
– Sim, como o senhor mandou.
– E a mancha não saiu?
– Nadinha, tá lá. Mas o pior não foi isso.
– O que foi?
– Digo não, tenho vergonha.
– Mas, senhora, assim não vou poder lhe ajudar.
– O pior foi com a bundância.
– Não entendi.
– Ficou preta retinta. Já passei tudo que é sabão e nada dela clarear.

(Publicado no Facebook, 23/11/15)

Não nasci no Rio Doce

Gustavo Maia Gomes
Em texto publicado n'O Globo de ontem (22/11/15), ou anteontem, a excelente jornalista Miriam Leitão revela ter nascido entre Minas Gerais e o Espírito Santo, assim como o Rio Doce. Está triste, revoltada, com o mar de lama que destruiu suas melhores lembranças.
Fernando Gabeira, também brilhante, igualmente, mineiro, em artigo publicado no mesmo jornal, um dia antes, mostra-se perplexo. Homem de TV, ele fez, há pouco tempo, programa sobre a cidade de Rio Doce, onde o rio nasce e, há meio século, ninguém morre assassinado.
Eis que mataram o Rio Doce. E vinte pessoas. E um pedaço de Mariana, a cidade. E todos os peixes. E a água nas torneiras. E as lembranças de Miriam Leitão. Eu não nasci lá, nem fiz programa de TV sobre uma terra sem crimes. Mesmo assim, me sinto atingido. Quem matou o Rio Doce?
Eu sei quem matou Odete Roitmann. Eu conheço o assassino de Kennedy. Eu sei que Par Tido acabou com o Brasil. Eu fui informado de qual grupo terrorista executou aquela covardia em Paris. Até quantas balas mataram João Pessoa, eu sei. Eu só não sei quem matou o Rio Doce.
Terá sido a empresa mineradora, que construiu uma represa insegura e não cuidou de sua manutenção? É possível. Terão sido os sucessivos governos, que emitiram licenças indevidas, fecharam os olhos para o desastre iminente, e apenas contaram os mortos, quando veio o pipoco? Provavelmente, sim.
A propósito: Odete Roitmann foi personagem de uma telenovela, tem lá seus vinte anos. Saber quem a tinha matado tornou-se a principal preocupação dos brasileiros, por um tempo. O mistério só foi resolvido no último capítulo. Quem matou Odete Roitmann foi..., foi... FHC.
(Publicado no Facebook, 23/11/15)